“Suas partes obedecem à arte”… que magia tem o magiar?

Poema gráfico de József Attila

Poema gráfico de József Attila

“Minha pátria é minha língua”, diz Caetano Veloso na letra de Língua, parafraseando Fernando Pessoa. Vejo também, no meu Little Oxford dictionary of quotations, que Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951), pensador que fez da linguagem sua obsessão de estimação, anotou em 1922 no seu Tractatus Logico-Philosophicus: “Os limites da minha língua significam os limites do meu mundo”.

Apois, parece mesmo que língua-mãe é um rio que nos percorre profundo, coisa visceral, identitária, quer tenhamos consciência disso ou não. Os psicanalistas babam entre seus meandros e armadilhas, e o poetas, claro é, têm com a língua e seus recursos uma relação consciente, cultivada.
Por outra, quem de nós já viajou pra país de língua diferente, especialmente se lá demorou, terá, talvez, sentido o leve frisson que costuma nos percorrer quando no meio duma rua cheia de uma multidão de estrangeiros ouvimos inesperadamente uma frase em brasilês. Se for no nosso sotaque particular então… (ou pelo menos costumava ser assim, antes das viagens internacionais se tornarem ‘esporte’ de massa, quando ainda não se encontrava tantas hordas de brasileiros falando alto pelo mundo afora.)

Magyar Nyelv Múzeuma, em Széphalom

Magyar Nyelv Múzeuma, em Széphalom

Quando se trata dos húngaros, no entanto, arrisco dizer que levam o caso com a magyar nyelv (língua magiar) ao paroxismo, é um affair bem passional. E não é difícil compreender por quê. Imagine-se falando uma língua que não parece com nenhuma outra conhecida (o parentesco distante com o finlandês e estoniano não conta, é irreconhecível, na prática), que o resto do mundo geralmente considera como uma excentricidade, espécie de freak linguísitico inacessível e supostamente inaprendível por um adulto estrangeiro, como afirmou Paulo Rónai em Como aprendi o português, se não me trai a memória.

Isso sem falar nas razões históricas, nas frustrações e humilhações que a nação magiar sofreu nos últimos quatrocentos anos nas mãos de turcos, austríacos, e, mais recentemente, dos vitoriosos da Primeira Guerra Mundial, que lhe retalharam o território, e dos russos e seus tanques. O idioma permaneceu como o único e precioso bem não-roubado, único recurso e refúgio para a sobrevivência espiritual do povo magiar.

Balassi Bálint (1554-1594), poeta e guerreiro renescentista, primeiro clássico da literatura magiar

Balassi Bálint (1554-1594), poeta e guerreiro renescentista, primeiro clássico da literatura magiar

Quanto à afirmação do grande Rónai Pál (pra usar seu nome original), ela me acompanhou na chegada à Hungria em 98 como um fantasma a repetir: “desista da língua, não adianta esforço, é impossível um adulto aprender o magiar”. Levou um tempo razoável pra eu começar a desafiar essa sentença fatal, o que, aliás, continuo fazendo todo dia, num processo contínuo de frustração, descoberta e fascinação.

Mas, retomando o fio da meada, imagino que os Bascos, por exemplo, outra gente que fala um idioma antiqüíssimo, desprovido de parentes lingüísticos conhecidos, também se sinta uma espécie de povo eleito, depositário dum tesouro preciosíssimo vedado aos ouvidos e aos olhos curiosos do resto do mundo. E que cultivam e se deleitam com isso, assim como fazem os magyarbeszélők, os falantes de magiar, literalmente ‘magiarfalantes’ (beszélni = falar, donde beszélő /bécêêlöö/= falante, falador, o que fala; esse öö no final vale uma vogal mais longa, bilabial, ou seja, de “biquinho”, como o ‘eu’ em ‘feu’ francês).

Cartas de São Paulo, primeiro livro impresso em magiar

Cartas de São Paulo, primeiro livro impresso em magiar

O mote para este texto foi um email que recebi esta semana de Paulo Schiller contendo algumas citações famosas de estrangeiros sobre a língua magiar. Paulo Schiller, se é que alguém ainda não o conhece, é o maior tradutor brasileiro de literatura húngara da atualidade, e sua produtividade é uma coisa de louco, especialmente considerando que ele é também pediatra e psicanalista. Seus pais saíram da Hungria no final dos anos 40, viveram dois anos em Florença e emigraram pro Brasil em 50, pra São Paulo mais precisamente, onde Paulo nasceu e vive até hoje. Pretendo escrever qualquer hora um texto sobre traduções de literatura húngara disponíveis em português e certamente direi mais sobre a enorme contribuição destes dois grandes Paulos, o Rónai e o Schiller.

Magyarlovas, guerreiro magiar

Magyarlovas, guerreiro magiar

Abaixo seguem algumas das citações referidas, traduzidas por mim do húngaro, pois embora feitas originalmente em outras línguas elas estavam no email e circulam na internet em magiar, sem dúvida pra realimentar o deleite e orgulho lingüístico dos magyarok. Mas, para além disso tudo, elas apontam qualidades lógicas, de precisão léxica minimalista, e de flexibilidade criativa amplamente reconhecidas nesse antigo idioma trazido para a Europa por Árpád e suas sete tribos de ferozes guerreiros nômades montados nos seus pequenos e ágeis cavalos, e que por cem anos infernizaram a Europa com seus raids. Mas isso são outros quinhentos; vamos a elas:


“Os magiares não são realmente gente da terra, e sim uma raça extraterrestre superinteligente que conseguiu se fundir com os humanos, e só a genialidade de sua obras e sua língua completamente ininteligível os denuncia.”
Nicholas Lezard, numa crítica sobre o romance O viajante e o mundo da lua*, de Szerb Antal, no The Guardian, 2004. (*título da tradução brasileira, de Paulo Schiller. O original é Utas és holdvilág)

“A estrutura lógica e perfeita da língua magiar supera a de todas as outras línguas.”
Jacob Grimm, um dos irmãos Grimm (século 19), que foi também o autor da primeira gramática científica do alemão.

“A estrutura da língua magiar é tal, que é como se uma assembléia de lingüistas a tivessem criado explicitamente para conter toda regularidade, concisão, harmonia e clareza.”
N. Erbersberg, estudioso vienense do século 19.

“Depois de estudar a língua magiar durante anos, estou convencido de que: se o magiar tivesse sido minha língua materna minha obra seria muito mais valiosa. Simplesmente porque nessa língua extraordinária, carregada de força ancestral é possível descrever mais precisamente as diferenças mais minúsculas, os tremores mais secretos das emoções.”
George Bernard Shaw (1856-1950), célebre dramaturgo e polemista irlandês.

Antologia do conto húngaro Topbooks coverPra finalizar, acrescento um trecho da “Pequena Palavra”, a introdução que Guimarães Rosa − um poliglota consumadíssimo, que lia, por baixo, umas 15 línguas diferentes −, escreveu para a preciosa Antologia do conto húngaro, que Paulo Rónai traduziu e publicou em 1956 pela Civilização Brasileira, e que teve uma reedição mais recente, ainda disponível, da Topbooks. A quem interessar possa, trata-se duma excelente, imperdível introdução à literatura magiar.

“ Será (o magiar), se dizer posso, uma língua menos “da lei” que “da graça”; uma língua para homens muito objetivos, ou para poetas. Nem não é tudo. Também, e o quanto ninguém imagina, é uma língua in opere, fabulosamente em movimento, fabril, incoagulável, velozmente evolutiva, toda possibilidades, como se estivesse sempre em estado nascente, apta avante, revoltosa. Sem desfigurar-se, como um prestante e moderno mecanismo, todo tratável, ela aceita quaisquer aperfeiçoamentos estruturais e instrumentais, que nas exaltadas arremetidas criadoras de uma experimentação contínua, os escritores lhe infligem, segundo as mais sutis ou volumosas intenções. Suas partes obedecem à arte. Deste ponto-de-vista, nenhuma outra haverá tão plástica e colaborante, sem inércia.”

Deu vontade de conhecer melhor essa língua misteriosa? Pois… não se admirem d’eu ter-me ‘aviciado’ nela…

Halloti Beszéd (discurso aos mortos), séc.12-13, mais antigo texto magiar conhecido

Halloti Beszéd (discurso aos mortos), séc.12-13, mais antigo texto magiar conhecido

Anúncios

15 Comentários

Arquivado em Uncategorized

15 Respostas para ““Suas partes obedecem à arte”… que magia tem o magiar?

  1. Edu

    Chico…. não existem palavras, nem em Português, nem em Húngaro para dizer o quanto eu gosto dos seus posts.
    Este em especial parece que foi escrito pra mim!

  2. Grande Chico,
    infelizmente fui pego por uma virose.
    Tive que desmarcar até uma viajem essa semana.
    Mas já estou melhorando.
    Não é gripe suina, os médicos já confirmaram.
    Abraço.

  3. Por falar nisso, Guerreiros poetas! Sensacional! Muito bom!

  4. Arthur Szúnyog Orsi

    O melhor blog de literuatura húngara do Brasil com certeza!!!

    amo muito tudo isso (ainda bem que não engorda)

    achei interessante a utilização de estrangeirismos no inicio do texto.

    sem falar que esses trechos aqui publicados irão diretamente para meu trabalho a respeito da magyarül
    .

  5. Luiz Henrique

    Como pode-se tornar um admirador da língua magiar sem nada dela conhecer ou, pelo menos, nada entender ou falar? Basta conviver com e ler os textos de Chico sobre o assunto. Abraço do irmão.

  6. Patricia Guedes

    Chico, só você, que conheço, é capaz de se lançar em tamanha empreitada, como essa de descobrir a língua magiar. Prova que somos capazes, em qualquer idade, de desbravar tantos mundos maravilhosos. Beijo com amor da sua mana.

  7. tania

    Chico dear,

    estarei por aqui…. mas durante a semana durmo cedo para acordar de madrugada para o trabalho. que tal nos vermos na sexta (dia 26) ou sábado? Vamos marcar?

    beijitos

  8. mnazian

    muito bom isso tudo aí, valeu chico.

  9. Gustavo Barbosa

    Chico, parabéns por seu blog, cada vez melhor. Grato pela generosa carona que você nos dá em seu percurso de prazerosas descobertas na lógica sensível e sutil da língua magyar. Dá gosto ler seus posts. Bjs, Gustavo.

  10. mnazian

    Sziasztock, Moreira Guedes.

    postei uma música de daniel.
    escute lá depois.

    abraço.

  11. Achei excelente o Blog, Parabéns pela iniciativa, acho que para aprender hungáro realmente tem que ter muita habilidade linguística pois é muito dificil para os latinos, mas lembro bem de um provérbio hungáro ( Magyar Kózmóndás) que diz assim ” Almokbán és szerelembem semmi nem lehettlen” Mais ou menos assim no amor e no sonho nada e impossivel ou seja tem que ter muito amor pela cultura para aprender está lingua quase impenetravél mas com certeza e uma experiencia linguística única.

    • Chico Moreira Guedes

      Kedves Wladimir, köszönöm szépen a megtisztelő szavaid. Obrigado também pelos comentários, dicas e sugestões.
      Em relação ao aprendizado do belo idioma do édesnagypapád Béla, duas das primeiras frases que aprendi quando resolvi encarar a magyar nyelv foram: “akarni kell”, e “nehez, de nem lehetetlen”.
      abraço e seja sempre bem vindo.

  12. Espero que alguém leia meu comentário, e se o fizer, que possa orientar-me. Contra toda a precaução, desejo aprender a língua magiar. Vivo na inglória Brasília, a capital, mas sonho com lugares e línguas distantes. O gaélico, depois de muito buscar, encontrei quem me ensine – um irlandês: nada mais, nada menos. Quanto ao húngaro…lembro-me de chorar assistindo em pequena a um filme sobre um refugiado húngaro na América, após o levante fracassado de 1956. Amor à 1ª vista.Quem sabe haja um magiar com paciência para uma novata…sou disciplinada e persistente!

    • Guilherme

      Cara Rose,

      Também vivo na “gloriosa inglória” capital, sou cadando de nascença. Estou tendo aulas aqui com uma professora húngara, consegui o contato através da Embaixada. Se quiser, posso te passar o contato dela. Meu e-mail é: guilhermecintra@hotmail. Estou adorando as aulas. A língua é mesmo muito bonita e cheia de surpresas. E como disse o Chico mais acima: “nehez, de nem lehetetlen”. A magyar nagyon szép nyelv!!! 🙂

      Um abraço!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s