Arquivo do mês: março 2009

József Attila, magyar költő fundamental

Com Petőfi em Debrecen

Com Petőfi em Debrecen

Os húngaros adoram a poesia e seus maiores költők (költő = poeta, o k marca o plural em magiar) são verdadeiros heróis nacionais. As cidades húngaras estão cheias de monumentos, ruas e praças dedicadas aos poetas (e aos escritores em geral também). Nos momentos mais importantes da história húngara moderna houve sempre a figura dum bardo magiar a marcar os acontecimentos. Petőfi Sándor e sua poesia romântica arrebatadora se confundem com a Szabadságharc (szabadság = liberdade + harc = luta; pron.: ‘sobod-sháág-rorrrts’) de 1848. Foi a leitura pública do seu poema patriótico Talpra magyar (Levantai, magiar) que deu início ao movimento de luta contra a tutela dos Habsburgos, senhores do império Austro-Húngaro, para fundar uma república independente a partir de Debrecen, no leste da Hungria. Petőfi morreu em 1849 lutando contra o exército do Czar russo, vindo ao auxílio dos austríacos. Tinha só vinte e seis anos de idade. Virou mito. Há uma pintura do século 19 em que ele aparece no momento da morte escrevendo na terra com o próprio sangue a palavra Haza, ou pátria.

Ady Endre

Ady Endre

O funeral do poeta Vörösmarty Mihály, em 1855, foi o primeiro grande protesto silencioso dos magiares depois da derrota de 48. E em 1919 o enterro de Ady Endre, o genial introdutor do modernismo na poesia húngara virou uma celebração prematura da Tanácsköztársaság (tanács=conselho + köztársaság = república, daí república de conselhos, ou ‘soviets’) um regime comunista de curtíssima duração que tomou o poder no final da primeira guerra mundial, sob o comando de Kun Béla.

tumba em Kerepesi, Budapeste

tumba em Kerepesi, Budapeste

Os magiares são também um povo de alma ferida, tendente ao pessimismo, à melancolia e à auto-ironia. Não é difícil entender porquê. Milenarmente exilado das suas origens nômades na Ásia, deslocado linguisticamente no meio da Europa, é um povo que desde o século 16 sofreu derrotas arrasadoras, primeiro contra os turcos, depois contra os austríacos, e, tendo perdido a primeira guerra mundial e dois terços do seu território em 1921, e a segunda também, quando se aliaram ao nazistas, os húngaros ainda viram os tanques russos ‘passearem’ sobre seus sonhos de socialismo pluralista em 1956. É uma dose cavalar de desdita, convenhamos. Por isso não deve assustar os ouvidos mais carnavalescos brasileiros a tristeza e desengano que exala de grande parte da poesia magiar.
uma fachada da Rua Jószef Attila, Budapest

uma fachada da Rua Jószef Attila, Budapest

Essa tendência down é tão arraigada que recentemente uma entrevista com o jovem poeta e escritor Dunajcsik Mátyás (aguardem um conto dele em breve aqui) na revista Kultusz chamava a atenção pelo título: Egy boldog magyar költő vagyok (Sou um poeta magiar feliz; lido palavra por palavra = um feliz magiar poeta sou).

a ira jovem de József Attila

a ira jovem de József Attila

Esse arrodeio todo foi pra apresentar József Attila (1905 – 1937). Se não é mais importante do que o monumental Ady Endre, acima citado, que é considerado o maior de todos por muita gente boa, inclusive nosso grande finado Paulo Rónai, József (pron. “Yôjéf”) Attila talvez seja o mais amado pelos húngaros de hoje, quem melhor falou dos traumas e conflitos, mas também ao lirismo da alma magiar no século 20. É comum verem-se grafitos e estencils com sua figura e seus poemas pelas paredes de Budapeste. Foi um gênio de origem proletária. Sétimo filho de um saboeiro romeno e de uma lavadeira, ficou órfão aos cinco anos de idade e foi dado para adoção. Sua vida curta e intensa incluiu passagens pouco duradouras por universidades na Hungria (Szeged e Budapeste), em Viena e na Sorbonne, em Paris.
Centro József Attila na Universidade de Szeged

Centro József Attila na Universidade de Szeged

Muito jovem já lia e traduzia versos franceses e alemães da época, e assim o surrealismo e expressionismo marcaram cedo sua poesia, combinados com as formas tradicionais da canção popular húngara. Toda sua obra foi afetada também fortemente pelo sofrimento da classe operária húngara, que ele sentiu na prórpria carne. Como outros poetas do seu tempo, só que com razões pessoais de sobra, abraçou o marxismo-leninismo irradiado a partir da União Soviética. Ironicamente, entretanto, foi expulso em 1933 do então ilegal Partido Comunista Húngaro, para o qual tinha entrado três anos antes, porque sua poesia foi julgada excessivamente preocupada com questões pessoais. Depois escreveu poemas abertamente críticos do totalitarismo.

um Jószef mais sociável

um József mais sociável

A vida toda viveu aos trancos e barrancos, em constante crise material, espiritual e afetiva, também, homem de grandes paixões que foi. Já em 1933 tentava o suicídio uma vez, por ciúmes de sua companheira de muitos anos, Szántó Judit.

Mas József Attila é sobretudo o poeta do “eu” moderno, complexo, reflexivo, marcado pela psicanálise freudiana, sobre a qual leu muito, e à qual recorreu em seguida a uma de suas crises depressivas. A experiência analítica lhe rendeu um diário e uma grande paixão tardia não correspondida pela psicóloga Kozmutza Flóra. Isso tudo não o impediu de matar-se jogando-se sob um trem aos 32 anos de idade.

Alguns títulos de seus livros de poesia falam por si: O Szépség koldusa (Esmoler da beleza) (1922); Nem én kiáltok (Não sou eu que grito) (1925); Nincsen apám, se anyám (Não tenho pai nem mãe) (1929); Döntsd a tökét, ne sírankozz (Derrube o capital, não choramingue) (1231); Nagyon fáj (Dói demais) (1936).

jozsef-attila-dvd-cover2Arrisquei as duas traduções que se seguem de poemas mais curtos de József Attila . Se qualquer tradução já é receita certa para a frustração, a de poesia então, nem se fala. Sobretudo para quem, como eu, não é poeta praticante. E quando se trata de verter de uma língua sintética e diabolicamente engenhosa como o magiar para o português, que como língua latina tende mais ao encompridamento retórico, a coisa fica mais complicada ainda. Tentei uma solução bem perto do sentido literal, procurando apenas manter a conta silábica semelhante ao original. Mas certamente perdi todo os outros recursos líricos fluentes usados pelo autor. Pra sentirem do que falo, coloco abaixo os originais também, inclusive declamações que achei no youtube, para quem quiser curtir a sonoridade magiar dos versek (verchek, versos)

DESESPERANÇADAMENTE (1933)

O homem afinal alcança
Triste, plana, úmida areia,
Olha em torno pensativo e,
Prudente, só assente, nada espera.

Eu também tento olhar em torno
Assim, levemente, sem enganos.
Prateado sussurro de foice
Brinca entre as folhas dos álamos.

No galho do nada pousa meu coração,
Pequeno corpo mudo treme,
Cercando-lhe estrelas se chegam
E assistem, assistem mansamente.

REMÉNYTELENÜL

Az ember végül homokos
Szomorú, vizes síkra ér,
Szétnéz merengve és okos
Fejével biccent, nem remél.

Én is így probálok csalás
Nékul szétnézni könnyedén.
Ezüstös fejszesuhanás
Játzik a nyárfa levelén.

A semmi ágán ül szivem,
Kis teste hangtalan vacog,
Köréje gyűlnek szeliden
S nézik, nézik a csillagok.

TALVEZ EU SUMA DE REPENTE

Talvez eu suma de repente,
feito rastro de bicho na floresta.
Dilapidei completamente
tudo de que devia prestar conta.

Já o meu corpo-menino em botão
vi murchar num fumo que cegava.
Aflição estilhaça-me a razão
quando reparo a que hei chegado.

Cedo cravou em mim seu dente
o desejo, profundos enganos.
Hoje tremo de arrependimento:
quisera ter esperado mais dez anos.

De teima sempre recusei
sentido à palavra materna.
Depois órfão e enteado passei
à galhofa das coisas de escola.

Minha juventude, viço verde
pensei ser eterna liberdade,
e hoje só escuto entre lágrimas
o estalar de galhos secos.

TALÁN ELTŰNÖK HIRTELEN

Talán eltűnök hirtelen,
akár az erdőben a vadnyom.
Elpazaroltam mindenem,
amiről számot kéne adnom.

Már bimbós gyermek-testemet
szem-maró füstön szarítottam.
Bánat szedi szét eszemet,
ha megtudom, mire jutottam.

Korán vájta belém fogát
a vágy, mely idegenbe tévedt.
Most rezge megbánás fog át:
várhattam volna még tiz évet.

Dacból se fogtam föl soha
értelmét az anyai szónak.
Majd árva lettem, mostoha
s kiröhögtem az oktatómat.

Ifjúságom, e zöld vadont
szabadnak hittem és öröknek
és most könnyezve hallgatom,
a száraz ágak hogy zörögnek.

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Amor à planície… meu encontro com a Nagy Alföld

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

Até morar na Hungria eu tinha agonia da planura. Nascido e crescido entre as curvas suaves das dunas potiguares, menino da Cirolândia que brincava nas saias do Morro de Mãe Luisa, a primeira vez que vivi a planície absoluta, viajando de carro pela beirada sul do Lago Ontario em direção a Niagara Falls, já tinha dezesseis anos. Lembro claramente que aquela ausência de variedade orográfica até aonde a vista dava me deixou fisicamente mal, enjoado. Fiquei constituído dum desafeto de planície, e nunca pensei que isso um dia podia mudar.

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Mas a Terra rodopiou muitas vezes em redor do sol, e, como já contei antes, em julho de 1998 eu fui parar na Hungria.

Os primeiros dois meses, em Budapeste, não despertaram mal-estar geográfico. Olhando a oeste pro Budavár, o Castelo de Buda dos cartões postais trepado sobre a colina, outras colinas ainda mais altas despontando-lhe detrás, o visitante está perdoado de esquecer que Magyarország (literalmente, país magiar, pron. ‘módjorrr-orrrssáág’), como os húngaros chamam sua própria terra, tem quase metade de seus 93 mil km² (pouco menor que Santa Catarina) feita de síkság (shíík-sháág), de planície, que começa ali mesmo em Peste, na beira leste do Duna (Danúbio), visível pra quem olha de Buda, só que meio disfarçado pela aglomeração arquitetônica urbana que se espalha até aonde a vista dá.

Hungria nublada na mordida dos Cárpatos

Hungria nublada na mordida dos Cárpatos

A essa óriási igantesca síkság carpática os húngaros chamam a Nagy Alföld, a Grande Planura. E ela se extende dali pra sul-sudeste por 350 km até se encontrar outra vez com o Duna perto de Belgrado, na Sérvia, pelo menos 220 km pra leste, até a bela Nagyvárad, atual Oradea romena, na aba da Erdélyi Középhegység, a Serra Mediana da Transilvânia (lembram de Erdély?), e mais uns 300 km pra nordeste, até Ungvár, na ponta de terra ex-húngara que a Ucrânia comeu em 1921* e que eles, ucraínos, chamam de Uzshorod, ou Ushgorod.

Pois foi bem no meio da Nagy Alföld, perto da sua parte mais desolada, a magyar puszta, o ermo magyar cantado pelos poetas húngaros − talvez seja o equivalente espiritual magiar ao nosso Sertão −, que fui parar quando assinei o contrato com a International House pra morar em Debrecen e dar aulas pro povo da TIGÁZ em Hajdúszoboszló (assunto de post anterior).

E já na primeira viagem de 3 horas no Intercity, o trem mais confortável e um pouco menos lento, de Peste para Debrecen, numa tarde cinzenta e molhada do outono de 98, eu me dei conta de que talvez tivesse feito um mau negócio, geograficamente falando. Meia hora depois de sair da Nyugati Pályaudvar, a grande „gare ocidental” de Peste, já a única variação na paisagem eram fileiras de árvores nas divisas dos campos de cultivo e as casas pingadas pela paisagem nos kisfalu, os pequenos povoados magiares do interior (pronúncia: ’kíshfolu).

Debrecen 2005: Nagy Templom calvinista e os novos villamos

Debrecen 2005: Nagy Templom calvinista e os novos villamos

Debrecen é uma cidade de tamanho razoável – uns 130 mil habitantes – e de importância cultural e política muito maior. Prometo outro dia falar dessa velha ‘Roma Calvinista’ no meio do Alföld, centro de resistência magiar tanto aos turcos como aos Habsburgos austríacos, e que me recebeu com sua hospitalidade cheia de dignidade.

Apois, quando eu estava na cidade não percebia tanto o vazio de variedade do horizonte da planura. Mas quatro vezes por semana quando eu pegava um trem madrugador pra trabalhar na TIGÁZ não havia como fugir da paisagem na janela. E foi nesse confronto quase diário que eu descobri um novo olhar para a planície total.

Já era inverno, e aquele de 1998 foi de muita neve – que eu amo desde que morei no Maine na adolescência. Eu saía de casa ainda no escuro, todo encasacado, plof plof plof, as botas brincando de afundar na neve por cinco minutos até a parada do villamos, o bonde elétrico que me levava até a Nagyállomás de Debrecen (nagy = grande, állomás = estação), onde eu pegava o trem pra chegar a Hajdúszoboszló cerca de 25 minutos depois.

No caminho, o dia começava a desabrotar. E foi num dia assim, vendo o sol morno de inverno banhar de encarnado aquela infinita brancura gelada, que eu senti que alguma coisa mudara. A planura parecia um mar calmo e apaziguador, e mar eu conhecia e já amava. Dali em diante passei a esperar com ligeira ansiedade aqueles minutos quando ia ver pela janela outra vez avermelhar-se o mar gelado da puszta, do quentinho interior dum vonat (trem) feioso, pesadão, mas peitudo, herança da indústria pesada do comunismo.

inverno na Nagy Állomás de Debrecen

inverno na Nagy Állomás de Debrecen

O inverno, aonde ele é rigoroso e, portanto, verdadeiro inverno, é uma estação que interioriza o ember (ser humano), que nos impele a refletir sobre coisas fundamentais: os mitos e medos que nos atordoam os neurônios e as fibras do miocárdio. E numa ida de Debrecem pra Budapeste, às vésperas do Natal geladíssimo de 98, eu olhei seguidamente, sem saber desgrudar o olhar, para a paisagem planíssima e enregelada de onde despontavam, aqui e ali, galhos dramaticamente nús de árvores solitárias que lembravam dedos de mãos desesperadas pedindo alguma coisa dos céus, quem sabe clemência para a insensatez dos homens.

E tive uma espécie de insight – ou seria uma epifania? Senti como se ali o inverno se mostrasse a mim na sua mais profunda ontológica e metafórica invernice pela primeira vez. Sei lá, imagino, talvez como no poema de Drummond a Máquina do Mundo se abrira para o caminhante solitário naquela estrada pedregosa de Minas. E era tanto, era tão bonito, tão extraordinária e silenciantemente bonito o que eu via, que me ocorreu que, depois daquilo, eu já podia morrer.

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Pincér! egy korsó sört, kérek… na farra com os magyarok

Este post é oferecido a Orobej Norbert e Mészaros Alpar, amigos de excelentes papos regados a incontáveis korsó sör, no Broadway, “nosso” kocsma. Eu até então nem gostava tanto de cerveja…

kocsma-foto-a-hirlevelbe1Bati um bom papo com o fiatal (jovem) poliglota Rodrigo Santos ontem de noite no Catita Lyuka, conhecido no original como Buraco da Catita. Pra quem não é de Natal, esse é o bar da vez por aqui entre a moçada cabeça; fica no coração da velha Ribeira, e toda sexta ferve até altas horas fechando a rua em torno de uma mesa de calçada de onde músicos locais da melhor cepa mandam um balançante som brasileiro.

E quando a Catita fechou, nosso papo continuou, agora entre uma colherada e outra da excelente paçoca com feijão verde e da finom-íssima moela da Confeitaria Atheneu. Ah, Natal, ainda me guardas surpresas assim deleitáveis, hála Istennek! (graças a Deus, pronunciado, como já desconfiam, “rála ishtennek”)

Fiquei mui contente em saber que Rodrigo é um dos dois ou três malucos que curtem os comentários do blog sobre a língua magiar. Depois de trocar idéias sobre vários mistérios linguísticos, que só os verdadeiros language-freaks se dispõem a apreciar, a conversa descambou para… surprise… Cerveja! Ouvi dele como se deve pedir uma brew em umas 10 línguas diferentes. Aí seguiu-se a pergunta natural: e em magyar, como se pede uma cerva?

borsodi_vilagos

Bom, o nome da bebida em si é sör. Como todos já sabem, a pronúncia será “shêôrrr”, com o biquinho francês sobre do qual já tratamos lá atrás, no ‘zsönglőrködés’ (coloco 3 erres finais pra lembrar que trata-se de um erre (en)rolado, como o de ‘cara’). As grandes marcas húngaras são Dreher, Soproni, Borsodi, e Arany Ászok, mas há muitas regionais menores.

korsoO mais usual num kocsma(bar, tasca, botequim, pron. cotxma, cotshma) húngaro, como na maior parte da Europa, é beber csapolt sör, (txapolt, ou tchapolt, como queiram. vem de csap = torneira) cerveja “tirada na torneira”, tirada na bomba de barril, portanto. E aí temos basicamente duas medidas, o pohár (porrárrr = copo, taça), no caso um copão ou tulipa de uns 500ml, creio, e o korsó (korrshôô = caneca, jarra, cântaro), que deve comportar seus 750ml de sör fria, mas não estupidamente gelada.

Claro que as cervejas húngaras, as internacionais conhecidas de todos, mais as checas, pelo menos, estão disponíveis em üveg, garrafa de vidro, e em doboz, em lata. Mas quanto sentamos com amigos num kocsma qualquer, é bem mais frequente pedirmos csapolt sör, até porque sai mais barato.

O título do post pode ser traduzido como: Garçom! um korsó de sör, por favor.
Pincér (pintssêrr) vem de pince, que significa adega, cave. Pincér é, portanto, o adegueiro, o home que cuida da bebida. Se for mulher, o que é muito comum, geralmente belas gatas, inclusive, é pincérnő (nő = mulher).

Egy = um ou uma. É formada de duas letras E + gy, e a pronúncia da letra gy é a de um d nosso molhado com a língua, mas não tão chiado como o d dos cariocas em “dia”. Foneticamente falando diríamos que é um d levemente palatalizado. Se o caba disser o “di” em “dia” encostando mais a língua no céu da boca vai chegar direitinho ao gy.

Por falar em número, uma das formas mais ou menos garantidas de saber se uma língua pertence ou não ao nosso tronco linguístico é dar uma olhada nos números de 1 a 10; se uma boa parte parecer familiar, mesmo que longe, é bem provável que se trate de uma língua parente. Pense em ein, zwei, drei, do alemão, one, two, three, inglês, uno, due, trei, do italiano, nyë, di, tre, do albanês , adin, dzva, tri, do russo, eka, dvi, tri, do devanagari, un, dau, tri, do galês, só pra ficar nesses (conferi boa parte agora na web), e dá pra começar a entender de onde saiu a teoria do nosso ancestral comum indo-europeu. Claro que os números são apenas um aspecto disso.

Os Urais, de lá vieram os ancestrais do magyarok

Os Urais, de lá vieram os ancestrais do magyarok

Agora pegue os números em magiar: 1. egy, 2. két, 3. három, 4. négy, 5. öt, 6. hat, 7. hét, 8. nyolc, 9. kilenc, 10. tíz (este último, o tíz = dez, tomado do latim, é a excessão que confirma a regra) e vai sentir que estamos noutro universo linguístico. Sabemos, de fato, hoje, que o magiar é membro do grupo chamado fino-úgrico, ou ugro-finês do tronco urálico, originado numa área pra lá da baixa da égua dos Montes Urais, que dividem a Russia européia da asiática. São parentes muito longínquos do finlandês, nada que dê pra se reconhecerem, nem se comunicarem numa festinha de família. Fora essa parentagem, tão distante quanto, por exemplo, entre o português e o sueco, o magiar é uma ilha linguística no meio da Europa Central, cercada de eslavos, germanos, e, do lado oriental, dos nossos primos latinos, os romenos. É um espanto que tenha se preservado da extinção ou diluição nos mil e cem anos desde a chegada deles na região.

soproni1Bom, depois de ficarmos bêbados de linguistiquês, voltemos ao sör pra refrescar azidéia. Kérek (pron. “kêêrék), que faz as vezes do nosso “por favor”, é na verdade o verbo kérni (=pedir, solicitar, rogar, instar, suplicar) conjugado na primeira pessoa do singular. Tipo, eu rogo, eu peço, eu suplico, peço encarecidamente, etc.

E o sört, com t, por que isso? Bom, o t é a marca das palavras quando elas fazem a função de objeto direto no magiar. Como se trata de um verbo transitivo, kérek, peço, rogo, obviamente peço alguma coisa. Peço o quê? Um korsó de cerveja, que é, portando, o objeto direto na frase, certo? Então, t nele! Pode-se dizer também: Pincér, kérek egy korsó sört. Aí a ordem verbo – objeto fica bem clarinha.

Se vc for chegado a essas perversões gramaticais, talvez esteja se perguntando por que korsó, que também faz parte do objeto direto, não leva t? Porque nesses casos só a coisa principal, o conteúdo, leva o t. Se em vez de um korsó de sör, você pedir apenas um korsó, ou um pohár, vai ficar kérek egy korsót, ou kérek egy pohárat. (No caso de pohár – pohárat, o a antes do t entra por razões fonéticas, pra facilitar a aplicação do t.)

arany-aszok21E quando não precisa do t? Se você disser, por exemplo, “esta cerveja é boa”, o sör da frase não vai levar t, porque aí sör é sujeito, não objeto. Fica então: Ez a sör jó. Literalmente “esta a cerveja boa”, assim mesmo, sem verbo, já que não se usa o verbo ser pra afirmações desse tipo.

Se eu digo Natal é legal, por exemplo, fica só Natal jó. E , essa palavrinha usada a toda hora por nove entre dez estrelas ou qualquer figurante ralé do cinema, se pronuncia, é claro, “yôô”. Aliás, pense numa palavrinha multi-uso: legal = jó; tá bom assim = jó; ok = jó; sem problema = jó; tá ok? = Jó?; é bom? = jó?

palinka-11Pra terminar devo dizer que uma boa farra magiar nunca se resume a uma cervejada, apenas, tem que incluir algumas rodadas de pálinka. Pálinka é a aguardente deles, feita a partir de frutas, e de alto teor alcoólico, persze (claro). As mais apreciadas são körte, szilva, sárgabarack e őszibarack, pera, ameixa, damasco e pêssego, respectivamente.

Uma farra de responsa básica envolve pelo menos uns cinco ou seis korsó e duas a quatro rodadas de pálinka. Dá um grau pra ninguém botar defeito. Fica todo mundo lindo!

Egészségre! (à saúde, pron. egêês-shêê-gré)
CMG
PS aqui vai uma propaganda de cerveja húngara, lotada de apelo patriótico. Depois de cantar muitas loas às coisas magiares, inclusive à língua “uma das mais belas e mais dificeis do mundo”, aos nomes próprios invertidos, às mulheres húngaras, “as mais lindas do mundo”, ao domínio mundial no polo aquático, etc o garotão termina dizendo: Magyarország, én így szeretlek! = Hungria, eu te amo assim (tanto)! E aparece a frase “Hozzánk tartozik” = pertence a nós, é coisa nossa.
Uma das coisas que ele diz no meio é que não gosta que os turistas confundam Budapeste com Bucareste, uma recorrente gafe de estrangeiros.
Vale também pra ouvir a bela língua falada empolgadamente ao vivo e a cores. Enjoy it!

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‘Carlos Rubro’, poeta coxo : um conto de Bartis Attila

bartisBartis Attila é fotógrafo, mas hoje em dia é também um dos escritores jovens mais incensados pelo público cabeça da Hungria. É traduzido e editado também no estrangeiro. Um de seus romances, A nyugalom, foi transformado em filme em 2008. Nyugalom pode ser traduzido como aquietação, calmaria, trégua… e visita literariamente a relação deveras punk entre um filho escritor e uma mãe ex-atriz de teatro “complicada”, que foi meio expulsa dos palcos nos tempos do comunismo, em parte porque sua filha saiu da Hungria e se exilou, situação que, no antigo regime, representava um problema político para os familiares que ficavam para trás. bartis-nyugalom
Num contato que tivemos há algum tempo Attila me disse que seu agente na Inglaterra estava negociando uma edição brasileira; vamos ficar de olho…

Bartis Attila nasceu em 1968 em Marosvásárhely, na Transilvânia, que os húngaros chamam simplesmente de Erdély (pronúncia-se ‘erdêi’, com r enrolado) o nome que a região tinha quando era parte do Reino da Hungria, e que é muito próxima da palavra que significa floresta, silvestre, bosque, o que explicar a forma latina Transilvânia.

Este conto foi o primeiro que eu arrisquei traduzir do húngaro, anos atrás; mas não só por isso, tenho um certo ‘fraco’ por ele, sempre me toca bastante. Tomara que outros concordem com o ‘não só por isso’.

Há algumas notas no final contextualizando o que me pareceu carecer, e há um link legal pra quem quizer aprender mais sobre Marosvásárhely, uma das cidades mais bacanas que visitei quando fizemos um giro naquelas plagas vampirescas, eu e meu querido amigo Nelsinho Melo em 2005. Lá comi também o mais fenomenal Madártej/modáártéi/ de que me lembro. ‘Leite de passarinho’ é como eles chamam uma espécie de calda baunilhesca fria com uns icebergs flutuantes de clara em neve sevida numa taça gigante…ahhh! Finom! (delícia). O link é http://www.tirgumures.ro/prezentare/start1.swf

Bartis Attila (1968)

KÁROLY
ou a história da literatura

Vivia antigamente em Marosvásárhely (1) um rapaz de nome Piros Károly (2) que trabalhava com a erradicação de baratas e o extermínio de ratos. Tinha vindo do outro lado da floresta, uma das suas pernas era quatro centímetros mais curta que a outra, e até o dia seis de março de mil novecentos e setenta e três ninguém ligava para ele. Naquele exato dia, no entanto, ao terminar a caça às baratas lá em casa resolveu tirar da sacola, não o bloco de notas fiscais, mas um caderno pautado. Com o tubo-borrifador às costas e o caderno amassado na mão direita, parou no meio da sala como um mergulhador meio desorientado, olhou fundo nos olhos de Papai e disse:
− Seu Bartis, eu sou poeta!
Naquela noite ficaram apenas corrigindo erros de ortografia. Na noite seguinte já trataram do estilo, e na terceira Piros Károly adotou o nome do seu povoado natal. Dessa vez, junto com os versos e a garrafa de inseticida já trouxe sua maleta, e não ficou acordado com Papai até de madrugada, dormiu na poltrona reclinável da sala da frente. Às sete da manhã acordou como Kakasdi Piros Károly (3) , sentou-se no banheiro até as sete e meia, e lá pelas oito foi exterminar.
Ainda naquele março de setenta e três, discutiu-se se ele se tornaria nosso hóspede por um par de dias, até encontrar uma nova sublocação. Porque da velha senhora com quem ele morava, ora, dias antes, sete dos nove gatos da velha senhora tinham perecido de uma vez, e tudo fora atribuído aos produtos químicos dele. Sem falar que o nome da idosa senhora era Vasilescu, o que nem precisa de explicação adicional, não é, e com um sobrenome como Kakasdi Piros era inútil ele asseverar que no máximo podia ter havido um envenenamento indireto, através dos ratos. Sim, ele, por fora do aluguel, por gentileza pura e simples, envenenara os ratos da casa, o que certamente já havia chegado aos ouvidos de dona Vasilescu. Papai via que aos poucos aquilo estava virando uma questão étnica.(4)
Papai se deu conta também de que o moço não conseguia pagar o aluguel há no mínimo três meses, e agora lá estava ele, em pé, com um garrafão de inseticida, um caderno cheio de oitavas mais uma maleta. Mamãe, por sua vez, via que as camisas, cujas mangas escapavam da maleta estufada, precisavam de lavagem há pelo menos três meses.
A conversa, portanto, era de apenas alguns dias. Somando-se tudo, ele morou conosco cinco anos e meio. Viveu ali um homem coxo, na saleta da frente, bem apertado ao lado do armário embutido. E toda noite escrevia versos. Não sei quantas vezes o expulsamos, mas foram tantas quantas as que o chamamos de volta.
Mudou-se junto conosco do lado da fábrica de tijolos para a cidade velha.
Estava conosco ao ser convocado para o exército, e foi lá em casa que polícia militar o procurou mais tarde.
Escondeu-se no nosso galpão quando ficou claro que, se não sabia tocar instrumento de sopro, podia muito bem rechear um tanque de guerra, como berrou conosco o oficial, que duas tíbias de comprimentos diferentes não eram motivo suficiente para escapar de servir ao exército popular romeno, e fomos nós os mais surpresos quando os soldados marcharam até o fundo do pátio e, com botinadas profissionais, arrancaram a porta do bem construído caixote de lenha e puxaram Piros Károly de dentro como um mágico puxa um coelho.
− Tu estavas aí há quanto tempo? − Papai perguntou.
− Uma semana − disse o miliciano, porque Károly, de tanta fome, já nem conseguia falar.
E, por último, nós ainda é que tivemos que dar um jeito para que ele não pegasse três anos e, sobretudo, para que também não servisse nos tanques, e sim como pastor de porcos. Portanto, ele não tinha qualquer motivo para não voltar diretamente lá para casa depois de dar baixa. E assim fez.
Se acrescentarmos a semana em que ele recheou o caixão de lenha, Károly morava conosco há exatos cinco anos e meio quando nos visitou uma mulher grandona, a Mimi Vereczkey. Não vinha por interesse, só para matar as saudades. Há quanto tempo não nos vemos, não é, disse, o que era mesmo verdade, mas Mamãe não encontrou nela nada a objetar.
Na hora do nosso café de raiz de chicória, Mimi rodou uma cigarreira de ouro recheada de cigarros ocidentais, tomou também um comprimido para enxaqueca tirado de outra caixa dourada, e, de uma terceira caixa de ouro, puxou um cartão de visita com seu novo endereço. Depois lambiscou o meio cubo de açúcar não dissolvido na colherinha, e levou Károly embora com ela. O poeta não voltou mais, nem para buscar os versos, nem seu garrafão de inseticida.

Dois meses mais tarde, recebemos a visita de um senhor vestido em traje tradicional magiar. Era o valente Kakasdi Piros Vereczkey Károly, disse, porque ainda não conhecíamos essa parte do nome. Não quer incomodar muito, só veio porque, se a memória não lhe falha, temos contatos no estrangeiro, mas pssst, baixando mais a voz, é que agora ele também precisaria de um contato desses. Não por razões comerciais, absolutamente! É pelo interesse da nação. A bengala? Como assim, para quê a bengala? Então somos tão esquecidos? É indispensável, por causa da perna.
Depois deu uma olhada no relógio de bolso, Patek, Patek Philip, disse, são os mais pontuais; apenas uma vez o bom tiozinho Vereczkey precisou ajustar os ponteiros, quando introduziram aqui este miserável horário romeno. Santo Deus, desde então, como sofre o povo magiar, não é mesmo, querido amigo? Por isso pense bem no caso, pois trata-se do interesse da nossa nação. Ora, claro, vocês também não estão nada mal, acrescentou, e antes que Papai pudesse pô-lo para fora lambiscou rapidamente o meio cubo de açúcar não dissolvido na colherinha e saiu apressado.
− Onde está a porra do garrafão? − perguntou Mamãe, que queria dar um banho de veneno de barata no senhor Vereczky.
Naturalmente acreditávamos que Károly tinha virado delator, pois naquela época ninguém mais podia usar o traje tradicional húngaro, somente os delatores. Desnecessário dizer que os espiões tinham muitos outros privilégios, mas era esse o que invejávamos mais.
Claro que estávamos enganados. Károly simplesmente ganhara quatro quilos e duzentos gramas de ouro, um anel de noivado ainda mais pesado, e com isso endoidara. Quem já não tinha ouvido falar de tais casos? No começo enlouquece-se um pouquinho, depois, completamente.
Quinze anos depois – quando o ouro tinha se acabado – pelo menos o suficiente para ele nos procurar em Budapeste, apareceu com um caderno de desenho numa mão, e um vidro cheio de lama da praia na outra, parou no meio da sala como um mergulhador meio desorientado, olhou fundo nos olhos de Papai e disse:
− Meu Feri, (5) eu posso salvar a nação!
Não pedia muito pela operação, só cem milhões. Para ele, nem um fiapo de lucro, quando se trata da nação ele é nonprofit, mas no mundo vil de hoje é o que custa construir uma caverna dessa lama medicinal. Claro que é preciso secar para fazer o adobe, que ele não é idiota. O importante é que seja esse tipo de lama do mar, porque ela intercepta vibrações malignas. E dentro dessa caverna todos os magiares poderão viver em paz, até o final dos tempos. Finalmente todos juntos, judeus, ciganos, mas, acima de tudo, sem os romenos. Não precisa ser muito grande, porque gente de bem também cabe em lugar pequeno (6). Depois, quando estiver terminada, todos os romenos ficarão diante do portão nos invejando.
Haveria ainda outras ideias, mas em poucos instantes ficou claro que Papai não dispunha dos reles dez milhões para a nação. E dessa vez Károly Piros foi embora com jeito de que realmente nunca mais o veríamos. Magiar de lama, eu disse, quando fechei a porta, porque eu já era bastante crescido na época, mas continuava cínico.
Depois disso, um ano e meio depois, nos telefonou uma vez ainda, perguntei se devia chamar meu Pai, disse que não, era comigo mesmo que queria falar.
− Por que exatamente comigo? − perguntei.
− Porque você certamente não é tão mal-agradecido. Você lembra, não lembra, como eu ajudei a vocês quando a despensa estava cheia de baratas?
− Lembro − respondi −, como se tivesse sido ontem.
− E você ainda era criança − disse.
− Era sim − menti.
− Então, me ajuda? − perguntou.
− Não tenho cem milhões − respondi.
− Não precisa mais − disse.
− Então ajudar com quê?
− Me sequestraram − disse.
− Quem? − perguntei?
− Os óvnis −, disse chorando.
− E o que eles queriam? − perguntei rindo.
− Não ria − disse. − Um dia você também vai saber como é, quando eles vierem da lua com um caixão de defunto a jato para lhe buscar.
− Mas agora você está aqui em Peste?
− Agora, estou aqui − respondeu −, num sanatório. Meus versos ainda existem?
− Em algum lugar certamente − menti.
− São bons, não são? − perguntou.
− Claro que são bons − menti-lhe outra vez, e não ri mais.
− Posso lhe visitar? − perguntei.
− Não venha me visitar − disse.
− Por quê? − perguntei de novo.
− Porque cortaram minha perna. Você também vai ser escritor?
− Talvez, não sei ainda − respondi.
− Não seja escritor − disse − escritor não, de jeito nenhum.
− E se eu for? − perguntei.
− Então não pare nunca, senão você endoidece. Prometa a Károly.
− Está bem, prometo, não deixarei. Mas então não enlouqueço mais? − perguntei chorando.
− Não − disse, rindo, com uma perna só, num sanatório de Peste, onde morreu no dia seguinte.
− Foi o trem que cortou? − perguntei.
− Não, um médico − disse.
− Por quê? − perguntei.
− Porque infeccionou da lama medicinal. Fiquei com ela dentro uma semana, ainda esticou quatro centímetros, eu não ia mais ser coxo, só que infeccionou nesse tempo.
− Como posso ajudá-lo? − perguntei, mas as moedas de Károly estavam se acabando, a enfermeira não queria dar mais dinheiro a um doido, e só consegui ouvi-lo dizer ainda: por favor, escreva…

* * * * * * * *

1. Bela cidade da Transilvânia, hoje Tîrgu Mures, Romênia, aonde o autor nasceu e viveu até os dezesseis anos, e de onde a família teve que se mandar porque seu pai, jornalista, cansou-se das cadeias da ditadura de Nicolae Ceaucescu. De forte presença étnica húngara, Marosvasárhely foi palco de violentos conflitos entre os estudantes de origens húngara e romena em seguida à queda do regime comunista.
2. Se pronuncia ‘Pirósh Carói ’, e corresponderia em português mais ou menos a ‘Carlos Vermelho’.
3. Deriva de Kakasd, suposto fallu (vila, povoado) natal de Károly, pela adição do sufixo adjetivador –i.
4. Vasilescu, com muitos outros em -cu, é nome romeno, Kakasdi Piros, nome húngaro, daí a referência ao conflito étnico entre romenos e magiares na Transilvânia, sobretudo depois que esta foi perdida pela Hungria para a Romênia pelo Tratado do Trianon, no final da Primeira Guerra Mundial.
5. Forma afetuosa de Ferenc (pronunciado ‘Ferents’), Francisco em húngaro.
6. Expressão magiar equivalente ao nosso “onde comem dois, comem três”.

Pra encerrar, a vista aérea de um Madártej monster…
madartej2

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Síku Hajdúszoboszlón… mais malabarismos da língua magyar

Acho que vou fazer um pequeno arrodeio explicativo pra poder entrar no assunto que o título sugere.

no Museu Vasarely, Budapeste

no Museu Vasarely, Budapeste

Fui parar na Hungria no verão (europeu) de 98 pra fazer um curso intensivo de um mês e assim conseguir um certificado internacional como professor de Inglês, o CELTA, fornecido por um órgão da Universidade de Cambridge blablabla.

Fiz o tal curso, recebi o tal paper e terminei sendo convidado pra dar aulas lá, o que topei depois de relutar um pouco (outra hora explico porque). Fiquei até o verão seguinte, com uma rápida volta à Inglaterra no meio.

Digo ‘volta’ porque, até ir pra Budapeste, eu tava morando no Reino Unido. Tinha me acoplado, digamos assim, a um movimento budista fundado por um inglês, e já em 95 saíra do Brasil atrás de meditação, estudos budistas e vida comunitária, the whole package oferecido pelo movimento, conhecido como FWBO, de Friends of the Western Buddhist Order.

Zoom out, fade, zoom in… apareço eu morando em Debrecen, agradável cidade do leste húngaro, e pegando quatro vezes por semana um trem madrugador pra uma cidadinha vizinha, um conhecido (lá por eles, claro) balneário termal com o nome ameaçador de Hajdúszoboszló, onde dou aulas numa empresa chamada TIGÁZ, que, como o nome sugere, era uma distribuidora do gás regional da região além-Tisza. O Tisza, como todo mundo no Brasil está canso de saber, sendo o grande rio que cruza o leste da Hungria de cima a baixo e inundava imemoriavelmente a grande planície (v. abixo), tornando-a uma das melhores áreas cultiváveis, e portanto, cobiçadas, da Europa.

cacimba na puszta magiar

cacimba na puszta magiar


Debrecen e Hajdúszoboszló estão bem no meio da grande magyar puszta, a grande estepe planíssima que forma a bacia dos Cárpatos, que são, por sua vez, a grande cordilheira em forma de “C” ao contrário que define a orografia e outras fias leste- e centro-européias.
Todos ao Google Maps conferir…

Outra hora conto alguns causos da minha vida de exilado na magyar puszta. Agora tou com sono e o que quero mesmo é aproveitar pra apresentar umas letrinhas e sons novos do magyar.

Primeiro a famosa letra “bi” SZ, nada mais nada menos do que o representante permanente e constante do nosso som S em sabão ou suvaco, ou do nosso SS em… nosso! Ou nooosssa! pra quem quiser uma franga mais soltinha.

Em seguida o J, que é na verdade uma semivogal com som de Y em boy. Pra qualquer coisa que admira, apieda, ou simplesmente enche a paciência, se diz lá também Jaj Istenem! (Ai meu Deus!), que se pronuncia “yoy ishtenem”, sendo que o “m” é igual ao do inglês, sempre de lábios fechados no final.

O H é frontalmente aspirado, como o do inglês him, ou her, e não rascante ou gutural; é mais como nosso r em rua, na fala natalense.

E o A sem acento agudo (Á, com “acento”, é para eles uma outra letra) se pronuncia parecido mais com um nosso O, só que um pouco mais em baixo (meio como um A que a gente faria com um palito de picolé de médico prendendo a língua em baixo).

Como já vimos noutro post que a letra S se lê sempre como x de xadrez, ou sh de she em inglês, então já podem arriscar o Hajdúszoboszló sem medo de se machucar, right?

Ficaria marromeno assim: Rói-dúú-ssô-boss-lôô.

Quanto ao Síku, já sacaram que é chico grafado magiarmente. Porque um húngaro desavisado leria “chico” como “tsrri-tso”, e “francisco” como “fron-tsish-tso”. Disso vocês já tiram que o som da letra C deles é “TS”, né?

Mas disso falaremos noutro dia de “leves” de letrinhas à magiaresca.

Viszlát! (té mais ver)
CMG

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