Para onde vai a Hungria? Fala Nádas Péter, escritor

Minha primeira estadia na Hungria se deu exatamente uma década depois da queda do muro de Berlin e das mudanças políticas que chacoalharam o chamado Leste Europeu com o fim dos enferrujados regimes estabelecidos na região a partir do final da Segunda Guerra Mundial sob a esfera de influência da finada União Soviética.

Uma coisa que percebi com o tempo – e que me causava tristeza – é que na arena política que se formou após a mudança do regime uma disputa ferrenha entre os dois partidos principais parecia impedir qualquer compromisso em favor de um projeto nacional que impulsionasse a sociedade húngara na direção de uma democracia verdadeira, não apenas formal, que produzisse transformações que beneficiassem a nação como um todo, e não apenas grupos próximos ao poder. Percebia já então um desprezo da pessoas amigas pela elite político-econômica magiar que me parecia prematuro, considerando o pouco tempo decorrido desde a mudança de regime.

Mais recentemente, nas eleições gerais de 2010, ventos mais preocupantes sopraram, com a eleição de uma maioria parlamentar formada pela direita tradicional, representada pelo partido Fidesz, mas completada com a ascensão de um partido de inspiração claramente xenofóbica e socialmente intolerante, conhecido como Jobbik.

São tensões antigas, sobre as quais já tratei aqui, quando falei de ciganos, que se juntam a novos fatos econômicos e sociais. E sobre isso falou com muita propriedade o escritor Nádas Péter nesta entrevista que deu ao jornal alemão Die Zeit em abril de 2010.
Aqui o link para o original em inglês que me serviu de fonte para a tradução que fiz e transcrevo aqui, e que traz uma nota final sobre Nádas, para quem ainda não conhece esse mestre da prosa contemporânea magiar, que já foi citado em mais de uma ocasião quando se aproxima o anúncio do Prêmio Nobel de literatura.

Nádas Péter

Quem desejar conhecer mais sobre Nádas Péter (e for leitor de inglês)pode conferir o perfil que apareceu no New York Times em 2007.

À entrevista:

Sr. Nadas, has eleições na Hungria houve um triunfo da direita – isso é uma virada histórica?

Nádas Péter: Era de se prever que os populistas de direita do Fidesz conseguiriam formar uma maioria absoluta, mas o partido dos Jobbik, de ultra-direita, teve um pouco menos de votos do que se temia. Mesmo assim Orbán Viktor, líder do Fidesz, tinha razão quando se referiu à sua maioria absoluta como uma “grande transição” – mas num sentido diferente do que ele pretendia. O que estamos vendo agora estava em preparação há 15 anos. São as sementes de um sistema autoritário.

Um em cada seis votos húngaros foi para o partido antissemita e xenofóbico dos Jobbik.

Sim, mas provavelmente pelos menos metade desses veio de eleitores inseguros e mutantes que corem atrás de populistas de qualquer cor. O problema da nossa esfera política pública é a ausência de uma classe-média estabilizadora. O desejo de estabilidade no nosso sistema nos leva a buscar uma mão forte. Isso favorece a quem promete mais.

Os Socialistas, que foram apeados do poder na eleição e que perderam quase metade dos seus votos, também têm responsabilidade pelo que aconteceu?

O que os Socialistas fizeram foi catastrófico. Durante oito anos do seu governo eles levaram o país numa trajetória em ziguezague. Todas as suas tentativas de reforma falharam, o orçamento nacional foi tão mal administrado que a Hungria foi afetada de maneira extremamente dura pela crise econômica mundial. Mas você não poderia nem chamá-los de um partido socialista. Eles não defendem mais princípios socialistas. Por trás da máscara de slogans socialistas se esconde um modelo autoritário. É o legado do regime de Kádár: um estado protetor que não tolera oposição. Além disso era um governo tomado pela corrupção, o que compromete os socialistas no poder.

Isso não afetou todos os partidos políticos?

A competição política degenerou numa luta pelo estado enquanto presa. Os socialistas pilharam o estado enquanto estiveram no poder. Mas os europeus devem evitar apontar o dedo procurando culpados. Porque a entrada na EU em 2004 só fez piorar as coisas, porque aí entrou o dinheiro da EU na jogada. O embate político-partidário se tornou apenas uma fachada de uma luta por dinheiro. Sem uma burguesia nacional a sociedade do Leste Europeu não pode se estabilizar. E é isso que eu entendo como a “grande transição” que estamos enfrentando agora. O primeiro round da tentativa da Hungria de alcançar os estados modernos da Europa falhou.

A Europa podia ter feito alguma coisa para evitar que isso acontecesse?

Ela deveria ter regulado politicamente o processo de privatização. Mas as grandes potências econômicas como França e Alemanha só se preocuparam com a atração de novos mercados – e, de acordo com o credo liberalista da época, elas não acreditavam que processo necessitasse de regulação. O governo húngaro ficou então basicamente administrando fundos que as grandes empresas estrangeiras passaram a pagar como impostos. Uma sociedade civil local de classe-média nunca foi criada.

Como a Europa deve reagir em relação ao novo governo?

É importante que se reconheçam os próprias erros. As grandes empresas alemãs e francesas se comportam como senhores coloniais na Hungria. São os únicos empregadores disponíveis e há uma carência de sindicatos de trabalhadores. Então ninguém deve se surpreender com a popularidade dos Jobbik quando pais de família desesperados estão sendo permanentemente dispensados de seus postos só para serem readmitidos em seguida sob condições piores. Os europeus não podem agora procurar a saída fácil de simplesmente se distanciarem desses verdadeiramente horrorosos neofacistas. Essas pessoas não nasceram assim.

Há alguma coisa que Orbán realmente possa fazer na Hungria? Ou mesmo na EU, já que a Hungria deverá assumir em breve a presidência da EU?

Incomoda-me que se fale da Europa sempre em termos tão solenes. Infelizmente achamos difícil imaginar a Europa com todos esses membros desagradáveis e incompletos. Faz muitos anos que Europa Ocidental não demonstra quase nenhum interesse pelo pobre e desinteressante Leste Europeu. E agora há a tentação de se afastar dele com desaprovação. Poderia ser uma lição valiosa para ambas as partes agora que essa mesma Hungria deverá presidir a UE – num momento em que tudo que ela quer é se fechar em si mesma. Certamente será altamente controverso. Orbán tem muito pouco espaço de manobra. O país está altamente endividado e precisando de reformas radicais – na educação, saúde e pensões. A burocracia está absurdamente inflada. Um terço da população vive à custa do estado. Precisamos da ajuda da Europa. Não virem as costas agora! Não precisamos de uma nova cortina de ferro.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Para onde vai a Hungria? Fala Nádas Péter, escritor

  1. minden jot üdvözöl mario top tenOi chico
    por isso que a nova evolucao partidaria é o partido dos piratas ..
    estes sim que tem konow how como roubar …
    ai no brasil ja apareceram os piratas ?
    abcos
    da fria salzburg

    • Chico Moreira Guedes

      Szervusz!
      O que não falta no mundo são piratas!
      Como iria faltar logo no nosso Brasil tropical?
      obrigado pelas palavras gentis

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