A Hungria 4 anos depois: volta o medo*

Com a ida dos húngaros às cabines de votação neste domingo (6 de abril), a imprensa internacional vem dirigindo a atenção para o governo do Fidesz, cuja re-eleição é previsível. Nos últimos quatro anos o governo Orbán tornou-se notório por revisões da história húngara, pressão sobre bancos e companhias de energia, tratamento sofrível das minorias, e limitações na liberdade de expressão.

Algo que tem faltado em boa parte da cobertura sobre a Hungria, no entanto, é o aumento do medo na sociedade húngara. Alguns poucos jornalistas húngaros tem tido a coragem de falar das suas experiências com a intimidação e a censura, especialmente na imprensa estatal, onde certos assuntos não podem ser tratados. Alguns ex-funcionários estatais, desde o ex-membro da administração do Fidesz na área da agricultura, Ángyan József, até burocratas do Banco Central têm denunciado corrupção e intolerância com opinião dissidente em todo o aparelho governamental. O Fidesz e a oligarquia de seus apoiadores controlam não só a burocracia estatal e a maior parte da mídia, mas também muitos negócios e contratos governamentais. Maridos, esposas e amigos de figuras da oposição, portanto, não conseguem empregos. O resultado é que alguns húngaros passaram a ter medo de expressar suas opiniões.

Esse medo se estende para além dos ministérios e órgãos de mídia. Existe em empresas privadas, nas escolas, e em lares por todo o país. Na sua raiz, o medo provém do declínio das instituições democráticas da Hungria e da falta de controles sociais sobre o poder do partido no poder. Nos últimos quatro anos o Fidesz vem usando sua maioria de dois terços no parlamento para assumir o controle de instituições nominalmente independentes. O Conselho de Mídia, que supervisiona ambos a imprensa oficial e a imprensa privada, é dominado por membros leais ao Fidesz. Juízes da mais alta corte foram obrigados a se afastar para dar lugar aos nomeados por Orbán, solapando-se assim o papel do judiciário de fiscalizador das ações do executivo. Não há, portanto, qualquer instituição para defender as pessoas despedidas por motivos políticos, ninguém disposto a iniciar uma investigação sobre a censura.

O medo não é, é claro, comparável ao medo que sentem chineses, uzbeques, ou iranianos, que vivem sob regimes muito mais fortes e autoritários. Mas a volta do medo à Hungria após uma ausência de duas décadas é um fato significativo. Ele tem um impacto no dia-a-dia de milhões de pessoas, e não tem lugar em uma sociedade democrática morderna. A existência desse tipo de medo dentro da União Europeia deveria disparar alarmes em todo o continente.

O Fidesz provavelmente ganhará as eleições, mas o medo não tem que continuar junto com o governo Orbán. Embora os tribunais não sejam mais independentes, os cidadãos podem buscar a União Europeia, que deve aliar ações concretas à sua retórica, inclusive suspendendo verbas da UE enquanto a Hungria continuar violando os direitos de seus próprios cidadãos. Funcionários públicos que se depararem com abusos de poder devem denunciar. Cidadãos comuns precisam se sentir no direito de debater os eventos atuais com seus amigos, vizinhos, e colegas de trabalho. Há membros do Fidesz que veem com reserva a direção do seu partido. Eles devem desafiar sua liderança. Como Vaclav Havel escreveu em O Poder dos Sem-poder, temos que viver dentro da verdade.

*tradução (minha) de “Hungary four years on: the return of fear“, artigo de @liliebayer para o site Vostok Cable, que me chegou hoje pelo twitter via @ZwKrakowie (Zoltán Aszod). 

 

 

PS:Para quem lê inglês, no Christian Science Monitor de hoje há um artigo de Valentina Jovanovski também sobre as eleições parlamentares na Hungria: Hungary heads to the polls. Is it a ‘free but unfair’ election?

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8 Comentários

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8 Respostas para “A Hungria 4 anos depois: volta o medo*

  1. Caro Chico, seu artigo é muito lúcido e oportuno. Parabéns por compartilhar. Um abraço, Jorge Purgly

    • Chico Moreira Guedes

      Kedves Jorge, que bom que vc também achou o artigo da Lili relevante e oportuno.
      Obrigado mais uma vez pelo apoio e atenção que vc tem com o HungriaMania.
      Um abraço,
      Chico

      • Estimado Chico, me sinto honrado em poder contribuir.
        Talvez você possa me ajudar em uma dúvida muito importante que também deve ser do interesse de muitos húngaros de dentro e fora da Hungria e de muitos descendentes radicados no Brasil.
        No ano de 1945 meus pais precisaram deixar tudo o que tinham, exceto a roupa do corpo, para salvar as suas vidas. Em 1949 eles imigraram para o Brasil tendo visto durante 4 anos, ainda na Hungria, a destruição de praticamente todo o patrimônio construído por centenas de anos de geração em geração das famílias tanto por parte de pai como por parte de mãe. Este também é o caso de muitas outras famílias daquela época. Houve mudança de regime, a historia foi reescrita mais de uma vez e agora (2012) alguém teve a ideia de valorizar as ruínas deixadas abandonadas por mais de meio século e coloca-las a venda, ou à disposição da reclamação de herdeiros para reaver e reformar estes patrimônios históricos.
        Existe um site http://muemlekem.hu/
        onde estão listadas estas propriedades.
        Depois de abrir, clique em
        Objektumok
        Desça o cursor até
        Név e na frente no campo em branco digite: o nome da família a pesquisar
        em seguida clique sobre
        Mehet mais embaixo no texto.
        Assim vão aparecer as propriedades que foram avaliadas.
        Basta clicar sobre o nome de uma delas para abrir o arquivo correspondente.
        Creio que o texto lá é auto-explicativo para quem fala Húngaro.
        Por conta do interesse econômico na herança inclusive tem surgido muitos herdeiros na Hungria com registros falsos pleiteando imóveis.
        Estou falando apenas dos imóveis que estão dentro do país Hungria, que como se sabe, no Pacto de Varsóvia perdeu 2/3 do seu território e após a segunda guerra mundial teve mais uma redução em suas fronteiras.
        Onde há dinheiro envolvido há interesse. Quem sabe se muitos herdeiros no Brasil estão sendo deixados para trás. Talvez haja mais ônus do que bônus em relação a este assunto, mas cabe aos herdeiros decidir isso e de qualquer forma é injusto de estranhos por motivos escusos se apropriem do que é de direito de familia e sem nenhum mérito para isso.
        Chico, a minha pergunta é se você sabe de alguma coisa sobre este assunto.
        Um forte abraço,
        Jorge Purgly
        jorgepurgly@gmail.com

      • Chico Moreira Guedes

        Caro Jorge, creio que era essa a mensagem, certo? estava mesmo na caixa de spams.
        Infelizmente não tenho qualquer informação sobre esse assunto, na verdade sua msg é o meu primeiro contato com ele.
        Mas fica a postagem feita. Espero que seja útil aos interessados.
        Durante uns anos em que morei no Reino Unido, lembro de algo pareciddo ter acontecido na Polônia, que beneficiou a família de um amigo, que também se havia exilado do no início do regime comunista.
        Abraços
        Chico

      • Estimado Chico,
        Meu padrinho Ladislau Homonnay dizia: “Basta viver o tempo suficiente para se ver o contrário de todas as coisas.
        Muito sábio, ele tem razão.
        Soube hoje que o partido de extrema direita foi reeleito.
        Desejo do fundo do coração que todas as minorias sejam respeitadas, e que a Paz possa reinar sobre a Hungria e o mundo.
        Um forte abraço, com estima e consideração,
        Jorge Purgly

      • Chico Moreira Guedes

        Kedves Jorge,
        Sábias palavras, as do seu padrinho!
        Só uma observação: eu diria que o Fidesz é um partido de centro-direita com forte componente autoritário, que se torna mais preocupante quanto maior sua popularidade e seu domínio no parlamento húngaro, confirmados nas eleições de ontem.
        Agora, de extrema direita pode-se chamar o partido conhecido como Jobbik que, infelizmente, segundo o que li hoje, aumentou seu eleitorado de 15% para 20% de 2010 para ontem. Para quem acredita na pluralidade, liberdade de expressão, em suma: no regime de pleno direito e cidadania para todos, estes não são tempos muito auspiciosos para a Hungria.
        Grande abraço,
        Chico

      • Kedves Chico,
        Escrevi um resposta à sua resposta mas como citei um site, deve ter ido para a sua caixa se spam. Por favor verifique e na conveniência de publica-lo fique à vontade.
        Um abraço,
        Jorge Purgly

  2. Republicou isso em Purgly's Bloge comentado:
    Muito oportuno e lúcido este artigo. Até que ponto os húngaros fora da Hungria estão informados dos acontecimentos?

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