Arquivo do mês: fevereiro 2016

Parabéns, Erzsébet > Er > Elisabeth!

Sziasztok!

Volto excepcionalmente ao blog por um motivo muito especial e de muita alegria para mim e, não tenho dúvidas, para muitos dos que acompanham este espaço há mais tempo.

É que no dia 25 de fevereiro foi o aniversário da querida ‘húngaro-baiana’ Elisabeth Móricz Varga, cuja amizade é um dos melhores presentes que o HungriaMania me deu ao longo desses anos.

Erzsébet adolescente

E para homenageá-la escolhi postar abaixo mais um trecho  de suas memórias, escritas como uma carta para o seu filho Carlos/Karika, mas que tive o privilégio de poder ler e me encantar e emocionar com a força de recriação de sua prodigiosa memória, pelo colorido cinematográfico, e pelo bom-humor com que Elisabeth narra sua epopeia pessoal e familiar, que reflete também de maneira muito rica a tumultuada história da Hungria e da Europa Central nos últimos cento e vinte anos (o que só é possível, obviamente, porque ela inclui muitas histórias  que ouviu dos seus pais e familiares, que antecedem em muitos décadas o seu nascimento).

O trecho abaixo se passa em território austríaco no inverno de 1948,  pouco depois que a jovem Erzsébet Móricz e seu noivo e futuro marido László Varga, com a ajuda de Bálint, irmão mais velho de Elisabeth, que já vivia na Áustria desde o fim da Segunda Guerra, conseguiram cruzar a pé, não sem muita tensão e perigos (certamente vale outro post), a fronteira da Hungria com a Áustria fugindo da opressão do regime comunista que acabara de assumir o poder total na Hungria, e que havia tornado insustentável a vida do jovem livre-pensador László no seu país natal.

Para mim este trecho – ligeiramente editado para esta postagem – exemplifica de maneira especialmente  viva o amor à liberdade, a sensibilidade para a beleza do mundo, o bom humor e o espírito inquebrantáveis da jovem Elisabeth diante dos grandes desafios que a vida lhe colocou tão cedo na vida. Que desfrutem!

BOLDOG SZÜLINAPOT, KEDVES ELISABETH! ISTEN ÉLTESSE SOKÁIG!

COMO HEROÍNA DE FILME DE COWBOYS

“No início da viagem meu irmão Bálint falou que íamos saltar do trem antes da chegada à Zona Americana, em Linz, porque lá haveria dupla identificação e, se porventura escapássemos dos russos, os americanos, que eram muito meticulosos, não aceitariam a nossa entrada ilegal e nos devolveriam à Zona Russa.

E realmente descemos antes de entrar na Zona Americana. Descemos, sim, e como! Espetacularmente! Porque enquanto o trem seguia conosco para o nosso destino Bálint chamou-nos para fora da cabine – o trem era de modelo antigo, da época da Maria Fumaça – e nos encaminhamos para a parte final do vagão, o espaço aberto e onde ficam as escadas.

E só neste momento Bálint explicou por que ele tinha feito questão de que tomássemos o último vagão, ele tinha um propósito especial: disse que logo mais adiante ia aparecer uma curva muito fechada e nesse momento o trem ia diminuir muito a velocidade, e quando isso acontecesse devíamos pular para fora, “assim ninguém perceberá o nosso pulo porque quando cairmos o trem já estará virando a curva e desaparecerá”.

Não restou muito tempo para assimilarmos essa informação porque a curva anunciada rapidamente apareceu, o trem realmente reduziu bastante a velocidade e então Bálint me falou “Er, Pule!”. Só que nem precisei esboçar um movimento, porque Bálint já foi me empurrando para fora do trem, imediatamente depois empurrou László, e em seguida ele mesmo pulou.

A rapidez dos acontecimentos e a nossa surpresa foi tal que não tivemos tempo nem para um pensamento fugaz, já estávamos voando e nos enterrando em uma camada de neve grossa e macia.

Não estou brincando, querido, na hora eu me senti como se fosse a heroína de um dos filmes de faroeste que eu assistia na Hungria, nos quais as heroínas eram salvas na última hora, quando a carroça ia cair no abismo. Pode imaginar esta cena?

Apesar de bastante assustador tudo foi também muito divertido, olhando uns para os outros ficamos rindo feitos bobos, a sensação foi deliciosa, como nunca pensei que uma queda daquela altura de um trem em movimento pudesse ser. Mesmo que a velocidade naquele momento não fosse muito grande relativamente ainda assim o nosso voo foi espetacular.

Lembro-me do rosto assombrado do meu noivo sem entender ainda o que tinha acontecido, por que ele estava enterrado e coberto de neve. Era realmente hilariante, a nossa situação, e provavelmente a minha expressão também era de incredulidade.

Depois que conseguimos nos levantar e nos livramos da neve, limpando os nossos casacos, imediatamente colocamos o pé na estrada. Na verdade, embora parecesse assim, o lugar onde começamos andar era tudo menos uma estrada. Tratava-se na realidade de um campo enorme, de milhares de metros quadrados, de terra para cultivo de grãos, mas com era inverno estava totalmente coberto de neve, então parecia uma estrada extensivamente larga.

Adiante, à distância, vimos o que nos pareceram algumas casinhas minúsculas espalhadas, porém ao nos aproximarmos observamos que eram apenas montes de feno. Além disso não havia mais nada, nenhuma árvore sequer no meio do enorme vazio.

Porém ladeando o campo dos dois lados até aonde nossa vista conseguia alcançar, como soldados guardando a imensa propriedade, perfilavam-se enormes pinheiros seculares, lembravam árvores de natal mas que pareciam alcançar o céu, eram tão lindas que perdi a respiração, simplesmente majestosas, e estavam ainda mais belas com a neve cobrindo densamente seus galhos.

Pareciam ornados com chapéus brancos, a visão era deslumbrante, e o sol brilhava intensamente, logo mais nos sentiríamos quase cegados pela luz que se refletia na brancura daquela imensidão coberta de neve que se estendia à nossa frente.

Apesar do sol brilhante o ar estava bem frio e logo-logo nossos narizes ficaram bloqueados, o que só poderá entender alguém que já andou num frio abaixo de zero respirando o ar gelado. Todos estávamos bem vestidos, éramos acostumados ao frio, mas eu e László realmente não estávamos preparados para toda aquela andança que ainda tínhamos pela frente, naturalmente pelo nosso próprio bem.”

PS. Em homenagem adicional à nobre aniversariante, recoloquei no cabeçalho uma foto minha da bela ponte de Budapeste que traz o seu nome, Erzsébet híd, Ponte Elisabeth, vista do Platán, O Plátano, um dos meus cafés-bares favoritos de Buda, onde costumava ir depois de um bom banho termal no Rudas.

 

 

 

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