Fala Krasznahorkai László [final]

Conforme prometido, eis a segunda (e última) parte da entrevista de Krasznahorkai László, concedida à jornalista Dömötör Ági, do site origo.hu em 2011. Agora ele fala de seus leitores jovens, da relação com outros escritores, da sua visão sobre o futuro da literatura, das perspectivas para a própria humanidade, e mais.

Bom proveito! És jó hétvégét! [E bom fim de semana!]

20110415krasznaho3

Krasznahorkai László, foto de Mudra Lászlo para origo.hu

DA: O Senhor costuma dar uma olhada na internet no que os leitores dizem das suas obras? Há grupos de leitores que batem papo sobre seus livros, outros que comentam suas entrevistas.

KL: Conheço muito poucos, se está se referindo aos húngaros. Recentemente num desses um blogueiro sugeriu que eu devia ser enforcado. Vesti meu escafandro, liguei a ignição e dei uma esticada até a lua.

DA: Bem, esse eu não encontrei, mas fiquei surpresa com quanta gente se entusiasma nos comentários sobre seus livros. E vi que não são estudantes  ligados nas letras os apaixonados pelo senhor, mas jovens bem dentro da média.

KL: Isso é tranquilizador, mas na verdade não surpreende tanto. Talvez seja por eles estarem menos suscetíveis às influências, talvez porque gostem de ser vistos como livres, ou, ainda mais do que isso, de verem alguém enfrentar quem ou o que quer que seja quando se trata de algo que lhes diz respeito, porque no caso deles nada está resolvido ainda.

DA: Que relação o senhor tem com seus colegas de literatura magiar? Costumam se mandar emails? O senhor escreve, digamos, pra Spiró György dizendo gostei do seu último livro, Gyuri [Jorginho]? Pergunto porque a partir de uma entrevista pareceu que se sentia alheio à vida literária.

KL: Não é que me sinta assim apenas, eu sou assim. Isso não significa que eu não me alegre quando me encontro com algum colega digno de admiração aos meus olhos, afinal somos companheiros de sina. Essa coisa com que eles se ocupam – a saber, a literatura -, por hora ainda dá para ir enchendo prateleiras, mas cada vez com mais dificuldade. Essa espécie de articulação chegou realmente ao fim. Isso é um processo bastante evidente, ele apenas transcorre com velocidade diferente em cada ponto diferente do mundo. Essa forma de literatura, sinto dizer, não é sustentável.

DA: O senhor quer dizer que não apenas o prestígio da literatura acabou, mas o gênero literário inteiro?

KL: Vai desaparecer o livro da chamada alta literatura. Eu não confio em esperanças parciais de que haverá ilhas em que a literatura continuará importante, e que ela sobreviverá para sempre. Gostaria muito de dizer essas coisas cheias de pathos, só que não acredito que sejam verdade.

DA: E o que farão os que hoje leem?

KL: Provavelmente não irão ler. Poderá a humanidade voltar a pensar por si própria? Entendo por pensamento o que alguém pensa originalmente, sem ser pautado. Quando eu leio obras de pessoas pensantes isso me inspira a pensar, mas ao mesmo tempo cria categorias para mim, não me deixa em liberdade. Entre o riacho murmurante de Heráclito e a pessoa agora há um livro. Talvez chegue o tempo em que entre ela e o riacho murmurante já não haja nada. E ela poderá se molhar à vontade.*

DA: O senhor acha que vamos perder o hábito de ler porque estamos nos tornando preguiçosos. Mas o pensamento exige um esforço maior do que a leitura.

KL: A senhora não está considerando que ocorrem catástrofes na história humana, e as catástrofes compelem a humanidade a pensar. Mas ainda tenho outra proposição: voltará uma pós-pós-pós-moderna sacralidade. Voltará a força sagrada da palavra falada, e a palavra escrita servirá para anotá-la. Não estou pensando em algum mundo arcaico, onde vagaremos em torno de alguma Stonehenge, senão que em bases completamente transformadas, tenhamos naturalmente uma visão de mundo completamente transformada. Consigo imaginar muitas alternativas, menos esta: de irmos adiante da maneira que vamos hoje.

DA: Sebald e Susan Sontag elogiaram suas obras, Allen Ginsberg foi seu amigo. Que reconhecimento foi o mais importante na sua vida até agora?

KL: Os da adolescência. Essa é a idade em que a pessoa está mais rendida à opinião dos outros. Um dos reconhecimentos que recebi foi de meu professor do ginásio Banner József, que me apoiou continuamente com encorajamento e reconhecimento. Ele sempre me expunha na aula de [língua] magiar como modelo de como se devia fazer. Eu ficava terrivelmente orgulhoso, porque tínhamos o maior respeito por ele, e o reconhecimento de uma pessoa assim significou mais do que eu poderia expressar. Da mesma forma, quando meu primeiro escrito foi publicado passei a ter relações literárias que até então eu não conhecia. Para mim a literatura significava Weöres Sándor, Pilinsky, Hajnóczy, e eu não conseguia imaginar que eu viria a fazer parte disso de alguma maneira, especialmente não no mesmo patamar, aliás eu ainda não acredito nisso. Quando fui apresentado pela primeira vez a Mészöly Miklós, e Mészöly Miklós me disse que uma novela minha havia tido uma influência gigante para ele, a senhora não pode imaginar a enormidade que isso significou para mim. Se isso não acontece, é possível que minha vida tivesse tomado outro rumo.

DA: Se alguém, digamos, nunca leu nada do senhor, mas agora lê esta entrevista e pensa: que cara interessante, vou dar uma olhada no que ele escreve, que livro o senhor sugeriria a essa pessoa? Qual pode ser a porta de entrada para sua obra?

KL: O Velho Testamento. O Livro das Revelações. Que escolham aleatoriamente entre os meus livros.

DA: No seu último livro, Állatvanbent**, imagens acompanham os textos. Como nasceu esse livro?

KL: Uma imagem foi o ponto de partida, a primeira que aparece no livro. Em 2004 Max Neumann veio à minha casa jantar e trouxe uma imagem pintada por ele. Essa imagem me assustou muito, não consegui dizer nada, e depois disso também não falamos mais sobre ela. Aí algum tempo depois ele me ligou e foi direto ao assunto: László, se você não gosta da imagem, jogue fora. Eu disse a ele não se trata de não gostar da imagem, o caso é que eu olho para ela e não consigo me livrar dela, por que tenho medo dela. Tem um monstro preso nesse campo geométrico deteriorado, estranho, puritano. Foi assim que começou.

imagem de Max Neumann do livro Állatvanbent

imagem de Max Neumann, do livro Állatvanbent / Animalinside

Mais tarde me procuraram para eu escrever sobre tradução literária. Mas que diabo saberia eu escrever sobre isso? Mas tanto insistiram, que me ocorreu: que tal se eu traduzisse uma imagem para uma outra linguagem. Eles disseram, excelente. Então me sentei, saltou um texto, que agora está aí, no início do livro. Aí mostrei a Max, e perguntei que tal seria se a partir daquele texto ele pintasse uma nova versão, sobre a qual eu escreveria um novo texto, e assim por diante. Mais tarde nos ocorreu que não íamos publicar o que havíamos experimentado, na medida em que isso afligiu a mim e a Max. A essência do texto é a velha natureza do pecado: ele retrata o mal a partir de dentro. Nós sentimos que ambos conseguimos apresentar alguma coisa desse mal.

DA: Quando riu e quando chorou a última vez?

KL: Descontando o fato de que tenho uma filha que praticamente desde os cinco anos eu não posso ver, e por causa disso choro lá dentro, o tempo todo – chorar, mesmo, a última vez, chorei quando rodávamos o Sátántangó, com Tarr Béla, na cena do bar. Um dos personagens, completamente bêbado, cantava uma  canção acompanhado de um acordeão. A canção e a maneira que ele cantava eram tão comoventes que, ali sentado, de repente senti as lágrimas correrem. Mas estranhamente também senti que enquanto me corriam as lágrimas minha perna direita estava totalmente dormente. Aí terminou, voltei a mim, e me vi sentado ao lado de Béla, e olhávamos o monitor. E me dei conta de que Tarr, cuja vista ficara igualmente anuviada, ainda me apertava com uma força tremenda a perna direita, apertou até o final da cena. Para que a gente pudesse fixar aquele momento maravilhoso. Para que nada pudesse interrompê-lo. Para que tudo saísse bem. E saiu. Essa foi a última vez que chorei. Quando foi a última vez que ri? Quando a vi, de alegria. Pelas suas perguntas. Pelo seu interesse. Porque tenho outra vez com quem falar. A quem contar essas coisas.

* A frase final do parágrafo não se encontra na versão original, em húngaro, do origo.hu, usada para esta tradução; mas está na versão mais curta, em inglês, que apareceu no Hungarian Quarterly/Winter 2011 e que, suponho, deve ter sido acrescentada em comum acordo com KL. Como me parece concluir melhor o parágrafo, resolvi colocá-la.

** [Temanimaldentro, ou Contémanimal (literalmente: Állat+van+bent = Animal+tem+dentro), traduzido para o inglês como Animalinside, por Ottilie Mulzet e publicado em 2010 pela New Directions, NY]

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4 Comentários

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4 Respostas para “Fala Krasznahorkai László [final]

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  2. Inês Rosa Bueno

    Talvez Federico García Lorca, se lesse esta entrevista, diria a Krasznahorkai László:
    “No soy un hombre, ni un poeta, ni una hoja, sino un pulso herido que presiente el más allá”

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