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‘Geração Praça Moscou’ – cinema húngaro no CCBB

Sziasztok!

quem está em ou perto de Brasília, Rio ou São Paulo este mês tem uma ótima oportunidade de conferir uma amostra do cinema feito na Hungria hoje. O Ministério da Cultura e o Centro Cultural Banco do Brasil apresentam uma seleção de filmes da “Geração Praça Moscou”, “termo utilizado pela crítica para designar o conjunto de jovens cineastas que estiveram presentes no Festival de Cannes de 2010, onde se observou uma forte representatividade do cinema húngaro”, segundo reza o release que encontramos no site do CCBB.

Aqui o link para a página do evento no facebook.

E uma vinheta preparada também pelo CCBB:

Quem sabe nos encontramos no Rio? Por coincidência eu estou de viagem pra lá dia 13, a tempo de pegar algumas sessões 😉

PS: Aproveitando o embalo, coloquei aí em cima um detalhe de uma foto da Moskva Tér (Praça Moscou) que encontrei na web, de um certo Ridi Graz. (Tenho duas minhas, mas ficaram um tanto escuras quando recortadas para se adaptar ao formato do cabeçalho).

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Rontott nyelv: a língua danificada, por Ottilie Mulzet*

Para o amigo Oswaldo Ribeiro, que sempre compartilha ótimas coisas que encontra por aí, e é quem me mandou o link para o texto que aqui vai traduzido. (ver + abaixo)

O conceito de “língua danificada (deteriorada, em ruínas)” (rontott nyelv) talvez seja específico à tradição hermenêutica literária húngara. Sua etimologia se baseia no morfema RO-, que gerou um grupo de de palavras em húngaro cujos significados remetem a noções de dano, decomposição, estrago, corrupção, destruição e apodrecimento, gerados espontaneamente ou infligidos. A frase posta no passado pareceria indicar que a ruína ou o dano já teria ocorrido, que é tarde demais para qualquer intervenção.

Mais especificamente, o termo rontott nyelv surgiu nos anos 1960 e 1970 para descrever ocorrências na literatura húngara contemporânea, referindo-se a poetas e escritores como Petri György, Sijj Ferenc, e Party-Nagy Lájos**. Aparece sobretudo na obra de críticos como Kulcsár-Szabó Zoltán. Em um dos sentidos, ‘língua danificada’ se referia a uma rebelião contra normas lingüísticas. É claro que, no contexto de uma nação centro-européia relativamente pequena, com suas Academias, Institutos e Comitês de Língua, a necessidade presumida de tais normas é completamente diferente da de uma vasta língua global, tal como o inglês. O legado de ‘língua danificada‘ permanece, no entanto. Um exemplo marcante é a obra de Borbély Szilárd, como na seqüência de sonetos Ámor és Psyché, nos quais a forma do soneto em si começa a se romper sob o peso filosófico da própria linguagem.

Uma olhada rápida no dicionário proporciona alguns insights intrigantes: o verbo ront pode ser usado para designar um objeto físico que não tem mais condições de uso. Em usagem mais antiga, popular, está associado à idéia de mau olhado. É a tangibilidade em si do termo língua em ruínas ou danificada que me fascina, no entanto. Essa habilidade que a língua tem de abarcar o processo de deterioração; mais especificamente, a habilidade da língua húngara de abarcar a ruína: uma formulação que de certa maneira evoca a língua como um espaço físico, um pano de fundo para um drama, a língua como, talvez, a mais monumental ruína de todas, bem como a língua como o teatro ideal para o espetáculo infeliz do estrago humano.

E há, certamente, as ocasiões quando a própria palavra, como entidade física concreta existente no espaço, começa literalmente a apodrecer. Um caso desses se encontra na poesia do tempo da guerra de Radnóti Miklós (1909-1944). Ainda durante o regime do Almirante Horthy — que Kertész Imre descreveria mais tarde como tentativa de prepará-lo para aceitar os eventos criminosos da Segunda Guerra Mundial como normais — o pressentimento de acontecimentos ainda mais sinistros que viriam é palpável na sua obra. Radnóti se converteu ao catolicismo em 1943 (em grande parte, ao que parece, por razões teológicas: sua relação com o judaísmo era complexa). Em 1940 ele foi convocado para o que era eufemisticamente denominado ‘serviço de trabalho’, mas era, na realidade, trabalho forçado; em pouco tempo o enviaram para campos de trabalho forçado na Transilvânia e, em seguida, na Sérvia. As condições eram profundamente, criminosamente brutais. Radnóti foi morto a tiros durante uma marcha forçada no outono de 1944; seu corpo foi exumado de uma cova coletiva 18 meses mais tarde. Miraculosamente, um diário de bolso do ano de 1944 sobreviveu; ainda mais miraculosamente, como escreve seu biógrafo Győző Ferenc, cinco dos dez poemas contidos nesse caderno podiam ser lidos claramente. As duas primeiras páginas trazem a anotação, escrita em cinco línguas — húngaro, sérvio, alemão, francês e inglês — de que o caderno ‘contém poemas do poeta húngaro Radnóti Miklós’ , e o pedido, expresso muito polidamente, de que ele fosse devolvido ao professor Ortutay Miklós, em Budapeste.
RM
Quando se observam as páginas do caderno (na edição em preto-e-branco reimpressa pela Magyar Helikon, 1971), pode-se notar onde as palavras cuidadosamente escritas no outro lado da página começaram, como presenças fantasmagóricas, a atravessar o papel, que era, sem dúvida, fino e de qualidade ‘tempos-de-guerra’. Às vezes se consegue quase discernir uma palavra ou uma letra; mais freqüentemente essas presenças indecifráveis pairam no fundo como nuvens contra um céu de inverno. Vemos as palavras começando a se desintegrar diante dos olhos, a língua escrita retornando aos seus elementos constitutivos básicos de líquido e fibra, às suas origens pré-verbais. Às vezes uma frase parece emergir do véu de fumaça; às vezes desaparece nele. Győző Ferenc escreve que os dois últimos poemas estão permeados de fluidos corporais: saliva, urina, e sangue. O corpo do poeta continuou a escrever depois de ele ter sido morto.

O nome de Radnóti não é normalmente associado às pronunciadas tendências literárias (chamá-las de movimento, apesar de sua profunda significância para a literatura contemporânea húngara, seria ir longe demais) de 40 ou 50 anos após a sua morte nas mãos dos fascistas. Ambas foram, no entanto, um tipo de poesia de testemunho. Radnóti deu testemunho poético de sua época assassina; os poetas do final do século XX, com o seu uso da língua profundamente experimental e rebelde, das ‘desintegrações’ do final da era Kádár. No entanto, esses últimos poemas de Radnóti, corporificações da ruína física, arrebatados das presas da ruína, e sua decomposição literal no bolso do casaco do poeta na cova coletiva em Abda parecem prefigurar a crise e a desintegração da língua com a qual seus sucessores iriam se confrontar mais tarde — e com a qual todos nós , em alguma medida, nos confrontamos hoje.

Ottilie Mulzet traduz do magiar e do mongol. Atualmente completa um PhD sobre charadas e provérbios mongóis. Seu trabalho artístico, prosa, e fotografia têm aparecido no jornal Revolver, baseado em Praga, desde 2000.

* Tradução do inglês feita por mim de Ruined Language, Damaged Tongues, como está publicado e pode ser lido no original no site The Missing Slate.

** Aos eventuais novatos, informo que no HungriaMania costumo usar a ordem dos nomes de pessoa à maneira magiar: sobrenome antecedendo o prenome; que, aliás, parece ser comum às línguas asiáticas em geral. Quem conferir o original do artigo, em inglês, verá que ali os nomes estão todos ‘invertidos’ para se adequarem à maneira ‘ocidental’; vai encontrar, por exemplo, György Petri, ao invés de Petri György, que apareceria em texto em magiar, e é a maneira como o próprio Petri úr (Senhor Petri) se apresentaria num contexto de cultura húngara. Como eu, se fosse húngaro, ao me apresentar a outro húngaro, diria: Guedes Francisco vagyok = Sou Francisco Guedes.

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Budapesti szecesszió épitészet és művészet / Arquitetura e arte secessionista de Budapeste

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Para embelezar a noite do domingo e desejar a todos uma boa hét /rêêt/ (semana) segue abaixo o link para belas fotos de detalhes do estilo de época conhecido como Secessionismo, termo devido ao caráter de ruptura com a arte acadêmica do final do século 19 na Europa, e que, como poderão perceber, liga-se diretamente com o movimento Arts and Crafts e Pré-rafaelita britânicos e ao Art Nouveau, mas a meu ver inclui, claramente, elementos de transição para e de autêntico Art Deco. A Hungria tem exemplos magníficos desse estilo, sobretudo na arquitetura, a partir do grande pioneiro Lechner Ödön, autor inclusive do hoje Museu de Artes Aplicadas de Budapeste, cuja porta de entrada aparece na foto acima. Para os curiosos há muitas outras imagens relativas a ele AQUI.

E aqui o link a que me referi:
Art Nouveau Society – Details from Szecesszio buildings in Budapest

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Boldog új évet / Feliz ano novo

Uma passada rápida para desejar a todos um ótimo 2013.

E como o ano não passa ainda, digamos, de um kisbaba (/kishbóbó/ kis=pequeno e baba=bebê, baby), deixo-os com esta aulinha de magiar para crianças que o alerta do google me mandou há poucos minutos.

Divirtam-se.

A história começa com cumprimentos básicos: Hogy vagy? (como vais?) – Jól vagyok. (vou bem). Depois, olhando pela luneta o crifrudinho pergunta Mi az? (que é aquilo?). Aí aparece állatok = animais.
Notem o uso do K para formação do plural em magiar.
E ‘Ez egy…’ = isto (é) um/a (Ez = isto, este/a e egy = número 1 ou artigo um/a).
Notem também o uso de két e kettő para o número 2. O primeiro usado junto com o substantivo, e o outro, quando o número está sozinho.

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Kellemes Karácsonyt kívánok!* / Feliz Natal

Kedves /kédvesh/ amigos e visitantes do HungriaMania,
Como os mais antigos por aqui notaram, estive praticamente ausente do blog boa parte deste ano. Um misto de a vida me levando por outros caminhos e distrações, dificuldade pessoais e de trabalho, falta de dinheiro (daí para a falta de ânimo e concentração é um ‘pulo’, risos), tudo contribuiu um pouco.

Isso causou um hiato temporário na minha dedicação pelas coisas que alimentam o blog: cultura, língua, história e literatura húngaras.

Me alegra dizer, no entanto, que recentemente houve já um ‘retorno’ a esses interesses, sobretudo via leitura dos deliciosos episódios do ‘romance’ Kornél Esti (nome na ordem ‘estrangeira’), de Kosztolányi Dezső, que saiu em 2011 pela New Directions, de Nova York.

Sobre Kosztolányi, autor fundamental da literatura do século XX eu já cometi mais de um post, inclusive ESTE, justamente sobre Esti Kornél.

Antes havia tratado (e traduzido um poema) dele também AQUI.

Fora isso, uma amiga que esteve na Hungria em outubro me fez a enorme gentileza de trazer dois números da excelente Hungarian Quarterly, inclusive ESTE, que, entre outras jóias, contém uma reveladora entrevista do escritor Krasznahorkai László, de quem o cineasta Tarr Béla adaptou várias obras em estreita parceria, como Kárhozat (Danação), Sátántangó (Tango de Satã), ‘cult movie’ com 7 horas de duração, Werckmeister harmóniák (Harmonias Werckmeister), e A Torinói Ló (O cavalo de Turim). Além da entrevista, a HQ traz também um trecho de Sátántangó traduzido para o inglês pelo poeta George Szirtes.

Outro dia me peguei até escutando velhas lições do Magyarul könnyén (Hongrois sens peine) da Assimil durante uma caminhada.

Ou seja, pode ser que 2013 me traga de volta aqui com mais frequência. Algumas idéias já estão fermentando…

Enquanto isso fica o meu abraço e votos de Kellemes Karácsonyt és boldog új évet, que, para os que não conhecem o magiar, significa: Agradável Natal e Feliz Ano Novo. A pronúncia é /kél-lemesh kórááchoint êêsh boldog úi êêvét/

No título está uma expressão mais ‘completa’ para o Natal: Kellemes (agradável) Karácsonyt (Natal) kívánok (desejo). A palavra para Natal, karácsony, está acrescida do ‘t’ por estar na forma acusativa, de objeto direto do verbo desejar.

Até breve (espero).

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Budapeste que era, Budapeste que é…

Sziasztok!
Quando o assunto é Budapeste, admito que sou suspeito, mas vários amigos mais isentos que a visitaram pela primeira vez nesses anos em que o HungriaMania está no ar também voltaram apaixonados pela capital mais bonita da Europa Central :). Não é à toa que a főváros (capital) magiar é uma favorita dos fotógrafos. Esse LINK que chegou esses dias via twitter é mais uma prova disso. De maneira curiosa e poética, o/a fotógrafo/a(*) sobrepõe imagens antigas, inclusive algumas da cidade devastada pela guerra, a fotos contemporâneas. Nagyon örülök (fico muito contente) em voltar aqui depois de tanto tempo trazidos por esses belos registros diacrônicos de uma cidade que amo.

*Não consegui identificar precisamente o nome do responsável, Soren´s Lie não é nome de gente (Soren, sim), ao contrário do que a @obvious supõe.

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Ainda as águas turvas na política magiar

Caros amigos,
Este blog não nasceu para nem pretendia se tornar uma arena de discussão sobre a política na Hungria. Mas em vista das notícias nada alentadoras sobre o que vem acontecendo desde a eleição geral de 2010 – e que foi tema da entrevista de Nádas Péter, no último post – eu não tenho escolha a não ser abrir espaço para essas questões.
O que se segue é o link para um texto de Gilles Lapouge, correspondente em Paris d’O Estado de São Paulo, publicado hoje:

A Hungria e o Fascismo

“Como se não bastassem os muitos problemas enfrentados por causa do desastre da zona do euro, eis que a União Europeia agora está com uma nova batata quente nas mãos. E grande. Um país inteiro. Trata-se da Hungria, que faz parte do bloco europeu e cujo primeiro-ministro, Viktor Orban, tem constantemente provocado Bruxelas.

Primeiro em seus discursos e, há alguns dias, por meio de novas leis, o governo de Orban, que representa a direita dura e autoritária da Hungria, vem manifestando um prazer doentio em violar espetacularmente todos os princípios da União Europeia, os quais todo o país que adere ao bloco deveria respeitar.”

Leia o artigo completo no site do Estadão

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