Fala Krasznahorkai László, ganhador do Prêmio Man Booker International 2015

Sziasztók!

Eu vinha trabalhando num post baseado nas memórias escritas por uma querida amiga húngaro-brasileira para voltar ao blog depois desta longa ausência. Mas o anúncio sensacional 10 dias atrás de que Krasznahorkai László tinha ganhado o Man Booker International Prize 2015 me obrigou a mudar de planos.

Amigos ficaram curiosos pelo escritor de nome estranho [pronuncia-se Króssnó-horkó-í], que talvez alguns poucos – como é o meu caso – conheçam apenas das parcerias com o mestre cineasta Tarr Béla [Tórrr Bêêló], que transformou Sátántangó [sháátáán-tongóó] (Tango de Satán), primeiro romance publicado por Krasznahorkai (1985), em um filme de 7 horas de duração. Outras obras adaptadas e/ou scripts de KL dirigidos por Tarr incluem Kárhozat (Danação), de 1988, Utolsó hajó (Último Barco), de 1989, Werckmeister harmóniák, de 2000, A londoni férfi (O homem de Londres), de 2007, e mais recentemente, em 2011, A torinói ló (O cavalo de Turim), nomeado para 14 e ganhador de 7 prêmios internacionais, incluindo o Urso de Prata em Berlim.

Infelizmente nada do que Krasznahorkai escreveu foi publicado até agora no Brasil. Há poucas traduções mesmo em Inglês, mas duas delas, Satantango, por George Szirtes, publicada pela Tuskar Rock Book em 2012, e Seiobo There Below, de Ottilie Mulzet, publicada pela New Directions em 2013, receberam prêmios de tradução importantes, o que sem dúvida aumentou a visibilidade deste especialíssimo autor e pensador magiar fora da Hungria, e resultou agora nesse prêmio internacional para autores de língua estrangeira publicados em língua inglesa.

Sem mais delongas, deixo-os com a 1ª parte da entrevista de Krasznahorkai concedida em 2011 a Dömötör Ági, editora cultural do portal de notícias húngaro origo.hu. KL fala de literatura e de outros assuntos, e, talvez concordem comigo, tem coisas bem interessantes a dizer…

KRASZNAHORKAI LÁSZLÓ: “O MARKETING DA BÍBLIA TAMBÉM É RUIM” *

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Krasznahorkai László, foto de Mudra László, origo.hu

Dömötör Ági: Muita gente tem a impressão de que seus livros são difíceis de ler e de entender, embora isso seja antes um mito. Mas o senhor não acha que seu marketing é ruim?

Krasznahorkai László: Sabe, o problema é que o marketing é ruim para todo mundo que seja um pouquinho sério. O marketing de Kafka também é ruim, o marketing do Velho Testamento também é ruim. O leitor que acha meu texto difícil vai ter dificuldades idênticas com o Velho Testamento. Temos uma cultura de consumo cujo objetivo é produzir a perda de consciência, sem que a nossa consciência se dê conta disso. A manutenção dessa manipulação sem precedentes custa muito dinheiro, e para isso desenvolveu-se um ensandecedor mecanismo global. Esse estado de perda de consciência implica na mentira de estabilidade em mundo vibrátil, o que alimenta uma ideia de segurança em circunstâncias que são no mínimo provisórias. Vejo de forma ligeiramente diferente o papel da imprensa sensacionalista. Não a tomaria como simples vulgaridade, mandando-a ao inferno. A imprensa sensacionalista tem um sentido grave, e esse sentido é ao mesmo tempo trágico e delicado.

DA: As revistas sensacionalistas também saciam nossa sede de histórias e de fofocas, como antigamente faziam as velhas tias das pequenas aldeias nos bancos de praça.

KL: A tia velha da aldeia era bisbilhoteira em um nível bem alto, do qual a moderna imprensa industrial da bisbilhotice está abaixo em muitos degraus. Uma tia velha se encontra no campo visível da pessoa cujo lixo ela remexe. Com dez milhões de pessoas a coisa é diferente. A imprensa sensacionalista não parte da premissa de que as pessoas não entendem ou exigem algo diferente. É muito complexa a estrutura da vulgaridade. Se eu não fosse artista, se fosse cientista social, seguramente sugeriria a mim mesmo que me dedicasse a esse assunto.

DA: A cultura pop lhe chega de alguma forma?

KL: Posso apostar que lhe digo dez bandas de rock de 2011 tão novas que a senhora nunca ouviu nem o nome!

DA: Quer dizer que o senhor frequenta lojas de discos, concertos?

KL: Em Nova York, o apartamento de Allen Ginsberg, onde fiquei, era muito perto do estúdio de gravação de David Byrne, que foi líder dos Talking Heads, e Byrne era frequentava muito a casa de Allen. Costumávamos tocar juntos na cozinha, e assim eu acabei fazendo parte da geometria de muitos ângulos Byrne-Philip Glass-Patti Smith-Ginsberg, onde os artistas davam CDs uns aos outros. Continua assim até hoje. Em Vic Chestnutt, por exemplo, eu nunca tinha ouvido falar antes da morte dele, e no entanto para mim ele é um dos melhores de toda a cultura do rock – um amigo de lá me enviou sua obra completa. Mas a concertos eu vou cada vez menos. Recentemente vi um programa genial em Berlim, chamavam a apresentação de Joan As Police Woman. Foi completamente insano, só que uma das minhas pernas é doente e eu não consigo ficar quatro horas em pé em concertos.

DA: E a televisão ou o cinema lhe interessam?

KL: Filmes eu não aguento ver, mas tenho uma TV, que ligo pra ver principalmente  programas de entrevistas. Televisão húngara vejo pouco, prefiro programas ingleses, americanos, alemães, franceses e espanhóis.

DA: Atualmente como você divide sua vida entre Nova York, Berlim e Pilisszentlászló? /pílish-sent-láásslôô/

KL: Em 2012 estarei em Nova York outra vez. Moro em Berlim, mas hoje em dia estou muito em Pilisszentlászló, e cada vez mais gostaria de ficar por lá. Gosto muito desse lugar.

DA: Muitas obras suas falam alegoricamente da destruição do mundo ou da civilização. Na sua opinião em que outra época as pessoas podem ter se sentido como hoje que ‘acabou, passo, não tem mais jeito’ em relação ao destino de uma civilização?

KL: Houve muita idades parecidas com a nossa, quando as pessoas acharam  que não apenas a civilização, mas o próprio mundo tinha chegado ao fim. Ainda sabemos pouco sobre o fim das primeiras grandes civilizações, sobre os incas, os egípcios, os minóicos, a Dinastia Zhou, na China. Sobre o final da civilização romana sabemos bem mais, porque a partida final durou séculos, e foi bem documentada. Evidente que para o cidadão romano da época, quando Roma finalmente caiu, não foi apenas seu mundo, mas “o” mundo que desabou. Tudo que até então era esfera, a própria inteireza, inesperadamente tomou a forma de um triângulo. Para os cristãos, ao contrário, esse tornou-se o ponto de partida. Para que depois a era cristã, ela própria e seus ideais, enfrentassem seus próprios impasses e crises. Toda história europeia e não-europeia é feita de derrotas e crises. Ou seja, crise é a condição natural da história.

DA: Pelo que diz não vê como especialmente apocalíptica a nossa era. Então por que escreve tanto sobre a destruição nos seus livros?

KL: O apocalipse me toca pessoalmente, porque minha vida vai terminar exatamente da mesma maneira como a de todo mundo. Interessante como a relação com a morte muda ao longo da vida. Na juventude é que a pessoa mais se ocupa com a questão da morte, porque nessa fase pode fazer isso com mais coragem do que depois, quando já começa a se aproximar da sua própria morte e já não lhe sobra tanta. O medo toma o seu lugar. Quando era jovem eu não percebia a santidade do nascimento. Minha inclinação era considerar o nascimento o ponto de partida para a queda, e assim matutava tristemente dias a fio à luz cinzenta da janela sobre o que me fora dado. Tudo que despertava compaixão me marcava muito. Na realidade e na arte eu era sensível em primeiro lugar às obras que tratavam da tristeza, do insuportável, do trágico. E também não sabia o que fazer com tudo que era positivo, que tinha ligação com o prazer. A alegria me incomodava muito.

DA: E quando isso mudou?

KL: Não se pode precisar esses momentos, não porque eles não existam, mas porque nunca sabemos o instante em que alguma coisa dá a volta.

DA: A partir da sua primeira obra a marca mais conspícua é a frase longa. Me parece no entanto que essas frases longas combinam melhor com seus livros mais recentes, de temas orientais, porque esse compasso lento irradia a experiência do tempo das culturas do Leste. Sem-pressa, como os monges que desenham uma mandala. Essa experiência diversa do tempo nas culturas orientais realmente o influenciou?

À concepção de tempo deles não conviria nem a frase longa nem a frase curta, mas sim o silêncio. A estrutura frasal que eu uso é antes resultado de um processo interno. Não escrevo meus textos nem no laptop nem à máquina, e sim na cabeça, em grande unidades, e quando uma dessas unidade está completamente pronta, aí escrevo. Por isso há uma conexão profunda das minhas frases com o discurso vivo, não com o Oriente. Em geral passo meus dias sozinho, assim falo com pouca frequência, mas quando falo é horrivelmente muito e continuamente, nunca coloco ponto, assim como muita gente por aí. Pode prestar atenção que a maioria das pessoas fala do jeito que eu escrevo. O discurso vivo não aprecia frases curtas, o truncamento. Aos meus ouvidos a frase curta é afetada, artificiosa, para mim a frase longa é o único modo natural de retratar o discurso vivo e sobretudo o pensamento.

DA: Na época da mudança de regime o senhor foi à China pela primeira vez, e sob o efeito disso nasceu O prisioneiro de Urga. Muitos críticos consideram esse momento uma virada na sua obra. Além da renovação artística, até onde foi  determinante do ponto de vista humano essa influência? Por exemplo, o senhor tornou-se budista?

KL: Não me tornei. Mas me apaixonei, porque é possível se apaixonar pelo Budismo. É uma visão de mundo escandalosamente sensata, louca e nobre. Fiquei apaixonado, mas por alguma razão insondável, ele não me transformou. Tomemos o Japão. Encontrei um número bastante grande de europeus e americanos que haviam chegado ao Japão com o santo objetivo de mudarem suas vidas. Quando ainda estavam no expresso Narita vindo do aeroporto, ou seja, mal haviam desembarcado e pegado o trem a caminho de Tóquio, seus olhares enlevados denunciavam que acreditavam já estar começando a se transformar em um novo eu. E não era, é triste, mas não era verdade, não estavam chegando a lugar nenhum, a pessoa não pode se libertar do que é. Não assim.

DA:  Eu pensei que tivesse sido uma mudança bem maior na sua vida, já que o Oriente determinou, por exemplo, uma direção inteiramente nova nos seus temas.

KL: O prisioneiro de Urga se passa no Oriente, mas o protagonista é um garoto do Alföld [planície carpática húngara. NT]. E o de Rombolás és bánat,** por sua vez, é um escritor magiar que ama a cultura clássica chinesa. E no romance Északról hegy, Délről tó*** os protagonistas são um jardim japonês e um fantasma que procura esse jardim – um fantasma da cultura da época imperial na Kioto moderna. Foi com muita paixão que eu me voltei para as culturas do Oriente, me dediquei muito, o máximo possível, li muito nas línguas das quais pude me aproximar ou em traduções, vivi lá, fiquei bem familiarizado com essas culturas, mas permaneci aqui. É em vão que uma pessoa daqui tenta transferir-se culturalmente para lá.

DA: Sua esposa é sinóloga, não é?

KL: É sim, e ela me ajuda a compreender e aceitar isso.

DA: Em outra entrevista o senhor contou que quando esteve na China pela primeira vez lhe aturdiu o fato de o país continuar igual ao império dos tempos antigos. Poucos anos depois, em seguida a uma nova visita, indicou que já não tinha a mesma impressão. Fico curiosa, segundo o senhor o que mudou na China em dois ou três anos que não havia mudado em milênios?

KL: Mudou o meu ponto de vista, gradualmente sofri erosão nos dez anos corridos entre as duas imagens da China. Quando estive lá a primeira vez fiquei atordoado de ser possível estar, em 1990, num país que tinha muitos milhares de anos ininterruptos de passado. Isso para um europeu é uma experiência espantosa, para mim sobretudo, que venho da Europa Central, onde compreendemos história apenas como rupturas. Ao passo que lá eu me encontro um dado ano de um fluxo histórico ininterrupto, e não venham dizer que Mao Tse-Tung encerrou e recomeçou a história da China. A china já teve muitos Mao Tse-Tungs.  Naturalmente já houve muitas mudanças dentro da China. Neste momento ocorre uma reviravolta histórica muito importante. O regime político, ao seu modo sempre instável, continua firme, mas em termos econômicos começou um desenvolvimento inaudito nesse império inerentemente terrivelmente pobre. Volta o espírito prático que sempre caracterizou a China, onde a propriedade, a riqueza e o dinheiro desempenham um papel especial. Os chineses se alegram em possuir. Os centros comerciais húngaros têm um ambiente desanimado se comparado com o atmosfera refrescante de um centro comercial chinês, o excesso de brilho é o mesmo, a diferença é que os chineses muito fazem compras com muita alegria. É inacreditável. Parecem crianças quando ganham um bolo de dinheiro.

DA: Estranho paradoxo, que a China comunista seja o império econômico número um, até a América deve a eles. Por outro lado, no entanto, a China é que foi incorporada pelo capitalismo. A segunda metade do século 20 foi de luta entre essas duas ideologias. Na sua opinião, qual delas ganhou?

KL: A ideologia comunista perdurou – chamemo-la, antes, de corporações estado-socialistas – porque o mecanismo que a garante atualmente é legitimado precisamente pela liberdade que ela tornou possível quando se deu conta de que era sua única maneira de sobreviver. E ninguém venceu. Ainda não. A luta ainda nem se agudizou. Vem pela frente.

[Fim da 1ª parte; a parte final virá assim que eu conseguir dar conta da tradução]

*Meu primeiro contato com essa entrevista foi numa versão editada, mais curta, na edição Inverno 2011 da revista (em papel) Hungarian Quarterly, e através das referência contida lá cheguei à versão integral em magiar no origo.hu, base para a tradução acima, de minha (ir)responsabilidade 😉

** título completo: Rombolás és bánat az ég alatt (Destruição e pesar sob o céu), de 2004, que está sendo traduzido para o inglês como Destruction and sorrow beneath the heavens por Ottilie Mulzet.

*** título completo: Északról hegy, Délről tó, Nyugatról utak, Keletről folyó (Vindo do Norte montanha, do Sul lago, do Oeste estradas, do Leste rio), de 2003, atualmente em tradução para o inglês como From the North by Hill, From the South by Lake, From the West by Roads, From the East by River por George Szirtes.

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6 Respostas para “Fala Krasznahorkai László, ganhador do Prêmio Man Booker International 2015

  1. Pingback: Fala Krasznahorkai László, ganhador do Prêmio Man Booker International 2015 | Substantivo Plural

  2. Szia! Muito obrigado por seu trabalho precioso! Compartilhamos seu blog e este post com nossos amigos no facebook. Csodálatos! Udv. Rádio Húngara

  3. Inês Rosa Bueno

    Chico, gostei muito da entrevista. Mas, como se comenta logo na primeira pergunta, nem sempre o que ele diz fica inteiramente claro. A impressão que me dá é de que ele sobrepõe, no mesmo plano, “áreas” diversas do seu objeto de reflexão. Isso, é algo de que gosto, por vezes inclusive transitando entre um e outro, sem avisos. Mas, nem sempre as ligações e associações que ele faz para chegar a determinadas conclusões ficam claras. Isso, principalmente nas perguntas sobre a China, no final dessa primeira parte.
    É interessante quando ele fala de si, de suas longas frases, de seus dias solitários, envolvidos com diálogos internos. E da maneira como seus sentimentos vão mudando com a idade. Eu me vi um pouco nele, mas ainda mais jovem do que ele. Por vezes, conviver com a alegria ainda é difícil. Há momentos em que conviver com um grupo de pessoas alegres leva a um profundo exercício de reflexão, que me coloca na posição de observadora. Mas, imagino que quando não sobre mais tanto tempo para examinar trampolins de abordagem para a vida, só nos reste a opção de mergulhar na alegria quando ela se apresente. Ao menos em seu caminhar solitário, ele encontra uma esposa, que guia seus passos no Oriente e na China e o consola quando se frustra, mostrando um lado do mundo que conhece mais profundamente que ele… em tudo isso, ele não está só.
    E me vi muito nele quando descreve suas sensações ao observar pessoas que chegam ao Oriente acreditando que vão encontrar uma transformação pessoal que, como ele diz, é muito difícil porque ninguém deixa de ser aquilo que é. Algumas pessoas se colocam em situações radicais, passam por verdadeiras epopeias de privação dos sentidos, procurando transformações radicais e lá um belo dia, de tanto tentar, para não se frustrar, resolvem fazer essa transformação enquanto descascam batatas na cozinha da sua própria casa. apenas porque descobrirem que querer algo é muito simples, como descascar batatas. Basta querer. E por pequenas que sejam essas transformações, podem justamente representar esse mergulho na alegria… até, por exemplo, por reconhecer que sua esposa entende tudo isso junto com vc e compreende também esse ansiar sem jamais alcançar o Oriente, que acho que é muito dos europeus mesmo… desde Marco Polo… agora… vejo que mesmo entre os húngaros isso ocorre… é como os portugueses, que vivem de olhos ultramar… o que buscam? Algo que jamais encontram… mesmo colonizando, mesmo escravizando… mas, talvez, ao voltar para casa depois de cinco naufrágios e olhar a esposa nos olhos, vendo-a como igual, encontrem… acho que o europeu talvez dependa disso… de encontrar um igual, do qual ele foge a vida inteira. Talvez esse relativo, relativo a outros seres, seja muito diferente para um europeu… um indivíduo que vaga pelo mundo sozinho e alheio a tudo, à procura de sua rosa, como o pequeno príncipe. Onde entra o diferencial húngaro nisso?? Onde esse bloqueio na sensação humana de pertencimento ao bando começou a travar o fluxo da percepção de alguns de nós e até onde ele marca o sentir de um brasileiro… numa roda de samba… ou diante de um livro escrito por um húngaro?? Talvez lendo o livro dele eu encontre algumas respostas.
    Traga logo a segunda parte e avise. E parabéns pelo seu trabalho. Gostei da maneira modesta e simpática como vc o apresenta.
    Inês

    • Chico Moreira Guedes

      Szia, Inês! Obrigado pelo seu longo e sensível (vindo de vc isso não surpreende, claro) comentário. Há várias coisas nele a que eu gostaria de me referir mas não posso fazê-lo agora porque estou meio apurado, inclusive na tentativa de traduzir a conclusão da entrevista, porque traduzir do húngaro para mim é um desafio perene, e que sempre toma tempo. Diria apenas, por enquanto, sobre sua pergunta sobre o “diferencial húngaro”, que no meu entender, há uma marca cultural – quem sabe até psico-social – específica dos húngaros, que é definida duplamente: pela sua consciência história de povo originariamente nômade vindo de muito longe no Leste, do sopé dos Urais siberianos e, consequente e importantemente, pela língua magiar, vigorosa sobrevivente dessa longa marcha, esse freak linguístico oriental no centro da Europa, constantemente lembrando a eles que são e não são europeus ao mesmo tempo, um questão identitária ainda insolúvel mesmo após quase 1.200 anos da sua chegada na Bacia Carpática. Junte-se a isso a ocupação turca de meio território por quase 200 anos, o arrogante domínio austríaco que lhe seguiu, a traumática perda de ⅔ do seu território no final da Primeira Guerra Mundial, o terror nazi-facista durante a Segunda Guerra, o regime totalitário estalinista de Rákosi Mátyás de 45 a 56, o esmagamento da revolução popular de 1956 pelos tanques soviéticos, com a consequente ‘recolonização’ pelos interesses russos até 1989, a implantação de um ‘capitalismo selvagem’ a partir daí, e você começa a entender a complexidade específica que marca a cultura e, portanto, a memória e a literatura dos magiares. Beijo. Chico

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