Arquivo do mês: janeiro 2010

Turmix* cultural da Hungria de hoje

Quando as tensões raciais e étnicas se acirram na Europa em geral e na Hungria em particular, com a animosidade entre magiares “brancos” e ciganos explodindo em violência, como vimos aqui, é muito bom ver um programa de TV tratar da riqueza cultural que compõe a Hungria de hoje.

O programa Kanapé /kónópêê/ (canapê, sofá), do canal estatal Duna Televizió (TV Danúbio), começa com um grupo contemporâneo fazendo música da tradição cigana, cantada em língua roma. Depois o apresentador entrevista Balogh Robert (que teve um conto postado aqui) sobre a trilogia de livros que ele escreveu tratando da etnia germânica schváb (suábia) que vive na Hungria.

Em seguida quatro atores da companhia HOOPart apresentam um trecho de uma peça também de Balogh Robi. Ouvimos depois mais música cigana tradicional, seguida de uma entrevista com dois membros da banda, inclusive a cantora. Aí vem a entrevista com um cantor africano-magiar, que também apresenta um belo canto negro tradicional em inglês. Finalmente um músico amênio-magiar é entrevistado e o programa termina com ele tocando seu acordeon.

Tirando o “spiritual” cantado em inglês, o que é mais fascinante é confirmar a orientalidade que marca a música tradicional feita na Hungria, que evoca as orígens asiáticas desse povo tornado centro-europeu há apenas mil e cem anos.

Quem entende o magiar, vai, obviamente, poder curtir o programa todo. Espero que os outros curtam os números musicais, além da bela e estranha sonoridade da fala magyarul.

Confira o programa aqui

* Turmix em húngao é vitamina de frutas feita no liquidificador. Durante a entrevista Balogh Robi a usa “turmix centro-europeu” pra se referir à sua própria mistura étnico-cultural.

abraços
Natal, dia de Reis de 2010

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Boldog új évet! (feliz ano novo!)

é tempo das gostosuras de marcipán

Sziasztok!
Elnézést (desculpas), leitores que porventura apareçam com mais frequência, pelo longo tempo sem atualização do blog. Andei enrolado com outras coisas que me afastaram daqui. Mas estou com saudades, e espero não desaparecer assim tão prolongadamente outra vez.

Aproveito a deixa dos votos de bom ano novo pra falar de boldog, palavrinha que nos soa estranha e meio engraçada. Pois bem, isso (que lembra o cachorro pequeno e troncudo que os ingleses adoram) em magyar quer dizer feliz, contente, alegre, ditoso (alguém ainda se lembra dessa palavra?).

Num sentido religioso boldog também significa beato, bem-venturado. Daí provém um dos nomes que os católicos usam para a Virgem Maria: Boldogasszony, literalmente “senhora bem-aventurada”, já que asszony /óss’sonhi/ = senhora.

Numa derivação normal para formação de substantivos no magyar, temos boldogság /bôldogsháág/ = felicidade; e forma-se também o verbo boldogít /bôldoguíít/ = fazer feliz, beatificar.

Mas há outras expressões curiosas que vêm de boldog. Uma delas é o verbo boldogul, que é comumente usado no sentido de “arranjar-se com alguma coisa, ter sucesso, dar-se bem”.

Outro dia, caminhando e escutando minhas lições gravadas de magyar, num diálogo entre um candidato a emprego e o seu entrevistador este pergunta àquele se ele sabe inglês, porque, segundo ele, sem inglês, na tal empresa ele “nehezen boldogul”= dificilmente terá sucesso.

Quando alguém lhe oferece ajuda em alguma coisa você pode agradecer e dizer: magam is boldogulok = eu me viro sozinho (magam = eu mesmo). Fora isso, boldogul significa medrar, prosperar.

Outra derivação curiosa: boldogult, forma do passado de boldogul, terceira pessoa, vira “falecido, finado, defunto”, o chamado “de boa memória”. Considerando como a vida muitas vezes é dura e sofrida, não é de se admirar que o magyar use uma palavra derivada de feliz para indicar quem partiu desta “pra uma melhor”, com nós também dizemos.

Para finalizar, duas outras derivações: boldogtalan = infeliz, desaventurado (donde boldogtalanság = infelicidade, desventura); e, com um sentido mais de acordo com a data de hoje, boldogulás /bôldoguláásh/ = prosperidade, bom sucesso.

Neste 2010 que começa hoje, sok boldogulást kívánok mindenkinek! = desejo (kívánok) muita (sok /shôôk/) prosperidade a todos (mindenkinek). A lém de saúde, paz, amor, stb, stb… (stb = etc)

Ah, ia esquecendo, em “Boldgog új évet!”, új /úúi/ = novo(a), e év /êêv/ = ano. Em “évet” o “t” final (com a vogal de ligação “e”) indica o acusativo, a forma dos objetos diretos, que é marcado em magiar, assim como em outras línguas declinadas. Isso porque a frase subentende “desejo-lhe” (kívánok) um feliz ano novo, o que torna “feliz ano novo” objeto direto de “desejo-lhe”. Daí também o “t” de boldogulást, acima. Coisas pra quem gosta da fascinante mecânica interna das línguas…

grande abraço,
chico
Natal, 2010.01.01 (à maneira magyar)

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