‘Goijkómitics’ : herói pele-vermelha dos tempos do comunismo

Mim grande guerreiro jugoslavo Gojko Mitić

Mim grande guerreiro jugoslavo Gojko Mitić

Relendo ontem à noite um conto de Ficsku Pál, que deve constar da antologia de jovens autores húngaros que pretendo lançar um dia, me deparei com a estranha expressão “goikómitics”, escrita assim mesmo, entre aspas. Estranha, pra mim, é claro.

Ficsku Pál

Ficsku Pál

No conto, o narrador tem um flashback da sua infância na Hungria socialista e volta-lhe como um filme, entre outras coisas, a lembrança dos caminhoneiros iugoslavos “com placas alemãs” que passavam regularmente pela sua cidade e traziam, sob encomenda, muambagens variadas da Europa capitalista. E, num dado momento, diz que eles eram “como “gojkómitics”, os moicanos caminhoneiros da nossa infância”.

(Ulzana - Destino e Esperança)

(Ulzana - Destino e Esperança)

Intrigado, fui garimpar o negócio e descobri um rico filão. Nos anos do comunismo, a meninada húngara assistia a filmes de faroeste feitos nos estúdios GDR DEFA, da Alemanha Oriental. O curioso (e, claro, ideologicamente significativo) é que, ao contrário do que ocorria nos filmes americanos, os heróis desses “Red Westerns” eram sempre os peles-vermelhas, e não os cowboys.

Pois bem, um bonitão chamado Gojko Mitić (Гojкo Митић, em cirílico sérvio), nascido na Sérvia em 1940 era a grande estrela de maior parte desses filmes. Goikómitics era, portanto, a forma magiarizada do nome do ator a partir do seu som, /goykô mítich/.

Descobri também que em 2001 um alemão chamado Ramon Kramer rodou o documentário Der Berufsindianer – Gojko Mitic in der Prärie (O índio profissional – Gojko Mitic na pradaria), para o qual levou o ex-indio de cinema ao Meio-Oeste americano para conhecer lugares importantes na história dos guerreiros norteamericanos que ele protagonizou na ficção. Aqui o site do filme.

Gojko Mitić na Reserva Sioux Pine Ridge em Wounded Knee

Gojko Mitić na Reserva Sioux Pine Ridge em Wounded Knee

Catando o youtube encontrei estas adoráveis pérolas históricas com o galã pele-vermelha cujos filmes ali pelos anos 60 e 70 certamente devem ter aguçado tanto a fantasia da meninada da antiga “cortina de ferro” como os faroestes que os natalenses da minha geração assistiam nas vesperais do REX, de doce memória, aonde, aliás, a gente ia também só pra trocar gibis na calçada. Good ol’days!

Atenção para a coreografia dos navajos leste-europeus em “A grande cobra”, e depois o par romântico pele-vermelha (tudo depois dos longos créditos):

ou vibrem com o bravo guerreiro-domador de cavalos do faroeste ‘alpino’ “O rastro do falcão”:

Natal, 22/9/2009

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6 Comentários

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6 Respostas para “‘Goijkómitics’ : herói pele-vermelha dos tempos do comunismo

  1. Rui

    Grande Chico!

    E grande dica deste mundo entrecuzado e entremeado com heróis secretos e lugares desconhecidos. Serviu como viagem.

    Aquele abraço,

    rui cunha.

  2. alexandre

    Chico – legal sua iniciativa de trazer essa literatura. Tenho quase todos os livros do Marai Sandor e um livro de contos de Benedek Elek. Tenho um numero consideravel de titulos em ingles sobre a historia hungara. Em Budapest se acham alguns titulos em ingles, mas nao muitos. Falta mais literatura hungara em portugues, que e muito rica e de teor universal.

    • Chico Moreira Guedes

      Valeu, Alexandre!
      Quanto às traduções, acaba de sair o excelente “O Rei Branco”, de Dragomán György, traduzido por Paulo Schiller. É o primeiro romance de um autor magiar contemporâneo (e jovem, 36 anos!) a sair no Brasil. Vale conferir.
      Vc é descendente de magiares?
      abraço

  3. mnazian

    chico, texto novo… to fazendo ainda, vou atualizando no blog. “retiro”. um abraço.

  4. Jorge

    Az én nevem Jorge. Ou Gyuri para os mais íntimos.
    Parabéns pelo blogue. Cheguei àqui procurando coisas sobre a Hungria, aonde pretendo ir em janeiro. Vou hospedar-me na casa de uma amiga em Litér, Veszprém, lá pelos arredores de Balaton.

    Caso sua benevolência e disponibilidade permitam, gostaria de ter algumas informações de como me virar lá, sei lá, qualquer coisa que julgue útil para evitar gafes e coisas que tais. Também me interessa saber de algum alfarrábio que ensine a magyar nyelv em português, porque em inglês (que não sei) já encontrei por aí. Será que tem?
    Köszönöm!

  5. Angelo

    Parabéns pelo site, adorei, sempre que posso, passo para ler algo. Infelizmente, os links para os vídeos do youtube já quebraram (“índio”). Tentarei direto no site original. Abç.

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