Arquivo do mês: outubro 2017

Lembrando outubro de 1956

Szervusztok.

Em 23 de outubro comemora-se o início da Revolução Húngara de 1956, frustrada como todos sabem pela reação dos soviéticos em defesa do ‘Pacto de Varsóvia’, combinada com a falta de apoio efetivo dos países ocidentais no quadro de um mundo dividido em áreas de influência pela Guerra Fria.

Hoje chegou-me um artigo do Daily News Hungary com um video que me pareceu um bom resumo dos acontecimentos, incluindo depoimentos interessantes e fatos de bastidores que eu não conhecia. Infelizmente o artigo e o video – narrado em inglês sem legendas em português -, terão alcance limitado para os menos familiares com essa língua. Mas resolvi postá-lo mesmo assim.

Para acessar o artigo e o video clique no título abaixo. Abraços.

THAT’S WHY 23RD OCTOBER IS SO IMPORTANT FOR HUNGARIANS – VIDEO

 

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Descobrindo a magia do possessivo em húngaro num verso de Weöres Sándor

Szervusztok!

Conforme planejei quando postei dias atrás minha primeira versão de Variáció, arriscarei aqui um breve comentário sobre a forma do possessivo que encontramos nos versos de Weöres por exemplo, no verso a hangok illata  (o aroma dos sons)

Primeiramente proponho conferirmos as formas básicas e significados dos substantivos que Weöres utilizou pra tecer a sua Variação: hang, illat, íz, e szín. 

De acordo com o dicionário Magyar-Portugál editado pela Akadémia Kiadó,

hang significa primeiramente voz, mas é também tom e som;

illat [pronuncia-se /íl-lót/, marcando a consoante dupla com uma breve pausa, com a tônica na primeira sílaba, como sempre em húngaro] significa cheiro agradávelperfume, aromafragrância;

íz [pronuncia-se /iiz/, com i longo] é palavra polissêmica, o dicionário indica três sentidos bem diferentes, mas no que se refere aos sentidos significa sabor, gosto, paladar; e

szín [pronuncia-se /siin/, também com i longo, e com n ‘verdadeiro’, como em inglês, não como pronunciaríamos ‘sin’ ou ‘sim’ em português, apenas nasalando a vogal] significa primeiramente cor, embora tenha, segundo o dicionário, uma porção de outros sentidos, inclusive tinta, aspecto, nível etc.

Em segundo lugar, vamos (re)lembrar que o –k é a marca do plural em magiar, daí que as formas hangok, illatok, ízek, e színek repetidas ao longo do poema significam, respectivamente, sons, aromas, sabores e cores. Notem bem que as vogais o e e antes do k, são mero recurso de ligação que a língua usa para produzir o plural, através de um mecanismo linguístico chamado harmonia vocálica (-ek combina com íz e szín, enquanto -ok casa bem com hang e illat).

Ora, se hangok em a hangok illata significa apenas sons, e se o verso se traduz como o aroma dos sons, então onde está o que é traduzido por dos? Em outras palavras, o que indica a relação de posse no verso? [Lembremos que o a antes de hangok é o artigo definido único em húngaro, podendo ser traduzido como o/a/os/as em português, dependendo do caso]

Resposta: o que indica o possessivo no verso a hangok illata é o –a colocado ao final de illat (aroma), que gerou a forma illata.  Ou seja é o aroma, ‘pertencente’ aos sons, que assume a relação de posse, e não os sons, que são os ‘donos’ do aroma, digamos.

Para entender melhor a radical diferença do possessivo no húngaro em relação às línguas da nosso tronco indo-europeu tomemos a frase a casa de Maria. Em inglês – para quem conhece os seus rudimentos – a gente pode traduzir a frase como Maria’s house (ou Mary’s house, se o nome for também traduzido), concordam? E qual a lógica disso? Marcamos o nome da ‘possuidora’ com um sinal que indica que a casa lhe pertence.

Agora vamos traduzir essa frase para o húngaro. Para facilitar as coisas, casa em húngaro é ház. [Deixemos pra outra hora o fato de que ház pode significar também um prédio de apartamentos, e que quando se diz ao telefone ‘estou em casa’ não se usa ház, risos].

Pois bem, a casa de Maria em húngaro a fica a Mária háza. Como se pode notar, ao contrário do que ocorreu em inglês, Maria, a possuidora, não sofreu marca ou alteração (a não ser uma adaptação do nome ao húngaro, onde ele tem o primeiro a longo, aberto).  Mas ház (casa) sofreu uma alteração: virou háza, sendo esse -a final a marca de coisa possuída, no caso por Maria.

Apelando para imaginação seria como se disséssemos normalmente em português algo como Maria casa-sua (dela). Ou como se Mary househers fosse correto em inglês.

Espero que este post não tenham ficado confuso demais para impedir que eventuais visitantes curiosos do blog – os não-falantes nativos do húngaro, como eu, quero dizer – se animem a destrinchar o possessivo no outros versos do poema de Weöres, inclusive enfrentando a ‘pegadinha’ do j em hangja nos versos 4, 9 e 12.

Variáció

a hangok illata                                                                                                                                     az illatok íze                                                                                                                                         az ízek színe

a színek hangja                                                                                                                                      a hangok íze                                                                                                                                          az ízek illata

az illatok színe                                                                                                                                        a színek íze                                                                                                                                           az ízek hangja

a hangok színe                                                                                                                                       a színek illata                                                                                                                                       az illatok hangja

Depois volto pra conversarmos mais… 🙂

Abraços.

 

 

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Weöres Sándor – Variáció

a hangok illata                            o aroma dos sons

az illatok íze                                o sabor dos aromas

az ízek színe                                a cor dos sabores

 

a színek hangja                           o som das cores

a hangok íze                                 o sabor dos sons

az ízek illata                                o aroma dos sabores

 

az illatok színe                            a cor dos aromas

a színek íze                                 o sabor das cores

az ízek hangja                            o som dos sabores

 

a hangok színe                           a cor dos sons

a színek illata                             o aroma das cores

az illatok hangja                        o som dos aromas

 

Sándor Weöres (1913 – 1989) é reconhecido hoje como o poeta mais universal na história da literatura húngara. Seu talento e domínio da língua, inigualáveis, lhe permitiram escrever e traduzir em todas formas possíveis da literatura húngara e mundial, e experimentar livremente com melodia, forma e conteúdo.

weores-sandor

Ele também se distingue de outros poetas pela sua filosofia metafísica e espiritualista. Sua inocência quase angélica, um frescor como de criança, aliavam-se no poeta a um intelecto curioso, irônico, travesso; há muitas histórias sobre seu humor efervescente, sua versatilidade e sua natureza visionária.

Seus poemas geralmente não incluem confissão personalista; ele não tinha interesse no self, mas antes em poderes universais humanos e cósmicos. Por outro lado, tinha uma grande habilidade para criar personas poéticas. Ele não tenta transmitir mensagem [no sentido de mensagem de um ‘programa’ extra-poético, especula este tradutor], apenas universalidade; isso fica comprovado pelo fato de ele ter sido sempre um favorito das crianças.

Weöres tratou do seu método poético na sua dissertação de doutorado, A vers születése (Nascimento do poema), que é, na verdade, uma meditação e uma confissão sobre sua prática de composição poética, e não um trabalho estritamente filológico. Ele descreve a maneira como, praticamente num transe, ele começa a “ouvir” o cerne do poema, que em seguida ele desenvolve e transforma em um todo coeso usando sua mente consciente. Como grandes poetas do Romantismo, ele também se considerava um instrumento de poderes externos: “Escrevi meus milhares de versos semi-acordado / em meio à fumaça de tabaco, nem sei como”. [Texto traduzido e adaptado do site hunlit.hu]

PS: Queridos amigos, é com alegria que volto aqui.  O poema acima e a tentativa de tradução que o acompanha estão na minha mente desde a feliz viagem – embora curta demais pro meu gosto, de apenas oito dias – de reencontro com Budapeste que fiz em janeiro deste ano, exatamente oito anos depois da última visita à Magyarország.

Descobri-o em um dos 3 volumes das obras completas de Weöres* que a gentil e querida senhora em cujo apartamento me hospedei através do AirBnB me emprestou enquanto estava lá, pois, como se tratava de  seu poeta mais querido, ela queria muito que eu o conhecesse melhor.

Mas confesso que escolhi este poema também pela relativa facilidade de tradução, e pensando em como ele seria um exemplo excepcional pra conversarmos um pouco sobre possessivos em magiar, o que pretendo fazer nos próximos dias num post subsequente, porque agora ficou meio tarde da noite. Grande abraço.

*[pronuncia-se /vörösh/ e o prenome é /sháándor/, que equivale a Alexandre, como a maioria de vocês já sabe]

 

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