‘Carlos Rubro’, poeta coxo : um conto de Bartis Attila

bartisBartis Attila é fotógrafo, mas hoje em dia é também um dos escritores jovens mais incensados pelo público cabeça da Hungria. É traduzido e editado também no estrangeiro. Um de seus romances, A nyugalom, foi transformado em filme em 2008. Nyugalom pode ser traduzido como aquietação, calmaria, trégua… e visita literariamente a relação deveras punk entre um filho escritor e uma mãe ex-atriz de teatro “complicada”, que foi meio expulsa dos palcos nos tempos do comunismo, em parte porque sua filha saiu da Hungria e se exilou, situação que, no antigo regime, representava um problema político para os familiares que ficavam para trás. bartis-nyugalom
Num contato que tivemos há algum tempo Attila me disse que seu agente na Inglaterra estava negociando uma edição brasileira; vamos ficar de olho…

Bartis Attila nasceu em 1968 em Marosvásárhely, na Transilvânia, que os húngaros chamam simplesmente de Erdély (pronúncia-se ‘erdêi’, com r enrolado) o nome que a região tinha quando era parte do Reino da Hungria, e que é muito próxima da palavra que significa floresta, silvestre, bosque, o que explicar a forma latina Transilvânia.

Este conto foi o primeiro que eu arrisquei traduzir do húngaro, anos atrás; mas não só por isso, tenho um certo ‘fraco’ por ele, sempre me toca bastante. Tomara que outros concordem com o ‘não só por isso’.

Há algumas notas no final contextualizando o que me pareceu carecer, e há um link legal pra quem quizer aprender mais sobre Marosvásárhely, uma das cidades mais bacanas que visitei quando fizemos um giro naquelas plagas vampirescas, eu e meu querido amigo Nelsinho Melo em 2005. Lá comi também o mais fenomenal Madártej/modáártéi/ de que me lembro. ‘Leite de passarinho’ é como eles chamam uma espécie de calda baunilhesca fria com uns icebergs flutuantes de clara em neve sevida numa taça gigante…ahhh! Finom! (delícia). O link é http://www.tirgumures.ro/prezentare/start1.swf

Bartis Attila (1968)

KÁROLY
ou a história da literatura

Vivia antigamente em Marosvásárhely (1) um rapaz de nome Piros Károly (2) que trabalhava com a erradicação de baratas e o extermínio de ratos. Tinha vindo do outro lado da floresta, uma das suas pernas era quatro centímetros mais curta que a outra, e até o dia seis de março de mil novecentos e setenta e três ninguém ligava para ele. Naquele exato dia, no entanto, ao terminar a caça às baratas lá em casa resolveu tirar da sacola, não o bloco de notas fiscais, mas um caderno pautado. Com o tubo-borrifador às costas e o caderno amassado na mão direita, parou no meio da sala como um mergulhador meio desorientado, olhou fundo nos olhos de Papai e disse:
− Seu Bartis, eu sou poeta!
Naquela noite ficaram apenas corrigindo erros de ortografia. Na noite seguinte já trataram do estilo, e na terceira Piros Károly adotou o nome do seu povoado natal. Dessa vez, junto com os versos e a garrafa de inseticida já trouxe sua maleta, e não ficou acordado com Papai até de madrugada, dormiu na poltrona reclinável da sala da frente. Às sete da manhã acordou como Kakasdi Piros Károly (3) , sentou-se no banheiro até as sete e meia, e lá pelas oito foi exterminar.
Ainda naquele março de setenta e três, discutiu-se se ele se tornaria nosso hóspede por um par de dias, até encontrar uma nova sublocação. Porque da velha senhora com quem ele morava, ora, dias antes, sete dos nove gatos da velha senhora tinham perecido de uma vez, e tudo fora atribuído aos produtos químicos dele. Sem falar que o nome da idosa senhora era Vasilescu, o que nem precisa de explicação adicional, não é, e com um sobrenome como Kakasdi Piros era inútil ele asseverar que no máximo podia ter havido um envenenamento indireto, através dos ratos. Sim, ele, por fora do aluguel, por gentileza pura e simples, envenenara os ratos da casa, o que certamente já havia chegado aos ouvidos de dona Vasilescu. Papai via que aos poucos aquilo estava virando uma questão étnica.(4)
Papai se deu conta também de que o moço não conseguia pagar o aluguel há no mínimo três meses, e agora lá estava ele, em pé, com um garrafão de inseticida, um caderno cheio de oitavas mais uma maleta. Mamãe, por sua vez, via que as camisas, cujas mangas escapavam da maleta estufada, precisavam de lavagem há pelo menos três meses.
A conversa, portanto, era de apenas alguns dias. Somando-se tudo, ele morou conosco cinco anos e meio. Viveu ali um homem coxo, na saleta da frente, bem apertado ao lado do armário embutido. E toda noite escrevia versos. Não sei quantas vezes o expulsamos, mas foram tantas quantas as que o chamamos de volta.
Mudou-se junto conosco do lado da fábrica de tijolos para a cidade velha.
Estava conosco ao ser convocado para o exército, e foi lá em casa que polícia militar o procurou mais tarde.
Escondeu-se no nosso galpão quando ficou claro que, se não sabia tocar instrumento de sopro, podia muito bem rechear um tanque de guerra, como berrou conosco o oficial, que duas tíbias de comprimentos diferentes não eram motivo suficiente para escapar de servir ao exército popular romeno, e fomos nós os mais surpresos quando os soldados marcharam até o fundo do pátio e, com botinadas profissionais, arrancaram a porta do bem construído caixote de lenha e puxaram Piros Károly de dentro como um mágico puxa um coelho.
− Tu estavas aí há quanto tempo? − Papai perguntou.
− Uma semana − disse o miliciano, porque Károly, de tanta fome, já nem conseguia falar.
E, por último, nós ainda é que tivemos que dar um jeito para que ele não pegasse três anos e, sobretudo, para que também não servisse nos tanques, e sim como pastor de porcos. Portanto, ele não tinha qualquer motivo para não voltar diretamente lá para casa depois de dar baixa. E assim fez.
Se acrescentarmos a semana em que ele recheou o caixão de lenha, Károly morava conosco há exatos cinco anos e meio quando nos visitou uma mulher grandona, a Mimi Vereczkey. Não vinha por interesse, só para matar as saudades. Há quanto tempo não nos vemos, não é, disse, o que era mesmo verdade, mas Mamãe não encontrou nela nada a objetar.
Na hora do nosso café de raiz de chicória, Mimi rodou uma cigarreira de ouro recheada de cigarros ocidentais, tomou também um comprimido para enxaqueca tirado de outra caixa dourada, e, de uma terceira caixa de ouro, puxou um cartão de visita com seu novo endereço. Depois lambiscou o meio cubo de açúcar não dissolvido na colherinha, e levou Károly embora com ela. O poeta não voltou mais, nem para buscar os versos, nem seu garrafão de inseticida.

Dois meses mais tarde, recebemos a visita de um senhor vestido em traje tradicional magiar. Era o valente Kakasdi Piros Vereczkey Károly, disse, porque ainda não conhecíamos essa parte do nome. Não quer incomodar muito, só veio porque, se a memória não lhe falha, temos contatos no estrangeiro, mas pssst, baixando mais a voz, é que agora ele também precisaria de um contato desses. Não por razões comerciais, absolutamente! É pelo interesse da nação. A bengala? Como assim, para quê a bengala? Então somos tão esquecidos? É indispensável, por causa da perna.
Depois deu uma olhada no relógio de bolso, Patek, Patek Philip, disse, são os mais pontuais; apenas uma vez o bom tiozinho Vereczkey precisou ajustar os ponteiros, quando introduziram aqui este miserável horário romeno. Santo Deus, desde então, como sofre o povo magiar, não é mesmo, querido amigo? Por isso pense bem no caso, pois trata-se do interesse da nossa nação. Ora, claro, vocês também não estão nada mal, acrescentou, e antes que Papai pudesse pô-lo para fora lambiscou rapidamente o meio cubo de açúcar não dissolvido na colherinha e saiu apressado.
− Onde está a porra do garrafão? − perguntou Mamãe, que queria dar um banho de veneno de barata no senhor Vereczky.
Naturalmente acreditávamos que Károly tinha virado delator, pois naquela época ninguém mais podia usar o traje tradicional húngaro, somente os delatores. Desnecessário dizer que os espiões tinham muitos outros privilégios, mas era esse o que invejávamos mais.
Claro que estávamos enganados. Károly simplesmente ganhara quatro quilos e duzentos gramas de ouro, um anel de noivado ainda mais pesado, e com isso endoidara. Quem já não tinha ouvido falar de tais casos? No começo enlouquece-se um pouquinho, depois, completamente.
Quinze anos depois – quando o ouro tinha se acabado – pelo menos o suficiente para ele nos procurar em Budapeste, apareceu com um caderno de desenho numa mão, e um vidro cheio de lama da praia na outra, parou no meio da sala como um mergulhador meio desorientado, olhou fundo nos olhos de Papai e disse:
− Meu Feri, (5) eu posso salvar a nação!
Não pedia muito pela operação, só cem milhões. Para ele, nem um fiapo de lucro, quando se trata da nação ele é nonprofit, mas no mundo vil de hoje é o que custa construir uma caverna dessa lama medicinal. Claro que é preciso secar para fazer o adobe, que ele não é idiota. O importante é que seja esse tipo de lama do mar, porque ela intercepta vibrações malignas. E dentro dessa caverna todos os magiares poderão viver em paz, até o final dos tempos. Finalmente todos juntos, judeus, ciganos, mas, acima de tudo, sem os romenos. Não precisa ser muito grande, porque gente de bem também cabe em lugar pequeno (6). Depois, quando estiver terminada, todos os romenos ficarão diante do portão nos invejando.
Haveria ainda outras ideias, mas em poucos instantes ficou claro que Papai não dispunha dos reles dez milhões para a nação. E dessa vez Károly Piros foi embora com jeito de que realmente nunca mais o veríamos. Magiar de lama, eu disse, quando fechei a porta, porque eu já era bastante crescido na época, mas continuava cínico.
Depois disso, um ano e meio depois, nos telefonou uma vez ainda, perguntei se devia chamar meu Pai, disse que não, era comigo mesmo que queria falar.
− Por que exatamente comigo? − perguntei.
− Porque você certamente não é tão mal-agradecido. Você lembra, não lembra, como eu ajudei a vocês quando a despensa estava cheia de baratas?
− Lembro − respondi −, como se tivesse sido ontem.
− E você ainda era criança − disse.
− Era sim − menti.
− Então, me ajuda? − perguntou.
− Não tenho cem milhões − respondi.
− Não precisa mais − disse.
− Então ajudar com quê?
− Me sequestraram − disse.
− Quem? − perguntei?
− Os óvnis −, disse chorando.
− E o que eles queriam? − perguntei rindo.
− Não ria − disse. − Um dia você também vai saber como é, quando eles vierem da lua com um caixão de defunto a jato para lhe buscar.
− Mas agora você está aqui em Peste?
− Agora, estou aqui − respondeu −, num sanatório. Meus versos ainda existem?
− Em algum lugar certamente − menti.
− São bons, não são? − perguntou.
− Claro que são bons − menti-lhe outra vez, e não ri mais.
− Posso lhe visitar? − perguntei.
− Não venha me visitar − disse.
− Por quê? − perguntei de novo.
− Porque cortaram minha perna. Você também vai ser escritor?
− Talvez, não sei ainda − respondi.
− Não seja escritor − disse − escritor não, de jeito nenhum.
− E se eu for? − perguntei.
− Então não pare nunca, senão você endoidece. Prometa a Károly.
− Está bem, prometo, não deixarei. Mas então não enlouqueço mais? − perguntei chorando.
− Não − disse, rindo, com uma perna só, num sanatório de Peste, onde morreu no dia seguinte.
− Foi o trem que cortou? − perguntei.
− Não, um médico − disse.
− Por quê? − perguntei.
− Porque infeccionou da lama medicinal. Fiquei com ela dentro uma semana, ainda esticou quatro centímetros, eu não ia mais ser coxo, só que infeccionou nesse tempo.
− Como posso ajudá-lo? − perguntei, mas as moedas de Károly estavam se acabando, a enfermeira não queria dar mais dinheiro a um doido, e só consegui ouvi-lo dizer ainda: por favor, escreva…

* * * * * * * *

1. Bela cidade da Transilvânia, hoje Tîrgu Mures, Romênia, aonde o autor nasceu e viveu até os dezesseis anos, e de onde a família teve que se mandar porque seu pai, jornalista, cansou-se das cadeias da ditadura de Nicolae Ceaucescu. De forte presença étnica húngara, Marosvasárhely foi palco de violentos conflitos entre os estudantes de origens húngara e romena em seguida à queda do regime comunista.
2. Se pronuncia ‘Pirósh Carói ’, e corresponderia em português mais ou menos a ‘Carlos Vermelho’.
3. Deriva de Kakasd, suposto fallu (vila, povoado) natal de Károly, pela adição do sufixo adjetivador –i.
4. Vasilescu, com muitos outros em -cu, é nome romeno, Kakasdi Piros, nome húngaro, daí a referência ao conflito étnico entre romenos e magiares na Transilvânia, sobretudo depois que esta foi perdida pela Hungria para a Romênia pelo Tratado do Trianon, no final da Primeira Guerra Mundial.
5. Forma afetuosa de Ferenc (pronunciado ‘Ferents’), Francisco em húngaro.
6. Expressão magiar equivalente ao nosso “onde comem dois, comem três”.

Pra encerrar, a vista aérea de um Madártej monster…
madartej2

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4 Comentários

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4 Respostas para “‘Carlos Rubro’, poeta coxo : um conto de Bartis Attila

  1. Nelson

    Oi Chico.
    Bacana, cara. Rara oportunidade este contato com o húngaro e os húngaros, extremamente interessantes e diferentes.

  2. Rui

    belo conto.
    pequeno concentrado de pérolas liquidas que bebo com um trago.
    obrigado.

  3. Vera Lúcia

    O doce de minha infância! Emocionei-me agora ao vê-lo na fotografia! Meu pai era húngaro, e minha mãe deve ter aprendido o doce com a mãe dele, que era austríaca. Faz tanto tempo que não como esse doce! Bem, ao menos já sei como pedi-lo quando for à Hungria! Abraços, belo blog, descobri-o hoje e vou ficar fã!

    • Chico Moreira Guedes

      Szia, Vera!
      Bem-vinda. Histórias como a sua emprestam um sabor especial a este espaço, e me dão vontade de voltar a postar aqui outra vez com mais frequência. Preciso dar um jeito no tempo, risos.
      Abraço

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