De kocsi e de aglutinações magiares

Mátyás Király (Rei Matias)

Mátyás Király (Rei Matias)

Uma piaba de cultura inútil que acabei de pescar lendo um trecho do A history of Hungarian literature, do professor Cigány Lóránt, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Sabem a palavra coche, com sentido de carruagem, que herdamos possivelmente do francês ou do espanhol coche, e que no inglês se usa até hoje na forma coach pra designar, além de carruagem, vagão de trem e, no caso do Reino Unido, um ônibus confortável de um piso só usado para viagens mais longas, em oposição a bus, ônibus urbano, e até a classe econômica nos aviões (coach class)? (Ufa!)
kocsi das antigas

kocsi das antigas

Pois bem, ela se origina de um pequeno povoado húngaro medieval chamado Kocs (pron. “kótsh”), onde, no reinado de Korvinus Mátyás (1458-1490), grande introdutor do Renascimento na corte de Buda, começaram a fabricar uma carruagem com suspensão de mola de aço que ficou famosa em toda a Europa, o ‘kocsi szekér’, carroça de kocsi.
Como já vimos em outras ocasiões, inclusive no conto Károly, de Bartis Attila, coloca-se um ‘i’ final pra designar origem, daí Kocs+i = kocsi = de Kocs, proveniente de Kocs, ou ‘kocsense’. Hoje kocsi é uma das palavras para automóvel em húngaro, além de dizer vagão de trem também. A outra é autó (pron. “a-u-tôô”, com hiato ‘a-u’).
Trabi descansando no jardim do Museu Vasarely, Óbuda.

Impávido sobrevivente do antigo regime descansando no jardim do Museu Vasarely, Óbuda.

E essa história de meio de transporte serve pra ilustrar uma das características importantes da língua magiar, sua natureza aglutinativa, isto é, o aglutinar sufixos vários às raízes das palavras, diferentemente de nós, falantes do tronco indo-europeu, que temos preposições, conjunções, possessivos etc, sempre como palavras separadas.
Vamos a um exemplo pra entender isso melhor: em português dizemos “vou de carro para Recife”, onde de e para são palavras autônomas, digamos. Já em magiar se diz kocsival megyek Recife-be, onde -val é o sufixo correspondente a com, portanto kocsival = com carro e -be corresponde a para (no sentido de destino), daí Recife-be = para Recife. Megyek = vou (pron. “medyek”, com o dye meio molhado, quase como dje). O hífen costuma ser usado, como em ‘Recife-be’, quando se trata de palavra estrangeira. Com Debrecen, a cidade húngara aonde morei, por exemplo, seria megyek Debrecenbe (=vou pra Debrecen), sem hífen.
Trabi forevá!! Legenda no site de um devoto do Trabant cult

Trabi forevá!! Legenda no site de um devoto do Trabant cult

E os sufixos vão se acumulando de acordo com a necessidade. Vai que eu diga: “vou pra Recife no meu carro”. Bom ‘meu carro’ é kocsim, onde o ‘m’ marca a posse da primeira pessoa, daí, por exemplo, blogom = meu blog, barátom = meu amigo (barát = amigo, pron. “boráát”), etc. Então teremos em húngaro: kocsimmal megyek Recife-be, com kocsi+m+val, ou seja, dois sufixos uma depois do outro. É como se disséssemos em português: carromeucom vou Recifepara; legal, né não?
Fiat Sedici/Suzuki SX4 made in Esztergom, Hungria

Fiat Sedici/Suzuki SX4 made in Esztergom, Hungria

E por que kocsimmal, e não kocsimval? Isso é um detalhe curioso: o -val (ou a variante -vel, a escolha da variante é assunto pra outro post) é usado quando a palavra termina em vogal. Se o final for consoante, então dobra-se a consoante no lugar do ‘v’. Daí “com meu amigo” = barátommal (pron. Bo-ráá-tom-mól). E, atenção, toda consoante dobrada em magiar é dita com uma leve pausa no meio, o que, aliás, acontece também no italiano. Os italianos não comem pitsa, comem pi-tsa.
Taí uma pequena introdução à natureza aglutinativa da magyar nyelv (nyelv = língua, pron. “nhélv”, som que a mim lembra mesmo uma lambida). Depois vem mais…

Anúncios

6 Comentários

Arquivado em Uncategorized

6 Respostas para “De kocsi e de aglutinações magiares

  1. Arthur Szúnyog Orsi

    Mandou mt mt mt bem cara!!!!

    Posta mais sobre literatura, traduções=PPP

    mandou mt mt mt bem meu manda o que vier que eu vou estar mt mt mt feliz

    köszi

  2. Edu

    Tanár úr, Köszönöm a ügyénes magyar óra !

  3. Edu

    Pois é…eu queria dizer: ingyenes magyar óra!
    Sajnos. Um dia eu aprendo magyarul!

  4. Ítalo de Melo Ramalho

    Caro Chico, ficarei grato se obtiver resposta ao meu questionamento. Como você faz para publicar vídeos (you tube etc) em seu blog? Pode enviar a resposta para o meu email.

  5. Oswaldo

    Estimado Chico,

    Foi um grande prazer encontra-lo ontem no meu bar predileto(Bardallos).Lembrei-me de quando estudamos no Marista, você morando ali na Hermes e eu na Trairy. Visitei antes várias vezes seu ótimo blog, mas ‘enferrujado’ com o magyar, não comentei nada, apenas li maravilhado suas traduções, as quais, ressalvo, poucas conhecia em magyar, conhecia mas nas línguas mais comuns. Voltarei sempre e esperando reve-lo deixo aqui um grande abraço

    Oswaldo
    ps. Engraçado, ultima vez que eu havia lhe encontrado pessoalmente foi na mesma rua, naquele restaurante japones em frente ao hoje Bardalos, 91 0u 92, eu já havia voltado de lá, você ainda iria. Lembra-se?

  6. Parabéns outra palavra que chegou até nós do hungáro é o termo Hussardo, vem de Húsz que vinte em hungáro , tem origem militar este termo pois a divisão de infantaria tinha 20 pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s