Arquivo do mês: março 2011

Tiszta Szívvel / De Coração Limpo

Este post é oferecido a Nelson Ascher, grande poeta e tradutor de origem húngara, que em julho de 2009, depois de um encontro memorável em São Paulo, quando ele me honrou generosamente com uma tarde e noite de erudição e boa prosa sobre a cultura e a literatura dos magiares, me desafiou via email com a delicadeza dos cavalheiros:

“Tomo aqui a liberdade de lhe fazer uma pequena proposta, caso vc a tope, é claro: acho que todo e qquer tradutor de poesia húngara deve, pelo menos uma vez na vida, arriscar sua própria versão do Tiszta Szívvel do József Attila — e eu gostaria de ver a sua.”

Embora confessadamente intimidado pelo calibre do desafiador e da tarefa, eu resolvi tentar a parada, ainda que sabendo de antemão que o resultado estaria fatalmente muito aquém do padrão de tradução que Nelson costuma nos presentear, como foi o caso, para dar apenas um exemplo, de Poesia Húngara Moderna, uma seleção de poetas e poemas fundamentais do século XX magiar publicada também naquele inverno de 2009 no número 3 da revista Dicta&Contradicta, e que se pode conferir aqui.

Segue-se o original mais minha versão pobrinha e tosca dessa jóia rara e abusada do gênio de vida breve e trágica que foi József Attila. Depois, um video com o poema declamado e também cantado.

Prometo trazer depois mais informações sobre o papel que este poema radical teve na vida do jovem József Attila. Quero aproveitar também para tentar ‘dissecar’ o poema do ponto de vista da língua porque ele permite entendermos uma porção de coisas sobre o magiar. Sinto que vai dar outro post.

TISZTA SZÍVVEL

Nincsen apám, se anyám,
se istenem, se hazám,
se bölcsőm, se szemfedőm,
se csókom, se szeretőm.

Harmadnapja nem eszek,
se sokat, se keveset.
Húsz esztendőm hatalom,
húsz esztendőm eladom.

Hogyha nem kell senkinek,
hát az ördög veszi meg.
Tiszta szívvel betörök,
ha kell, embert is ölök.

Elfognak és felkötnek,
áldott földdel elfödnek
s halált hozó fű terem
gyönyörűszép szívemen.

DE CORAÇÃO LIMPO (com o coração limpo/puro, traduzindo literalmente)

Sou sem pai e sou sem mãe,
sem deus, sem pátria também,
sou sem berço e sem mortalha,
beijo ou amor, vivo sem.

Três dias faz que não como,
nem muito, nem muito pouco.
Vinte anos são meu poder,
vinte anos hei de vender.

Se ninguém se interessar,
o demônio há-de comprar.
E com o peito imaculado
roubo e, se preciso, mato.

Serei preso e enforcado,
com terra santa tapado
e ervas mortais brotarão
no meu lindo coração.

Aqui, dito na voz do ator Latinovits Zóltan, e cantado pela banda de rock Kex Együttes, que existiu de 1969 a 1971. Quanto à estranha escrita que aparece no vt, trata-se de um alfabeto hungárico antigo, sobre o qual quem lê inglês pode aprender aqui.

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