Radnóti Miklós… um poema, outra versão

Aqui vai outra versão que acabo de fazer (hoje são 12 de julho de 2009) para o poema Hasonlatok, de Radnóti Miklós. Abaixo encontrarão ainda o original em magiar, minha versão anterior, que deu origem ao post, mais a nota biográfica sobre o poeta.

As mudanças principais em relação à primeira versão são:
Primeiro, o título: pensando melhor achei que, como hasonlat e o verbo hasonlít, que significa parecer, têm a mesma raiz, parecências, ou semelhanças, dão um sentido mais fiel ao original. O ‘-ok‘ final, como devem lembrar, marca o plural do substantivo (hasonlat – hasonlatok).

Outra mudança veio de eu me dar conta que no final do terceiro verso da quinta estrofe há o adjetivo ép (= inteiro, íntegro), e não o advérbio épp (= justamente, exatamente, precisamente). Sutil, né? Mas faz diferença, inclusive na pronúncia: ép é “êêp”, dito sem interrupção, e o segundo, épp, se diz “êê-p”, com uma leve pausa antes do p.
Agora é ler e ver o que dá…

Semelhanças

Miklós Radnóti (1909 – 1944)

És assim como um galho sussurrante
quando te debruças sobre mim,
e és sabor misterioso
como papoula semente,

e como o tempo que encrespa o rio
és assim instigante,
e tão tranqüilizante
como a lápide num túmulo,

és como uma amiga que cresceu comigo
e que fosse ainda hoje
difícil reconhecer
o cheio do teu cabelo,

e então ficas azul e temo, não me deixes,
vadia fumaça esgrouviada –
e às vezes temo mesmo a ti,
quando és cor de relâmpago,

e como tormenta no céu que o sol varou:
douradoescuro –
se te irritas, inteira
ficas como um úú,

profundo som, ressoante e escuro,
e nessas horas eu
faço com sorrisos laços luminosos
em redor de ti.

Hasonlatok

Olyan vagy mint egy suttogó faág,
ha rámhajolsz,
s rejtelmes ízű vagy,
olyan mint a mák,

s akár a folyton gyűrűző idő
oly izgató vagy,
s olyan megnyugtató,
mint a sír felett a kő,

olyan vagy, mint egy vélem nőtt barát
s nem ismerem ma sem
egészen még nehéz
hajadnak illatát,

és kék vagy olykor s félek, el ne hagyj,
csavargó nyurga füst –
és néha félek tőled én,
ha villámszínű vagy,

s mint napsütötte égiháború:
sötétarány –
há megharagszol, ép
olyan vagy mint az ú,

mélyhangú, hosszan zengő és sötét,
és ilyenkor én
mosolyból fényes hurkokat
rajzolgatok köréd.

Comparações (primeira versão)

Radnóti Miklós

És assim como um galho sussurrante
quando te debruças sobre mim,
e és sabor misterioso
como semente de papoula,

e como o tempo que encrespa o rio
és assim instigante,
e tão tranqüilizante
como a lápide num túmulo,

és como uma amiga que cresceu comigo
e que fosse ainda hoje
difícil reconhecer
o cheiro do teu cabelo,

e quando te magoas eu temo que me deixes,
vadia fumaça esgrouviada –
e às vezes temo mesmo a ti,
quando tens cor de relâmpago,

e como tormenta no céu que o sol varou:
douradoescuro –
se te irritas és então
exatamente como um úú,

profundo som, ressoante e escuro,
e nessas horas eu
faço com sorrisos laços luminosos
em redor de ti.

Sobre Radnóti

radnoti-kep2

Miklós Radnóti (1909 – 1944) foi mais um cometa brilhante e efêmero de tantos que iluminaram a literatura européia em língua magiar no século 20. Filho de uma família judia burguesa de Budapeste, morreram-lhe a mãe e um irmão gêmeo no nascimento. Estudou e completou o doutorado em húngaro e francês na Universidade de Szeged e ainda jovem já traduzia poesia do grego, latim, inglês, francês e alemão. Sua própria obra transita da avant-garde, pelo surrealismo e expressionismo, até um novo classicismo na forma de éclogas e longos versos sabor helênico. Em 1936 casou-se com o grande amor da sua juventude Fanny Gyarmati, para quem escreveu muitos dos seus versos, e em 1937 recebeu o prêmio Baumgarten, outorgado ao “escritor mais promissor do ano”. Morreu assassinado durante uma marcha forçada desde um campo de trabalho forçado na Sérvia em 1944. Segundo testemunhas, foi atacado a coronhadas por um guarda bêbado, irritado com sua insistência em “escrevinhar”, antes de ser abatido a tiros dentro de uma vala. Seu corpo foi exumado dezoito meses depois, e dentro de um bolso do seu casaco foi encontrada uma caderneta com seus últimos belos e comoventes poemas, raros exemplares restantes de Poesia escrita por um prisioneiro sob a barbárie nazista.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Radnóti Miklós… um poema, outra versão

  1. Edu

    Bela tradução.
    Lindo poema.
    O que falar de Miklós Radnóti?
    Notável poeta assassinado por ser “inferior”.
    O Holocausto não matou apenas judeus e outros seres indesejáveis, mas feriu eternamente a humanidade como um todo.
    Tanto pela culpa que carrega como pelas perdas sentidas.

  2. Pingback: Radnóti… nova versão de ‘Hasonlatok’ « HungriaMania

  3. Helio

    Chico!

    Que bela tradução! Assim que o li, falei para minha mulher e li para ela. Ela adorou.

    Já percebeu que estou lendo teu blog, post a post …?

    Köszönöm szépen pela tradução!

    Viszlát.

    • Chico Moreira Guedes

      Kedves Hélio, muito obrigado pela visita e pelas duas mensagens. Fico muito contente que tenha encontrado motivo pra explorar o site, e tocado que tenha visto algum mérito nessa tentativa de tradução desse poema tão especial.
      Que bom que vai à Hungria no outono. Infelizmente não tenho oportunidade voltar lá desde 2008. De onde vem sua ligação e interesse na Hungria e na magyar nyelv? (fiquei em dúvida pelo comentário se sua mulher seria magiar, ou ao menos magyarszármazású).
      Espero poder adicionar posts novos aqui em breve.
      Üdvözlettel.

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