Arquivo do mês: agosto 2009

de ciganos, violência e… animação

arte cigana, fonte ocmk.blogspot.com

Arte Cigana, fonte: Centro Nacional de Arte Cigana (ocmk.blogspot.com)

Muita gente deve ter ouvido falar da grande vaia que Madonna levou recentemente em Bucareste, capital da Romênia, durante um show, ao condenar o preconceito contra os ciganos e homossexuais.

É impossível saber qual das duas minorias citadas teria detonado a parte maior da vaia. Mas é da questão dos cigányok (“tsigáánhok”, plural de cigány) que me interessa tratar aqui; ou do povo roma, pra usar o termo politicamente correto (romani, em português, nome também da língua falada por eles, na verdade uma imensa gama de dialetos em torno de uma origem comum na Índia).

A Hungria, que é vizinha oestana da Romênia, tem sido abalada nos últimos meses por uma série de crimes contra ciganos. No começo de agosto, uma mulher chamada Balogh Mária foi a sétima vítima fatal em um ano. Sua filha Katrin, de 13 anos, recebeu vários tiros também, mas sobreviveu.

arte de Balogh Balázs András

Arte de Balogh Balázs András (ocmk.blogspot.com)

Outros ataques violentos, embora sem morte, vêm acontecendo com frequência, geralmente em pequenas cidades do interior (a imprensa fala em cerca de cinquenta nos últimos doze meses). A reação são mobilizações e protestos públicos dos ciganos e das pessoas em geral que lutam contra o ódio inter-étnico , além das declarações formais de praxe de políticos e autoridades policiais.

A Europa central como um todo, e a bacia dos Cárpatos em particular, onde a Hungria se encontra aninhada, é um caldeirão onde etnias diferentes convivem e/ou se atritam, cooperam e/ou se odeiam há séculos. Os magiares estão envolvidos nessa arenga há mais de mil anos, desde que chegaram ali vindos do leste (escapando de outras brigas por lá) na segunda metade do século 9.

Carnaval, Balázs János

Balázs János, Carnaval (ocmk.blogspot.com)

Eslovacos, romenos, sérvios, croatas, austríacos, bósnios, checos, além dos magiares, claro, são algumas dessas “torcidas organizadas” nacionais que ao longo da história de vez em quando têm partido pra a ignorância umas contra as outras no gigantesco Maracanã que são os cárpatos. E povos “supranacionais”, como os judeus e os ciganos têm sofrido muitas vezes no meio do fogo cruzado, ou sido usados como bodes expiatórios em momentos de grande insatisfação popular, geralmente ligada ao bolso, à falta de pénz (=dinheiro, pron. “pêênz”).

A crise financeira internacional recente deixou Magyarország (a Hungria) na “beira do precipício”, como me disse uma jovem escritora e jornalista num email de três ou quatro meses atrás. As taxas de crescimento lá já vinham medíocres há mais de uma década, mas a crise fez a coisa entrar em parafuso de vez, deixando muita gente em situação de desespero. Ela também dizia que o clima ruim entre magiares e ciganos estava chegando a um ponto insuportável.

Nesse caldo de cultura de frustração, não é de surpreender que exploda a tensão latente que há entre o magyar que se vê como “branco” e os ciganos, povo de pele morena. Tensão latente porque embora boa parte dos cidadãos de origem cigana esteja bem integrada à vida econômica, acadêmica, cultural e artística da Hungria, uma grande massa deles ainda patina na pobreza, e tem dificuldade de sair dela por vários motivos históricos e culturais, que provavelmente incluem falta de oportunidades de educação, baixa auto-estima, ética e valores culturais arraigados herdados que não encorajam a superação social, além do forte preconceito de grande parte dos que vivem em torno, que é causa, mas também consequência dessa complicada realidade.

Kupcsik Adrián, autorretrato

Kupcsik Adrián, autorretrato

O fato é que há proporcionalmente bem mais desempregados, alcoólatras, e foras-da-lei em geral (e, consequentemente, mais gente em cana) entre os roma do que entre os outros húngaros.

Além disso, eles fazem mais zoada, são mais coloridos e extravagantes do que o magiar médio, que costuma ser muito discreto em público. Os ciganos adoram festa e música alta, muitos são músicos talentosíssimos − boa parte das estrelas da música pop húngara é de origem romani −, e sempre produziram grandes violonistas e violinistas.
Aliás, um termo popular meio “codificado” pra se referir a um cigano em magiar é hegedűs (= violinista, pron. “héguedüüsh”, com biquinho, de hegedű = violino). Brahms, Liszt, Bartók e outros sabiam muito bem que a música erudita centro-européia deve muito à contribuição original e vibrante dos ciganos.

A grande poesia e literatura magiares também trataram dos ciganos, reconhecendo que, embora diferentes, eles são uma parte integral e secular da vida dos Cárpatos e da própria tradição cultural magiar no seu sentido mais amplo e rico.

Budapeste Multicor, Festival das Etnias

Cartaz do "Budapeste Multicor - Festival das Etnias", 2009

Mas seja como for, a verdade é que os cigányok são facilmente identificáveis como o “outro”, o diferente, e, nas horas de crise, como um “inimigo interno”, uma “mancha” a ser lavada para o bem da nacionalidade. Isso se complica ainda mais sabendo-se do peso político que o nazifascismo teve na história da Hungria no século 20. Certamente ficaram marcas. Há um forte movimento subterrâneo (e às vezes nem tanto) de skinheads e outros adeptos da “supremacia racial” branca em atividade na Hungria − como na Europa em geral, aliás. É do meio desses que saem, é de se suspeitar, os autores dos crimes recentes contra os ciganos. Vale relembrar que os ciganos também entraram na equação macabra da “solução final” hitlerista na Segunda Guerra Mundial.

cigány kép balzslajoskosrfonInfelizmente esses agentes truculentos terminam contando também com o silêncio e até o apoio moral de parte da população magiar, possivelmente mais pobremente escolarizada e mais oprimida economicamente, que tende a simplificar a realidade e se deixar seduzir pelos arautos da limpeza étnica como solução para os problemas do magyar.

Pra terminar, melhor nos voltarmos pra a Arte e suas estratégias pra digerir conflitos. Ano passado em Budapeste vi um filme de animação muito bem feito e divertido chamado Nyólcker (“nhôôltsker”), cujo universo são as tensões e arranca-rabos entre duas patotas, uma de “brancos”, outra de ciganos, do submundo do Nyolcadik Kerület (Oitavo Distrito, daí a abreviação Nyólc+ker, nyolc = oito) de Budapeste, mas já entram também na roda outros elementos da confusão urbana atual, como os chineses (donos de bufês de comida rápida na cidade) e os árabes.

Nyólcker cdBoritóA trama mistura muita briga, vagabundos e vagabundas de ambos os lados, policiais corruptos, amor “romeu-e-julieta” do garoto rapper-cigano-herói pela filha do cafetão branco, descoberta de petróleo no subsolo de Budapeste, riqueza que faz todos se aproximarem, complô da CIA pra acabar com a festa, que está prejudicando as grandes petroleiras americanas, até uma ordem de Bush pra detonar Budapeste com uma bomba atômica, que termina sendo jogada em Bucareste, Romênia, por engano, confirmando um erro-clichê dos estrangeiros sobre a região.

Nyólcker ganhou merecidamente uma porção de prêmios importantes de animação pelo mundo afora. Quem quiser pode conferir a página do filme, que tem uma versão mais breve em inglês, aqui. Como dá pra perceber, a técnica de animação partiu de pessoas reais, cujos rostos foram foram fotografados em vários ângulos e depois trabalhadas na animação com corpos e movimentos inventados.

Seguem alguns trailers e clips do filme: jó szorakozást!! (divirtam-se)

1. Párbaj = o duelo

2. Csajok = as gatas

3. Julika az erkélyen = Julinha na varanda (cena do balcão!)

12 Comentários

Arquivado em Uncategorized

mais Euclydes e Márai…

Convido os leitores do blog que sejam também leitores de húngaro a visitar o belo site Terasz.hu e ler outro artigo sobre essa brazil-magyar irodalmi kapcsolat. O link direto à matéria é este.

Pros brasileiros que estranharem o “brazil” com b minúsculo, explico que esse é o adjetivo “brasileiro(a)” em magiar. O nome do nosso país pra eles é Brazília, pronunciado “Bróziilió”. A frase acima, quer dizer, na ordem magiar: brasileira-magiar literária conexão.

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Euclydes da Cunha e Márai Sándor

Euclydes da Cunha

Euclydes da Cunha

Escrevo na madrugada de 15 de agosto de 2009.* Hoje faz 100 anos que Euclides da Cunha morreu. Para homenagear o grande gênio, fundador da prosa moderna brasileira, o HungriaMania apresenta um texto de João da Mata Costa, professor de Física na UFRN, homem de vastíssima leitura, alma apaixonada pela boa literatura, além de amigo, que, embora recente, eu prezo muitíssimo.

O texto apareceu há poucos dias no Substantivo Plural, de Tácito Costa, um dos dois únicos sites que eu posso dizer que visito “religiosamente” todo dia (o outro é o Papo furado, de Jairo Lima), e com os quais contribuo aqui e acolá.

Trata o texto de João, como verão, de uma fascinante “ramificação” d’Os Sertões na literatura magiar, na forma do romance Itélet Canudosban (Veredicto em Canudos), de Márai Sándor. Ao final acrescento umas notas minhas, também publicadas no Substantivo Plural, principalmente para agradecer a gentil dedicatória de João e pedir permissão pra publicar seu texto aqui.

Euclydes 100 + Veredicto em Canudos

Por Jota Eme
Para Chico Guedes

Márai Sándor

Márai Sándor

O Livro “Veredicto em Canudos” escrito pelo húngaro Sándor Márai é um daqueles livros que não desejamos acabar de ler de tão belo. Sándor leu três vezes “Os Sertões” de Euclydes da Cunha para escrever um livro de uma Canudos que não acabou com a morte do Conselheiro, mas que se perpetuou nas lutas dos estudantes de 68 em Paris, Estados Unidos, Itália e outros lugares eternamente.

Em pleno regime comunista o escritor deixa o seu país em 1948 para se exilar mesmo com medo da liberdade. Sempre escreveu na “solidão do Idioma”. Leu Os Sertões na famosa tradução inglesa de Samuel Putnam. O livro do Sándor foi traduzido para o português direto do húngaro por Paulo Schiller. “Soyez raisonable, demandez l´mpossible” era o lema dos estudantes como podia ser o do Conselheiro.

o original

o original, nova edição

O original do livro em Húngaro é salpicado de palavras e frases curtas em português, diz o tradutor. Cabra, jagunço, caititu, caatinga, etc. Outras trazem a grafia errada: conseilheiro, facendeiro, sertaneio, etc Algumas outras não encontram equivalência em Húngaro, mas a tradução do Paulo é muito boa.

É com muita ironia que o autor Sándor escreve seu livro. O narrador é um ex-cabo do exército, bibliotecário que fala Inglês. Três prisioneiros são resgatados, entre eles uma mulher estrangeira cujo marido médico trabalhava em Canudos, deixando-a sozinha. Quando ele chega a Canudos o marido já é morto. A mulher pede para tomar um banho e se transforma numa interlocutora que deixa o Marechal Bittencourt desorientado ao saber que o Conselheiro pode está vivo. A cabeça degolada do conselheiro é mostrada para os prisioneiros.

Um longo diálogo se trava entre a mulher e o Marechal. De que lado está barbárie? O Conselheiro e seu séquito de homens barbudos eram loucos? Milhares de meninos e mulheres mortos. Os corpos são queimados aos montes. Homens famintos a seguir um líder que não tinha medo. Estatísticas são mostradas para a grande imprensa. Foi a luta da civilização contra a barbárie. Uma luta desigual de homens com mosquetões e facões enfrentando canhões e um forte exercito antes por três vezes derrotado. A cabeça do Conselheiro sorri. Seu fantasma ainda assusta. Em canudos não havia suicidas. Em canudos viviam pessoas que eram felizes numa comunidade com os preceitos da igualdade. Canudos é o Brasil.

Canudos, prisioneiras, 1897 foto Flávio de Barros

Canudos, prisioneiras, 1897 foto Flávio de Barros

O major pede ao final que os três prisioneiros saiam e digam em voz alta: longa vida á liberdade. Todos mudos. E repete, digam: – longa vida á liberdade, igualdade e fraternidade!… Gritem, disse novamente pra o negro, o mestiço e a mulher.
O negro falou, mas antes olhou as trevas em que tinha se transformado Canudos: – “Cago montes para a República”. Nisso Sándor Márai encontrou uma bela analogia para o Arraial do Belo Monte. Um belo livro de um grande escritor. Recomendo a leitura.”

Euclydiana Magyar

Por Chico Moreira Guedes

Caro Jota Eme,

Muito obrigado pela dedicatória do seu belo texto. Eu vinha pensando em escrever sobre essa interessantíssima ramificação do inesgotável Os Sertões, mas não poderia ter feito melhor do que você fez.

a tradução

capa da edição brasileira

A única coisa que poderia acrescentar a tudo que você disse tão bem, é que Márai Sándor (tenho por preceito, como já expliquei no meu blog num post chamado “nomes invertidos”, usar sempre os nomes húngaros à magiar, sobrenome antes) aproveitou o impacto profundo que lhe causou a leitura de Rebellion in the backlands, nome dado à tradução d’Os Sertões, pra falar também de um mal-estar civilizatório especificamente europeu de virada de século: o profundo esvaziamento espiritual da experiência burguesa, que iria culminar nos horrores das duas grandes guerras mundiais.

É isso o que leva um médico suíço bem estabelecido social e profissionalmente a abandonar a esposa e o conforto de sua vida européia sem deixar explicações e partir para a minúscula Canudos, do outro lado do mundo, sobre a qual ele apenas lera em jornais. Posteriormente, sua esposa parte-lhe no encalço, desejosa de entender a decisão do marido. Mas chega tarde demais, o esposo havia falecido enquanto trabalhava como médico no arraial do Vaza-Barris; ela, no entanto, se vê também envolvida e integrada à vida comunal e espiritualmente informada de Canudos.

E é a profundidade dessa questão filosófica e existencial que Márai aporta à história, no meu entender, com a sensibilidade de europeu e herdeiro intelectual da derrocada da ordem centenária do Império Austro-Húngaro, e que dá o tempero mais apurado à ficção euclydianamente inspirada de Veredicto em Canudos.

* quem leu o blog ontem e hoje notou que eu me enrolei com que dia era mesmo na madrugada em que escrevi; desculpem, me enrolei mesmo. a frase só fará sentido daqui a pouco. agora são 23:30 de sexta, 14 de agosto. :-))

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Cseh Tamás (1943 -2009)

Cseh Tamás

Cseh Tamás

Morreu quinta-feira, 6 de agosto, aos 67 anos o grande multiartista húngaro Cseh Tamás. Músico, cantor, compositor, ator, tradutor, homem de palco que ficou famoso desde o início dos anos 70 pelas belas canções que criava com letras inteligentes tratando de questões existenciais, dos nossos desejos e de situações do cotidiano, pela sua atuação em alguns filmes, e pelos muitos espetáculos teatrais solo que fez ao longo da vida, onde misturava música e texto interpretado, e que atraíam e estimulavam um público sempre fiel.

Sozinho ou com parceiros, o mais famoso deles o escritor e diretor de teatro e cinema Bereményi Géza, produziu mais de mil e duzentas canções, muitas das quais se tornaram parte importante da memória musical dos magiares nas últimas quatro décadas. Cseh Tamás perdeu a parada para complicações decorrentes de um cancer no pulmão que o afligia há pelo menos três anos.

Apesar de produzir grande parte de sua arte sob a repressão cultural e política do regime socialista (algumas canções suas só foram lançadas em disco depois da queda do ancien régime), Cseh Tamás foi um artista que manteve sua integridade e, segundo seu amigo Eperjes Károly, era um homem que “exalava impressionante liberdade”.

E, apesar da fama, Cseh Tamás foi sempre simples e accessível, sem estrelismo. Ademais por ser artista formado numa época ainda intocada pelos vícios do culto das celebridades. Bons tempos aqueles em que os artistas eram apenas seres humanos talentosos!

(fonte: http://www.hirado.hu )

Seguem-se três clips de dois momentos distintos da carreira de Cseh Tamás. No primeiro um jovem Tamás canta Tango, numa interpretação que tem um certo clima Kurt Weil. A segunda é uma bela performance teatro-musical a capela onde um homem se debate com a pergunta-cobrança “porque não tens ideal?” (mért nincs ideálod?), na “canção” Ideálom (Meu ideal), e no terceiro ele canta com Másik János a bonita balada Budapest:

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Comilança com Cserna-Szabó András

Faz dias que ando lendo, pesquisando, catando traduções pra tentar fazer um post decente sobre o poeta Ady Endre (1877-1919), o grande “inventor” da modernidade na poesia e no universo intelectual magiar, que já mencionei antes, e que Paulo Rónai considerava “o maior nome da literatura húngara, um dos grandes poetas da literatura universal”.

Cserna-Szabó András

Cserna-Szabó András

Enquanto o Ady-post não sai, espero que se divirtam com a tradução que fiz deste contoparódia de Cserna-Szabó András, um dos jovens autores que andei traduzindo tempos atrás. Esse conto já apareceu antes no excelente (finado?) Querido Bunker de Márcio Nazianzeno.

A propósito, o nome do autor se pronuncia “Tcherno-Sóbôô Ondráásh”, e szabó quer dizer alfaiate (aliás, o mesmo que Taylor, sobrenome inglês). O nome original do conto é Malacpecsenye (“mólóts-pétchenie”). Interessantemente, malac = bacorinho, leitão novinho, mas também = obsceno, indecente, enquanto adjetivo. Pecsenye = assado, como substantivo, como em “o assado tava ótimo”. Assim o título tem um duplo sentido, assado de leitão (daí leitão assado), ou assado obsceno, que infelizmente perdemos na tradução.

Como verão, Malacpecsenye é um episódio punk-culinário com turminha do ursinho Puff, o Winnie-the-Pooh, de A. A. Milne, que em magyar é conhecido como Micimackó (mitsi-matscôô).

Karinthy Frigyes

Karinthy Frigyes

Acontece que as histórias de Pooh-Puff foram traduzidas e adaptadas do inglês pro Magiar em 1936 por Karinthy Frigyes (1887-1938) (“Kórinthy Fridyesh”), escritor conhecido (mas não apenas) pela sua verve cômica e irônica, e que também traduziu As aventuras de Tom Sawyer, além de escrever dois romances-sequência d’As viagens de Gulliver. Daí Micimackó virou um fenômeno cultural bem húngaro, marcando a formação de toda meninada de lá pra cá. São incontáveis as páginas em húngaro, com música, videos e o escambáu, que a gente encontra em magiar se googlelizar “micimackó”. Experimentem e verão. Já encontrei até “A Bíblia segundo Micimackó”, é mole?

Mas vamos ao banquete do Chef “André”, que certamente tem sugestões que extrapolam o ambiente familiar da cozinha e da sala de jantar…

Cserna-Szabó András (1974)

LEITÃO ASSADO

Ursinho Puff acordou num desses dias em que não se acha nada pra fazer. Não teve nem vontade de se levantar. Lá fora, na Floresta das Cem Luas rugia a tempestade de neve. Depois nosso urso ficou de saco cheio de rolar para lá e para cá na cama e finalmente levantou-se. Colocou seu disco favorito de Halász Judit* no gramofone, e foi à despensa atrás de mel. Colocou o pote na mesa, sentou-se, e meteu uma gostosa patada na doce substância. Levou a mão esquerda ao focinho e, com uma única enorme lambida, deu conta de toda aquela viscosa delícia.

– Ééca! – rosnou Puff furioso, cuspindo o mel no assoalho. – Se eu continuar com essa alimentação monótona acabo pegando uma escarlatina.

Ou seja, Puff detestava mel. Na verdade, detestava todos os estereótipos. Então, por ter nascido acidentalmente urso, por que era obrigado a adorar mel? Só porque escritores de estórias idiotas esperavam isso dele? Não, não e não! explodiu, e depois quebrou o pote de mel no chão. Em seguida pegou o boné, o cachecol, e tentou puxar o blusão para baixo para cobrir a barriga, mas não conseguia: ele estava usando tamanho G, enquanto sua pança de urso pedia mesmo era GGG.

– Também daria umas vulcanizadas no nariz desse cara, que, além de fazer o herói da estória morar numa floresta gelada, ainda o desenha com esta maldita barriga descomunal – fumegou Ursinho Puff, e derrubou a porta de madeira de sua cabana.
Tomou o rumo da casa do Leitão. Seu rosto franzido tinha um ar contrariado, e seu estômago roncava de fome. Quando chegou à casa do amigo, foi entrando sem bater; com uma patada arrombou a porta decrépita. Leitão tinha acabado de sentar-se na poltrona e estava seriamente enrolado.

– Que diabo estás fazendo, Leitão? – gritou Puff.

Leitão estava tentando chupar uma laranja havia horas, mas, ora a fruta caía-lhe da mão, ora ele cortava o dedo com a faca, ora o suco espirrava-lhe os olhos. Sua mão estava sangrando, o rosto todo melado do suco da fruta.

– Que estou fazendo, Ursinho Puff? Enrolando-me. Sabe como sou azarado. Baixinho, deficiente, mais os meus complexos. Por acaso não conheces um bom psiquiatra? Estou realmente precisando…

Cala a boca, seu leitão mamote! Não vou te ajudar. Para mim basta. Não tenho tempo na vida a perder com um insuportável porco pigmeu aleijado. E tem mais, acaba aqui este mundo idiota do divã de couro. Chegou a hora da lei do lobo! Que vença o mais forte! Abaixo a ilusão do mel e do amor! O poder do coração dá lugar ao império do estômago. Vem aí o Superurso!

E dizendo isso Ursinho Puff escancarou a gaveta da cozinha do porquinho e foi logo pegando um facão de carne com cabo de madeira. O porco anão tremia tanto na poltrona quanto as folhas de olmo nos romances russos. Com uma talhada certeira Puff cortou fora o macacão listrado do amigo, enquanto matutava como era possível existir um caráter tão bizarro a ponto de desenhar um porco com jeito de vespa.

Três horas depois, o aroma de carne assada ao timo e à manjerona serpentevoava porta-arrancada-a-fora, e espalhava-se por toda a floresta. Para começar, foi Tigrão que saltitou em direção à casa de Leitão, mais parecendo uma bola de borracha lavrada de vermelho. Foi o primeiro a sentir o cheiro, porque, como todos bem sabem, o tigre tem as melhores ventas do mundo.

– Que magnífico leitão assado, é um milagre não ter sido preparado por um tigre, pois de assados ninguém entende melhor no mundo que os tigres, isto é público e notório – exclamou Tigrão.

– Para mim chega de cenoura, quero carne! – bradou fremente o coelho Abel.

– Os miúdos dariam um bom guisado – ponderou Corujão.

– Posso dar as orelhas ao meu nenê aqui na bolsa? – perguntou timidamente Can, com um risinho maternal.

Assim começou o festim; empanturraram-se com a carne suculenta, sem dar uma palavra, apenas entupindo suas fuças ficcionais. O único a falar foi Bisonho, quando já estava ligeiramente saciado:

– Não chamamos Leitão para comer? – perguntou sem convicção.

Os bichos se entreolharam, depois berraram todos de uma vez para Bisonho:

– Sua anta!

– Não, burro – murmurou Bisonho arrasado, pois o lobo já rosnava irritado.

Para encurtar a história, o que se passou depois disso foi que o império do estômago estabeleceu-se firmemente na Floresta das Cem Luas. É certo que não durou muito tempo. Poucos dias depois, Tigrão provou que os tigres sabem preparar a melhor coruja à milanesa do mundo. E seu Abel com ensopado de cenoura fez grande sucesso entre seus amiguinhos. Ursinho Puff brilhou com sua lebre com páprica à campestre. Bisonho, por sua vez, queria mais da caçarola de urso. Se não tem cavalo, burro também vai bem, disse o bebê-canguru, ao ver as lingüiças picantes da carne de Bisonho penduradas na despensa. Can deu total apoio à tese segundo a qual nem só as revoluções devoram seus próprios filhos…

No mais, só Cristóvão saberia contar detalhada e saborosamente como fica, preparada na brasa, a verdadeira bisteca de canguru bem passada.

* Halász Judit é uma cantora de músicas infantis, “ídola” da meninada húngara há décadas, uma espécie de Xuxa húngara, só que mais inteligente, e não vendida ao merchandising. Há muita coisa dela no youtube, pra quem quiser conferir.

 

 

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized