Arquivo do mês: janeiro 2013

Rontott nyelv: a língua danificada, por Ottilie Mulzet*

Para o amigo Oswaldo Ribeiro, que sempre compartilha ótimas coisas que encontra por aí, e é quem me mandou o link para o texto que aqui vai traduzido. (ver + abaixo)

O conceito de “língua danificada (deteriorada, em ruínas)” (rontott nyelv) talvez seja específico à tradição hermenêutica literária húngara. Sua etimologia se baseia no morfema RO-, que gerou um grupo de de palavras em húngaro cujos significados remetem a noções de dano, decomposição, estrago, corrupção, destruição e apodrecimento, gerados espontaneamente ou infligidos. A frase posta no passado pareceria indicar que a ruína ou o dano já teria ocorrido, que é tarde demais para qualquer intervenção.

Mais especificamente, o termo rontott nyelv surgiu nos anos 1960 e 1970 para descrever ocorrências na literatura húngara contemporânea, referindo-se a poetas e escritores como Petri György, Sijj Ferenc, e Party-Nagy Lájos**. Aparece sobretudo na obra de críticos como Kulcsár-Szabó Zoltán. Em um dos sentidos, ‘língua danificada’ se referia a uma rebelião contra normas lingüísticas. É claro que, no contexto de uma nação centro-européia relativamente pequena, com suas Academias, Institutos e Comitês de Língua, a necessidade presumida de tais normas é completamente diferente da de uma vasta língua global, tal como o inglês. O legado de ‘língua danificada‘ permanece, no entanto. Um exemplo marcante é a obra de Borbély Szilárd, como na seqüência de sonetos Ámor és Psyché, nos quais a forma do soneto em si começa a se romper sob o peso filosófico da própria linguagem.

Uma olhada rápida no dicionário proporciona alguns insights intrigantes: o verbo ront pode ser usado para designar um objeto físico que não tem mais condições de uso. Em usagem mais antiga, popular, está associado à idéia de mau olhado. É a tangibilidade em si do termo língua em ruínas ou danificada que me fascina, no entanto. Essa habilidade que a língua tem de abarcar o processo de deterioração; mais especificamente, a habilidade da língua húngara de abarcar a ruína: uma formulação que de certa maneira evoca a língua como um espaço físico, um pano de fundo para um drama, a língua como, talvez, a mais monumental ruína de todas, bem como a língua como o teatro ideal para o espetáculo infeliz do estrago humano.

E há, certamente, as ocasiões quando a própria palavra, como entidade física concreta existente no espaço, começa literalmente a apodrecer. Um caso desses se encontra na poesia do tempo da guerra de Radnóti Miklós (1909-1944). Ainda durante o regime do Almirante Horthy — que Kertész Imre descreveria mais tarde como tentativa de prepará-lo para aceitar os eventos criminosos da Segunda Guerra Mundial como normais — o pressentimento de acontecimentos ainda mais sinistros que viriam é palpável na sua obra. Radnóti se converteu ao catolicismo em 1943 (em grande parte, ao que parece, por razões teológicas: sua relação com o judaísmo era complexa). Em 1940 ele foi convocado para o que era eufemisticamente denominado ‘serviço de trabalho’, mas era, na realidade, trabalho forçado; em pouco tempo o enviaram para campos de trabalho forçado na Transilvânia e, em seguida, na Sérvia. As condições eram profundamente, criminosamente brutais. Radnóti foi morto a tiros durante uma marcha forçada no outono de 1944; seu corpo foi exumado de uma cova coletiva 18 meses mais tarde. Miraculosamente, um diário de bolso do ano de 1944 sobreviveu; ainda mais miraculosamente, como escreve seu biógrafo Győző Ferenc, cinco dos dez poemas contidos nesse caderno podiam ser lidos claramente. As duas primeiras páginas trazem a anotação, escrita em cinco línguas — húngaro, sérvio, alemão, francês e inglês — de que o caderno ‘contém poemas do poeta húngaro Radnóti Miklós’ , e o pedido, expresso muito polidamente, de que ele fosse devolvido ao professor Ortutay Miklós, em Budapeste.
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Quando se observam as páginas do caderno (na edição em preto-e-branco reimpressa pela Magyar Helikon, 1971), pode-se notar onde as palavras cuidadosamente escritas no outro lado da página começaram, como presenças fantasmagóricas, a atravessar o papel, que era, sem dúvida, fino e de qualidade ‘tempos-de-guerra’. Às vezes se consegue quase discernir uma palavra ou uma letra; mais freqüentemente essas presenças indecifráveis pairam no fundo como nuvens contra um céu de inverno. Vemos as palavras começando a se desintegrar diante dos olhos, a língua escrita retornando aos seus elementos constitutivos básicos de líquido e fibra, às suas origens pré-verbais. Às vezes uma frase parece emergir do véu de fumaça; às vezes desaparece nele. Győző Ferenc escreve que os dois últimos poemas estão permeados de fluidos corporais: saliva, urina, e sangue. O corpo do poeta continuou a escrever depois de ele ter sido morto.

O nome de Radnóti não é normalmente associado às pronunciadas tendências literárias (chamá-las de movimento, apesar de sua profunda significância para a literatura contemporânea húngara, seria ir longe demais) de 40 ou 50 anos após a sua morte nas mãos dos fascistas. Ambas foram, no entanto, um tipo de poesia de testemunho. Radnóti deu testemunho poético de sua época assassina; os poetas do final do século XX, com o seu uso da língua profundamente experimental e rebelde, das ‘desintegrações’ do final da era Kádár. No entanto, esses últimos poemas de Radnóti, corporificações da ruína física, arrebatados das presas da ruína, e sua decomposição literal no bolso do casaco do poeta na cova coletiva em Abda parecem prefigurar a crise e a desintegração da língua com a qual seus sucessores iriam se confrontar mais tarde — e com a qual todos nós , em alguma medida, nos confrontamos hoje.

Ottilie Mulzet traduz do magiar e do mongol. Atualmente completa um PhD sobre charadas e provérbios mongóis. Seu trabalho artístico, prosa, e fotografia têm aparecido no jornal Revolver, baseado em Praga, desde 2000.

* Tradução do inglês feita por mim de Ruined Language, Damaged Tongues, como está publicado e pode ser lido no original no site The Missing Slate.

** Aos eventuais novatos, informo que no HungriaMania costumo usar a ordem dos nomes de pessoa à maneira magiar: sobrenome antecedendo o prenome; que, aliás, parece ser comum às línguas asiáticas em geral. Quem conferir o original do artigo, em inglês, verá que ali os nomes estão todos ‘invertidos’ para se adequarem à maneira ‘ocidental’; vai encontrar, por exemplo, György Petri, ao invés de Petri György, que apareceria em texto em magiar, e é a maneira como o próprio Petri úr (Senhor Petri) se apresentaria num contexto de cultura húngara. Como eu, se fosse húngaro, ao me apresentar a outro húngaro, diria: Guedes Francisco vagyok = Sou Francisco Guedes.

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Budapesti szecesszió épitészet és művészet / Arquitetura e arte secessionista de Budapeste

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Para embelezar a noite do domingo e desejar a todos uma boa hét /rêêt/ (semana) segue abaixo o link para belas fotos de detalhes do estilo de época conhecido como Secessionismo, termo devido ao caráter de ruptura com a arte acadêmica do final do século 19 na Europa, e que, como poderão perceber, liga-se diretamente com o movimento Arts and Crafts e Pré-rafaelita britânicos e ao Art Nouveau, mas a meu ver inclui, claramente, elementos de transição para e de autêntico Art Deco. A Hungria tem exemplos magníficos desse estilo, sobretudo na arquitetura, a partir do grande pioneiro Lechner Ödön, autor inclusive do hoje Museu de Artes Aplicadas de Budapeste, cuja porta de entrada aparece na foto acima. Para os curiosos há muitas outras imagens relativas a ele AQUI.

E aqui o link a que me referi:
Art Nouveau Society – Details from Szecesszio buildings in Budapest

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Boldog új évet / Feliz ano novo

Uma passada rápida para desejar a todos um ótimo 2013.

E como o ano não passa ainda, digamos, de um kisbaba (/kishbóbó/ kis=pequeno e baba=bebê, baby), deixo-os com esta aulinha de magiar para crianças que o alerta do google me mandou há poucos minutos.

Divirtam-se.

A história começa com cumprimentos básicos: Hogy vagy? (como vais?) – Jól vagyok. (vou bem). Depois, olhando pela luneta o crifrudinho pergunta Mi az? (que é aquilo?). Aí aparece állatok = animais.
Notem o uso do K para formação do plural em magiar.
E ‘Ez egy…’ = isto (é) um/a (Ez = isto, este/a e egy = número 1 ou artigo um/a).
Notem também o uso de két e kettő para o número 2. O primeiro usado junto com o substantivo, e o outro, quando o número está sozinho.

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