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Elisabeth Móricz Varga, 70 anos de Brasil!

Hoje faz exatamente 70 anos que o Brasil ganhou Elisabeth Móricz Varga de presente. E uma data tão significativa mais do que justifica minha volta ao blog depois de longa ausência.

Quem conhece Elisabeth, sua fibra, sua inteligência, sensibilidade, energia e grande generosidade ―que sempre transpareceu, por exemplo, nas suas muitas contribuições a este  blog, respondendo perguntas e dúvidas de leitores/as―, concordará comigo que ganhamos realmente um grande presente com sua chegada à Baía da Guanabara, com seu jovem marido László Varga, hoje infelizmente já falecido, naquela distante véspera de Santo Antônio de 1949.

Er e Laci

Elisabeth e László no dia do seu casamento, na Áustria, poucos meses antes de emigrarem para o Brasil.

E para coroar esta comemoração resolvi transcrever, com permissão da autora, o capítulo das memórias de Elisabeth em que ela descreve, com a sensibilidade e verve habituais, aquele momento tão especial.

Querida Elisabeth, receba um abraço caloroso pelo seu aniversário de 70 anos de Brasil.

E vamos ao seu relato:

“No dia 12 de junho de 1949, um domingo muito ensolarado, chegamos sãos e salvos ao Brasil. A visão, ao nos aproximarmos do Rio de Janeiro, foi magnífica! Vimos Copacabana, o Cristo Redentor, as praias brancas, tudo lindo e convidativo. 

Mas, em vez de seguirmos até o cais do porto, para desembarcar, paramos no meio da Baía da Guanabara, bem longe do porto. Não entendemos por quê. E ainda fomos informados de que o navio não forneceria alimentação nesse dia, porque já estávamos em águas brasileiras, então essa obrigação agora era das autoridades brasileiras. 

[O referido navio era o Charlton Sovereign, que em outro capítulo Elisabeth define como ‘navio fantasma’, pelas péssimas condições a que, como ela indica abaixo, os imigrantes foram submetidos na viagem de Nápoles até o Rio de Janeiro]

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Logo em seguida, tivemos o maior susto: de repente, começamos ouvir disparos, bombas estourando, aviões voando baixo, parecia a guerra, quando os aviões metralhavam o povo em Budapeste, e todos ficamos esperando, aterrorizados, que logo viessem disparos de metralhadora, nos matando. 

Mas, enquanto isso acontecia, em algum lugar no navio um rádio estava tocando músicas lindas pelos auto-falantes, canções bastante conhecidas de filmes americanos de jazz. Ficamos estupefatos! Tem uma guerra e os rádios transmitem músicas alegres? Que lugar é este? 

Mas, pouco depois ―não sei quem recebeu a notícia, ou como ficaram sabendo―, nos informaram que não precisávamos ter medo, porque o povo no Rio estava apenas festejando a véspera de Santo Antônio, que aquele barulho de fogos era normal nessa época de festas juninas no Brasil.

Também nos informaram que nosso desembarque ficaria em suspenso, porque as autoridades que deviam nos receber estavam participando dos festejos, e só voltariam a trabalhar, se tudo corresse bem, no dia seguinte, então devíamos esperar calmamente. E, pensando bem, depois daqueles doze dias terríveis naquele navio, o que era esperar mais um dia antes de entrar no Paraíso? Então ficamos todos quietos, com fome e com sede, mas sentindo a esperança de dias melhores. 

Antes do desembarque, nós, as quatro mulheres fomos pagas pela assistência prestada como enfermeiras no navio. Porém, em vez dos 40 dólares prometidos, nos pagaram somente 20: os desgraçados até nisso nos roubaram. 

Mas, conforme previsto, no dia seguinte felizmente chegou um navio da alfândega e, terminada a vistoria, pegaram nossos documentos de imigração e fomos aceitos no solo brasileiro. 

Então desembarcamos numa ilha pequena, muito encantadora, cheia de palmeiras, árvores frondosas e muitas flores, e que na grande emoção do momento me pareceu ainda mais adorável. Guardo até hoje a memória afetiva e visual daquele lindo lugar, chamado Ilha das Flores, perto de Niterói. 

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Hospedaria dos Imigrantes, na Ilha das Flores.

No cais do porto, bem acima das nossas cabeças, se estendia um enorme painel, escrito em diversos idiomas, com os seguintes dizeres:

SEJAM BEM-VINDOS! VOCÊS AGORA SÃO NOSSOS CONCIDADÃOS, E PARA AJUDÁ-LOS A ENCONTRAR EMPREGOS SOLICITAMOS QUE INFORMEM SUAS VERDADEIRAS PROFISSÕES.

Isso nos surpreendeu, e logo de início sentimos que aqui nesta terra realmente éramos bem-vindos, porque demostravam tanta tolerância e compreensão conosco. Deviam saber que a maioria não tinha declarado a verdadeira profissão na saída da Europa, então aquele aviso era muito agradável e simpático.

Depois de separados mais uma vez, mulheres e homens, formos alojados e ocupamos as nossas camas. Foi interessante porque na Ilha também tivemos a sorte de receber um quarto com três beliches, portanto, seis camas, então ficamos as quatro enfermeiras juntas outra vez. E na próxima chegada de imigrantes as outras duas camas foram ocupadas também por compatriotas húngaras.

Continuarmos juntas foi muito bom, porque na viagem consolidou-se uma amizade, e mesmo depois que todos nós saímos da Ilha, após encontrarmos trabalho, essa amizade ainda perdurou alguns anos, até que finalmente nos afastamos gradualmente pelos interesses divergentes na vida.

Mas o acontecimento mais importante do dia, depois do nosso desembarque na ilha, foi a chamada para tomarmos o café da manhã.  Estranhamente, já era bastante tarde para isso, quase dez horas da manhã.  Eu estava com uma fome enorme, lembre-se que tive mais de dez dias de jejum no navio e, além disso, fazia dois dias que nenhum de nós comia nada, porque no último dia em que permanecemos no navio, como eu já disse, o capitão não nos forneceu alimentação, dizendo que já era obrigação dos brasileiros tomar conta de nós. E no dia seguinte tampouco recebemos comida entre o nosso desembarque e o alojamento, porque tinha anoitecido e fomos dormir sem comer.

Assim, veja só, querido, fomos praticamente esquecidos também depois de chegarmos em terra firme. Mas, graças a Deus, ao menos estávamos livres do movimento constante do navio, do balanço suave, e não sentíamos mais o detestável cheiro de óleo, ou, pior ainda, o mau cheiro de origem humana pelas péssimas condições de higiene do nosso navio.

Respirando um ar livre de todos aqueles odores, voltei a me sentir bem, o abalançamento dentro do meu crânio pelos dias passados no mar passou, então voltei a sentir fome, e, quando recebi o primeiro copo de café com leite e um pãozinho com manteiga, comi essa comida simples com tanto gosto, apreciei tanto, que o sabor da manteiga ficou gravada na minha memória para sempre. E, apesar de ter procurando muito, nunca mais achei uma manteiga tão gostosa como aquela me pareceu. Hoje, tentando recuperar na memória aquele gostinho maravilhoso, me ocorre que, na realidade, o sabor já estava meio rançoso, de manteiga velha. Mas, assim mesmo, nunca mais comi um pãozinho com manteiga no café da manhã tão gostoso como aquele.”

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Mólnar Ferenc: 140 anos de nascimento

Szervusztok!

Há exatos 140 anos, em 12 de dezembro de 1878 nascia em Budapeste Mólnar Ferenc [Francisco Moleiro], autor de um dos livros mais lindos e queridos da literatura ocidental para mim e para muita gente: A Pál utcai fiúk [Os Meninos da Rua Paulo], publicado pela primeira vez em 1907, e que é segundo a wikipedia o livro mais famoso e mais traduzido de um autor húngaro, adaptado também vezes sem conta para o cinema, a televisão e o teatro mundo afora.

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No Brasil Os Meninos da Rua Paulo apareceu pela primeira vez em 1952, traduzido por Paulo Rónai para a Coleção Saraiva. Em A Tradução Vivida (1975), depois de chamar o livro de Mólnar de “obra-prima de literatura para adolescentes” (preciso discordar dessa ‘restrição’, só li quando adulto e sou fã) Rónai nos informa que a edição “teve uma acolhida excepcional por parte dos jovens leitores do Brasil, como atestam as inúmeras edições e reedições”.

Por sinal descobri há pouco que uma novíssima edição da Cia das Letras foi lançada agora no ano que acabou de acabar.

Mas Mólnar certamente não foi autor de um downloadlivro só. Tornou-se famoso por outros romances, contos, e, sobretudo, várias peças de teatro, das quais, para não me alongar demais, citarei apenas a muito conhecida Liliom, Vida e Morte de um Malandro (Lenda de Arrabalde), de 1909, que traduzida para o inglês em 1921 serviu de base pro musical Carousel, de Rodgers e Hammerstein, clássico da Broadway, que também virou filme em 1956 com direção de Henry King.

Em português Molnár está presente no imprescindível Antologia do Conto Húngaro, de Paulo Rónai, que descreve corretamente o Conto de Ninar como “germe” do drama Liliom, pelo enredo já desenhado do malandro que morre e tem uma chance de voltar a terra por um dia pra reparar um erro que cometeu.

Fora isso tenho em casa também a tradução de Paulo Schiller de A gözoszlop, que saiu em 2005 pela CosacNaify com o título de O poste de vapor. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, para escapar à perseguição dos judeus na Hungria, Mólnar Ferenc, cujo sobrenome original era Neumann, emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova Iorque, onde morreu aos 74 anos em 1 de abril de 1952.

 

 

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Curso de língua magiar em Fortaleza.

Szervusztok!uece

Acabo de receber uma excelente notícia através de Gilberto Edson, que visitou ontem o blog. A UECE – Universidade Estadual do Ceará criou agora em setembro um Núcleo de Língua e Cultura da Europa Central,  em parceria com a Universidade de Eötös Loránd (ELTE), Fundação Pallas Athéné e Embaixada da Hungria no Brasil. Uma das primeiras consequências práticas foi a abertura de um Programa de Leitorado em Língua Húngara, que envolve um curso básico de língua húngara, cujas aulas começarão em 2018, o primeiro a acontecer numa universidade brasileira fora o da USP.

Há mais informações sobre essa notícia muito alvissareira AQUI.

Abraços.

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Lembrando outubro de 1956

Szervusztok.

Em 23 de outubro comemora-se o início da Revolução Húngara de 1956, frustrada como todos sabem pela reação dos soviéticos em defesa do ‘Pacto de Varsóvia’, combinada com a falta de apoio efetivo dos países ocidentais no quadro de um mundo dividido em áreas de influência pela Guerra Fria.

Hoje chegou-me um artigo do Daily News Hungary com um video que me pareceu um bom resumo dos acontecimentos, incluindo depoimentos interessantes e fatos de bastidores que eu não conhecia. Infelizmente o artigo e o video – narrado em inglês sem legendas em português -, terão alcance limitado para os menos familiares com essa língua. Mas resolvi postá-lo mesmo assim.

Para acessar o artigo e o video clique no título abaixo. Abraços.

THAT’S WHY 23RD OCTOBER IS SO IMPORTANT FOR HUNGARIANS – VIDEO

 

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Descobrindo a magia do possessivo em húngaro num verso de Weöres Sándor

Szervusztok!

Conforme planejei quando postei dias atrás minha primeira versão de Variáció, arriscarei aqui um breve comentário sobre a forma do possessivo que encontramos nos versos de Weöres por exemplo, no verso a hangok illata  (o aroma dos sons)

Primeiramente proponho conferirmos as formas básicas e significados dos substantivos que Weöres utilizou pra tecer a sua Variação: hang, illat, íz, e szín. 

De acordo com o dicionário Magyar-Portugál editado pela Akadémia Kiadó,

hang significa primeiramente voz, mas é também tom e som;

illat [pronuncia-se /íl-lót/, marcando a consoante dupla com uma breve pausa, com a tônica na primeira sílaba, como sempre em húngaro] significa cheiro agradávelperfume, aromafragrância;

íz [pronuncia-se /iiz/, com i longo] é palavra polissêmica, o dicionário indica três sentidos bem diferentes, mas no que se refere aos sentidos significa sabor, gosto, paladar; e

szín [pronuncia-se /siin/, também com i longo, e com n ‘verdadeiro’, como em inglês, não como pronunciaríamos ‘sin’ ou ‘sim’ em português, apenas nasalando a vogal] significa primeiramente cor, embora tenha, segundo o dicionário, uma porção de outros sentidos, inclusive tinta, aspecto, nível etc.

Em segundo lugar, vamos (re)lembrar que o –k é a marca do plural em magiar, daí que as formas hangok, illatok, ízek, e színek repetidas ao longo do poema significam, respectivamente, sons, aromas, sabores e cores. Notem bem que as vogais o e e antes do k, são mero recurso de ligação que a língua usa para produzir o plural, através de um mecanismo linguístico chamado harmonia vocálica (-ek combina com íz e szín, enquanto -ok casa bem com hang e illat).

Ora, se hangok em a hangok illata significa apenas sons, e se o verso se traduz como o aroma dos sons, então onde está o que é traduzido por dos? Em outras palavras, o que indica a relação de posse no verso? [Lembremos que o a antes de hangok é o artigo definido único em húngaro, podendo ser traduzido como o/a/os/as em português, dependendo do caso]

Resposta: o que indica o possessivo no verso a hangok illata é o –a colocado ao final de illat (aroma), que gerou a forma illata.  Ou seja é o aroma, ‘pertencente’ aos sons, que assume a relação de posse, e não os sons, que são os ‘donos’ do aroma, digamos.

Para entender melhor a radical diferença do possessivo no húngaro em relação às línguas da nosso tronco indo-europeu tomemos a frase a casa de Maria. Em inglês – para quem conhece os seus rudimentos – a gente pode traduzir a frase como Maria’s house (ou Mary’s house, se o nome for também traduzido), concordam? E qual a lógica disso? Marcamos o nome da ‘possuidora’ com um sinal que indica que a casa lhe pertence.

Agora vamos traduzir essa frase para o húngaro. Para facilitar as coisas, casa em húngaro é ház. [Deixemos pra outra hora o fato de que ház pode significar também um prédio de apartamentos, e que quando se diz ao telefone ‘estou em casa’ não se usa ház, risos].

Pois bem, a casa de Maria em húngaro a fica a Mária háza. Como se pode notar, ao contrário do que ocorreu em inglês, Maria, a possuidora, não sofreu marca ou alteração (a não ser uma adaptação do nome ao húngaro, onde ele tem o primeiro a longo, aberto).  Mas ház (casa) sofreu uma alteração: virou háza, sendo esse -a final a marca de coisa possuída, no caso por Maria.

Apelando para imaginação seria como se disséssemos normalmente em português algo como Maria casa-sua (dela). Ou como se Mary househers fosse correto em inglês.

Espero que este post não tenham ficado confuso demais para impedir que eventuais visitantes curiosos do blog – os não-falantes nativos do húngaro, como eu, quero dizer – se animem a destrinchar o possessivo no outros versos do poema de Weöres, inclusive enfrentando a ‘pegadinha’ do j em hangja nos versos 4, 9 e 12.

Variáció

a hangok illata                                                                                                                                     az illatok íze                                                                                                                                         az ízek színe

a színek hangja                                                                                                                                      a hangok íze                                                                                                                                          az ízek illata

az illatok színe                                                                                                                                        a színek íze                                                                                                                                           az ízek hangja

a hangok színe                                                                                                                                       a színek illata                                                                                                                                       az illatok hangja

Depois volto pra conversarmos mais… 🙂

Abraços.

 

 

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Weöres Sándor – Variáció

a hangok illata                            o aroma dos sons

az illatok íze                                o sabor dos aromas

az ízek színe                                a cor dos sabores

 

a színek hangja                           o som das cores

a hangok íze                                 o sabor dos sons

az ízek illata                                o aroma dos sabores

 

az illatok színe                            a cor dos aromas

a színek íze                                 o sabor das cores

az ízek hangja                            o som dos sabores

 

a hangok színe                           a cor dos sons

a színek illata                             o aroma das cores

az illatok hangja                        o som dos aromas

 

Sándor Weöres (1913 – 1989) é reconhecido hoje como o poeta mais universal na história da literatura húngara. Seu talento e domínio da língua, inigualáveis, lhe permitiram escrever e traduzir em todas formas possíveis da literatura húngara e mundial, e experimentar livremente com melodia, forma e conteúdo.

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Ele também se distingue de outros poetas pela sua filosofia metafísica e espiritualista. Sua inocência quase angélica, um frescor como de criança, aliavam-se no poeta a um intelecto curioso, irônico, travesso; há muitas histórias sobre seu humor efervescente, sua versatilidade e sua natureza visionária.

Seus poemas geralmente não incluem confissão personalista; ele não tinha interesse no self, mas antes em poderes universais humanos e cósmicos. Por outro lado, tinha uma grande habilidade para criar personas poéticas. Ele não tenta transmitir mensagem [no sentido de mensagem de um ‘programa’ extra-poético, especula este tradutor], apenas universalidade; isso fica comprovado pelo fato de ele ter sido sempre um favorito das crianças.

Weöres tratou do seu método poético na sua dissertação de doutorado, A vers születése (Nascimento do poema), que é, na verdade, uma meditação e uma confissão sobre sua prática de composição poética, e não um trabalho estritamente filológico. Ele descreve a maneira como, praticamente num transe, ele começa a “ouvir” o cerne do poema, que em seguida ele desenvolve e transforma em um todo coeso usando sua mente consciente. Como grandes poetas do Romantismo, ele também se considerava um instrumento de poderes externos: “Escrevi meus milhares de versos semi-acordado / em meio à fumaça de tabaco, nem sei como”. [Texto traduzido e adaptado do site hunlit.hu]

PS: Queridos amigos, é com alegria que volto aqui.  O poema acima e a tentativa de tradução que o acompanha estão na minha mente desde a feliz viagem – embora curta demais pro meu gosto, de apenas oito dias – de reencontro com Budapeste que fiz em janeiro deste ano, exatamente oito anos depois da última visita à Magyarország.

Descobri-o em um dos 3 volumes das obras completas de Weöres* que a gentil e querida senhora em cujo apartamento me hospedei através do AirBnB me emprestou enquanto estava lá, pois, como se tratava de  seu poeta mais querido, ela queria muito que eu o conhecesse melhor.

Mas confesso que escolhi este poema também pela relativa facilidade de tradução, e pensando em como ele seria um exemplo excepcional pra conversarmos um pouco sobre possessivos em magiar, o que pretendo fazer nos próximos dias num post subsequente, porque agora ficou meio tarde da noite. Grande abraço.

*[pronuncia-se /vörösh/ e o prenome é /sháándor/, que equivale a Alexandre, como a maioria de vocês já sabe]

 

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Kosztolányi Dezső e as cores do verso

Sziasztok!

Fui alertado ontem por um post do @molyhu no twitter que amanhã, 29 de março, completa-se 132 anos do nascimento de Kosztolányi Dezső, sobre quem, talvez alguns lembrem, já postei coisas AQUI e AQUI.

O @molyhu, como geralmente acontece, continha um link pro site @cultura.hu, e lá dei de cara com o poema Mostan Színes Tintákról Álmodom, de 1910. Então hoje de manhã, como forma de me juntar à comemoração, e também de matar saudades do blog, resolvi arriscar uma versão pessoal, que não pretende ser, nem tradução literal, nem recriação poética dos versos de DK, mas algo talvez intermediário, do jeito que consegui fazer meio intuitivamente e em pouco tempo (assumindo o risco inerente à pressa, risos). E ei-lo aqui:

ESSES DIAS TENHO SONHADO COM TINTAS COLORIDAS

Amarelo é a mais bela. Para escrever

muitas-muitas cartas a uma menina,

a uma menina a quem quero bem.

Para traçar labirintices, letras japonesas,

e um lindo pássaro em arabesco.

Quero ainda muitas tintas coloridas,

bronze, prata, verde, ouro,

quero ainda mais, uma centena, mil,

quero mais, quero um milhão:

lilás-brincalhão, cor-da-pele, cinza-mudo,

comportadas, amorosas, brilhantes,

mas também o violeta triste,

marrom-tijolo e azul, desde que seja claro

como a sombra colorida no vidro da porta

vista da soleira num meio-dia de agosto.

E quero ainda um vermelho-flamejante,

cor de sangue, como um poente zangado,

para escrever, escrever sempre-sempre.

Com azul, à irmãzinha, com dourado, à minha mãe,

dourado-fogo, palavra-dourada, como a madrugada.

E não me cansaria, escreveria sempre

numa velha torre, incessantemente.

Como eu seria feliz, meu Deus, tão feliz.

Quero enfeitar com isso a minha vida.

(1910)

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