Arquivo do mês: abril 2014

Hungria: de eleições, rótulos, e outras provocações

Sziasztok!

Desde que foram divulgados os resultados das eleições parlamentares de domingo na Hungria tenho lido várias coisas que aparecem nos meus ‘radares’ nas redes sociais. Resolvi traduzir este artigo do jornalista, blogueiro e escritor britânico Neil Clark (mais informações sobre ele no final do artigo) porque para mim ele joga alguma luz nos motivos por que o Fidesz foi re-eleito com uma maioria tão significativa. Como verão, o artigo contém também outros elementos bastante provocadores, que refletem as convicções do autor. Eu pessoalmente gosto de uma provocação bem feita, que me faça pensar, questionar, duvidar, concordar – no todo ou em parte – ou discordar, refutar… coisas que provavelmente também fazem bem aos neurônios, risos. 

Segue-se o artigo, na íntegra:

Eleições na Hungria: Não se deixe enganar pelos rótulos, por Neil Clark*

De um lado temos um governo que fez re-nacionalizações, enfrentou as gananciosas companhias de energia controladas no estrangeiro, e produziu um aumento real dos salários e a queda no desemprego.

Esse governo impôs também uma tributação aos bancos e implementou outras medidas para ajudar as pessoas comuns – inclusive um decreto governamental baixando as contas de energia.

Do outro lado há uma aliança de oposição que é a favor de mais privatizações, pretende outras medidas para beneficiar os “investidores” globais, é abertamente pró-banqueiros e pró-globalização, e cujo principal membro aliado, quando esteve no poder, produziu cortes drásticos nas despesas públicas, destruiu companhias estatais, incluindo a companhia aérea Malév, e deixou milhões de de pessoas em situação pior do que antes.

Bem, você provavelmente pensaria que o governo em questão é “socialista” ou “esquerdista”, e a oposição, “conservadora”. Mas, na realidade, é o contrário. O governo húngaro, que acabou de ser re-eleito com cerca de 45% dos votos, sem dúvida tem feito mais pelas pessoas comuns do que a oposição “socialista” fez quando esteve no poder de 2002 a 2010 (e digo isso como socialista de toda vida, e não defensor do Fidesz).

A Hungria demonstra que temos que tomar cuidado com os “rótulos” quando se trata de eleições na era do neoliberalismo e da globalização. Pois algumas vezes são os partidos “conservadores” que podem – e conseguem – oferecer às pessoas comuns muito mais do que os “socialistas”, ou que se pretendem de “esquerda” ou “centro-esquerda”.

Falsa esquerda

Em anos recentes temos visto em toda a Europa partidos da dita “esquerda” ou “centro-esquerda” apoiar guerras ilegais da NATO, implementar privatizações, austeridade e outras “reformas” para beneficiar os 1%. Quando os franceses votaram nos socialistas em 2012 provavelmente não imaginavam que estavam elegendo um presidente que era ainda mais belicista que Nicolás Sarkozy, o bombardeador da Líbia, mas foi exatamente isso que aconteceu.

Nem os eleitores britânicos que votaram nos trabalhistas em 1997 podiam prever que Tony Blair levaria o país a uma sucessão de guerras ilegais de agressão, ou que sob o governo trabalhista a diferença entre pobres e ricos continuaria a crescer como tinha acontecido quando os conservadores estavam no poder.

Os alemães que votaram no Partido Social Democrata (SPD) em 1998 também não teriam acreditado que o partido introduziria reformas neoliberais que iriam mais longe do que qualquer coisa feita pela administração anterior, liderada pelos democratas cristãos.

A esquerda europeia definitivamente não é o que era 40 anos atrás, quando tínhamos partidos genuinamente socialistas liderados por socialistas genuínos. Quando votamos em eleições hoje em dia precisamos ter consciência clara da “falsa esquerda”, de como os partidos esquerdistas europeus em anos recentes têm sido dominados por forças pró-guerra, pró-globalização e pró-neoliberalismo, cuja missão é destruir os últimos vestígios do socialismo e da social-democracia – e amarrar firmemente a política externa dos seus países aos EUA, enquanto demonstram total obediência também à UE, bem como forte apoio a Israel.

Os rótulos

Para não sermos enganados, é importante não julgarmos os políticos ou seus partidos pelos nomes que ele se dão, mas pelo que fazem. Enquanto o Primeiro Ministro “direitista” da Hungria combatia as companhias de energia, o ex-Primeiro Ministro Gordon Bajnai, da oposição “esquerdista liberal” pedia o retorno de uma política econômica “racional”, isto é, amiga do capital internacional.

Precisamos fazer uma proposta aos investidores: cortes nos impostos em troca de investimento”, dizia Bajnal.

E enquanto o Ministro da Economia Mihály Varga advertiu que sanções contra a Russia não seriam do interesse nacional da Hungria, (elas claramente não o são) Bajnai e outros membros da Aliança da Unidade “progressista” e “esquerdista liberal” atacaram o governo por não defender a Ucrânia e condenar a Rússia. A agenda da oposição húngara está aí para quem quiser ver.

O povo húngaro, diga-se em seu crédito, não se deixou enganar pelos globalistas pró-grandes empresas mascarados de “progressistas” nesta eleição: o bloco de oposição obteve cerca de 25% dos votos.

A reação internacional aos resultados da eleição na Hungria também é reveladora. Temos visto muitos tweets e artigos de comentaristas do establishment ocidental expressando seu alarme em relação ao crescimento do Jobbik, um partido radical ultranacionalista que obteve em torno de 20% dos votos, 4% mais do que quatro anos atrás.

Curiosamente, no entanto, a mesma turma de comentaristas do establishment que nos nos adverte sobre os perigos do Jobbik na Hungria, poucas semanas atrás apoiava um golpe violento liderado por ultra-direitistas/neonazistas contra um governo democraticamente eleito na vizinha Ucrânia. Parece que não deveríamos considerar como um problema a chegada de racistas, anti-semitas e homofóbicos ao poder na Ucrânia. Mas espera-se que perdamos noites de sono por causa do apoio ao Jobbik na Hungria, embora esse partido não terá membros no novo governo, como os grupos de ultra-direita em Kiev têm atualmente.

Popular anti-popular

Por que os dois pesos e duas medidas? Bom, o Jobbik é anti-União Europeia mas não anti-Russia, diferentemente dos grupos ultranacionalistas da Ucrânia. Em outras palavras, as elites ocidentais baseiam sua visão sobre os partidos ultra-nacionalistas não numa avaliação objetiva desses grupos, mas considerando a posição deles em relação à Russia, e se eles podem ajudar a alcançar seus objetivos geoestratégicos. Devemos odiar o Jobbik com todas as nossas forças, mas não precisamos odiar os grupos mascarados de extrema-direita mais extremistas e mais violentos que, mascarados e atirando coquetéis Molotov, derrubam à força um governo democrático na Ucrânia. Na verdade não devemos nem prestar atenção a eles.

A cobertura negativa que o governo da Hungria recebe da mídia elitista ocidental tem a mesma causa. O governo da Hungria é tratado negativamente na imprensa porque vem se tornando cada vez mais eurocético, afastando-se do neoliberalismo, impôs tributos a multinacionais estrangeiras e – talvez seu maior “crime” – tem buscado laços financeiros mais próximos e maior cooperação com a Russia.

A política de Orbán é permanecer na União Europeia mas rejeitar as suas pressões, e levar a Hungria a fazer o que é melhor para a Hungria. Trata-se de uma posição que é claramente popular com os eleitores, mas não com Bruxelas. A elite ocidental odeia não só o socialismo – socialismo mesmo, não-diluído, do tipo venezuelano – mas qualquer governo que combine nacionalismo moderado com populismo econômico, como Orbán faz. As grandes empresas tiveram vida fácil na Hungria no período de 2002 a 2010, quando os “socialistas” estavam no poder, vendendo os ativos do país e fazendo um empréstimo ao FMI do qual o país não precisava; agora o capitalismo global não anda muito contente com a caminho mais independente adotado em Budapeste.

Ao invés de ficar acabrunhada com a volta de um governo “conservador” na Hungria, a esquerda genuína deveria se alegrar com o fato de a modalidade falsa ter levado outra surra, como ocorreu em 2010. Agora há uma oportunidade de uma oposição de esquerda genuinamente anti-imperialista, anti-globalista, anti-neoliberal e anti-elitista emergir e desafiar o governo e o Jobbik de uma perspectiva socialista na próxima eleição. De qualquer modo, considerando-se o ocorrido nos últimos 12 anos, há mais probabilidade de um governo do Fidesz beneficiar as pessoas comuns do que o governo neoliberal irredutível que a Hungria iria ter agora se a oposição tivesse ganhado as eleições.

Olhando para um quadro mais abrangente, a esperança é de que a derrota da esquerda ‘fake’ na Hungria possa levar à sua destruição também em outros países; com partidos falsamente socialistas/progressistas sendo substituídos por partidos genuínos, que ponham os interesses da maioria em primeiro lugar. Na Alemanha esse processo já começou, como o Die Linke (A Esquerda) desafiando fortemente o colaboracionista SPD.

Enquanto isso é de se esperar que os ataques ocidentais à Hungria continuem. Afinal é o tratamento dado a qualquer país onde uma eleição não sai do jeito que os 1% querem.

* Hungary’s elections: Don’t be fooled by the labels, de Neil Clark, publicado no site RT – Question More

 

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A Hungria 4 anos depois: volta o medo*

Com a ida dos húngaros às cabines de votação neste domingo (6 de abril), a imprensa internacional vem dirigindo a atenção para o governo do Fidesz, cuja re-eleição é previsível. Nos últimos quatro anos o governo Orbán tornou-se notório por revisões da história húngara, pressão sobre bancos e companhias de energia, tratamento sofrível das minorias, e limitações na liberdade de expressão.

Algo que tem faltado em boa parte da cobertura sobre a Hungria, no entanto, é o aumento do medo na sociedade húngara. Alguns poucos jornalistas húngaros tem tido a coragem de falar das suas experiências com a intimidação e a censura, especialmente na imprensa estatal, onde certos assuntos não podem ser tratados. Alguns ex-funcionários estatais, desde o ex-membro da administração do Fidesz na área da agricultura, Ángyan József, até burocratas do Banco Central têm denunciado corrupção e intolerância com opinião dissidente em todo o aparelho governamental. O Fidesz e a oligarquia de seus apoiadores controlam não só a burocracia estatal e a maior parte da mídia, mas também muitos negócios e contratos governamentais. Maridos, esposas e amigos de figuras da oposição, portanto, não conseguem empregos. O resultado é que alguns húngaros passaram a ter medo de expressar suas opiniões.

Esse medo se estende para além dos ministérios e órgãos de mídia. Existe em empresas privadas, nas escolas, e em lares por todo o país. Na sua raiz, o medo provém do declínio das instituições democráticas da Hungria e da falta de controles sociais sobre o poder do partido no poder. Nos últimos quatro anos o Fidesz vem usando sua maioria de dois terços no parlamento para assumir o controle de instituições nominalmente independentes. O Conselho de Mídia, que supervisiona ambos a imprensa oficial e a imprensa privada, é dominado por membros leais ao Fidesz. Juízes da mais alta corte foram obrigados a se afastar para dar lugar aos nomeados por Orbán, solapando-se assim o papel do judiciário de fiscalizador das ações do executivo. Não há, portanto, qualquer instituição para defender as pessoas despedidas por motivos políticos, ninguém disposto a iniciar uma investigação sobre a censura.

O medo não é, é claro, comparável ao medo que sentem chineses, uzbeques, ou iranianos, que vivem sob regimes muito mais fortes e autoritários. Mas a volta do medo à Hungria após uma ausência de duas décadas é um fato significativo. Ele tem um impacto no dia-a-dia de milhões de pessoas, e não tem lugar em uma sociedade democrática morderna. A existência desse tipo de medo dentro da União Europeia deveria disparar alarmes em todo o continente.

O Fidesz provavelmente ganhará as eleições, mas o medo não tem que continuar junto com o governo Orbán. Embora os tribunais não sejam mais independentes, os cidadãos podem buscar a União Europeia, que deve aliar ações concretas à sua retórica, inclusive suspendendo verbas da UE enquanto a Hungria continuar violando os direitos de seus próprios cidadãos. Funcionários públicos que se depararem com abusos de poder devem denunciar. Cidadãos comuns precisam se sentir no direito de debater os eventos atuais com seus amigos, vizinhos, e colegas de trabalho. Há membros do Fidesz que veem com reserva a direção do seu partido. Eles devem desafiar sua liderança. Como Vaclav Havel escreveu em O Poder dos Sem-poder, temos que viver dentro da verdade.

*tradução (minha) de “Hungary four years on: the return of fear“, artigo de @liliebayer para o site Vostok Cable, que me chegou hoje pelo twitter via @ZwKrakowie (Zoltán Aszod). 

 

 

PS:Para quem lê inglês, no Christian Science Monitor de hoje há um artigo de Valentina Jovanovski também sobre as eleições parlamentares na Hungria: Hungary heads to the polls. Is it a ‘free but unfair’ election?

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Poesia nas vidraças de Debrecen*

Nos últimos dias vêm aparecendo poemas e versos escritos nas vidraças de lojas, bancos, bares e instituições públicas de Debrecen, cidade do nordeste da Hungria onde morei no final dos anos 90, como alguns devem lembrar de outros posts.

Nas janelas da Escola Secundária de Música estudantes de Comunicação da Universidade de Debrecen escreveram o longo Bartók, poema de Illyés Gyula escrito em 1955 e dedicado ao célebre músico e compositor, também conhecido, sobretudo na Hungria, por sua extensa pesquisa da magyar népzene, a rica música de raiz popular magiar.

Surgiram também, por exemplo, versos de Petőfi Sándor na vitrine de uma loja de bolsas, e algumas linhas de Ady Endre decorando a vidraça de um banco. 

“Preparamos esta ação através de contatos pessoais diretos. Os proprietários de estabelecimentos comerciais receberam bem a ideia, assim como os dirigentes das instituições culturais”, afirma Vranyecz Tünde, responsável pela organização.

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O objetivo da iniciativa, inédita na Hungria, é aproximar, pelo impacto e surpresa, a poesia das pessoas em geral. E a poesia trazida para as ruas vem agradado os pedestres.

“Estamos chamando a atenção para o Festival de Poesia de Debrecen, que começa na próxima semana. Gostaríamos de vestir a cidade de poesia”, revela Kovács Béla Lóránt, diretor da Biblioteca Méliusz.

Até agora as citações poéticas já se espalharam por mais de cinquenta pontos da cidade, e deverão permanecer nas vitrines do centro de Debrecen até o final de abril.

*Adaptado do artigo “Líra az utcán: versek díszítik a debreceni kirakatokat” do site de notícias DEHIR: "http://www.dehir.hu/debrecen/lira-az-utcan-versek-diszitik-a-debreceni-kirakatokat/2014/04/02/

via twitter @molyhu

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