Amor à planície… meu encontro com a Nagy Alföld

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

Até morar na Hungria eu tinha agonia da planura. Nascido e crescido entre as curvas suaves das dunas potiguares, menino da Cirolândia que brincava nas saias do Morro de Mãe Luisa, a primeira vez que vivi a planície absoluta, viajando de carro pela beirada sul do Lago Ontario em direção a Niagara Falls, já tinha dezesseis anos. Lembro claramente que aquela ausência de variedade orográfica até aonde a vista dava me deixou fisicamente mal, enjoado. Fiquei constituído dum desafeto de planície, e nunca pensei que isso um dia podia mudar.

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Mas a Terra rodopiou muitas vezes em redor do sol, e, como já contei antes, em julho de 1998 eu fui parar na Hungria.

Os primeiros dois meses, em Budapeste, não despertaram mal-estar geográfico. Olhando a oeste pro Budavár, o Castelo de Buda dos cartões postais trepado sobre a colina, outras colinas ainda mais altas despontando-lhe detrás, o visitante está perdoado de esquecer que Magyarország (literalmente, país magiar, pron. ‘módjorrr-orrrssáág’), como os húngaros chamam sua própria terra, tem quase metade de seus 93 mil km² (pouco menor que Santa Catarina) feita de síkság (shíík-sháág), de planície, que começa ali mesmo em Peste, na beira leste do Duna (Danúbio), visível pra quem olha de Buda, só que meio disfarçado pela aglomeração arquitetônica urbana que se espalha até aonde a vista dá.

Hungria nublada na mordida dos Cárpatos

Hungria nublada na mordida dos Cárpatos

A essa óriási igantesca síkság carpática os húngaros chamam a Nagy Alföld, a Grande Planura. E ela se extende dali pra sul-sudeste por 350 km até se encontrar outra vez com o Duna perto de Belgrado, na Sérvia, pelo menos 220 km pra leste, até a bela Nagyvárad, atual Oradea romena, na aba da Erdélyi Középhegység, a Serra Mediana da Transilvânia (lembram de Erdély?), e mais uns 300 km pra nordeste, até Ungvár, na ponta de terra ex-húngara que a Ucrânia comeu em 1921* e que eles, ucraínos, chamam de Uzshorod, ou Ushgorod.

Pois foi bem no meio da Nagy Alföld, perto da sua parte mais desolada, a magyar puszta, o ermo magyar cantado pelos poetas húngaros − talvez seja o equivalente espiritual magiar ao nosso Sertão −, que fui parar quando assinei o contrato com a International House pra morar em Debrecen e dar aulas pro povo da TIGÁZ em Hajdúszoboszló (assunto de post anterior).

E já na primeira viagem de 3 horas no Intercity, o trem mais confortável e um pouco menos lento, de Peste para Debrecen, numa tarde cinzenta e molhada do outono de 98, eu me dei conta de que talvez tivesse feito um mau negócio, geograficamente falando. Meia hora depois de sair da Nyugati Pályaudvar, a grande „gare ocidental” de Peste, já a única variação na paisagem eram fileiras de árvores nas divisas dos campos de cultivo e as casas pingadas pela paisagem nos kisfalu, os pequenos povoados magiares do interior (pronúncia: ’kíshfolu).

Debrecen 2005: Nagy Templom calvinista e os novos villamos

Debrecen 2005: Nagy Templom calvinista e os novos villamos

Debrecen é uma cidade de tamanho razoável – uns 130 mil habitantes – e de importância cultural e política muito maior. Prometo outro dia falar dessa velha ‘Roma Calvinista’ no meio do Alföld, centro de resistência magiar tanto aos turcos como aos Habsburgos austríacos, e que me recebeu com sua hospitalidade cheia de dignidade.

Apois, quando eu estava na cidade não percebia tanto o vazio de variedade do horizonte da planura. Mas quatro vezes por semana quando eu pegava um trem madrugador pra trabalhar na TIGÁZ não havia como fugir da paisagem na janela. E foi nesse confronto quase diário que eu descobri um novo olhar para a planície total.

Já era inverno, e aquele de 1998 foi de muita neve – que eu amo desde que morei no Maine na adolescência. Eu saía de casa ainda no escuro, todo encasacado, plof plof plof, as botas brincando de afundar na neve por cinco minutos até a parada do villamos, o bonde elétrico que me levava até a Nagyállomás de Debrecen (nagy = grande, állomás = estação), onde eu pegava o trem pra chegar a Hajdúszoboszló cerca de 25 minutos depois.

No caminho, o dia começava a desabrotar. E foi num dia assim, vendo o sol morno de inverno banhar de encarnado aquela infinita brancura gelada, que eu senti que alguma coisa mudara. A planura parecia um mar calmo e apaziguador, e mar eu conhecia e já amava. Dali em diante passei a esperar com ligeira ansiedade aqueles minutos quando ia ver pela janela outra vez avermelhar-se o mar gelado da puszta, do quentinho interior dum vonat (trem) feioso, pesadão, mas peitudo, herança da indústria pesada do comunismo.

inverno na Nagy Állomás de Debrecen

inverno na Nagy Állomás de Debrecen

O inverno, aonde ele é rigoroso e, portanto, verdadeiro inverno, é uma estação que interioriza o ember (ser humano), que nos impele a refletir sobre coisas fundamentais: os mitos e medos que nos atordoam os neurônios e as fibras do miocárdio. E numa ida de Debrecem pra Budapeste, às vésperas do Natal geladíssimo de 98, eu olhei seguidamente, sem saber desgrudar o olhar, para a paisagem planíssima e enregelada de onde despontavam, aqui e ali, galhos dramaticamente nús de árvores solitárias que lembravam dedos de mãos desesperadas pedindo alguma coisa dos céus, quem sabe clemência para a insensatez dos homens.

E tive uma espécie de insight – ou seria uma epifania? Senti como se ali o inverno se mostrasse a mim na sua mais profunda ontológica e metafórica invernice pela primeira vez. Sei lá, imagino, talvez como no poema de Drummond a Máquina do Mundo se abrira para o caminhante solitário naquela estrada pedregosa de Minas. E era tanto, era tão bonito, tão extraordinária e silenciantemente bonito o que eu via, que me ocorreu que, depois daquilo, eu já podia morrer.


* O Tratado do Trianon reduziu ao final da Primeira Guerra Mundial o derrotado Reino da Hungria a um terço do seu tamanho histórico, entregando Erdély à Romênia, anexando o Felvidék à Checoslováquia, e desmembrando Croácia e Vajdaság, anexados a Iugoslávia.

A Grande Hungria, que foi, e o que sobrou em 1921

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2 Comentários

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2 Respostas para “Amor à planície… meu encontro com a Nagy Alföld

  1. Nelson

    Que narração!
    Viajei no brilho vermelho do sol refletindo no mar branco de gelo!
    Deve ser tão lindo quanto meu espetáculo mensal do rastro da lua aqui no mar.

  2. Clotilde Tavares

    Chico, só vc com sua sensibilidade pra me fazer viajar com prazer nessa paisagem gelada, eu que detesto neve, frio, gelo, inverno e planícies…

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