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Mólnar Ferenc: 140 anos de nascimento

Szervusztok!

Há exatos 140 anos, em 12 de dezembro de 1878 nascia em Budapeste Mólnar Ferenc [Francisco Moleiro], autor de um dos livros mais lindos e queridos da literatura ocidental para mim e para muita gente: A Pál utcai fiúk [Os Meninos da Rua Paulo], publicado pela primeira vez em 1907, e que é segundo a wikipedia o livro mais famoso e mais traduzido de um autor húngaro, adaptado também vezes sem conta para o cinema, a televisão e o teatro mundo afora.

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No Brasil Os Meninos da Rua Paulo apareceu pela primeira vez em 1952, traduzido por Paulo Rónai para a Coleção Saraiva. Em A Tradução Vivida (1975), depois de chamar o livro de Mólnar de “obra-prima de literatura para adolescentes” (preciso discordar dessa ‘restrição’, só li quando adulto e sou fã) Rónai nos informa que a edição “teve uma acolhida excepcional por parte dos jovens leitores do Brasil, como atestam as inúmeras edições e reedições”.

Por sinal descobri há pouco que uma novíssima edição da Cia das Letras foi lançada agora no ano que acabou de acabar.

Mas Mólnar certamente não foi autor de um downloadlivro só. Tornou-se famoso por outros romances, contos, e, sobretudo, várias peças de teatro, das quais, para não me alongar demais, citarei apenas a muito conhecida Liliom, Vida e Morte de um Malandro (Lenda de Arrabalde), de 1909, que traduzida para o inglês em 1921 serviu de base pro musical Carousel, de Rodgers e Hammerstein, clássico da Broadway, que também virou filme em 1956 com direção de Henry King.

Em português Molnár está presente no imprescindível Antologia do Conto Húngaro, de Paulo Rónai, que descreve corretamente o Conto de Ninar como “germe” do drama Liliom, pelo enredo já desenhado do malandro que morre e tem uma chance de voltar a terra por um dia pra reparar um erro que cometeu.

Fora isso tenho em casa também a tradução de Paulo Schiller de A gözoszlop, que saiu em 2005 pela CosacNaify com o título de O poste de vapor. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, para escapar à perseguição dos judeus na Hungria, Mólnar Ferenc, cujo sobrenome original era Neumann, emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova Iorque, onde morreu aos 74 anos em 1 de abril de 1952.

 

 

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Weöres Sándor – Variáció

a hangok illata                            o aroma dos sons

az illatok íze                                o sabor dos aromas

az ízek színe                                a cor dos sabores

 

a színek hangja                           o som das cores

a hangok íze                                 o sabor dos sons

az ízek illata                                o aroma dos sabores

 

az illatok színe                            a cor dos aromas

a színek íze                                 o sabor das cores

az ízek hangja                            o som dos sabores

 

a hangok színe                           a cor dos sons

a színek illata                             o aroma das cores

az illatok hangja                        o som dos aromas

 

Sándor Weöres (1913 – 1989) é reconhecido hoje como o poeta mais universal na história da literatura húngara. Seu talento e domínio da língua, inigualáveis, lhe permitiram escrever e traduzir em todas formas possíveis da literatura húngara e mundial, e experimentar livremente com melodia, forma e conteúdo.

weores-sandor

Ele também se distingue de outros poetas pela sua filosofia metafísica e espiritualista. Sua inocência quase angélica, um frescor como de criança, aliavam-se no poeta a um intelecto curioso, irônico, travesso; há muitas histórias sobre seu humor efervescente, sua versatilidade e sua natureza visionária.

Seus poemas geralmente não incluem confissão personalista; ele não tinha interesse no self, mas antes em poderes universais humanos e cósmicos. Por outro lado, tinha uma grande habilidade para criar personas poéticas. Ele não tenta transmitir mensagem [no sentido de mensagem de um ‘programa’ extra-poético, especula este tradutor], apenas universalidade; isso fica comprovado pelo fato de ele ter sido sempre um favorito das crianças.

Weöres tratou do seu método poético na sua dissertação de doutorado, A vers születése (Nascimento do poema), que é, na verdade, uma meditação e uma confissão sobre sua prática de composição poética, e não um trabalho estritamente filológico. Ele descreve a maneira como, praticamente num transe, ele começa a “ouvir” o cerne do poema, que em seguida ele desenvolve e transforma em um todo coeso usando sua mente consciente. Como grandes poetas do Romantismo, ele também se considerava um instrumento de poderes externos: “Escrevi meus milhares de versos semi-acordado / em meio à fumaça de tabaco, nem sei como”. [Texto traduzido e adaptado do site hunlit.hu]

PS: Queridos amigos, é com alegria que volto aqui.  O poema acima e a tentativa de tradução que o acompanha estão na minha mente desde a feliz viagem – embora curta demais pro meu gosto, de apenas oito dias – de reencontro com Budapeste que fiz em janeiro deste ano, exatamente oito anos depois da última visita à Magyarország.

Descobri-o em um dos 3 volumes das obras completas de Weöres* que a gentil e querida senhora em cujo apartamento me hospedei através do AirBnB me emprestou enquanto estava lá, pois, como se tratava de  seu poeta mais querido, ela queria muito que eu o conhecesse melhor.

Mas confesso que escolhi este poema também pela relativa facilidade de tradução, e pensando em como ele seria um exemplo excepcional pra conversarmos um pouco sobre possessivos em magiar, o que pretendo fazer nos próximos dias num post subsequente, porque agora ficou meio tarde da noite. Grande abraço.

*[pronuncia-se /vörösh/ e o prenome é /sháándor/, que equivale a Alexandre, como a maioria de vocês já sabe]

 

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Comilança com Cserna-Szabó András

Faz dias que ando lendo, pesquisando, catando traduções pra tentar fazer um post decente sobre o poeta Ady Endre (1877-1919), o grande “inventor” da modernidade na poesia e no universo intelectual magiar, que já mencionei antes, e que Paulo Rónai considerava “o maior nome da literatura húngara, um dos grandes poetas da literatura universal”.

Cserna-Szabó András

Cserna-Szabó András

Enquanto o Ady-post não sai, espero que se divirtam com a tradução que fiz deste contoparódia de Cserna-Szabó András, um dos jovens autores que andei traduzindo tempos atrás. Esse conto já apareceu antes no excelente (finado?) Querido Bunker de Márcio Nazianzeno.

A propósito, o nome do autor se pronuncia “Tcherno-Sóbôô Ondráásh”, e szabó quer dizer alfaiate (aliás, o mesmo que Taylor, sobrenome inglês). O nome original do conto é Malacpecsenye (“mólóts-pétchenie”). Interessantemente, malac = bacorinho, leitão novinho, mas também = obsceno, indecente, enquanto adjetivo. Pecsenye = assado, como substantivo, como em “o assado tava ótimo”. Assim o título tem um duplo sentido, assado de leitão (daí leitão assado), ou assado obsceno, que infelizmente perdemos na tradução.

Como verão, Malacpecsenye é um episódio punk-culinário com turminha do ursinho Puff, o Winnie-the-Pooh, de A. A. Milne, que em magyar é conhecido como Micimackó (mitsi-matscôô).

Karinthy Frigyes

Karinthy Frigyes

Acontece que as histórias de Pooh-Puff foram traduzidas e adaptadas do inglês pro Magiar em 1936 por Karinthy Frigyes (1887-1938) (“Kórinthy Fridyesh”), escritor conhecido (mas não apenas) pela sua verve cômica e irônica, e que também traduziu As aventuras de Tom Sawyer, além de escrever dois romances-sequência d’As viagens de Gulliver. Daí Micimackó virou um fenômeno cultural bem húngaro, marcando a formação de toda meninada de lá pra cá. São incontáveis as páginas em húngaro, com música, videos e o escambáu, que a gente encontra em magiar se googlelizar “micimackó”. Experimentem e verão. Já encontrei até “A Bíblia segundo Micimackó”, é mole?

Mas vamos ao banquete do Chef “André”, que certamente tem sugestões que extrapolam o ambiente familiar da cozinha e da sala de jantar…

Cserna-Szabó András (1974)

LEITÃO ASSADO

Ursinho Puff acordou num desses dias em que não se acha nada pra fazer. Não teve nem vontade de se levantar. Lá fora, na Floresta das Cem Luas rugia a tempestade de neve. Depois nosso urso ficou de saco cheio de rolar para lá e para cá na cama e finalmente levantou-se. Colocou seu disco favorito de Halász Judit* no gramofone, e foi à despensa atrás de mel. Colocou o pote na mesa, sentou-se, e meteu uma gostosa patada na doce substância. Levou a mão esquerda ao focinho e, com uma única enorme lambida, deu conta de toda aquela viscosa delícia.

– Ééca! – rosnou Puff furioso, cuspindo o mel no assoalho. – Se eu continuar com essa alimentação monótona acabo pegando uma escarlatina.

Ou seja, Puff detestava mel. Na verdade, detestava todos os estereótipos. Então, por ter nascido acidentalmente urso, por que era obrigado a adorar mel? Só porque escritores de estórias idiotas esperavam isso dele? Não, não e não! explodiu, e depois quebrou o pote de mel no chão. Em seguida pegou o boné, o cachecol, e tentou puxar o blusão para baixo para cobrir a barriga, mas não conseguia: ele estava usando tamanho G, enquanto sua pança de urso pedia mesmo era GGG.

– Também daria umas vulcanizadas no nariz desse cara, que, além de fazer o herói da estória morar numa floresta gelada, ainda o desenha com esta maldita barriga descomunal – fumegou Ursinho Puff, e derrubou a porta de madeira de sua cabana.
Tomou o rumo da casa do Leitão. Seu rosto franzido tinha um ar contrariado, e seu estômago roncava de fome. Quando chegou à casa do amigo, foi entrando sem bater; com uma patada arrombou a porta decrépita. Leitão tinha acabado de sentar-se na poltrona e estava seriamente enrolado.

– Que diabo estás fazendo, Leitão? – gritou Puff.

Leitão estava tentando chupar uma laranja havia horas, mas, ora a fruta caía-lhe da mão, ora ele cortava o dedo com a faca, ora o suco espirrava-lhe os olhos. Sua mão estava sangrando, o rosto todo melado do suco da fruta.

– Que estou fazendo, Ursinho Puff? Enrolando-me. Sabe como sou azarado. Baixinho, deficiente, mais os meus complexos. Por acaso não conheces um bom psiquiatra? Estou realmente precisando…

Cala a boca, seu leitão mamote! Não vou te ajudar. Para mim basta. Não tenho tempo na vida a perder com um insuportável porco pigmeu aleijado. E tem mais, acaba aqui este mundo idiota do divã de couro. Chegou a hora da lei do lobo! Que vença o mais forte! Abaixo a ilusão do mel e do amor! O poder do coração dá lugar ao império do estômago. Vem aí o Superurso!

E dizendo isso Ursinho Puff escancarou a gaveta da cozinha do porquinho e foi logo pegando um facão de carne com cabo de madeira. O porco anão tremia tanto na poltrona quanto as folhas de olmo nos romances russos. Com uma talhada certeira Puff cortou fora o macacão listrado do amigo, enquanto matutava como era possível existir um caráter tão bizarro a ponto de desenhar um porco com jeito de vespa.

Três horas depois, o aroma de carne assada ao timo e à manjerona serpentevoava porta-arrancada-a-fora, e espalhava-se por toda a floresta. Para começar, foi Tigrão que saltitou em direção à casa de Leitão, mais parecendo uma bola de borracha lavrada de vermelho. Foi o primeiro a sentir o cheiro, porque, como todos bem sabem, o tigre tem as melhores ventas do mundo.

– Que magnífico leitão assado, é um milagre não ter sido preparado por um tigre, pois de assados ninguém entende melhor no mundo que os tigres, isto é público e notório – exclamou Tigrão.

– Para mim chega de cenoura, quero carne! – bradou fremente o coelho Abel.

– Os miúdos dariam um bom guisado – ponderou Corujão.

– Posso dar as orelhas ao meu nenê aqui na bolsa? – perguntou timidamente Can, com um risinho maternal.

Assim começou o festim; empanturraram-se com a carne suculenta, sem dar uma palavra, apenas entupindo suas fuças ficcionais. O único a falar foi Bisonho, quando já estava ligeiramente saciado:

– Não chamamos Leitão para comer? – perguntou sem convicção.

Os bichos se entreolharam, depois berraram todos de uma vez para Bisonho:

– Sua anta!

– Não, burro – murmurou Bisonho arrasado, pois o lobo já rosnava irritado.

Para encurtar a história, o que se passou depois disso foi que o império do estômago estabeleceu-se firmemente na Floresta das Cem Luas. É certo que não durou muito tempo. Poucos dias depois, Tigrão provou que os tigres sabem preparar a melhor coruja à milanesa do mundo. E seu Abel com ensopado de cenoura fez grande sucesso entre seus amiguinhos. Ursinho Puff brilhou com sua lebre com páprica à campestre. Bisonho, por sua vez, queria mais da caçarola de urso. Se não tem cavalo, burro também vai bem, disse o bebê-canguru, ao ver as lingüiças picantes da carne de Bisonho penduradas na despensa. Can deu total apoio à tese segundo a qual nem só as revoluções devoram seus próprios filhos…

No mais, só Cristóvão saberia contar detalhada e saborosamente como fica, preparada na brasa, a verdadeira bisteca de canguru bem passada.

* Halász Judit é uma cantora de músicas infantis, “ídola” da meninada húngara há décadas, uma espécie de Xuxa húngara, só que mais inteligente, e não vendida ao merchandising. Há muita coisa dela no youtube, pra quem quiser conferir.

 

 

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