Arquivo do mês: julho 2009

Radnóti… nova versão de ‘Hasonlatok’

Há um post que fiz tempos atrás em torno de um poema de Radnóti Miklós. Pois bem, acabo de colocar lá uma nova versão minha, junto com o original em magiar. Estão convidados a conferir… clicando aqui.

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Um conto de Balogh Robert (e +)

Peço descupas a meus dois ou três leitores habituais pela longa demora em atualizar o blog. O tempo andou encurtando no último mês e pouco, e terminou com uma fugida de quinze dias pra Rio e São Paulo, de onde voltei anteontem (quarta-feira, 8 de julho). No final do post, em NOTAS DE VIAGEM, falo de felizes surpresas desses dias viajeros.

Vista de Pécs, Szechenyi Tér

Vista de Pécs

Antes quero partilhar um conto de Balogh Robert, jovem escritor nascido em 72, que mora na linda cidade de Pécs (pron. Pêêtch), no sudoeste da Hungria. Pécs tem uns 160 mil habitantes, é sede de uma prestigiosa universidade, sobretudo na área de estudos literários, e foi escolhida recentemente Capital Cultural da Europa pra 2010, junto com Essen e Istanbul. Quem lê inglês, húngaro, alemão, ou croata pode conferir as atrações da cidade no portal oficial http://varoslako.pecs.hu/.

Balogh Robi na chuva

Balogh Robi na chuva

Além de escritor bem conhecido, Robi é também agitador cultural e editor do online kulturális magazin Terasz.hu (significa terraço mesmo).

O conto se chama Apa nyara, Anya nyara, literalmente ‘verão do pai, verão da mãe’, e é, como perceberão, narrado por uma criança que passa o verão na casa dos avós, aonde foi deixada pelos pais, que saíram em férias, daí minha opção pelo título com férias, no lugar de verão.

Na feitura da tradução aconteceu um fato curioso: como o magiar não tem marca de masculino e feminido nos adjetivos (como temos: danado-danada, curioso-curiosa, etc), e nem sequer as formas ele e ela, já que a terceira pessoa, “ő”, significa igualmente ele ou ela, é possivel lermos uma história inteira em húngaro sem saber exatamente se se trata de um narrador ou personagem masculino ou feminino. Do ponto de vista literário isso dá uma ambiguidade interessante e enriquecedora, mas pro tradutor é uma armadilha perigosa.

Eu, por exemplo, já tinha traduzido o conto inteiro crente que o herói era um menino, apenas por uma dedução minha; aí, em correspondência com o autor, descobri que na verdade tratava-se de uma menina, uma moleca tomboy de fala torrencial e cativante. Bom, deixo vocês mesmos conferirem.

Robert Balogh (1972)

FÉRIAS DO PAI, FÉRIAS DA MÃE

Não aguento sentar o traseiro. Não aguento esperar que Papai acabe de dizer o que quer. Corremos pra fazer! Brincamos de pique, e como! Eu sou a mais ligeira, só estudar é que eu não consigo. Não gosto de ficar sentada. Tenho que me mexer, minhas pernas não param. Sou como uma esponja, tio Toni diz que vale a pena me ensinar. Tio Toni deixa eu ficar desenhando na aula, e também deixa eu sair no meio da aula. Diz que sou uma legal. No maternal já era deste jeito. Potrinha, a babá me chamava assim. Nunca parava de me mexer. Quando resolvo mesmo, brinco até debaixo da carteira. Muito chata, a aula. É isso. Agora querem me expulsar, porque me botam pra fora da aula e eu não fiquei em pé no corredor, saí e brinquei bastante. Nos balanços, e tudo. Já trouxe gato, sapo, e até cachorro pra a escola. Eram tão legais! Disseram que ando fora de controle. Fico vadiando com os vaqueiros. Andando à toa com o pessoal do circo. Disseram também que ando dando muito desgosto a eles. Pra mim tanto faz se eles me derem uma surra. Vão pro inferno! Não vão conseguir me forçar. Não sou dessas. A pessoa pode até adoecer por dentro se ficar com tanta raiva na cabeça. Não preciso de escola, assim aprendo mais. Uma vez vi uns feirantes puxando um bezerrinho pelo rabo. Essas maldades é que deviam castigar. Se eu fosse uma ministra mandava castigar bem esses puxadores. Uma vez, no meio da brincadeira, minha roupa rasgou-se tanto, tanto, que quase não dava pra remendar, só Ômama(1) conseguiu, e ela nem contou pra ninguém, porque Ômama é uma legal também. Só que ela não tem tempo pra nada, tem que lavar roupa, cozinhar, limpar, e tudo. Ainda tem que cuidar de mim, e do gato também. Ela achou tão ruim o macarrão de semolina que jogou no prato do gato. Eu sempre tive medo de casaco pendurado. Como se fosse gente. Ela foi comigo no armário, abriu, e ficamos olhando: casacos e mais casacos. Ainda tive um pouquinho de medo, mas não tanto.
Ôpapa também é um legal, só que os nervos dele estão fracos, diz ele, nervos fracos. Fica sempre em pé perto do poço, porque gosta de lá. Vive dizendo que é porque não lhe dão outra coisa, só bolinhos (2) velhos. Ele acredita mesmo que só lhe dão de comer bolinhos velhos, e já está abusado de tanto mastigar. Se me dessem também só bolinhos velhos, eu não ia ter pressa em comer, só se me batessem na bunda. Mas aqui em casa não tem bolinhos velhos! Muitas vezes tem bolinhos com batata na banha cheia de páprica, com repolho no vapor e semente de cominho, mas os bolinhos nunca são velhos. Não entendo por que Ôpapa acha isso. Outras horas Ôpapa é legal. Conta tudo que é história. Como é possível se descer até a casa dos diabos pelo poço, e que ele fica lá pra os diabos não poderem sair. Se não eles nos arrancam de casa, e, disseram, nos pendurariam num gancho, como o porco, pra o sangue da gente ficar pingando bem, porque não é bom que fique dentro da carne do porco, senão fica tudo preto quando assar. Ôpapa me diz que ele é um doido. De verdade. Ele desceu do bote numa pedra e empurrou com o pé. Não conseguiu subir de volta. Um bote como, Ôpapa? Esconderam? Eu procuro pra você, se você quiser. Posso buscar também no sótão, só que lá tem muita aranha. Ôpapa ficou explicando o bote, mas eu não entendi. Ele diz que tem um amigo que conversa com ele quando não tem ninguém lá com ele. Só faz resmungar consigo mesmo, fica de pé junto do poço e resmunga. Fiquei com ele até de noite, caçando um dragão, com um pedaço de pau, nem tive medo. Ôpapa falou o tempo todo. No dia seguinte não quis entrar na cozinha de verão, que só iam lhe dar bolinhos velhos de novo, matraqueava, só que nem teve bolinhos. Só entrou quando quase todo mundo já tinha quase terminado, mas foi dizendo que não queria muita coisa, não estava com fome, só queria alguma coisa pra beber. Sempre diz isso, depois come tanto como alguém que não tivesse comido nunca, só agora, pela primeira vez, e que por isso tivesse que encher o grande buraco na barriga. Comeu carne assada com batata, semente de cominho no repolho ao vapor, o que sobrou Ômama botou tudo no seu prato. Comia ligeiro, sem mastigar, só engolindo, com o gogó pra cima e pra baixo, e o molho escorrendo da boca. De repente parou. Começou a falar com a boca cheia, cuspindo pedaços de repolho, berrou. Pegou a faca ficou gesticulando com ela. Todo mundo ficou com medo. Ômama chorava. Eu me escondi, como um coelhinho. Ôpapa gesticulava com a faca, gritava com a cama, depois meteu a faca no edredom com toda força. As penas voaram. Disso eu gostei. Ôpapa voltou pro poço. Tava furioso. Ninguém se mexeu. Depois disso passaram a cortar sempre a comida dele todinha antes, como fazem pra mim. Não lhe deram mais faca. No dia seguinte Ôpapa contou que ali tinha um diabo, uma figura preta. Tinha um olhar bem assustador, queria fazer mal à gente. Ele estava defendendo todo mundo. Porque essas figuras pretas são sinistras. Com eles tem que ser assim. Faca enfiada na barriga. Pra doer bem. Que eles não sentem dor como a gente sente. Segundo Ôpapa, ele deu no pé. Contei a Ôpapa que eu também vi uma alma. Ficou em pé do lado da minha cama, virado por cima de mim, olhando. Eu disse, o que você está olhando? Vá-se embora, não fique me olhando assim, pra eu não conseguir dormir por sua causa, seu monstro! Eu disse a ele, direto pra casa, seu troço! Prometi que nunca mais migalhava a cama de pão, e ele lá, plantado. Rezei. E ele lá, só olhando. Por que não me deixa em paz – perguntei. Foi atrás de mim até a despensa, e no corredor também lá estava ele. Não me deixou em paz, o peste. Estirei a língua pra ele, mas ele só olhava. Não dizia nada, só olhava. Aí eu afugentei ele, ou foi embora? Não sei, só adormeci, e de manhã não estava mais em canto nenhum. E nem voltou mais. Ainda bem.

Notas:
1. Este conto é capítulo de um romance, que por sua vez compõe uma trilogia chamada Schvab evangiliom, cujo universo é a cultura de origem germânica, conhecida na Hungria como “sváb”, suábio, uma minoria étnica que, embora hungarizada e bem integrada, retém traços culturais e lingüísticos próprios. Daí, por exemplo, as formas Ópapa e Ómama para vovô e vovó usadas pelo autor, derivadas do alemão Opa e Oma (adaptadas à pronúncia magiar pelo ó, longo, inicial), distintas dos equivalentes húngaros nagyapó (ou papa) e nagyanyó (ou nagymama). Na tradução optamos por manter os termos originais, aportuguesando a grafia, para efeito de pronúncia, usando ô, próximo do ó magiar. Por outro lado, a expresão “egy jó”, que a menina narradora utiliza para descrever-se a si própria e ao avô e avó em alguns momentos do texto, e que eu traduzi como “um/uma legal”, é, segundo o autor, uma invenção da fala de criança que deriva possivelmente, por redução, do alemão “ein guter Mensch” (um bom ser humano).

2. A palavra no original, gomboc (pron: gombôts), refere-se a uma enorme variedade de bolinhos esféricos, de tamanho variável, feitos geralmente com farinha de trigo, que os húngaros comem cozidos dentro da sopa, fritos como prato principal, ou recheados com geléia e polvilhados com açúcar na sobremesa. São uma verdadeira instituição culinária centro-européia.

NOTAS DE VIAGEM

Márai, prim. à direita, entre litterati

Márai (primeiro à direita) entre amigos litterati

Uma das melhores coisas da viagem que acabei de fazer foi ter tido o grande prazer de conhecer pessoalmente Paulo Schiller, que eu já mencionei aqui, no post anterior, e que é responsável por grande parte da boa literatura húngara que podemos ler em português, inclusive a maior parte dos romances de Márai Sándor publicados aqui, como O legado de Eszter, Veredicto em Canudos, Rebeldes, De verdade, mais o excelente Confissões de um burguês, todos pela Companhia das Letras, além do maravilhoso e infelizmente pouco divulgado O viajante e o mundo da lua, de Szerb Antal, publicado pela Ediouro em 2007. Paulo traduziu também A língua exilada, livro de ensaios de Kertész Imre, ganhador do Nobel de literatura de 2002.
KrúdyLast but not least, Paulo traduziu para a CosacNaify duas jóias: a primeira é uma novela do genial Krúdy Gyula, O companheiro de viagem (Az útitárs), num volume em que aparece apendado um trecho dum texto antológico de Márai Sándor, Szindbád volta para casa (Szindbád hazamegy), um elogio afetivo e muito inspirado de Márai à magia do mestre Krúdy, por muitos considerado o maior prosador magiar do século passado, um inventor literário cuja tradução é um notório desafio. A segunda é a genial e engraçadíssima novela O poste de vapor, de Molnár Ferenc, mesmo autor, é claro, do clássico Os meninos da rua Paulo, que Paulo Rónai traduziu ainda nos anos 50.
Além de todas essas encomendas para verter do magiar, Paulo tem feito também excelentes traduções do inglês, como é o caso do ótimo A interpretação do assassinato, de Jed Rubenfeld, sobre uma visita de Freud e Jung a Nova Iorque em 1908, misturada com uma trama criminosa, e contendo uma descrição primorosa da grande metróple norteamericana no início do século passado.
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