Comilança com Cserna-Szabó András

Faz dias que ando lendo, pesquisando, catando traduções pra tentar fazer um post decente sobre o poeta Ady Endre (1877-1919), o grande “inventor” da modernidade na poesia e no universo intelectual magiar, que já mencionei antes, e que Paulo Rónai considerava “o maior nome da literatura húngara, um dos grandes poetas da literatura universal”.

Cserna-Szabó András

Cserna-Szabó András

Enquanto o Ady-post não sai, espero que se divirtam com a tradução que fiz deste contoparódia de Cserna-Szabó András, um dos jovens autores que andei traduzindo tempos atrás. Esse conto já apareceu antes no excelente (finado?) Querido Bunker de Márcio Nazianzeno.

A propósito, o nome do autor se pronuncia “Tcherno-Sóbôô Ondráásh”, e szabó quer dizer alfaiate (aliás, o mesmo que Taylor, sobrenome inglês). O nome original do conto é Malacpecsenye (“mólóts-pétchenie”). Interessantemente, malac = bacorinho, leitão novinho, mas também = obsceno, indecente, enquanto adjetivo. Pecsenye = assado, como substantivo, como em “o assado tava ótimo”. Assim o título tem um duplo sentido, assado de leitão (daí leitão assado), ou assado obsceno, que infelizmente perdemos na tradução.

Como verão, Malacpecsenye é um episódio punk-culinário com turminha do ursinho Puff, o Winnie-the-Pooh, de A. A. Milne, que em magyar é conhecido como Micimackó (mitsi-matscôô).

Karinthy Frigyes

Karinthy Frigyes

Acontece que as histórias de Pooh-Puff foram traduzidas e adaptadas do inglês pro Magiar em 1936 por Karinthy Frigyes (1887-1938) (“Kórinthy Fridyesh”), escritor conhecido (mas não apenas) pela sua verve cômica e irônica, e que também traduziu As aventuras de Tom Sawyer, além de escrever dois romances-sequência d’As viagens de Gulliver. Daí Micimackó virou um fenômeno cultural bem húngaro, marcando a formação de toda meninada de lá pra cá. São incontáveis as páginas em húngaro, com música, videos e o escambáu, que a gente encontra em magiar se googlelizar “micimackó”. Experimentem e verão. Já encontrei até “A Bíblia segundo Micimackó”, é mole?

Mas vamos ao banquete do Chef “André”, que certamente tem sugestões que extrapolam o ambiente familiar da cozinha e da sala de jantar…

Cserna-Szabó András (1974)

LEITÃO ASSADO

Ursinho Puff acordou num desses dias em que não se acha nada pra fazer. Não teve nem vontade de se levantar. Lá fora, na Floresta das Cem Luas rugia a tempestade de neve. Depois nosso urso ficou de saco cheio de rolar para lá e para cá na cama e finalmente levantou-se. Colocou seu disco favorito de Halász Judit* no gramofone, e foi à despensa atrás de mel. Colocou o pote na mesa, sentou-se, e meteu uma gostosa patada na doce substância. Levou a mão esquerda ao focinho e, com uma única enorme lambida, deu conta de toda aquela viscosa delícia.

– Ééca! – rosnou Puff furioso, cuspindo o mel no assoalho. – Se eu continuar com essa alimentação monótona acabo pegando uma escarlatina.

Ou seja, Puff detestava mel. Na verdade, detestava todos os estereótipos. Então, por ter nascido acidentalmente urso, por que era obrigado a adorar mel? Só porque escritores de estórias idiotas esperavam isso dele? Não, não e não! explodiu, e depois quebrou o pote de mel no chão. Em seguida pegou o boné, o cachecol, e tentou puxar o blusão para baixo para cobrir a barriga, mas não conseguia: ele estava usando tamanho G, enquanto sua pança de urso pedia mesmo era GGG.

– Também daria umas vulcanizadas no nariz desse cara, que, além de fazer o herói da estória morar numa floresta gelada, ainda o desenha com esta maldita barriga descomunal – fumegou Ursinho Puff, e derrubou a porta de madeira de sua cabana.
Tomou o rumo da casa do Leitão. Seu rosto franzido tinha um ar contrariado, e seu estômago roncava de fome. Quando chegou à casa do amigo, foi entrando sem bater; com uma patada arrombou a porta decrépita. Leitão tinha acabado de sentar-se na poltrona e estava seriamente enrolado.

– Que diabo estás fazendo, Leitão? – gritou Puff.

Leitão estava tentando chupar uma laranja havia horas, mas, ora a fruta caía-lhe da mão, ora ele cortava o dedo com a faca, ora o suco espirrava-lhe os olhos. Sua mão estava sangrando, o rosto todo melado do suco da fruta.

– Que estou fazendo, Ursinho Puff? Enrolando-me. Sabe como sou azarado. Baixinho, deficiente, mais os meus complexos. Por acaso não conheces um bom psiquiatra? Estou realmente precisando…

Cala a boca, seu leitão mamote! Não vou te ajudar. Para mim basta. Não tenho tempo na vida a perder com um insuportável porco pigmeu aleijado. E tem mais, acaba aqui este mundo idiota do divã de couro. Chegou a hora da lei do lobo! Que vença o mais forte! Abaixo a ilusão do mel e do amor! O poder do coração dá lugar ao império do estômago. Vem aí o Superurso!

E dizendo isso Ursinho Puff escancarou a gaveta da cozinha do porquinho e foi logo pegando um facão de carne com cabo de madeira. O porco anão tremia tanto na poltrona quanto as folhas de olmo nos romances russos. Com uma talhada certeira Puff cortou fora o macacão listrado do amigo, enquanto matutava como era possível existir um caráter tão bizarro a ponto de desenhar um porco com jeito de vespa.

Três horas depois, o aroma de carne assada ao timo e à manjerona serpentevoava porta-arrancada-a-fora, e espalhava-se por toda a floresta. Para começar, foi Tigrão que saltitou em direção à casa de Leitão, mais parecendo uma bola de borracha lavrada de vermelho. Foi o primeiro a sentir o cheiro, porque, como todos bem sabem, o tigre tem as melhores ventas do mundo.

– Que magnífico leitão assado, é um milagre não ter sido preparado por um tigre, pois de assados ninguém entende melhor no mundo que os tigres, isto é público e notório – exclamou Tigrão.

– Para mim chega de cenoura, quero carne! – bradou fremente o coelho Abel.

– Os miúdos dariam um bom guisado – ponderou Corujão.

– Posso dar as orelhas ao meu nenê aqui na bolsa? – perguntou timidamente Can, com um risinho maternal.

Assim começou o festim; empanturraram-se com a carne suculenta, sem dar uma palavra, apenas entupindo suas fuças ficcionais. O único a falar foi Bisonho, quando já estava ligeiramente saciado:

– Não chamamos Leitão para comer? – perguntou sem convicção.

Os bichos se entreolharam, depois berraram todos de uma vez para Bisonho:

– Sua anta!

– Não, burro – murmurou Bisonho arrasado, pois o lobo já rosnava irritado.

Para encurtar a história, o que se passou depois disso foi que o império do estômago estabeleceu-se firmemente na Floresta das Cem Luas. É certo que não durou muito tempo. Poucos dias depois, Tigrão provou que os tigres sabem preparar a melhor coruja à milanesa do mundo. E seu Abel com ensopado de cenoura fez grande sucesso entre seus amiguinhos. Ursinho Puff brilhou com sua lebre com páprica à campestre. Bisonho, por sua vez, queria mais da caçarola de urso. Se não tem cavalo, burro também vai bem, disse o bebê-canguru, ao ver as lingüiças picantes da carne de Bisonho penduradas na despensa. Can deu total apoio à tese segundo a qual nem só as revoluções devoram seus próprios filhos…

No mais, só Cristóvão saberia contar detalhada e saborosamente como fica, preparada na brasa, a verdadeira bisteca de canguru bem passada.

* Halász Judit é uma cantora de músicas infantis, “ídola” da meninada húngara há décadas, uma espécie de Xuxa húngara, só que mais inteligente, e não vendida ao merchandising. Há muita coisa dela no youtube, pra quem quiser conferir.

 

 

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3 Comentários

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3 Respostas para “Comilança com Cserna-Szabó András

  1. Arthur Szúnyog Orsi

    Manisfesto Antropofágico Animal.

  2. mnazian

    Chico, rapaz, valeu a lembrança e pelo entusiasmo 🙂 Aguardando pelo seu livro pós-carnaval para conhecer mais contos magyares, sempre muito bons os que você tem apresentado. Bora qualquer dia ouvir uma boa seresta na confeitaria traçando aquela moelinha. Leitão também podia ser, mas não como por razões morais, dá uma pena danada do animal.

  3. Pingback: matar por dinheiro « Querido Bunker,

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