Arquivo do mês: fevereiro 2011

voltando a József Attila

hoje, não sei bem por quê, voltei ao poema ‘reménytelenül’, de József Attila, tentando burilar um pouco a tentativa de tradução que fiz e até já apareceu aqui.

Confesso que não fico muito feliz com a tradução literal do título como ‘desesperançadamente’, que tem uma carga negativa maior do que me parece ter no original. O poema tem algo de docemente conformado com o pouso do coração ‘no galho do nada’ na estrofe que, ao fechá-lo, define o tom do poema. Ou assim me parece.

Examinar o título original nos dá a oportunidade de entender mais alguma coisa sobre o magiar. A palavra se compõe de 3 partes: remény-telen-ül. Pra entender remény, vejamos o verbo remél /rémêêl/, que significa ter esperança, antecipar, confiar que alguma coisa vai acontecer.
O equivalente magiar do nosso tomara!, por exemplo, é remélem!, que é o verbo conjugado na primeira pessoa.
Remény /rémêênhi/ é o substantivo correspondente, significa esperança, antecipação, confiança, fé em algo vir a acontecer.

O sufixo -talan/-telen (qual das duas formas usar depende da qualidade fonética da vogal principal da raiz à qual o sufixo se acopla) indica ‘ausência de’, funciona como o -less do inglês em jobless, ‘sem emprego’, clueless, ‘sem noção’, por exemplo. Portanto reménytelen = sem esperança.

Já o sufixo -ul/-ül refere-se ao modo ou estado em que alguma coisa se dá ou se encontra, equivale mais ou menos ao nosso -mente em descuidadamente, por exemplo. Marca o advérbio de modo, pros que curtem a terminologia gramatical.
Então reménytelenül = de uma maneira, ou num estado sem esperança, de maneira desesperançada, donde ‘desesperançadamente’.

Curiosamente, esse sufixo também é usado quando se diz que alguém fala (ou não) uma língua: nem beszélek magyarul = não falo magiar, ou não falo ‘à maneira’ magiar; beszélsz portugálul? = tu falas português (à portuguesa)?

Variações com ‘l’ no final formam adverbios em geral: jó = bom; jól = bem; rossz = ruim: rosszul = mal, e por aí vai.

Voltando ao poema, fiquei muito contente de ver esta nova versão aparecer também em sites de amigos generosos, na coluna ‘poesia’ do Substantivo Plural, e no excelente Imaginário Poético.

DESESPERANÇADAMENTE (1933)

O homem afinal alcança
triste, plana, úmida areia,
olha em torno pensativo e,
prudente, só assente, nada espera.

Eu também procuro assim olhar
em torno suavemente, sem engano.
Um sussuro prateado de foice
brinca entre as folhas dum álamo.

No galho do nada pousa meu coração,
seu pequeno corpo mudo treme.
As estrelas se chegam e o cercam
assistindo, assistindo mansamente.

aqui o original:

REMÉNYTELENÜL

Az ember végül homokos
Szomorú, vizes síkra ér,
Szétnéz merengve és okos
Fejével biccent, nem remél.

Én is így probálok csalás
Nékul szétnézni könnyedén.
Ezüstös fejszesuhanás
Játzik a nyárfa levelén.

A semmi ágán ül szivem,
Kis teste hangtalan vacog,
Köréje gyűlnek szeliden
S nézik, nézik a csillagok.

aqui podem desfrutar mais uma vez da sonoridade do poema em magiar, com a voz do grande ator Latinovits Zoltán (1931-1976):

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