O rege* de Hunor e Magyar…

hunor-es-magyar
* Rege significa, saga, lenda, mito, e como o g em magyar tem sempre o som do g de galo, a pronúncia é /régué/ (com o r de caipira paulista), o que torna a palavra parecida com reggae, dito em português. Essa homofonia vem a calhar aqui no post, como o leitor perceberá, remélem /rémêêlem/ (espero).

Há consenso entre os historiadores de que os húngaros vieram bater na Bacia dos Cárpatos no final do século 9 da era cristã. A tradição reza que em torno de 895 sete tribos magiares comandadas pelo guerreiro e chefe de clã Árpád, e acompanhados de grupos de Cumanos e da tribos eslávica oriental do Rusnaks, cruzaram as estreitas gargantas, Vereckei a mais famosa, na crista nordeste (e provavelmente no leste também) das grandes serras carpáticas e ocuparam suas encostas ocidentais e a grande planície fértil. Estariam fugindo às pressas de ataques dos ferozes Pechenegs à sua morada anterior, uma área hoje ocupada pela Moldova, margem oeste do Mar Negro, a norte do Delta do Danúbio, nalgum lugar ao longo do rio Dnister.
Séculos já haviam corrido, no entanto, entre a saída desse povo nômade das suas origens nas estepes urálicas, bem pra lá do Mar de Aral, até essa fuga que os lançou com seus cavalos ágeis e suas flexas certeiras no coração da Europa. Fala-se em cinco séculos, pelo menos. E o que rolou ao longo dessa marcha secular oeste-sudoeste era, podemos supor, material de muitas lendas e relatos orais.

batismo de Vajk, de Benczúr Gyula (1844-1920)

batismo de Vajk, de Benczúr Gyula (1844-1920)

Acontece que a maior parte dessa tradição oral começou a se perder quando um chefe guerreiro chamado Vajk /vóik/ (que significava herói ou líder), descendente direto de Árpád, se fez batizar como Stephanos, István /íshtváán/, em magiar, e foi coroado como primeiro király /kírái/ (rei) cristão dos magiares no ano 1000 pelo papa Silvestre II. No esforço para transformar seus súditos pagãos shamanistas em bons cristãos e integrar sua nação à civilização européia, István Király e a Igreja Romana forçaram o “esquecimento” dos mitos e relatos que a memória popular e os bardos magiares guardavam da longa viagem. Não por acaso István foi depois canonizado, e é conhecido na Hungria como Szent István Király, Santo Rei István.
Arany János

Arany János

Mas sempre escapa alguma coisa pelas brechas, e os mitos se renovam de acordo com as circunstâncias históricas. Um dos mitos recriados é o que dá conta dum suposto parentesco entre os magiares e os hunos. Sem qualquer fundamento histórico confiável, é bom dizer, ele foi reforçado no século 19, muito ao gosto do Romantismo, por uma célebre balada do poeta Arány János (1817-1882), Rege a csoda-szarvasról /regue ó tchôdó-sórvóshrôôl/, Lenda do cervo encantado, sexto canto do longo poema Buda halála, a Morte de Buda.

De acordo com a lenda, dois nobres irmãos, Hunor e Magyar, partem com seu séquito de Navilah, terra dos seus pais Ménrót e Enéh, para fazer uma caçada. Começam a seguir um belo e misterioso cervo sem conseguir abatê-lo, e nessa perseguição, que dura a duração das lendas e abunda em peripécias, chegam afinal ao Mar de Azov e se estabelecem numa pequena ilha.
arany-csodaszarvasAí o cervo some de cena, e os bravos Hunor e Magyar agora aventuram-se noutra caçada pelas redondezas durante a qual ouvem uma música distante. Ao se aproximarem encontram um grupo de donzelas desguarnecidas e, como era hábito corriqueiro então, tratam logo de as raptar. As duas mais belas são, naturalmente, escolhidas pelos irmãos para esposas. Hunor com sua nova consorte e amigos segue para a Cítia, hoje região em torno da Criméia, e lá dão origem à nação dos hunos. Magyar, por seu turno, leva sua esposa mais sua turma para a região do rio Don, onde tratam de crescer e se multiplicar dando origem à nação magiar.

Essa lenda renitente explica, por exemplo, porque Attila é um dos nomes mais populares na Hungria até hoje.

E que ela continua viva e dando o que falar a gente pode ver no suingado clip do Sub Bass Monster. A letra do rege rapeado ironiza de cara o mito e o desenraizamento dos magiares, manda o cervo correr (szaladj, szaladj) que no encalço dele vem um csapat (bando) “que não sabe mais nem onde fica a própria casa”. E brinca também com os primeiros versos da balada de Arany János “Voa o pássaro de galho em galho,/ Voa a canção de boca em boca” (Száll a madár, ágrul ágra,/ Száll az ének, szájrul szájra), dizendo que a lenda “se espalhou de boca em boca como a herpes”, e por aí segue, desconstruíndo a rege (lenda) com o rege (reggae).

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