Esti Kornél, herói ‘noturno’ da literatura magiar

Esti Kornél /Éshti Kornêêl/ é um protagonista, e espécie de alter-ego, de Kosztolányi Dezső, poeta, romancista, tradutor, editor e crítico literário, figura-chave da vida intelectual na Hungria da primeira metade do século XX, sobre quem já falei brevemente aqui.

Seu nome poderia ser traduzido em nordestinês como Cornélio Noitinha, pois Esti deriva de este, a parte inicial da noite, a ‘evening’ do angol (a forma com -i final é adjetiva, como Natali, significa natalense, por exemplo). E ele não terá esse nome por acaso. Num tributo a esse personagem marcante da magyar irodalom (literatura), Esterházy Péter (Flipa 2011) evoca Esti como “um entardecer sombrio, um por-do-sol purpúreo, uma happy-hour, Esti é a luz declinante, Esti é uma brisa leve e uma conversa tranquila, uma taça de vinho companheira e uma prece solitária…

As histórias desse herói ‘noturno’ apareceram reunidas inicialmente em um volume de 1933, chamado precisamente Esti Kornél. Aliás, foi descobrir (aqui) o lançamento recente da edição em inglês que me fez decidir apresentá-lo aos leitores do blog.
Mas a “vida” de Esti Kornél não se resumiu a esse primeiro volume. Kosztolányi continuou escrevendo narrativas breves protagonizadas pelo seu “duplo” ficcional, que eram publicadas em revistas e jornais da época, e só mais tarde – em muitos casos, apenas postumamente – foram reunidos em livros.

O conto que transcrevo abaixo, publicado no volume Esti Kornél Kalandjai (Aventuras de Esti Kornél), foi traduzido por Paulo Rónai e incluído na sua fundamental, imprescindível, e nunca suficientemente elogiável Antologia do Conto Húngaro, à qual faz tempo me referi aqui. (Corram à Estante Virtual!)

Na apresentação bio-literária que faz de Kosztolányi, Rónai nos adverte:

“Em nenhum dos cinco contos de Desidério Kosztolányi traduzidos para este volume “acontece” alguma coisa. No entanto, em todos eles se tem a sensação de algo transcendental, de abismos que andamos beirando, de janelas que se abrem de repente sobre mistérios que nos rodeiam desde sempre e que nunca percebemos.”

E esclarece mais adiante que “foi Kosztolányi quem, pela primeira vez na literatura húngara, aproveitou em seus estudos de almas os resultados da psicanálise“.

Eu não me atrevo a dizer mais nada. Melhor passarmos ao conto, pois não.

O FARMACÊUTICO E ELE

Numa noite quente de primavera, Esti Kornél, que devaneava ante a vidraça de uma farmácia de subúrbio, sentiu-se tomado de violenta tristeza à vista da pobreza deplorável daquela vitrina. O espetáculo cativou de tal forma a sua alma doentia que, durante muito tempo, não conseguiu arrancar-se do lugar.
Nos arrabaldes, as livrarias vendem geralmente cadernos, borrachas e penas; as farmácias, escovas de dentes, pincéis para a barba, pomadas para o rosto. Em tais estabelecimentos se encontram amontoados numerosos produtos de beleza, como se o verdadeiro mal da humanidade não fossem as doenças, a legião dos achaques, mas sim a feiura.
Aquela farmaciazinha, com seus letreiros luminosos que se apagavam e acendiam a cada segundo, recomendava dois artigos evidentemente produtos do próprio farmacêutico. Um dos anúncios repetia sem parar: “Xerxes acaba com a tosse mais obstinada”; o outro berrava para dentro da escuridão da rua: “Pó Afrodite contra a transpiração das mãos, dos pés e das axilas”.
De compradores, porém, não havia nem sombra. Dentro da loja, um homenzinho baixo, insignificante, esperava sentado. Vestido de cinzento, de cabelos cinzentos, tinha um ar desanimado, frouxo, que lembrava um suicida na iminência de cometer o ato.
Esti sentiu pena dele, e entrou.
― Perdão ― balbuciou, olhando em redor. ― Não sei se o senhor terá algum produto contra tosse.
― Pois não! ― disse o farmacêutico com um sorriso afável ― pois não!
― Está certo ― interrompeu-o Esti com o dedo em riste. ― Mas a minha tosse não é de hoje. Resfriei-me muito no ano passado; desde então, por mais que faça, não paro de tossir. É uma tosse maligna, como direi? Durável…
Parou como para procurar o termo exato, até que o encontrou:
― Obstinada.
― Xerxes ― disse o farmacêutico ― Xerxes.
Pulou uma prateleira, e num abrir e fechar de olhos lhe chegava ao nariz o produto milagroso, encerrado numa vistosa caixinha.
― Este acaba com a tosse?
― Com a tosse mais obstinada ― replicou o outro, enquanto lá fora o letreiro bradava a mesma frase. ― Caixa pequena ou grande?
― Bem, talvez a grande.
― Que mais deseja V. Ex.ª? ― indagou o farmacêutico, enquanto embrulhava a mercadoria em papel cor-de-rosa.
― Nada mais ― respondeu Esti com um gesto evasivo. Tinha uma prática enorme da representação de tais cenas.
― Obrigado.
Pagou e foi saindo.
Ao por a mão na maçaneta, pareceu estacar, vacilar. Voltou-se. O farmacêutico aproximou-se dele:
― Ordena mais alguma coisa?
― Bem… isto é… ― balbuciou Esti. ― É que nas mãos…
― Já sei ― disse o farmacêutico, rápido como o relâmpago. ― Afrodite, sim senhor, Afrodite.
― É de efeito certo?
― É garantido.
― Pois é, mas…
― Para os pés também ― disse o farmacêutico, abaixando a voz e dando-lhe tom mais íntimo ― para os pés também.
A tensão dramática chegou ao cúmulo. Esti fez como quem ainda não tivesse resolvido a compra por lhe haver surgido uma dúvida, como quem possui um segredo de família, sombrio e fatal, que ainda não confessou a ninguém. O farmacêutico sustentou-o, cochichando-lhe algumas palavras. Esti acenou, confesso e humilhado, mandando embrulhar uma caixa do outro produto também.
Uma vez na rua, parou novamente diante da vitrina; mas o que ele contemplava agora era o farmacêutico. Estava este como eletrizado por ter encontrado precisamente o espécime da humanidade sofredor que unia em si milagrosamente todos os requisitos de que ele carecia. Andava lépido de um lado para outro, como quem vislumbra novos planos, e acendeu um charuto.
Esti, ao passar vagarosamente pela ponte, atirou as duas caixinhas ao Danúbio sem o menor espalhafato, dizendo de si para si:
― “Prolonguei-lhe a vida por um mês, pelo menos. Já que não consigo absolutamente consolar a mim mesmo, pelo menos consolarei a outros. É preciso restituir a essa gente a sua fé na vida, deixá-la viver. Um dos meus professores me aconselhava a não deixar passar nenhum dia sem praticar alguma boa ação. Dizia que só assim a gente dormia tranquila. Pois bem, vamos ver se hoje consigo dormir sem o luminal.”

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4 Comentários

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4 Respostas para “Esti Kornél, herói ‘noturno’ da literatura magiar

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  2. Não conheço palavras apropriadas para agradecer a tudo que escreves aqui. Sou encantada pela cultura magiar e me sinto transportada para um lugar secreto e indescritível em Budapeste toda vez que leio teus escritos. Espero que continues a digitar muitas páginas.

  3. Estou morando em budapeste encontrei seu blog e estou encantada em conhecer toda essa cultura e de uma forma simples e bem objetiva …parabéns pelo blog estou adorando

    • Chico Moreira Guedes

      Szervusz, Rafaela. Que bom que vc apareceu aqui e curtiu o blog.
      Me dá grandes saudades de Budapeste, ouvir vc dizer que está morando aí.
      Aproveite muito e coma muita pogacsa da Princess (dentro das estações do metro) e meggyes rétes por mim 😉
      üdvözlettel,
      Chico

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