Hungria: de eleições, rótulos, e outras provocações

Sziasztok!

Desde que foram divulgados os resultados das eleições parlamentares de domingo na Hungria tenho lido várias coisas que aparecem nos meus ‘radares’ nas redes sociais. Resolvi traduzir este artigo do jornalista, blogueiro e escritor britânico Neil Clark (mais informações sobre ele no final do artigo) porque para mim ele joga alguma luz nos motivos por que o Fidesz foi re-eleito com uma maioria tão significativa. Como verão, o artigo contém também outros elementos bastante provocadores, que refletem as convicções do autor. Eu pessoalmente gosto de uma provocação bem feita, que me faça pensar, questionar, duvidar, concordar – no todo ou em parte – ou discordar, refutar… coisas que provavelmente também fazem bem aos neurônios, risos. 

Segue-se o artigo, na íntegra:

Eleições na Hungria: Não se deixe enganar pelos rótulos, por Neil Clark*

De um lado temos um governo que fez re-nacionalizações, enfrentou as gananciosas companhias de energia controladas no estrangeiro, e produziu um aumento real dos salários e a queda no desemprego.

Esse governo impôs também uma tributação aos bancos e implementou outras medidas para ajudar as pessoas comuns – inclusive um decreto governamental baixando as contas de energia.

Do outro lado há uma aliança de oposição que é a favor de mais privatizações, pretende outras medidas para beneficiar os “investidores” globais, é abertamente pró-banqueiros e pró-globalização, e cujo principal membro aliado, quando esteve no poder, produziu cortes drásticos nas despesas públicas, destruiu companhias estatais, incluindo a companhia aérea Malév, e deixou milhões de de pessoas em situação pior do que antes.

Bem, você provavelmente pensaria que o governo em questão é “socialista” ou “esquerdista”, e a oposição, “conservadora”. Mas, na realidade, é o contrário. O governo húngaro, que acabou de ser re-eleito com cerca de 45% dos votos, sem dúvida tem feito mais pelas pessoas comuns do que a oposição “socialista” fez quando esteve no poder de 2002 a 2010 (e digo isso como socialista de toda vida, e não defensor do Fidesz).

A Hungria demonstra que temos que tomar cuidado com os “rótulos” quando se trata de eleições na era do neoliberalismo e da globalização. Pois algumas vezes são os partidos “conservadores” que podem – e conseguem – oferecer às pessoas comuns muito mais do que os “socialistas”, ou que se pretendem de “esquerda” ou “centro-esquerda”.

Falsa esquerda

Em anos recentes temos visto em toda a Europa partidos da dita “esquerda” ou “centro-esquerda” apoiar guerras ilegais da NATO, implementar privatizações, austeridade e outras “reformas” para beneficiar os 1%. Quando os franceses votaram nos socialistas em 2012 provavelmente não imaginavam que estavam elegendo um presidente que era ainda mais belicista que Nicolás Sarkozy, o bombardeador da Líbia, mas foi exatamente isso que aconteceu.

Nem os eleitores britânicos que votaram nos trabalhistas em 1997 podiam prever que Tony Blair levaria o país a uma sucessão de guerras ilegais de agressão, ou que sob o governo trabalhista a diferença entre pobres e ricos continuaria a crescer como tinha acontecido quando os conservadores estavam no poder.

Os alemães que votaram no Partido Social Democrata (SPD) em 1998 também não teriam acreditado que o partido introduziria reformas neoliberais que iriam mais longe do que qualquer coisa feita pela administração anterior, liderada pelos democratas cristãos.

A esquerda europeia definitivamente não é o que era 40 anos atrás, quando tínhamos partidos genuinamente socialistas liderados por socialistas genuínos. Quando votamos em eleições hoje em dia precisamos ter consciência clara da “falsa esquerda”, de como os partidos esquerdistas europeus em anos recentes têm sido dominados por forças pró-guerra, pró-globalização e pró-neoliberalismo, cuja missão é destruir os últimos vestígios do socialismo e da social-democracia – e amarrar firmemente a política externa dos seus países aos EUA, enquanto demonstram total obediência também à UE, bem como forte apoio a Israel.

Os rótulos

Para não sermos enganados, é importante não julgarmos os políticos ou seus partidos pelos nomes que ele se dão, mas pelo que fazem. Enquanto o Primeiro Ministro “direitista” da Hungria combatia as companhias de energia, o ex-Primeiro Ministro Gordon Bajnai, da oposição “esquerdista liberal” pedia o retorno de uma política econômica “racional”, isto é, amiga do capital internacional.

Precisamos fazer uma proposta aos investidores: cortes nos impostos em troca de investimento”, dizia Bajnal.

E enquanto o Ministro da Economia Mihály Varga advertiu que sanções contra a Russia não seriam do interesse nacional da Hungria, (elas claramente não o são) Bajnai e outros membros da Aliança da Unidade “progressista” e “esquerdista liberal” atacaram o governo por não defender a Ucrânia e condenar a Rússia. A agenda da oposição húngara está aí para quem quiser ver.

O povo húngaro, diga-se em seu crédito, não se deixou enganar pelos globalistas pró-grandes empresas mascarados de “progressistas” nesta eleição: o bloco de oposição obteve cerca de 25% dos votos.

A reação internacional aos resultados da eleição na Hungria também é reveladora. Temos visto muitos tweets e artigos de comentaristas do establishment ocidental expressando seu alarme em relação ao crescimento do Jobbik, um partido radical ultranacionalista que obteve em torno de 20% dos votos, 4% mais do que quatro anos atrás.

Curiosamente, no entanto, a mesma turma de comentaristas do establishment que nos nos adverte sobre os perigos do Jobbik na Hungria, poucas semanas atrás apoiava um golpe violento liderado por ultra-direitistas/neonazistas contra um governo democraticamente eleito na vizinha Ucrânia. Parece que não deveríamos considerar como um problema a chegada de racistas, anti-semitas e homofóbicos ao poder na Ucrânia. Mas espera-se que perdamos noites de sono por causa do apoio ao Jobbik na Hungria, embora esse partido não terá membros no novo governo, como os grupos de ultra-direita em Kiev têm atualmente.

Popular anti-popular

Por que os dois pesos e duas medidas? Bom, o Jobbik é anti-União Europeia mas não anti-Russia, diferentemente dos grupos ultranacionalistas da Ucrânia. Em outras palavras, as elites ocidentais baseiam sua visão sobre os partidos ultra-nacionalistas não numa avaliação objetiva desses grupos, mas considerando a posição deles em relação à Russia, e se eles podem ajudar a alcançar seus objetivos geoestratégicos. Devemos odiar o Jobbik com todas as nossas forças, mas não precisamos odiar os grupos mascarados de extrema-direita mais extremistas e mais violentos que, mascarados e atirando coquetéis Molotov, derrubam à força um governo democrático na Ucrânia. Na verdade não devemos nem prestar atenção a eles.

A cobertura negativa que o governo da Hungria recebe da mídia elitista ocidental tem a mesma causa. O governo da Hungria é tratado negativamente na imprensa porque vem se tornando cada vez mais eurocético, afastando-se do neoliberalismo, impôs tributos a multinacionais estrangeiras e – talvez seu maior “crime” – tem buscado laços financeiros mais próximos e maior cooperação com a Russia.

A política de Orbán é permanecer na União Europeia mas rejeitar as suas pressões, e levar a Hungria a fazer o que é melhor para a Hungria. Trata-se de uma posição que é claramente popular com os eleitores, mas não com Bruxelas. A elite ocidental odeia não só o socialismo – socialismo mesmo, não-diluído, do tipo venezuelano – mas qualquer governo que combine nacionalismo moderado com populismo econômico, como Orbán faz. As grandes empresas tiveram vida fácil na Hungria no período de 2002 a 2010, quando os “socialistas” estavam no poder, vendendo os ativos do país e fazendo um empréstimo ao FMI do qual o país não precisava; agora o capitalismo global não anda muito contente com a caminho mais independente adotado em Budapeste.

Ao invés de ficar acabrunhada com a volta de um governo “conservador” na Hungria, a esquerda genuína deveria se alegrar com o fato de a modalidade falsa ter levado outra surra, como ocorreu em 2010. Agora há uma oportunidade de uma oposição de esquerda genuinamente anti-imperialista, anti-globalista, anti-neoliberal e anti-elitista emergir e desafiar o governo e o Jobbik de uma perspectiva socialista na próxima eleição. De qualquer modo, considerando-se o ocorrido nos últimos 12 anos, há mais probabilidade de um governo do Fidesz beneficiar as pessoas comuns do que o governo neoliberal irredutível que a Hungria iria ter agora se a oposição tivesse ganhado as eleições.

Olhando para um quadro mais abrangente, a esperança é de que a derrota da esquerda ‘fake’ na Hungria possa levar à sua destruição também em outros países; com partidos falsamente socialistas/progressistas sendo substituídos por partidos genuínos, que ponham os interesses da maioria em primeiro lugar. Na Alemanha esse processo já começou, como o Die Linke (A Esquerda) desafiando fortemente o colaboracionista SPD.

Enquanto isso é de se esperar que os ataques ocidentais à Hungria continuem. Afinal é o tratamento dado a qualquer país onde uma eleição não sai do jeito que os 1% querem.

* Hungary’s elections: Don’t be fooled by the labels, de Neil Clark, publicado no site RT – Question More

 

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2 Comentários

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2 Respostas para “Hungria: de eleições, rótulos, e outras provocações

  1. Guilherme

    Grande Chico! Em relação ao post anterior, sobre a suposta difusão do medo na Hungria, uma amiga minha me escreveu um e-email, preocupada com a situação, ao que eu lhe respondi:

    “Então, também li esse post, assim como diversos outros artigos e notícias sobre as eleições. Agora estou conseguindo ler, bem devagar e com muita dificuldade, os jornais locais também.

    Acho que o artigo talvez seja um pouco exagerado. Exageros típicos da retórica política e jornalística. O FIDESZ, partido no poder desde 2010, tem adotado várias medidas para concentrar poderes no governo, inclusive aprovando uma nova constituição. Há uma boa dose de autoritarismo nisso, principalmente em relação à oposição. O problema parece ser que essa mesma oposição, herdeira do partido comunista, frustrou tanto a população quando estava no poder (não só pela corrupção, mas também pelo arrocho fiscal, neoliberalismo desmedido, etc) que permitiu uma maioria de 2/3 do FIDESZ em 2010 e agora em 2014 também. A situação é complexa, com certeza. Veja só: a oposição de “esquerda” surgiu da desintegração do comunismo e se rende mais facilmente ao neoliberalismo da UE, enquanto a centro-direita no poder é mais intervencionista, eurocética e também mais autoritária.

    Mas em relação ao medo, me parece exagero. A classe política que está na oposição pode até estar sofrendo mais, mas o cidadão comum acho que não vê tanta mudança assim de um governo para outro, com exceção de algumas medidas populistas do governo atual (tipo baixar as tarifas de transporte público meses antes da eleição).

    Enfim, é esse o meu “olhar estrangeiro”. O que acho mais preocupante não é nem tanto a vitória do atual governo, mas sim o crescimento do Partido Neonazi (Jobbik), que teve 20% dos votos. Isso sim dá medo. E não é só aqui na Hungria, mas em toda a Europa. Parece que o fundamentalismo econômico da UE tem andado passo a passo com outros fundamentalismos já bem conhecidos aqui no velho continente.”

    Aquele abraçoooo

    • Chico Moreira Guedes

      Szia Guilherme!
      Seu comentário como ‘testemunha ocular dos fatos’;-) é muito esclarecedor e bem-vindo. Köszi szépen!
      Um abraçaço pra vc também

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