Pincér! egy korsó sört, kérek… na farra com os magyarok

Este post é oferecido a Orobej Norbert e Mészaros Alpar, amigos de excelentes papos regados a incontáveis korsó sör, no Broadway, “nosso” kocsma. Eu até então nem gostava tanto de cerveja…

kocsma-foto-a-hirlevelbe1Bati um bom papo com o fiatal (jovem) poliglota Rodrigo Santos ontem de noite no Catita Lyuka, conhecido no original como Buraco da Catita. Pra quem não é de Natal, esse é o bar da vez por aqui entre a moçada cabeça; fica no coração da velha Ribeira, e toda sexta ferve até altas horas fechando a rua em torno de uma mesa de calçada de onde músicos locais da melhor cepa mandam um balançante som brasileiro.

E quando a Catita fechou, nosso papo continuou, agora entre uma colherada e outra da excelente paçoca com feijão verde e da finom-íssima moela da Confeitaria Atheneu. Ah, Natal, ainda me guardas surpresas assim deleitáveis, hála Istennek! (graças a Deus, pronunciado, como já desconfiam, “rála ishtennek”)

Fiquei mui contente em saber que Rodrigo é um dos dois ou três malucos que curtem os comentários do blog sobre a língua magiar. Depois de trocar idéias sobre vários mistérios linguísticos, que só os verdadeiros language-freaks se dispõem a apreciar, a conversa descambou para… surprise… Cerveja! Ouvi dele como se deve pedir uma brew em umas 10 línguas diferentes. Aí seguiu-se a pergunta natural: e em magyar, como se pede uma cerva?

borsodi_vilagos

Bom, o nome da bebida em si é sör. Como todos já sabem, a pronúncia será “shêôrrr”, com o biquinho francês sobre do qual já tratamos lá atrás, no ‘zsönglőrködés’ (coloco 3 erres finais pra lembrar que trata-se de um erre (en)rolado, como o de ‘cara’). As grandes marcas húngaras são Dreher, Soproni, Borsodi, e Arany Ászok, mas há muitas regionais menores.

korsoO mais usual num kocsma(bar, tasca, botequim, pron. cotxma, cotshma) húngaro, como na maior parte da Europa, é beber csapolt sör, (txapolt, ou tchapolt, como queiram. vem de csap = torneira) cerveja “tirada na torneira”, tirada na bomba de barril, portanto. E aí temos basicamente duas medidas, o pohár (porrárrr = copo, taça), no caso um copão ou tulipa de uns 500ml, creio, e o korsó (korrshôô = caneca, jarra, cântaro), que deve comportar seus 750ml de sör fria, mas não estupidamente gelada.

Claro que as cervejas húngaras, as internacionais conhecidas de todos, mais as checas, pelo menos, estão disponíveis em üveg, garrafa de vidro, e em doboz, em lata. Mas quanto sentamos com amigos num kocsma qualquer, é bem mais frequente pedirmos csapolt sör, até porque sai mais barato.

O título do post pode ser traduzido como: Garçom! um korsó de sör, por favor.
Pincér (pintssêrr) vem de pince, que significa adega, cave. Pincér é, portanto, o adegueiro, o home que cuida da bebida. Se for mulher, o que é muito comum, geralmente belas gatas, inclusive, é pincérnő (nő = mulher).

Egy = um ou uma. É formada de duas letras E + gy, e a pronúncia da letra gy é a de um d nosso molhado com a língua, mas não tão chiado como o d dos cariocas em “dia”. Foneticamente falando diríamos que é um d levemente palatalizado. Se o caba disser o “di” em “dia” encostando mais a língua no céu da boca vai chegar direitinho ao gy.

Por falar em número, uma das formas mais ou menos garantidas de saber se uma língua pertence ou não ao nosso tronco linguístico é dar uma olhada nos números de 1 a 10; se uma boa parte parecer familiar, mesmo que longe, é bem provável que se trate de uma língua parente. Pense em ein, zwei, drei, do alemão, one, two, three, inglês, uno, due, trei, do italiano, nyë, di, tre, do albanês , adin, dzva, tri, do russo, eka, dvi, tri, do devanagari, un, dau, tri, do galês, só pra ficar nesses (conferi boa parte agora na web), e dá pra começar a entender de onde saiu a teoria do nosso ancestral comum indo-europeu. Claro que os números são apenas um aspecto disso.

Os Urais, de lá vieram os ancestrais do magyarok

Os Urais, de lá vieram os ancestrais do magyarok

Agora pegue os números em magiar: 1. egy, 2. két, 3. három, 4. négy, 5. öt, 6. hat, 7. hét, 8. nyolc, 9. kilenc, 10. tíz (este último, o tíz = dez, tomado do latim, é a excessão que confirma a regra) e vai sentir que estamos noutro universo linguístico. Sabemos, de fato, hoje, que o magiar é membro do grupo chamado fino-úgrico, ou ugro-finês do tronco urálico, originado numa área pra lá da baixa da égua dos Montes Urais, que dividem a Russia européia da asiática. São parentes muito longínquos do finlandês, nada que dê pra se reconhecerem, nem se comunicarem numa festinha de família. Fora essa parentagem, tão distante quanto, por exemplo, entre o português e o sueco, o magiar é uma ilha linguística no meio da Europa Central, cercada de eslavos, germanos, e, do lado oriental, dos nossos primos latinos, os romenos. É um espanto que tenha se preservado da extinção ou diluição nos mil e cem anos desde a chegada deles na região.

soproni1Bom, depois de ficarmos bêbados de linguistiquês, voltemos ao sör pra refrescar azidéia. Kérek (pron. “kêêrék), que faz as vezes do nosso “por favor”, é na verdade o verbo kérni (=pedir, solicitar, rogar, instar, suplicar) conjugado na primeira pessoa do singular. Tipo, eu rogo, eu peço, eu suplico, peço encarecidamente, etc.

E o sört, com t, por que isso? Bom, o t é a marca das palavras quando elas fazem a função de objeto direto no magiar. Como se trata de um verbo transitivo, kérek, peço, rogo, obviamente peço alguma coisa. Peço o quê? Um korsó de cerveja, que é, portando, o objeto direto na frase, certo? Então, t nele! Pode-se dizer também: Pincér, kérek egy korsó sört. Aí a ordem verbo – objeto fica bem clarinha.

Se vc for chegado a essas perversões gramaticais, talvez esteja se perguntando por que korsó, que também faz parte do objeto direto, não leva t? Porque nesses casos só a coisa principal, o conteúdo, leva o t. Se em vez de um korsó de sör, você pedir apenas um korsó, ou um pohár, vai ficar kérek egy korsót, ou kérek egy pohárat. (No caso de pohár – pohárat, o a antes do t entra por razões fonéticas, pra facilitar a aplicação do t.)

arany-aszok21E quando não precisa do t? Se você disser, por exemplo, “esta cerveja é boa”, o sör da frase não vai levar t, porque aí sör é sujeito, não objeto. Fica então: Ez a sör jó. Literalmente “esta a cerveja boa”, assim mesmo, sem verbo, já que não se usa o verbo ser pra afirmações desse tipo.

Se eu digo Natal é legal, por exemplo, fica só Natal jó. E , essa palavrinha usada a toda hora por nove entre dez estrelas ou qualquer figurante ralé do cinema, se pronuncia, é claro, “yôô”. Aliás, pense numa palavrinha multi-uso: legal = jó; tá bom assim = jó; ok = jó; sem problema = jó; tá ok? = Jó?; é bom? = jó?

palinka-11Pra terminar devo dizer que uma boa farra magiar nunca se resume a uma cervejada, apenas, tem que incluir algumas rodadas de pálinka. Pálinka é a aguardente deles, feita a partir de frutas, e de alto teor alcoólico, persze (claro). As mais apreciadas são körte, szilva, sárgabarack e őszibarack, pera, ameixa, damasco e pêssego, respectivamente.

Uma farra de responsa básica envolve pelo menos uns cinco ou seis korsó e duas a quatro rodadas de pálinka. Dá um grau pra ninguém botar defeito. Fica todo mundo lindo!

Egészségre! (à saúde, pron. egêês-shêê-gré)
CMG
PS aqui vai uma propaganda de cerveja húngara, lotada de apelo patriótico. Depois de cantar muitas loas às coisas magiares, inclusive à língua “uma das mais belas e mais dificeis do mundo”, aos nomes próprios invertidos, às mulheres húngaras, “as mais lindas do mundo”, ao domínio mundial no polo aquático, etc o garotão termina dizendo: Magyarország, én így szeretlek! = Hungria, eu te amo assim (tanto)! E aparece a frase “Hozzánk tartozik” = pertence a nós, é coisa nossa.
Uma das coisas que ele diz no meio é que não gosta que os turistas confundam Budapeste com Bucareste, uma recorrente gafe de estrangeiros.
Vale também pra ouvir a bela língua falada empolgadamente ao vivo e a cores. Enjoy it!

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6 Comentários

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6 Respostas para “Pincér! egy korsó sört, kérek… na farra com os magyarok

  1. Rodrigo

    Valeu Chico..
    post jó!

    e continuo aqui esperando mais novidades magyares!

  2. Nelson

    Adorei sua linguagem. Tbm o video. Gosto demais de ouvi-los falando. A primeira vez que ouvi, num avião entre Frankfurt e Budapeste, pensei que fosse japonês. hehehe. O avião estava cheio de japoneses, fiquei sugestionado…

  3. William Oliveira

    Uau, que aula etílica bacana. Como bom admirador de Dionísio, vou anotar os termos fundamentais para quem sabe usá-los nalguma eventualidade… rs.
    Abraços.

  4. mnazian

    Uma vez fui com rodrigo a um bar alemão, e levantando o dedo ele falou alguma coisa estranha e que não entendi, e o dono do estabelecimento entregou uma cerveja. Fiquei impressionado. Pelo visto, agora até em húngaro o menino desenrola.

  5. Luiz Henrique

    Europa, o paraíso das cervejas. A Hungria certamente tem suas boas, e as fotos quase tem cheiro e sabor. Dia desses entro num koesma e peço uma csapolt sör… dizem que bêbado se aprende logo uma língua!
    Pensei sugerir usar o nome da bebida para identificar tronco linguistico comum: inglês (beer), alemão (bier), francês (biere), russo (vodka….brincadeira), exceções cerveja e cerveza… bem, melhor ficar nos números. abraço.

  6. elizabeth

    szia Chico.

    Nao creio voce vai precisar mas qualquer ajuda pra traduzir.
    bacana seu trabalho e tudo mais o que voce aprontou neste site.
    Csak igy tovabb. Pra mim parece voce e mais animado, do que OS HUNGAROS.
    Claro. Tu es Brasileiro.
    Gostei as poesias, sabendo muito bem, nao e tao facil traduzir poesias nesta idioma.
    Beijos

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