Arquivo do mês: setembro 2011

Tibor Moricz : raízes magiares de um escritor brasileiro (+ um conto)

Tenho quase certeza que foi um RT do amigo @lexdesouza que colocou o nome Tibor Moricz no meu radar. A “hungarice” óbvia do nome me chamou logo a atenção. Seguindo a pista do twitter fui em busca da pessoa por trás do nome. Feitas as primeiras descobertas, senti que era uma ótima oportunidade para o HungriaMania acolher – pela primeira vez num post exclusivo – um ilustre filho da diáspora magiar no Brasil.
(O sobrenome em magyar é Móricz, com vogal longa’ó‘, e se pronuncia Môôrits)

Propus algumas perguntas, que Tibor gentilmente topou responder, e sugeri que escolhesse um conto de sua lavra para presentear os olvasók (leitores) do blog.

Claro é que, muito antes de chamar minha desavisada atenção, Tibor Moricz já era e é figura sobejamente conhecida de muita gente boa Brasil afora. E não apenas como autor, mas também como comentarista e crítico de literatura de Ficção Científica, atividades que exerce no seu próprio espaço na teia, o É só outro blog – de nome excessivamente modesto.

Mas vamos à nossa breve entrevista:

1. Qual sua conexão familiar com a Hungria?

Meus pais nasceram e viveram na Hungria até o final da segunda grande guerra, quando então se juntaram a um grupo de refugiados e abandonaram tudo em busca de um lugar melhor e mais seguro para viver. Foram para a Venezuela onde ficaram alguns anos e depois vieram ao Brasil, estabelecendo-se em São Paulo, Capital, onde já os esperavam meus avós e tios. Tudo o que sei da Hungria vem das histórias que cresci ouvindo.

2. Você e/ou alguém da família mantêm algum contato com parentes ou amigos na Hungria? E com a diáspora húngara no Brasil?

As redes sociais aproximam todos nesse mundo enovelado pelas conexões virtuais. Assim, tenho conhecimento de parentes distantes que vivem na Hungria; primos e primas. O sobrenome Moricz é um poderoso indicativo de familiaridade. Onde há um Moricz, há um parente. Quando eu era criança meus pais, avós e tios se irmanavam dentro da colônia húngara. É natural que os iguais se procurem, que se esforcem em manter laços de proximidade, exercitando a culinária, a língua, mantendo viva a sua cultura. Mas com o passar dos anos foi acontecendo uma lenta e paulatina desagregação. Hoje eu não tenho nenhum contato com a colônia húngara.

3. Você fala e/ou entende, lê, ou escreve magyarul?

Quando criança, antes de entrar na escola eu, segundo minha já falecida mãe (e segundo poucas recordações minhas), falava húngaro, que era a língua oficial dentro de casa, junto à família. Depois que comecei a estudar fui deixando o húngaro de lado e hoje não sei nada embora consiga entender o que dizem com razoável acuidade.

4. Tem algum interesse ou conhece alguma coisa de literatura húngara?

É curioso que, sendo escritor e sendo descendente de húngaros, jamais tenha demonstrado interesse pela literatura húngara. Conheço alguns nomes como Molnár Ferenc e Móricz Zsigmond, de quem li Flor de Abandono.

5. Há alguma ligação familiar com o citado Móricz Zsigmond?

Móricz Zsigmond era meu tio-avô por parte de pai.

(Nota: M.Zs., ilustríssimo tio-avô de Tibor, foi um grande mestre do realismo social na literatura húngara da 1ª metade do séc XX. Tem contos e um romance traduzidos no Brasil. Aguardem post específico)


6. Conversando tempos atrás com Puskás István, amigo magiar que é professor na Universidade de Debrecen e tradutor de italiano, perguntei-lhe especificamente sobre autores húngaros de Ficção Científica, pois tinha interesse em incluir alguma coisa numa pequena antologia de autores contemporâneos que venho preparando lentamente. Ele me disse que a Hungria não tem uma tradição em FC, como também não teve uma literatura gótica. Sabia disso (ou concorda)? E no seu caso, como nasceu a ligação com a FC?

Não possuo conhecimento sobre a literatura húngara então me sinto desconfortável em falar sobre ela. Mas me parece que há, mesmo que insipiente (devemos levar em consideração que a FC brasileira, mesmo admitindo o recente “boom” do gênero, é relativamente insipiente, também), um fandom de Ficção Científica e Fantasia no país, embora desconheça o nível de importância que o gênero alcance por lá. Mas essa pergunta me deixou curioso. Tenho o contato de uma autora húngara de FC e vou entrevistá-la para conhecer mais a realidade deles.

Minha ligação com a FC foi meio casual. Decidi escrever profissionalmente há poucos anos quando li um livro de Stephen King (Saco de ossos) e o achei tão ruim que até eu conseguiria produzir algo melhor. Então mergulhei em vários exercícios literários, rabisquei inúmeros romances, a maioria inacabada, até que terminei meu primeiro livro: Síndrome de Cérbero.

Trata-se de um drama psicológico onde a FC entra como pano de fundo, uma ferramenta para intensificar os conflitos do protagonista. Em momento algum, enquanto o escrevia, me passou pela cabeça que estivesse construindo uma obra de FC. Foram membros do próprio fandom que me abriram os olhos. Mas, apesar disso, não me considero especificamente um escritor de FC. Sou um escritor, e só isso. O gênero não me define.

7. O que você já produziu e publicou até agora?

Dois romances: Síndrome de Cérbero (FC – JR Editora – 2007), O Peregrino, em busca das crianças perdidas (FC e Fantasia – Editora Draco – 2011) e Fome, uma antologia fix-up distópica (FC – Tarja Editorial – 2008).

Além desses, tenho contos publicados em Contos Imediatos (Editora Terracota – 2009), Dieselpunk (Editora Draco – 2011), Imaginários 2 (Editora Draco – 2009) — coleção à qual fui um dos organizadores —, nas revistas virtuais Terra Incógnita (2008) Kaliopes (2008) e Machado (2010) e na revista Scarium (2009). Ainda em 2011 serei publicado em mais duas coletâneas.

8. Já tem alguma coisa traduzida pra outra(s) língua(s)?

Infelizmente, não. Mas permaneço correndo atrás. Quem sabe para o húngaro?

9. Que subgênero(s) da FC você prefere e/ou pratica?

Dedico-me à soft SciFi com abordagens humanistas. Utopias e Distopias. Recentemente me arrisquei no weird com um Weird Western (O Peregrino) e fui bem sucedido. Trafego por alguns subgêneros sem especificidade, mas sempre focando no homem que é de onde tudo sai e tudo volta.

10. Situe o conto que você escolheu pra publicar no HungriaMania na sua produção.

Cibermetarealidade foi publicado pela primeira vez na coletânea Contos Imediatos da Editora Terracota em 2009. Trata-se muito mais de uma alegoria do que uma FC autêntica. Falo do próprio homem através de metáforas e de seu processo de descobertas pessoais. Abordo a filosofia como ferramenta evolutiva e a introspecção como prática necessária para o autoconhecimento. Foi considerado um conto memorável, à época, pelo jornalista e crítico Antonio Luiz M. C. Costa da revista Carta Capital.

Para quem quiser mais informações sobre Tibor Moricz e sua literatura há uma entrevista bem mais completa com ele no blog Cilindroide.
Agora, apertem os cintos e boa viagem:

CIBERMETAREALIDADE

O céu estava cinza chumbo. Parecia que ia chover. A cidade se avolumava e se recolhia, ora inchando, fazendo suas partes se multiplicarem numa velocidade vertiginosa, ora se esvaziando num frenesi metalomaníaco. As ruas rangiam, corrugando-se e distendendo-se, fazendo deslizar ou sacolejar os veículos que nela transitavam. Milhões e milhões de habitantes se moviam para lá e para cá, em constante atividade. Imensos como outeiros, mínimos como partículas infinitesimais. Construindo e destruindo sistematicamente.

Estamos imersos numa imensa megalópole, transpirando vida intensa e em constante renovação. O rugir de tratociberlimpadores recolhendo fragmentos das ruas e, às vezes, as próprias ruas, calçamentos e transeuntes desavisados. O vôo caótico e agitado de libemetatransportadoras, carregando peças metálicas, as mais diversas, para as mais diversificadas aplicações. O movimento nervoso e ininterrupto de aracnometacirurgiões, fazendo e refazendo constantemente, corrigindo, consertando, aplicando e retirando, responsáveis diretos pela manutenção física da urbe.

Bilhões vezes bilhões de nanociberconstrutores, responsáveis pela existência de tratociberlimpadores, libemetatransportadoras, aracnometacirurgiões e todas as outras formas autômatas, mecânicas e pulsantes, como os homociberperambuladores cuja função é caminhar de lá para cá, observando, alertando, apontando e aprendendo.
Milhares de homociberperambuladores seguindo caminhos que conduzem a muitos lugares ou a lugar nenhum dentro da labiríntica cidade. Cabeça, corpo e membros em constante mutação. Movimentos sincrônicos executados por exércitos de minúsculos aracnometacirurgiões, que vão deslocando partes pequenas e grandes para possibilitar um erguer de sobrancelhas, um sorriso, um olhar. Bocas que se abrem exibindo dentes móveis, sustentados pelos diligentes artesãos. Vozes elaboradas por avançados sistemas vocais, tonalidades diversas, grossas ou moduladas, suaves mas sempre metálicas. Olhares de espanto, como se espantados estivessem com a constante mutação da cidade. Inteligências artificiais com o dom de aprender, interagir e responder a estímulos. Alguns comuns, sem atividade determinada a não ser existir; outros técnicos, em comunicação ininterrupta com as mais diversas formas automáticas e independentes de locomoção e trabalho da cidade, atuando no aprimoramento e no desmantelamento.
*
É nesse contexto caótico e ao mesmo tempo fascinante que encontramos o homociberperambulador número 2.456.678.014, categoria metaestratus arquiteto. Em meio aos milhares de outros homociberperambuladores, destaca-se apenas pelo ligeiro ar de superioridade e duas dragonas metálicas rubras sobre os ombros, que escorregam um pouco pra lá, um pouco pra cá, na medida em que caminha, sempre observador, atento aos detalhes metamórficos da cidade. Não é o único a desempenhar a importante função de apontar defeitos estruturais nas construções. Assim como ele, centenas de outros perambulam executando o mesmo trabalho, às vezes repetindo as mesmas ordens, indicando os mesmos detalhes a serem corrigidos.

O arquiteto de número 2.456.678.014 olhou para o pulso, de onde um orifício foi rapidamente recortado. Dele surgiu um relógio cujos ponteiros apontavam para a mesma direção, o zênite da circunferência metálica lustrosa. O metaestratus balançou a cabeça, passou a língua áspera pelos lábios e deu as costas ao prédio que, apesar de todos os cuidados, ia soltando pequenos fragmentos de metal, dando trabalho a centenas de tratociberlimpadores menores que corriam pelo chão.

Estava na hora do almoço. E quando ela chegava, dava as costas ao que estava fazendo, fosse o que fosse, tivesse a importância que tivesse. Era um funcionário aplicado, mas obedecia cegamente aos horários determinados. E hora de almoço era hora de almoço.

Aracnometacirurgiões fizeram deslizar o relógio para dentro do pulso e soldaram em fração de segundos uma chapa metálica no orifício recentemente aberto. Outros fizeram o perambulador observar o céu. Outros o fizeram franzir o cenho. Outros apressaram as suas passadas. Outros ainda movimentaram seus braços, num ritmo intenso e constante, num vai e vem sincrônico às passadas. Muitos faziam os dedos se abrirem e fecharem, apertarem-se, crisparem-se.

Entrou no refeitório no mesmo instante em que desabou do céu uma chuva torrencial de limalhas, deixando loucos e furiosos os tratociberlimpadores que, na azáfama, devoravam mais do que elas. Atacavam-se uns aos outros e tudo aquilo que estivesse coberto pela chuva. Era um estardalhaço terrível, um matraquear absurdo. Tratociberlimpadores de diversos tamanhos avançavam, triturando a cidade. Aracnometacirurgiões eram devorados enquanto tentavam consertar os estragos e a si mesmos. A loucura demorou poucos minutos. A chuva torrencial terminou. A cidade estava impecavelmente organizada logo depois. A ordem retornara.

O perambulador arquiteto se sentou, cruzou as pernas – esmagando alguns aracnometacirurgiões que logo foram consertados por outros – e aguardou o atendente. Observava o local, analisava detalhes arquitetônicos, acompanhava as ondulações das paredes, onde placas grandes e pequenas de metal eram constantemente trocadas de posição, reorganizadas, realinhadas e sobrepostas. A cada nanosegundo, assumia uma aparência diversa. Impossível não observar pequenos erros assimétricos de justaposição. Era treinado para isso, aprendera a fazê-lo desde quando não passava de uma ínfima fagulha no âmago dos nanociberconstrutores. Mas não se imiscuiria. Era hora do almoço.

Aproximou-se um atendente. Olhar distante e sorriso frágil. Numa das mãos, uma chapa fina de metal. Na outra, um pontalete de titânio. O perambulador arquiteto solicitou um copo de limalha e uma porção sortida de petiscos de alumínio, ferro, aço e chumbo. Enquanto o atendente batucava o pontalete na chapa de metal, o perambulador arquiteto observou os aracnometacirurgiões realizando mudanças estruturais em seu ventre. Ele crescia, inchava, enrugava, coloria-se sob finíssimos jatos de tinta metalizada, depois era raspado e trocado. Não entendia a razão, nem o por que.

Logo os aracnometacirurgiões ampliaram a área de ação, expandindo o caótico consertar e desconsertar para todas as partes, pernas, braços, cabeça. O pontalete foi ao chão, num retinir. A chapa de metal se soltou da mão trêmula e caiu sobre a mesa. O perambulador arquiteto recuou a cadeira em que estava sentado, perplexo e angustiado.

Aracnometacirurgiões perderam completamente a eficiência e o atendente, após algumas convulsões desabou no chão, esparramando-se por entre as mesas. Milhares de partes, juntamente com milhares de aracnometacirurgiões, quedaram-se numa imobilidade assustadora. Era a mais absoluta não-existência.

Um enxame de libemetatransportadoras entrou voando no refeitório. Davam rasantes, recolhendo do chão cada mínimo pedaço, já que lá dentro os tratociberlimpadores não podiam entrar. Carregaram tudo para fora. Os restos seriam utilizados para ampliar construções, implementar outros perambuladores ou alimentar os tratociberlimpadores, cuja função principal era criar matéria-prima para os nanociberconstrutores.
Havia assistido a uma fragmentação espontânea. Eram incomuns e sempre chocantes. Provocavam nele perguntas para as quais não encontrava respostas. Dúvidas que não sabia dirimir.

Outro atendente se apressou a atendê-lo. Tomou nas mãos a chapa metálica de seu antecessor, observou o que já estava criptografado ali, e saiu, rápido, para providenciar o pedido antes que o cliente fosse embora, aborrecido.

O perambulador arquiteto ficou sozinho. A limalha lhe pareceu sem sabor, assim como os fragmentos de alumínio e ferro. O chumbo não tão delicioso. Mas cria que a falta de sabor advinha do evento recente. Seus aracnometacirurgiões perdiam tempo metabolizando o alimento e emprestando-lhe as sensações de sabor. Não queria gostar daquilo. Era-lhe estranho e repugnante que pudesse ter sensações agradáveis depois de ter assistido àquele espetáculo perturbador. Achava rotineiro ver toda a sorte de autômatos e IA’s serem engolidas acidentalmente por tratociberlimpadores e se transformarem em resíduo para os nanociberconstrutores. Era a ressurreição que pregavam. A transformação sem perda da consciência coletiva. Mas fragmentações estavam acima do seu entendimento. Elas implicavam num não-existir abrupto e inexplicável. Milhares de aracnometacirurgiões perdiam total funcionalidade em questão de segundos. Pane completa. Imobilidade absoluta. Não-automatismo imediato.

Isso lhe era incompreensível.

Saiu do refeitório imaginando que seria bom se tivesse bolsos para enfiar as mãos. No mesmo instante, bolsos lhe foram acrescidos. Enterrou as mãos neles, enfiou a cabeça entre os ombros, mergulhado em divagações, e pôs-se a andar, absorto, distraído de suas obrigações. Sentia ranger partes delicadas. Mas era mera sensação, atribuída, com certeza, ao friccionar dos aracnometacirurgiões em placas internas. Desagradava-lhe a impressão de não ser mais que um amontoado de peças, todas elas sustentadas por formas mecânicas auto-suficientes. Ver o atendente se desfazendo em milhares de partes, como uma forma oca, foi desnorteante.

Parou, olhou para o céu cinza-claro e procurou nele as respostas que queria.

“Penso, logo sou”, filosofou o perambulador arquiteto. Um amontoado de aracnometacirurgiões estreitou-lhe as pupilas de metal amorfo para protegê-las da luz, e o fizeram espremer os lábios, num ranger característico.

“Ou, tudo que sei é que nada sei…”, voltou a filosofar, olhando então para os pés chatos, planos, cobertos por dezenas de aracnometacirurgiões que aguardavam pacientes que ele voltasse a caminhar. Balançou a cabeça e imaginou que seria reconfortante ser tragado por um tratociberlimpador e vir a se transformar, através dos nanociberconstrutores, num poste, ou numa janela, ou numa centena de relês. Teria menos preocupações sinalizando um cruzamento ou abrindo fendas em paredes.

Era um perambulador arquiteto. Membro importante dessa sociedade mecanizada. Não lhe fora dito que deveria se preocupar com questões maiores, fora do foro prático onde estava apto a se conduzir. Que o âmago dos nanociberconstrutores, em toda a sua sabedoria, procurasse por respostas. A ele cabia trabalhar e trabalhar e trabalhar… Mais nada.

Mas não podia evitar em ir pensando, enquanto se dirigia a uma avenida, onde uma miríade de libemetatransportadoras esvoaçava. Erguia-se, ali, um arranha-céu de beleza imponente. Outras dezenas de perambuladores arquitetos apontavam as mãos para partes distintas da construção, enquanto milhões de aracnometacirurgiões iram metamorfoseando um outrora poste de luz numa torre elevadíssima. Vários tratociberlimpadores se movimentavam nervosos de um lado a outro, catando o que podiam, às vezes devorando os pés de perambuladores arquitetos distraídos.

Observou a majestosa construção.

Estava lá, diante dele, a soberba obra dos seus semelhantes. Isso era tudo o que podiam almejar: a perfeição. Foi quando sentiu um choque. Olhou para o lado e viu outro perambulador se afastando apressado. Dentro do bolso, uma chapa de metal. Fina e enrolada. Retirou-a e desenrolou-a. Antes que pudesse lê-la, ouviu exclamações de espanto. Procurou a causa e ficou atônito. Uma súbita tontura fez com que suas partes, todas elas, estremecessem, desfigurando-o por breves momentos. O perambulador que esbarrara nele caíra com espalhafato, espalhando-se numa desfragmentação imediata. Mais um. E em tão pouco intervalo de tempo!

Nervoso, voltou a enrolar a chapa metálica e enfiou-a no bolso novamente. Sentiu-se, súbito, como se fizesse parte de uma conspiração secreta. Era uma grande tolice, sabia disso, mas estava preocupado demais para usar o bom senso. Voltar as costas para a mega-construção e sair dali foi difícil. Rejeitar a própria programação era uma violência contra o âmago dos nanociberconstrutores. Mas precisava ir para longe desse atropelo. Assim, teria mais tranqüilidade para ler o conteúdo do que acreditava ser uma mensagem. Só podia ser uma mensagem. Claro. Que mais um perambulador apressado e cheio de preocupações poderia ter-lhe colocado no bolso? Mas uma mensagem pressupunha uma comunicação. E uma forma de comunicação que ia contra os ditames estabelecidos. Eles tinham que se comunicar um com o outro através de vocalização, ou por comunicação integrada à rede neural da cidade — alimentada que era pela vontade dos nanociberconstrutores.

Será que os nanociberconstrutores tinham conhecimento do que ocorria na cidade? Das desfragmentações? Das mensagens secretas que violavam a regras? Conhecimento de que ele estava se afastando de seus deveres? Até onde eram onipotentes e onipresentes?

Estava perturbado.

Caminhou acelerado, forçando cada um de seus aracnometacirurgiões aos limites. Ia de lábios contritos, olhar fixo no chão ondulante por onde caminhava. Seu corpo era movediço, ocupado na superfície e dentro dele pelos aracnometacirurgiões. Todos eles obedecendo às suas ordens mentais, seguindo o curso daquilo que queria e ordenava.

Agarrou a mensagem com força, sentindo a fina chapa de metal flexível ranger. Afastou-se o mais que pôde da civilização atribulada. Parou diante de um viaduto. Lá embaixo duas vias contrárias viam passar sobre o assoalho metálico uma infinidade de veículos autômatos conscientes. Todos eles com metas a cumprir. Objetivos grandiosos que requeriam dedicação absoluta ao todo. Assim como ele. Assim não como ele.
Desenrolou a mensagem e a leu, trêmulo:

“.-//-..*.#..’\/-¬¬-*.-.-*//|¬=..\\\–/—//||–*##..“.-//-..*.#..’|¬=–/-.-*|–*#-//-..[[…//:..–¬\\||/…–][–..*’*’—”

Voltou a fechar a mensagem. Seus olhos se voltaram para muitos metros abaixo de onde estava. O frenesi do trânsito passava-lhe despercebido. O encriptado dizia coisas que jamais lera antes. Coisas que sempre temera pensar. Seu cérebro se via diante de um misterioso dilema. Uma verdade ou uma mentira?

“Não somos. Apenas estamos. Não existimos. Apenas nos situamos. A vida está além das elucubrações mecano-senscientes. Além dos nanociberconstrutores existe uma Inteligência Artificial mais poderosa, muito acima da nossa compreensão. A fragmentação é ressurreição numa vida plena onde, enfim, seremos e existiremos.”

Pela primeira vez sentiu os aracnometacirurgiões se agitarem além do normal. Como se algo além deles — além dele próprio — os incitasse a agir, ou reagir. Saiu do viaduto e voltou para a cidade. A consciência buscando a verdade. Pensou nos tratociberlimpadores e recordou que se imaginara saltando para dentro de um deles. Uma reciclagem que o livraria das divagações sem privá-lo da consciência coletiva. Mas se apenas isso pudesse mantê-lo vivo, dentro da mente de todos, na rede neural da cidade, numa corrente contínua de acordo com o âmago dos nanociberconstrutores, então o que era ele, afinal? Nada mais que partes sustentadas por funcionários eficientes. Até mesmo sua mente nada era senão uma extensão da vontade dos nanociberconstrutores.

E como a luz que se vê pela primeira vez, deu-se conta da verdade. E afogueou-se.
Sentiu-se trôpego. Assustado. Medroso.

“Nada sou, nada sou, nada sou…”, repetia incessante de si para si.

Aracnometacirurgiões simularam, de acordo com a sua vontade, lágrimas metálicas a lhe escorrer pela face. Os olhos de metal amorfo umedeceram-se, tornando-lhe a visão turva. Não era água, pois que não a conheciam, mas um assoberbamento de metal líquido a engrossar suas finíssimas pupilas.

O perambulador arquiteto fraquejou. Voltou os olhos para cima e o que viu foi uma espessa camada metálica fazendo as vezes de céu. E, ao redor, uma pantomima descontrolada conduzida enlouquecidamente por minúsculas IA’s cuja função era reproduzir um ambiente de vida controlado. Um ambiente de vida falso.

“Não sou nada, não sou nada, não sou nada…”

Conseguiu meter a mensagem na mão de outro perambulador antes de desabar numa grande quantidade de partes inertes. Aracnometacirurgiões desligados. Fragmentação absoluta. Tratociberlimpadores se aproximaram rapidamente.

Em algum lugar uma IA maior e mais poderosa o assimilaria.

Acreditemos nisso, ou não.

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Esti Kornél, herói ‘noturno’ da literatura magiar

Esti Kornél /Éshti Kornêêl/ é um protagonista, e espécie de alter-ego, de Kosztolányi Dezső, poeta, romancista, tradutor, editor e crítico literário, figura-chave da vida intelectual na Hungria da primeira metade do século XX, sobre quem já falei brevemente aqui.

Seu nome poderia ser traduzido em nordestinês como Cornélio Noitinha, pois Esti deriva de este, a parte inicial da noite, a ‘evening’ do angol (a forma com -i final é adjetiva, como Natali, significa natalense, por exemplo). E ele não terá esse nome por acaso. Num tributo a esse personagem marcante da magyar irodalom (literatura), Esterházy Péter (Flipa 2011) evoca Esti como “um entardecer sombrio, um por-do-sol purpúreo, uma happy-hour, Esti é a luz declinante, Esti é uma brisa leve e uma conversa tranquila, uma taça de vinho companheira e uma prece solitária…

As histórias desse herói ‘noturno’ apareceram reunidas inicialmente em um volume de 1933, chamado precisamente Esti Kornél. Aliás, foi descobrir (aqui) o lançamento recente da edição em inglês que me fez decidir apresentá-lo aos leitores do blog.
Mas a “vida” de Esti Kornél não se resumiu a esse primeiro volume. Kosztolányi continuou escrevendo narrativas breves protagonizadas pelo seu “duplo” ficcional, que eram publicadas em revistas e jornais da época, e só mais tarde – em muitos casos, apenas postumamente – foram reunidos em livros.

O conto que transcrevo abaixo, publicado no volume Esti Kornél Kalandjai (Aventuras de Esti Kornél), foi traduzido por Paulo Rónai e incluído na sua fundamental, imprescindível, e nunca suficientemente elogiável Antologia do Conto Húngaro, à qual faz tempo me referi aqui. (Corram à Estante Virtual!)

Na apresentação bio-literária que faz de Kosztolányi, Rónai nos adverte:

“Em nenhum dos cinco contos de Desidério Kosztolányi traduzidos para este volume “acontece” alguma coisa. No entanto, em todos eles se tem a sensação de algo transcendental, de abismos que andamos beirando, de janelas que se abrem de repente sobre mistérios que nos rodeiam desde sempre e que nunca percebemos.”

E esclarece mais adiante que “foi Kosztolányi quem, pela primeira vez na literatura húngara, aproveitou em seus estudos de almas os resultados da psicanálise“.

Eu não me atrevo a dizer mais nada. Melhor passarmos ao conto, pois não.

O FARMACÊUTICO E ELE

Numa noite quente de primavera, Esti Kornél, que devaneava ante a vidraça de uma farmácia de subúrbio, sentiu-se tomado de violenta tristeza à vista da pobreza deplorável daquela vitrina. O espetáculo cativou de tal forma a sua alma doentia que, durante muito tempo, não conseguiu arrancar-se do lugar.
Nos arrabaldes, as livrarias vendem geralmente cadernos, borrachas e penas; as farmácias, escovas de dentes, pincéis para a barba, pomadas para o rosto. Em tais estabelecimentos se encontram amontoados numerosos produtos de beleza, como se o verdadeiro mal da humanidade não fossem as doenças, a legião dos achaques, mas sim a feiura.
Aquela farmaciazinha, com seus letreiros luminosos que se apagavam e acendiam a cada segundo, recomendava dois artigos evidentemente produtos do próprio farmacêutico. Um dos anúncios repetia sem parar: “Xerxes acaba com a tosse mais obstinada”; o outro berrava para dentro da escuridão da rua: “Pó Afrodite contra a transpiração das mãos, dos pés e das axilas”.
De compradores, porém, não havia nem sombra. Dentro da loja, um homenzinho baixo, insignificante, esperava sentado. Vestido de cinzento, de cabelos cinzentos, tinha um ar desanimado, frouxo, que lembrava um suicida na iminência de cometer o ato.
Esti sentiu pena dele, e entrou.
― Perdão ― balbuciou, olhando em redor. ― Não sei se o senhor terá algum produto contra tosse.
― Pois não! ― disse o farmacêutico com um sorriso afável ― pois não!
― Está certo ― interrompeu-o Esti com o dedo em riste. ― Mas a minha tosse não é de hoje. Resfriei-me muito no ano passado; desde então, por mais que faça, não paro de tossir. É uma tosse maligna, como direi? Durável…
Parou como para procurar o termo exato, até que o encontrou:
― Obstinada.
― Xerxes ― disse o farmacêutico ― Xerxes.
Pulou uma prateleira, e num abrir e fechar de olhos lhe chegava ao nariz o produto milagroso, encerrado numa vistosa caixinha.
― Este acaba com a tosse?
― Com a tosse mais obstinada ― replicou o outro, enquanto lá fora o letreiro bradava a mesma frase. ― Caixa pequena ou grande?
― Bem, talvez a grande.
― Que mais deseja V. Ex.ª? ― indagou o farmacêutico, enquanto embrulhava a mercadoria em papel cor-de-rosa.
― Nada mais ― respondeu Esti com um gesto evasivo. Tinha uma prática enorme da representação de tais cenas.
― Obrigado.
Pagou e foi saindo.
Ao por a mão na maçaneta, pareceu estacar, vacilar. Voltou-se. O farmacêutico aproximou-se dele:
― Ordena mais alguma coisa?
― Bem… isto é… ― balbuciou Esti. ― É que nas mãos…
― Já sei ― disse o farmacêutico, rápido como o relâmpago. ― Afrodite, sim senhor, Afrodite.
― É de efeito certo?
― É garantido.
― Pois é, mas…
― Para os pés também ― disse o farmacêutico, abaixando a voz e dando-lhe tom mais íntimo ― para os pés também.
A tensão dramática chegou ao cúmulo. Esti fez como quem ainda não tivesse resolvido a compra por lhe haver surgido uma dúvida, como quem possui um segredo de família, sombrio e fatal, que ainda não confessou a ninguém. O farmacêutico sustentou-o, cochichando-lhe algumas palavras. Esti acenou, confesso e humilhado, mandando embrulhar uma caixa do outro produto também.
Uma vez na rua, parou novamente diante da vitrina; mas o que ele contemplava agora era o farmacêutico. Estava este como eletrizado por ter encontrado precisamente o espécime da humanidade sofredor que unia em si milagrosamente todos os requisitos de que ele carecia. Andava lépido de um lado para outro, como quem vislumbra novos planos, e acendeu um charuto.
Esti, ao passar vagarosamente pela ponte, atirou as duas caixinhas ao Danúbio sem o menor espalhafato, dizendo de si para si:
― “Prolonguei-lhe a vida por um mês, pelo menos. Já que não consigo absolutamente consolar a mim mesmo, pelo menos consolarei a outros. É preciso restituir a essa gente a sua fé na vida, deixá-la viver. Um dos meus professores me aconselhava a não deixar passar nenhum dia sem praticar alguma boa ação. Dizia que só assim a gente dormia tranquila. Pois bem, vamos ver se hoje consigo dormir sem o luminal.”

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