Arquivo do mês: setembro 2009

‘Goijkómitics’ : herói pele-vermelha dos tempos do comunismo

Mim grande guerreiro jugoslavo Gojko Mitić

Mim grande guerreiro jugoslavo Gojko Mitić

Relendo ontem à noite um conto de Ficsku Pál, que deve constar da antologia de jovens autores húngaros que pretendo lançar um dia, me deparei com a estranha expressão “goikómitics”, escrita assim mesmo, entre aspas. Estranha, pra mim, é claro.

Ficsku Pál

Ficsku Pál

No conto, o narrador tem um flashback da sua infância na Hungria socialista e volta-lhe como um filme, entre outras coisas, a lembrança dos caminhoneiros iugoslavos “com placas alemãs” que passavam regularmente pela sua cidade e traziam, sob encomenda, muambagens variadas da Europa capitalista. E, num dado momento, diz que eles eram “como “gojkómitics”, os moicanos caminhoneiros da nossa infância”.

(Ulzana - Destino e Esperança)

(Ulzana - Destino e Esperança)

Intrigado, fui garimpar o negócio e descobri um rico filão. Nos anos do comunismo, a meninada húngara assistia a filmes de faroeste feitos nos estúdios GDR DEFA, da Alemanha Oriental. O curioso (e, claro, ideologicamente significativo) é que, ao contrário do que ocorria nos filmes americanos, os heróis desses “Red Westerns” eram sempre os peles-vermelhas, e não os cowboys.

Pois bem, um bonitão chamado Gojko Mitić (Гojкo Митић, em cirílico sérvio), nascido na Sérvia em 1940 era a grande estrela de maior parte desses filmes. Goikómitics era, portanto, a forma magiarizada do nome do ator a partir do seu som, /goykô mítich/.

Descobri também que em 2001 um alemão chamado Ramon Kramer rodou o documentário Der Berufsindianer – Gojko Mitic in der Prärie (O índio profissional – Gojko Mitic na pradaria), para o qual levou o ex-indio de cinema ao Meio-Oeste americano para conhecer lugares importantes na história dos guerreiros norteamericanos que ele protagonizou na ficção. Aqui o site do filme.

Gojko Mitić na Reserva Sioux Pine Ridge em Wounded Knee

Gojko Mitić na Reserva Sioux Pine Ridge em Wounded Knee

Catando o youtube encontrei estas adoráveis pérolas históricas com o galã pele-vermelha cujos filmes ali pelos anos 60 e 70 certamente devem ter aguçado tanto a fantasia da meninada da antiga “cortina de ferro” como os faroestes que os natalenses da minha geração assistiam nas vesperais do REX, de doce memória, aonde, aliás, a gente ia também só pra trocar gibis na calçada. Good ol’days!

Atenção para a coreografia dos navajos leste-europeus em “A grande cobra”, e depois o par romântico pele-vermelha (tudo depois dos longos créditos):

ou vibrem com o bravo guerreiro-domador de cavalos do faroeste ‘alpino’ “O rastro do falcão”:

Natal, 22/9/2009

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Amor à planície… meu encontro com a Nagy Alföld

Nota: Este texto foi escrito e postado aqui em março passado. Resolvi trazê-lo de volta agora (com uns poucos retoques) porque gosto dele e queria que as pessoas que apareceram por aqui mais recentemente também pudessem ler, sem precisar sair catando o blog inteiro.

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

Até morar na Hungria eu tinha agonia da planura. Nascido e crescido entre as curvas suaves das dunas potiguares, menino da Cirolândia que brincava nas saias do Morro de Mãe Luiza, a primeira vez que vivi a planície absoluta, viajando de carro pela beirada sul do Lago Ontario em direção à fronteira em Niagara Falls, já tinha meus dezesseis anos. Lembro claramente que aquela ausência de variedade orográfica até aonde a vista dava me deixou fisicamente mal, enjoado. Fiquei constituído dum desafeto de planície, e nunca pensei que isso um dia podia mudar.

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Mas a Terra rodopiou muitas vezes em redor do sol, e, como já contei antes, em julho de 1998 eu fui parar na Hungria.
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13/9 : dia da canção magiar

magyar dal napja poszter
Dando uma olhada indagora no terasz.hu, editado por Balogh Robert, que é autor de um conto publicado aqui, me dei conta de que hoje, segundo domingo de setembro, estão comemorando na Hungria o magyar dal napja.

Traduzindo na ordem original temos: “magiar canção dia-da”; dal = canção, /dól/, e nap = dia (mas também significa sol, o que pra mim faz muito sentido). O a final em napja, com a ajuda fonética de um j, pra soar /nópyó/, é a marca do possessivo, que como já se comentou antes, recai sempre na “coisa possuída” (embora muitas vezes também no “possuidor”, o que não é o caso aqui).

Mas enfim, a festança já começou desde a meia-noite do sábado com apresentação de DJs, e este ano rolam eventos em 22 locais diferentes, nove dos quais em cidades do interior. E em todos eles serão feitas homenagens a Cseh Tamás, que morreu recentemente.

Do dia da canção do ano passado peguei esse roquinho básico dos Pál Utcai fiúk (Meninos da Rua Paulo), que aliás eu nem conhecia : A bál = a festa / o baile. Quem não gostar da música pode até curtir o clima do concertão ao ar livre.

E pra gente não esquecer que os magiares originais vieram de algum lugar bem looonge, a linda voz da linda Herczku Ágnes numa toada de sabor asiático: Ha te tudnad, Se tu soubesses.
Os leitores mais antigos do blog já conhecem essa voz daqui.

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Piknik em Sopron, 20 anos atrás

A queda do Muro de Berlin começou na Hungria em agosto de 1989.

Fronteira Hungria-Austria, 1989

Fronteira Hungria-Austria, 1989

E a CNN lança este mês uma série de reportagens chamada “Hungary: Autumn of Change” dedicada aos eventos na Hungria em 1989 que marcaram o primeiro rompimento das cercas de arame farpado e dos muros com que os satélites socialistas da antiga União Soviética mantiveram seus cidadãos separados do resto da Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.

O programa que foi ao ar hoje (10/9) lembrou a data histórica de 19 de agosto de 89, quando centenas de cidadãos alemães da DDR (Deustche Demokratische Republik, como se auto-denominava o estado socialista alemão oriental) que haviam se juntado num piquenique perto da cidade de Sopron, (pron: /shópronn/), na divisa com a Austria, forçaram a abertura das cercas e entraram na Austria dizendo tchau pro “paraíso” socialista tão decantado pelo poder emanado de Moscou.

A estratégia de fuga deu certo para as primeiras centenas de alemães que conseguiram atingir Sopron e a fronteira, pois os guardas húngaros foram pegos de surpresa e não se dispuseram a reprimir os que sonhavam com as liberdades individuais do mundo capitalista. Mas em seguida chegaram reforços militares húngaros e a passagem foi outra vez vedada.

gyor-moson-sopronSó que, como sabemos, demorou muito pouco até que as estruturas repressivas dos estados do leste entrassem em colapso, impotentes diante da força da maioria da população, sobretudo dos jovens sedentos de mudança e de arejamento dos ares mofados e cinzentos do “socialismo científico”.

Quem entende inglês deve ficar de olho nos outros episódios da série da CNN que irão ao ar durante este mês de setembro.

Sopron, Hungria

Sopron, Hungria

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Bartók: acolher diferenças com Música

Escrevendo o post anterior sobre crimes contra os ciganos na Hungria, me referi à capacidade da Arte de digerir e dar saídas criativas pros inevitáveis conflitos humanos, aí esbarrei numa jóia de Bartók Béla (1881-1945), os “Contrastes para violino, clarinete e piano, sz.111”, que pra mim são um emblema primoroso desse poder acolhedor das diferenças na Grande Música.

Bartók Béla

Bartók Béla

Como muitos sabem, Bartók saiu a campo junto com seu amigo e compatriota magiar Kodály Zoltán no começo do século passado pra pesquisar e registrar as ricas tradições musicais da Bacia Carpática e dos Bálcãs, ajudando a fundar o que passou a ser conhecido como etnomusicologia.

A propósito, a pronúncia do prenome do mestre é /bêêla/, e não /béla/, como se ouve muito por aí. O sobrenome se diz /bórtôôk/.

Seguem-se os três movimentos dos “Contrastes”, com o grande Yehudi Menuhin, Jeremy Menuhin (piano), e Thea King (clarinete), num registro de 1972, em Paris.

Mov. I e II

Mov. III

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