Euclydes da Cunha e Márai Sándor

Euclydes da Cunha

Euclydes da Cunha

Escrevo na madrugada de 15 de agosto de 2009.* Hoje faz 100 anos que Euclides da Cunha morreu. Para homenagear o grande gênio, fundador da prosa moderna brasileira, o HungriaMania apresenta um texto de João da Mata Costa, professor de Física na UFRN, homem de vastíssima leitura, alma apaixonada pela boa literatura, além de amigo, que, embora recente, eu prezo muitíssimo.

O texto apareceu há poucos dias no Substantivo Plural, de Tácito Costa, um dos dois únicos sites que eu posso dizer que visito “religiosamente” todo dia (o outro é o Papo furado, de Jairo Lima), e com os quais contribuo aqui e acolá.

Trata o texto de João, como verão, de uma fascinante “ramificação” d’Os Sertões na literatura magiar, na forma do romance Itélet Canudosban (Veredicto em Canudos), de Márai Sándor. Ao final acrescento umas notas minhas, também publicadas no Substantivo Plural, principalmente para agradecer a gentil dedicatória de João e pedir permissão pra publicar seu texto aqui.

Euclydes 100 + Veredicto em Canudos

Por Jota Eme
Para Chico Guedes

Márai Sándor

Márai Sándor

O Livro “Veredicto em Canudos” escrito pelo húngaro Sándor Márai é um daqueles livros que não desejamos acabar de ler de tão belo. Sándor leu três vezes “Os Sertões” de Euclydes da Cunha para escrever um livro de uma Canudos que não acabou com a morte do Conselheiro, mas que se perpetuou nas lutas dos estudantes de 68 em Paris, Estados Unidos, Itália e outros lugares eternamente.

Em pleno regime comunista o escritor deixa o seu país em 1948 para se exilar mesmo com medo da liberdade. Sempre escreveu na “solidão do Idioma”. Leu Os Sertões na famosa tradução inglesa de Samuel Putnam. O livro do Sándor foi traduzido para o português direto do húngaro por Paulo Schiller. “Soyez raisonable, demandez l´mpossible” era o lema dos estudantes como podia ser o do Conselheiro.

o original

o original, nova edição

O original do livro em Húngaro é salpicado de palavras e frases curtas em português, diz o tradutor. Cabra, jagunço, caititu, caatinga, etc. Outras trazem a grafia errada: conseilheiro, facendeiro, sertaneio, etc Algumas outras não encontram equivalência em Húngaro, mas a tradução do Paulo é muito boa.

É com muita ironia que o autor Sándor escreve seu livro. O narrador é um ex-cabo do exército, bibliotecário que fala Inglês. Três prisioneiros são resgatados, entre eles uma mulher estrangeira cujo marido médico trabalhava em Canudos, deixando-a sozinha. Quando ele chega a Canudos o marido já é morto. A mulher pede para tomar um banho e se transforma numa interlocutora que deixa o Marechal Bittencourt desorientado ao saber que o Conselheiro pode está vivo. A cabeça degolada do conselheiro é mostrada para os prisioneiros.

Um longo diálogo se trava entre a mulher e o Marechal. De que lado está barbárie? O Conselheiro e seu séquito de homens barbudos eram loucos? Milhares de meninos e mulheres mortos. Os corpos são queimados aos montes. Homens famintos a seguir um líder que não tinha medo. Estatísticas são mostradas para a grande imprensa. Foi a luta da civilização contra a barbárie. Uma luta desigual de homens com mosquetões e facões enfrentando canhões e um forte exercito antes por três vezes derrotado. A cabeça do Conselheiro sorri. Seu fantasma ainda assusta. Em canudos não havia suicidas. Em canudos viviam pessoas que eram felizes numa comunidade com os preceitos da igualdade. Canudos é o Brasil.

Canudos, prisioneiras, 1897 foto Flávio de Barros

Canudos, prisioneiras, 1897 foto Flávio de Barros

O major pede ao final que os três prisioneiros saiam e digam em voz alta: longa vida á liberdade. Todos mudos. E repete, digam: – longa vida á liberdade, igualdade e fraternidade!… Gritem, disse novamente pra o negro, o mestiço e a mulher.
O negro falou, mas antes olhou as trevas em que tinha se transformado Canudos: – “Cago montes para a República”. Nisso Sándor Márai encontrou uma bela analogia para o Arraial do Belo Monte. Um belo livro de um grande escritor. Recomendo a leitura.”

Euclydiana Magyar

Por Chico Moreira Guedes

Caro Jota Eme,

Muito obrigado pela dedicatória do seu belo texto. Eu vinha pensando em escrever sobre essa interessantíssima ramificação do inesgotável Os Sertões, mas não poderia ter feito melhor do que você fez.

a tradução

capa da edição brasileira

A única coisa que poderia acrescentar a tudo que você disse tão bem, é que Márai Sándor (tenho por preceito, como já expliquei no meu blog num post chamado “nomes invertidos”, usar sempre os nomes húngaros à magiar, sobrenome antes) aproveitou o impacto profundo que lhe causou a leitura de Rebellion in the backlands, nome dado à tradução d’Os Sertões, pra falar também de um mal-estar civilizatório especificamente europeu de virada de século: o profundo esvaziamento espiritual da experiência burguesa, que iria culminar nos horrores das duas grandes guerras mundiais.

É isso o que leva um médico suíço bem estabelecido social e profissionalmente a abandonar a esposa e o conforto de sua vida européia sem deixar explicações e partir para a minúscula Canudos, do outro lado do mundo, sobre a qual ele apenas lera em jornais. Posteriormente, sua esposa parte-lhe no encalço, desejosa de entender a decisão do marido. Mas chega tarde demais, o esposo havia falecido enquanto trabalhava como médico no arraial do Vaza-Barris; ela, no entanto, se vê também envolvida e integrada à vida comunal e espiritualmente informada de Canudos.

E é a profundidade dessa questão filosófica e existencial que Márai aporta à história, no meu entender, com a sensibilidade de europeu e herdeiro intelectual da derrocada da ordem centenária do Império Austro-Húngaro, e que dá o tempero mais apurado à ficção euclydianamente inspirada de Veredicto em Canudos.

* quem leu o blog ontem e hoje notou que eu me enrolei com que dia era mesmo na madrugada em que escrevi; desculpem, me enrolei mesmo. a frase só fará sentido daqui a pouco. agora são 23:30 de sexta, 14 de agosto. :-))

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2 Comentários

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2 Respostas para “Euclydes da Cunha e Márai Sándor

  1. alexandre

    estou lendo o livro agora. fantastico seu blog e comentarios. estou enviando para amigos dos EUA e Hungria. Sou de SP. Abc!

  2. Carlos

    Bueno yo estoy con el libro “La guerra del fin del mundo” de Mario Vargas LLosa y la verdad que esta buenisima que tal historia¡¡¡¡ =)

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