Az Írók Boltja

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Loja dos escritores, é o que Írók Boltja significa (ou de escritores). Livraria fundamental em Budapeste, cheia das histórias.

Da virada do século até os anos vinte e pouco funcionou alí o mais famoso dos cafés da Andrássy út (espécie de Champs Elisées centroeuropeu), a Japán Kávéház, onde se reunia o mais fino bouquet de literatos, artistas e filósofos da cidade, que, aliás, em 1900 tinha, pasmem, perto de 600 cafés, para uma população de 733.000 habitantes, segundo nos conta John Lukacs no seu “Budapest 1900, A historical portrait of a city & its culture”.

Japán Kávéház c. 1907

Japán Kávéház c. 1907

Havia escribas que praticamente “moravam” nos cafés: das suas mesas saíam artigos, críticas e ensaios literários, contos e provavelmente até romances inteiros, e a lenda fala de garçons que eram dublês de agentes literários, até porque certamente lhes interessava cobrir as pinduras dos literati abituês fazendo chegar os textos aos editores e recebendo o devido cachê.

Mas a partir dos anos 50, decaída de vez a vida dos cafés, agora sob o manto cinzento do comunismo, o térreo do Andrassy út 45 virou livraria. E, numa das melhores esquinas de Peste, quina com a praça Liszt Ferenc (o mesmo Franz Liszt dos alemães, que, falar nisso, em magiar quer dizer Francisco Farinha, hehe), a uma quadra do Oktogon, o cruzamento mais quente da cidade (com o Nagy Körút, o grande boulevard em meia lua de Peste), a boltja continuou sua vocação para reunir o melhor da literatura húngara de qualidade. Não vende lixo de auto-ajuda ou aparentados, só arte, dicionários e literatura, inclusive infanto-juvenil. E tem uma pequena mas excelente secção de DVDs de bons filmes húngaros.

Como fui pra Hungria pela primeira vez em 1998, já conheci a Írók Boltja dez anos depois do rendszervaltás, a mudança do sistema que rolou no fim do anos 80, do fim da censura e da política dos “három T”, os três T’s de Tamogatott (apoiado, patrocinado), Tűrt (tolerado) e Tiltott (proibido) que vigorava no velho regime.

irok-boltja-2Daquela vez e das outras em que voltei, a livraria tinha, além do excelente acervo de boa literatura húngara em inglês, francês e alemão, duas coisas que sempre me atraíram: as vitrines produzidas e os eventos literários, quando se enchia de esquisitões centroeuropeus lendo sua ‘próza’, recitando seus ‘versek’, e discutindo literatura. Embora eu não entendesse praticamente porranenhuma, sobretudo no meu primeiro ano, adorava o clima cosmopolita e cultivado que se respirava alí.

E muitas vezes, nos dias calmos, sentei à uma das mesas redondas, numa daquelas cadeirinhas tipo gerdau clássica, pra folhear, fuçar, e traduzir coisas. E foi lá que comprei boa parte da minha pequena hungariana.

Num desses dias, ano passado, aproveitei o tema de uma antologia para anotar os sete pecados capitais em magiar, e, de quebra, relembrá-los em português.

Segue a lista bilíngue pelo bem da nossa elevação espiritual.

Harag /hóróg/ (ira), irígység /iríídshêêg/ (inveja), lustaság /lúshtósháág/ (preguiça), falankság /fólonksháág/ (gula), fösvénység /föshvêênhishêêg/ (avareza), hiuság /ríusháág/ (vaidade), e bujaság /búiósháág/ (luxúria).

PS linguístico sobre o nome da loja: Ír é o radical de “escrever”, író é escritor, e como o plural em húngaro é em k, írók = escritores.
Bolt é loja, mas como a posse em húngaro se marca sempre (embora nem sempre somente) na coisa possuída, então a loja que é dos escritores é que vai ter a marca da relação de “posse”, e pra isso serve o “ja” final. É como se disséssemos em português: “escritores loja-dos”. Um barato né? A pronúncia é “íírôôk boltya”.

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5 Comentários

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5 Respostas para “Az Írók Boltja

  1. Edu

    Quando li, em seu e-mail que você havia escrito sobre sua livraria preferida aqui em Budapeste, eu logo imaginei que era a Írók Boltja!
    Um dia hei de dizer o mesmo, já gosto demais do lugar, mas pra comprar livros ainda fico com as maiores que tem mais opções em inglês. Como você mesmo diz, eu ainda não entendo porranenhuma dessa nyelv!
    A proposito, estou lendo o mesmo livro que você citou neste post – Budapest 1900 de John Lukacs! Ganhei de presente de Bence pelo meu primeiro ano na város!

  2. Chico dear, muito gostoso de ler o seu blog/site. Informações interessantes, dicas de livrarias e toques sobre essa língua que sempre achei complicada. Mas, pelo que você diz, não é nada impossível de ser aprendida. Quando eu for a Budapest você será minha principal fonte de informações. Parabéns, continue firme e quando tiver um tempo faça um visita ao meu blog.

  3. patricia

    Deu vontade de ver esse “acontecimento”. Fico imaginando como são essas pessoas, sobre o que escrevem e leem. Adorei!

  4. Rui

    Vou ter que voltar.
    bebemos um café na andrassy?, amigo chico.

  5. Chico

    Amigo Rui, tomamos o café na Alexandra, mas uma esquina depois te mostrei a Írók Boltja. Não lembro se entramos juntos lá. Se a memória não falha, era domingo de manhã, quando ela fecha, ao contrário da Alexandra, simpática também, embora mais comercial no geral. É meio a Bertrand de vocês, digamos.

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