Arquivo do mês: maio 2009

“Suas partes obedecem à arte”… que magia tem o magiar?

Poema gráfico de József Attila

Poema gráfico de József Attila

“Minha pátria é minha língua”, diz Caetano Veloso na letra de Língua, parafraseando Fernando Pessoa. Vejo também, no meu Little Oxford dictionary of quotations, que Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951), pensador que fez da linguagem sua obsessão de estimação, anotou em 1922 no seu Tractatus Logico-Philosophicus: “Os limites da minha língua significam os limites do meu mundo”.
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Húsleves, um conto de Péntek Orsolya

Húsleves (pron. “rúúshlevesh”) quer dizer literalmente sopa de carne; hús = carne e leves = sopa. Mas a idéia prosaica que uma sopa evoca no brasileiro não dá a medida do que esse prato significa no universo culinário e cultural centro-europeu. Húsleves é o “cozido” em torno do qual as famílias húngaras costuma(va)m se reunir aos domingos e nos dias de festa, e é também o primeiro prato nos banquetes de casamento. Há evidências históricas de que essa centralidade culinária da húsleves remonta pelo menos ao século 18, quando o Reino da Hungria compreendia uma área três vezes maior do que o país atual, podado que foi em seu território pelo Tratado do Trianon em 1920. Assim a tradição sobrevive também nos territórios perdidos para a Eslováquia, Croácia, Sérvia, Romênia e Ucrânia.
Pode ser feita com carne bovina, porco ou galinha, mas a de borjúhús, vitela (borjú = bezerro, vitelo, pron. “boriúú), é a mais apreciada, até porque vitela é carne menos accessível ao bolso comum.
É atentando pra esse persistente símbolo de coesão gastronômico num universo de relações humanas e familiares esgarçadas que o conto de Péntek Orsolya deve ser lido.

A autora mandou gentilmente a nota biográfica que segue abaixo. A propósito, seu nome aparentemente esquisito se pronuncia “pêênték órshóia”; Orsolya corresponde ao nosso Úrsula, e Péntek, seu sobrenome, quer dizer sexta-feira:

Péntek Orsolya

Péntek Orsolya

“Nasci em 13 de outubro de 1974 em Budapeste. Minha mãe trabalhava num escritório e meu pai era engenheiro-pesquisador (morreu em 2007). Embora minha língua-materna seja o magiar, minha família não é inteiramente magiar: minha mãe é ítalo-austríaca, meu pai tinha origem croata, portanto sou um “mix monarquia” falante de magiar e moradora da Hungria. Tenho uma irmã mais velha, Dorottya.
Desde a infância queria ser pintora, dos 4 aos 20 anos. Estudei desenho e pintura, e para mim era uma coisa natural que, se eu sabia pintar uma coisa, também sabia escrevê-la: escrevia versos e histórias, mas não queria ser escritora. Paralelamente, lia muito. Além da magiar, a literatura francesa me cativava: Zola, Proust, Vian, Queneau e Simenon. Mais tarde, entre os latino-americanos Márquez, Vargas-Llosa e Isabel Allende.
Livro de Poemas

Livro de Poemas

Aos 20 anos de repente me dei conta de que não queria mais pintar, não era mais aquilo que eu queria, mas sim o que, com o tempo, tinha se tornado mais e mais importante, a escrita. Em 2002 lancei um volume de poemas, e desde então tenho publicado contos. Um romance baseado numa série de contos aguarda publicação. Vivo de jornalismo, e mantenho uma coluna no caderno de cultura num jornal diário.”

O diário no qual Orsolya escreve é o importante Magyar Hírlap, de Budapeste. Quanto ao seu livro de poesia, tem um título curioso, que, traduzido, ficaria mais ou menos:”No outono pela melancolia de um komondor marrom-ferrugem”, sendo que komondor é uma raça de cão-pastor húngaro.

Péntek Orsolya (1974)

SOPA DE CARNE

I
Por um motivo ou outro nada estava em ordem. Lentamente fechou-se em torno dele a cidade que antes ele tanto amava. Tornou-se invagabundável e chata, a balaustrada quebrada do lado da ponte não lhe era mais familiar, apenas enervante, o cheiro da cidade, sufocante e desconcertante, as zebras de pedestres, intranspontermináveis, os Lugares, estranhos; e fechou-se em si mesmo para não ter que dar conta daquilo: só déjà vu todos os dias.
A agonia com as madrugadas, os despertares às quatro horas, as contorções, o debater-se, o readormecer, o banho gelado, o eterno cansaço, os jeans esfarrapados, os coturnos sujos, a zoada estilhaçatímpanos do metrô toda manhã às sete e quarenta, a fosforescência dos monitores na sala iluminada de luz neon, a monótona batida do teclado, o mau cheiro acumulativo das pizzas encomendadas, a invasão de e-mails engraçadinhos, as planilhas de excel, as janelas fechadas e as janelas impossíveis de abrir, não, parecia que naquela sala não havia absolutamente nenhuma janela, apenas mesas, cadeiras e xícaras por lavar sobre as mesas, uma máquina de café derretedora de copos de plástico, o eterno zumbido da máquina de coca-cola, o zumbido da cabeça, as indisposições, as repetidas trancadas no banheiro, as olhadas no espelho, o cricrilar do celular, a sempre acachapante surpresa de o quê, afinal, você está buscando aqui, a surpresa de poder comprar o que quiser mas não querer comprar nada, porque os desejos se esgotaram, e com eles você se esgotou; e à noite já não pensava mais em um Lugar qualquer onde pudesse dar um pulo na cidade, porque já sabia: não vai encontrar absolutamente ninguém, os outros, os outros de outrora atravessavam a cidade noutro metrô, as linhas de metrô se entrecruzavam, mas eles próprios corriam como paralelas para o nada, corriam de metrô diretamente a uma loja dia-e-noite procurar alguma bebida, para que ao menos a noite seja boa, ele se sentava no divã, e os outros sentavam-se em outros divãs olhando para o nada, com as cabeças contorcidas, até de manhã, até as quatro da manhã, porque nessa hora vinha o despertar, o readormecer, o banho gelado, a zoada estilhaçatímpanos do metrô, depois o vinho, ou isso vinha mais tarde, enquanto a cidade virava cheiro de café ou pizza e uma balaustrada quebrada aparecia no monitor, e o metrô se podia ouvir no celular, enquanto perdia por alguma razão a estação onde tinha que embarcar para a casa, ou melhor – talvez seja do outro lado, mas quando a cidade ficou tão estranha que tem máquinas de vender café pelo bulevar mais garrafas de vinho pode ser que eu esteja morto, sonhando, pensou, até o asfalto sumir sob os seus pés, e cravou a unha na palma da mão, para sentir novamente de algum jeito onde ficava a fronteira entre ele e as ruas que o atravessavam, depois, às quatro da manhã veio o metrô, e o café escorreu do chuveiro, depois ficou ali na varandinha francesa, mais precisamente, pendurou-se no parapeito como um lençol ali jogado, e então, depois de um ano, aquilo chegou ao fim.
− Nãããããããão – uivou sobre os telhados da madrugada, e sentiu frio, e seus pulmões encheram-se do ar da primavera, depois sentiu cada um dos fios do lençol, o cheiro familiar do travesseiro e finalmente sentiu-se claramente a si próprio. Às oito da manhã avisou que estava doente e deitou-se outra vez na cama, às onze acordou de novo, com os membros pesados e lentos, estavam dormentes as pernas, as mãos, o estômago, o fígado e os rins, e tinha fome, muita fome. Retorceu-se ligeiramente, bem ligeiramente. Ao meio dia ligou e pediu demissão, e à proposta do chefe de que lhe aumentaria o salário respondeu que socasse bem fundo no cú seus vários milhares. Em torno de uma da tarde saiu.
Seria bom tomar uma sopa de carne, pensou, e ao descer a escadaria do metro no Oktogon o cheiro subterrâneo lhe pareceu tão familiar.

II

Tempos que não cozinhava. Para si mesma às vezes improvisava alguma coisa, com tablete de sopa, com ovos, às vezes uma massa, ou batatas, mas os grandes almoços há muito tempo não aconteciam mais. E, no entanto, antigamente sua cozinha era lendária; vamos admitir, para outras coisas ela realmente não tinha a competência que demonstrava nas sopas, carnes que se dissolviam, e pâtisserie refinada. – Nunca tive outra coisa para fazer – dizia durante os almoços festivos, quando as noras a interrogavam, cheias de inveja, como ela fazia aquilo. Contava-lhes, em vão, que, quando era moça, cozinhava a vaca estufada por dois dias, em fogo brando, pacientemente, mas, agora, só por um dia, porque as carnes de hoje são outras, no que as noras se entreolhavam, que hoje já quem tem tempo para isso.
Não tolerava coisa mal feita. Punha a mesa com cuidado minucioso, limpando outra vez todos os pratos, dando brilho nos copos com um trapo macio, como se estivesse compondo, e, quem sabe, talvez fosse uma artista, era como se tocasse mentalmente ao piano cada uma das seqüencias dos seus menus, e muitas vezes já às quatro da madrugada punha-se a trabalhar. Não tinha do que reclamar, todos a adoravam, o marido, os filhos, e os netos, nem se fala. Afinal tinham-se saído bem, pensou satisfeita, sentada, como sempre, na pequena poltrona. Um em Roma, outro em Paris, e o outro aqui mesmo em Peste, mas em boa situação. O mais novo – acrescentou para si mesma, e começou a mexer nas coisas à sua volta, porque o mais novo fazia bem um mês que não telefonava. Trabalha, justificou-se, e não queria ouvir a voz interior, a conhecida voz interior a que sempre dera atenção quando estava prestes a salgar uma sopa, ou a queimar uma carne, aquela voz que, sempre, no último instante, avisava que vinha problema.
O número do radiotelefone dele está em algum lugar, pensou, e começou a escarafunchar a mesinha. A poeira dançou no sol matinal quando ela revirou os papéis, os velhos talões de loteria, cheques, e receitas recortadas de revistas. Lá estava o número, como não estaria, se ela sabia exatamente onde havia posto o guardanapo de papel onde o mais novo tinha rabiscado rapidamente o número quando passou lá da ultima vez. Havia seis meses. Olhou para a anotação apressada. Ele escreve do jeito que fala, sorriu sozinha, depois colocou de volta o guardanapo entre os outros papéis.
O sol entrou iluminando o grande cômodo. É quarta-feira, hoje tem vitela fresca no mercado, pensou de repente, porque a vitela lhe vinha à cabeça todas as quartas e sábados entre nove e dez da manhã. A família tinha se dispersado, mas ela não tinha poder contra essas coisas que lhe vinham à cabeça. Deve ter verdura nova, ruminou, depois, com os movimentos sempre entrecortados de alguns anos para cá, foi à despensa e colocou a cesta de compras no braço. Aí dou uma parada aqui e acolá até o mercado, foi pensando ao sair, e bateu o portão de qualquer jeito. Parou várias vezes, a ultima vez no açougueiro, porque quem não tem seu açougueiro não é dona-de-casa, ensinara-lhe a mãe lá atrás, em tempos idos, só que agora o açougueiro era um desconhecido.
− Estou velha, querido, mas boba, não – disse ao rapaz grandão, e pôs de volta no balcão a carne velha, cheia de nervos, e talvez tenha sido seu sorriso que fez o rapaz ficar envergonhado. De tudo ela conseguiu o mais bonito.
− Seus netos estão vindo? – perguntou a mulher suábia* que há anos lhe dava abatimento. Tempos que não a vejo. Está indo a outro mercado? – curiosou a regateira. Não deu ouvido a nada.
A caminho de casa ainda teve que parar várias vezes. O aparelho chacoalhava muito**. Na escada, arrastou a cesta degrau por degrau, depois, na cozinha, ainda de casaco, com a chave na mão, simplesmente arriou no banquinho. Descansou uma boa hora, já ia pelas dez quando acabou de colocar tudo na panela.
Com a escumadeira na mão, abriu a porta para o mais novo, e ficaram em pé na corrente de ar, até o relógio badalar duas horas na sala de visita.
− Vai entrar pra comer? – perguntou finalmente.
Ele entrou, comeu.

*Os chamados, suábios, ‘sváb’ em magiar, são uma minoria étnica de origem germânica que vive na Hungria.
** Espressão que os idosos húngaros usam para arritmia cardíaca, quando o coração bate descontrolado. No original, “zakatolt a műszer”.

[traduzido da revista Csillagszálló de março de 2007 por Chico Moreira Guedes ]

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