Rónai Pál / Paulo Rónai e ‘Como Aprendi o Português’

Sziasztok!
Desde que a imprensa começou a comentar e comemorar a re-edição de Como Aprendi o Português, livro de Paulo Rónai que, numa edição de décadas atrás, foi meu primeiro contato com o ‘mistério’ da língua magiar (sobre isso escrevi aqui ainda nos primórdios do blog), tenho andado me coçando para escrever alguma coisa sobre o livro e, sobretudo, sobre Paulo Rónai, que é a figura humana mais próxima de um ‘ídolo’ para mim (quem não entender por quê, talvez descubra fazendo uma busca no nome dele na internet).
Paulo-Ronai
Mas os dias foram passando, mais coisas – muitas coisas – foram sendo publicadas sobre o evento e sobre o gigante Rónai, e e comecei a achar que corria sério risco de chover no molhado. Pensei em transcrever simplesmente um ou mais dos bons textos surgidos nos jornais, mas uma coisa e outra foram me fazendo adiar. Até que hoje de manhã meu amigo-irmão carioca Gustavo Barbosa me mandou o link para esta coluna Caetano Veloso n’O Globo deste domingo, 18 de agosto.

Para mim Caetano ‘juntou as pontas’ sobre Paulo Rónai, o livro, nós, o Brasil, tudo; e a emoção que senti ao ler dissipou minhas dúvidas. Segue a coluna de CV:

RÓNAI

Quais as nossas possibilidades de não decepcionar o amor de alguém como Rónai pelo nosso país?
Ganhei de Hélio Eichbauer, como presente de aniversário, um livrinho precioso (entre outros cheios de interesse, ofertados por outros amigos, a que talvez venha a me referir aqui um dia): “Como aprendi o português e outras aventuras”, de Paulo Rónai. Conhecia Rónai de fama e principalmente pelas traduções de Balzac, por ele coordenadas, comentadas e introduzidas, que são um capítulo à parte em minha formação pessoal. Mas o pequeno livro que começa contando como ele, já adulto e professor na Hungria, aprendeu, sozinho, a nossa língua — a língua de um país onde ele então nem sonhava que iria parar — é um encantamento de leveza e profundidade. Rónai não contava com a possibilidade de que o crescimento do nazismo e do fascismo, com a guerra que produziu, o empurrasse para este país maluco, que ele tratou com tanta sobriedade, e no qual se entranhou de modo tão natural.
No livro, além da breve narrativa de como ele entrou em contato com a língua de Camões (que, aprendida em livros, não pôde ser reconhecida nos sons lusitanos, quando ele passou por Lisboa a caminho do Novo Mundo, mas foi reencontrada nos primeiros brasileiros que ele encontrou ao aqui aportar, trabalhadores que lhe portavam a bagagem e funcionários da alfândega), há compartilhamento de segredos da língua magiar (desde a informação — que eu já encontrara no “Budapeste” de Chico Buarque — de que todas as palavras húngaras têm acentuação tônica na primeira sílaba, fato que me parece enigmático e que tenho dificuldade de tentar reproduzir na cabeça, até a onipresença do cachorro nos provérbios e ditos húngaros), um artigo sobre a presença mundial de Camões e “Os lusíadas”, e sugestões para o aprimoramento do ensino em nossas escolas. Fagulhas de diálogos com Guimarães Rosa e entusiasmada reiteração da amizade e admiração por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira se distribuem pelas páginas do livro.
Bate em mim de modo forte a informação de que esse livro de Paulo Rónai foi publicado em 1956. Foi o ano que passei no Rio. Foi o ano em que Vinicius e Tom Jobim compuseram e lançaram o “Orfeu da Conceição” (e que me levou a contar, de volta a Santo Amaro um ano depois, por causa de uma entrevista de Haroldo Costa sobre a peça, que entrevi na TV de um amigo dos meus primos em cuja casa eu morei naquele ano, que o então já famoso letrista Vinicius de Moraes, de quem meus colegas falavam no ginásio Theodoro Sampaio, era preto — o que o próprio Vinicius, sem saber, ecoou, anos depois, na afirmação, incluída no “Samba da bênção”, de que ele era “o branco mais preto do Brasil”). Fico imaginando o quanto eu ansiava, em Guadalupe, por algo como o livrinho de Rónai, sem imaginar que isso estivesse ao alcance de minha mão. E, agora, leio as palavras dele sobre nossa língua, nossa cultura e nossa vida estudantil à luz de tudo o que aconteceu nesses anos que nos separam daquele. À luz do que os brasileiros pedem hoje de seu sistema educacional.
Neste exato momento, estou me preparando para entrar no palco e fazer o show “Abraçaço” para que seja gravado em DVD. E tenho na cabeça o livro simples e rico de Paulo Rónai. Quais as nossas possibilidades de não decepcionar o amor de alguém como Rónai pelo nosso país? Como devemos medir nossas responsabilidades? Leio que o ministro Joaquim Barbosa tratou o colega Lewandowski de modo no mínimo inapropriado. E que o dólar subiu mais do que em 2009. Uma manifestação é tida como desproporcional por, contando com 200 participantes, ter parado o trânsito da cidade por mais de sete horas. O Capilé, o Fora do Eixo e mesmo a Mídia Ninja, me contam, vêm sendo linchados nas redes sociais. Quantos esforços temos que fazer para dar conta do que nos é apresentado pela realidade! Precisamos de calma e firmeza, destreza e maleabilidade, tudo num ritmo adequado à capacidade de superação de crises. A leitura surpreendente desse livro pequeno e despretensioso me deu uma lição inesperada de senso de medida, de elegância eficaz, de amor respeitoso e ponderado. Paulo Rónai não saberia o quão grato um semidesorientado menino de 14 anos de Guadalupe se sente, aos 71, à sua inteligência, sua serenidade e sua confiança. Sim, a confiança natural que emana das páginas de seu livro, confiança em nós, é o que mais me marcou nessa leitura. Rónai exala uma confiança instintiva no Brasil. Tentemos viver à altura.”

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13 Comentários

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13 Respostas para “Rónai Pál / Paulo Rónai e ‘Como Aprendi o Português’

    • Chico Moreira Guedes

      Köszönöm.
      Quando for a SP aparecerei pra matar saudades das delícias magiares. (Será que fazem meggyes rétes? e madártej? são os meus favoritos)
      Üdv.

      • madártej não fazemos, mas fazemos um delicioso meggyes rétes. Quando vier a São Paulo, venha nos visistar, será um prazer! Vc é meu convidado!

      • Chico Moreira Guedes

        Szia Simone, perdoe a demora em postar e responder sua mensagem.
        Cheguei de viajem dois dias atrás, gripado, e só agora começo a tentar por em dia a correspondência.
        Köszönöm szépen a meghívást! Assim que der pra ir a São Paulo certamente aparecerei.
        Abraços

  1. Puxa vida, seu blog maravilhoso é uma luz para mim! Estou escrevendo um romance sobre uma personagem húngara e gostaria muito de conversar mais com você, se não for te incomodar. Se puder, por favor, me passe algum contato seu para que possamos nos comunicar melhor.
    Obrigada, Noemi Jaffe.

    • Chico Moreira Guedes

      Kedves Noemi, muito obrigado pelas suas palavras tão gentis.
      Infelizmente ando meio afastado das atividades do blog, mas terei grande prazer em manter cantato com vc, embora não saiba ao certo em que poderei ser útil.
      Vou lhe enviar agora meu email e telepones via email.
      Abraço, Francisco

  2. Cris

    Olá
    Meus avós vieram da Hungria para o Brasil. Meu pai é nascido no Brasil e tem o nome húngaro. Meus avós quando chegaram aqui e foram fazer o registro tiveram seus sobrenomes adulterados. Registraram como SEKE, e o correto se não me engano é SZÜKI. O nome do meu pai é FERRY SEKE que significa Francisco Louro. Não sei como encontrar possíveis parentes aqui ou na Hungria com esse sobrenome. Sabe como me ajudar?
    Obrigada.

    • Chico Moreira Guedes

      Szia, Cris!
      Obrigado pela sua visita.
      Se o sentido é mesmo ‘Louro/a’, o sobrenome original dos seus avós teria sido Szöke.
      Como o português não tem a vogal ‘ö’, que é um som bilabial, de ‘biquinho’, como o francês ‘eux’, ou como o ö alemão em Göethe, não é surpresa que tenham aproximado pra ‘Seke’, já que o ‘sz’ tem mesmo o som do nosso ‘s’ inicial.
      Quem sabe colocando esse nome no google ou no facebook vc encontre algumas conexões interessantes?
      Boa sorte.
      Abraço.

    • Chico Moreira Guedes

      Ah, e o Ferry do seu pai já parece uma adaptação ‘à inglesa’ de Feri, diminutivo e apelido carinhoso de Ferenc (pronuncia-se /férents/) que é Francisco em magiar. Se tivesse nascido e ficado na Hungria, portanto, o nome dele teria sido Szöke Ferenc.

  3. Bom dia,
    Sou uma hungara de Budapest que por uma gran casualidade tinha comprado o livro “Como aprendi o portugues” em uma livreria de segonda mao. O interessante é que o livro é firmado pelo propio autor pra Fifi, a mulher do gran poeta hungaro Miklós Radnóti, e te uma dedicacao especial. Nao conhecía antes a Paulo Rónai – Rónai Pál, mas agora fico feliz e com muitas ganas de saber mais coisas sobre esse personagem tao especial. Gostei muito do seu articulo! Obrigada!
    Adriana

    • Chico Moreira Guedes

      Szervusz Adriana!
      Bem-vinda ao blog. Obrigado pela visita e pelas palavras gentis.
      Que bela história essa de você ter encontrado um exemplar de Como aprendi o português oferecido à mulher de Radnóti!
      Este livro está em português ou também foi editado em magiar?
      E você, como aprendeu o português?
      Üdv
      Chico

      • Adriana

        Szervusz Chico! 🙂
        Obrigada pela resposta! Voce fala muito bem o hungaro, é inacreditavel que alguem de tao longe se interesasse pela nostra lingua e cultura. É por isso que adoro tambem Chico Buarque, ele faco o gran esforco mental para imaginar uma cidade que nunca visito.
        O meu livro ” Como aprendi o portugues” é em portugues, é a edicao do 1956, igual como esse volumen: http://ecx.images-amazon.com/images/I/51Pz7KkqRqL.jpg
        Foi uma sorpresa total encontrar a dedicacao de Rónai a Fanni Gyarmati, viúva de Miklós Radnóti. Ao final do livro tem una dedicatoria ao poeta falecido. Agora estou lendo o livro e gosto muito dele. Adoro a lingua portuguesa pela sua musicalidade e gostei de ler o mesmo entusiasmo de parte de Rónai, isso que logo llevo-o a parar ao Brasil. Desculpe-me pelo meu portugues ruim, nao falo quasi nunca. E a minha base é o espanhol, a vezes falo portunhol…
        Üdvözlet Budapestről 🙂
        Adriana

      • Chico Moreira Guedes

        Kedves Adriana, bárcsak igazad lenne! Pedig nagyon bénan beszélek magyarul és még rosszabbal is írok :-/
        Mégis köszönöm szépen a kedves szavaid. (Ne haragudj, hogy tegezelek, így könnyebb nekem)
        Bármikor jössz Braziliába remélem, hogy Natal-t is látogathetsz. Voltál már itt az orságunkban?
        Seu português é formidável, com apenas leves toques de portunhol, perfeitametne compreensíveis.
        Você por acaso estudou línguas na ELTE?
        Gostaria de lhe perguntar uma coisa. Há dias estou tentando traduzir (quando tenho tempo e cabeça) um texto que Krasznahorkai László escreveu na Magyar Narancs logo depois da morte trágica de Borbély Szilárd. Nele tem um parágrafo sobre cujo sentido exato eu me sinto bem inseguro. Pergunto se vc teria tempo e “saco” pra dar uma olhada nesse parágrafo e na minha tentativa de traduzí-lo. Se não tiver, não tem problema. Igen hálás lennék érte 😉
        Abraço potiguar (potiguares é como chamam-se os habitantes do Rio Grande do Norte, nome da tribo indígena que vivia por aqui no passado)
        Chico

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