Arquivo do mês: fevereiro 2009

Az Írók Boltja

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Loja dos escritores, é o que Írók Boltja significa (ou de escritores). Livraria fundamental em Budapeste, cheia das histórias.

Da virada do século até os anos vinte e pouco funcionou alí o mais famoso dos cafés da Andrássy út (espécie de Champs Elisées centroeuropeu), a Japán Kávéház, onde se reunia o mais fino bouquet de literatos, artistas e filósofos da cidade, que, aliás, em 1900 tinha, pasmem, perto de 600 cafés, para uma população de 733.000 habitantes, segundo nos conta John Lukacs no seu “Budapest 1900, A historical portrait of a city & its culture”.

Japán Kávéház c. 1907

Japán Kávéház c. 1907

Havia escribas que praticamente “moravam” nos cafés: das suas mesas saíam artigos, críticas e ensaios literários, contos e provavelmente até romances inteiros, e a lenda fala de garçons que eram dublês de agentes literários, até porque certamente lhes interessava cobrir as pinduras dos literati abituês fazendo chegar os textos aos editores e recebendo o devido cachê.

Mas a partir dos anos 50, decaída de vez a vida dos cafés, agora sob o manto cinzento do comunismo, o térreo do Andrassy út 45 virou livraria. E, numa das melhores esquinas de Peste, quina com a praça Liszt Ferenc (o mesmo Franz Liszt dos alemães, que, falar nisso, em magiar quer dizer Francisco Farinha, hehe), a uma quadra do Oktogon, o cruzamento mais quente da cidade (com o Nagy Körút, o grande boulevard em meia lua de Peste), a boltja continuou sua vocação para reunir o melhor da literatura húngara de qualidade. Não vende lixo de auto-ajuda ou aparentados, só arte, dicionários e literatura, inclusive infanto-juvenil. E tem uma pequena mas excelente secção de DVDs de bons filmes húngaros.

Como fui pra Hungria pela primeira vez em 1998, já conheci a Írók Boltja dez anos depois do rendszervaltás, a mudança do sistema que rolou no fim do anos 80, do fim da censura e da política dos “három T”, os três T’s de Tamogatott (apoiado, patrocinado), Tűrt (tolerado) e Tiltott (proibido) que vigorava no velho regime.

irok-boltja-2Daquela vez e das outras em que voltei, a livraria tinha, além do excelente acervo de boa literatura húngara em inglês, francês e alemão, duas coisas que sempre me atraíram: as vitrines produzidas e os eventos literários, quando se enchia de esquisitões centroeuropeus lendo sua ‘próza’, recitando seus ‘versek’, e discutindo literatura. Embora eu não entendesse praticamente porranenhuma, sobretudo no meu primeiro ano, adorava o clima cosmopolita e cultivado que se respirava alí.

E muitas vezes, nos dias calmos, sentei à uma das mesas redondas, numa daquelas cadeirinhas tipo gerdau clássica, pra folhear, fuçar, e traduzir coisas. E foi lá que comprei boa parte da minha pequena hungariana.

Num desses dias, ano passado, aproveitei o tema de uma antologia para anotar os sete pecados capitais em magiar, e, de quebra, relembrá-los em português.

Segue a lista bilíngue pelo bem da nossa elevação espiritual.

Harag /hóróg/ (ira), irígység /iríídshêêg/ (inveja), lustaság /lúshtósháág/ (preguiça), falankság /fólonksháág/ (gula), fösvénység /föshvêênhishêêg/ (avareza), hiuság /ríusháág/ (vaidade), e bujaság /búiósháág/ (luxúria).

PS linguístico sobre o nome da loja: Ír é o radical de “escrever”, író é escritor, e como o plural em húngaro é em k, írók = escritores.
Bolt é loja, mas como a posse em húngaro se marca sempre (embora nem sempre somente) na coisa possuída, então a loja que é dos escritores é que vai ter a marca da relação de “posse”, e pra isso serve o “ja” final. É como se disséssemos em português: “escritores loja-dos”. Um barato né? A pronúncia é “íírôôk boltya”.

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Radnóti Miklós… um poema, outra versão

Aqui vai outra versão que acabo de fazer (hoje são 12 de julho de 2009) para o poema Hasonlatok, de Radnóti Miklós. Abaixo encontrarão ainda o original em magiar, minha versão anterior, que deu origem ao post, mais a nota biográfica sobre o poeta.

As mudanças principais em relação à primeira versão são:
Primeiro, o título: pensando melhor achei que, como hasonlat e o verbo hasonlít, que significa parecer, têm a mesma raiz, parecências, ou semelhanças, dão um sentido mais fiel ao original. O ‘-ok‘ final, como devem lembrar, marca o plural do substantivo (hasonlat – hasonlatok).

Outra mudança veio de eu me dar conta que no final do terceiro verso da quinta estrofe há o adjetivo ép (= inteiro, íntegro), e não o advérbio épp (= justamente, exatamente, precisamente). Sutil, né? Mas faz diferença, inclusive na pronúncia: ép é “êêp”, dito sem interrupção, e o segundo, épp, se diz “êê-p”, com uma leve pausa antes do p.
Agora é ler e ver o que dá…
Continuar lendo

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nomes invertidos

Um dado importante sobre os nomes húngaros: o sobrenome antecede o nome. Sempre. Na escrita e na fala, não interessa, a ordem é primeiro o sobrenome, depois o nome de batismo. Assim, as três cantoras do clipe que juntei ao primeiro post, Herczku Ágnes, Bognár Szilvia e Szaloki Ági seriam, na ordem ocidental,  Ágnes Herczku, Szilvia Bognár e Szaloki Ági.

Há tradutores e editores, talvez a maioria, que gostam de aportuguesar, ou ocidentalizar, melhor dizendo, a ordem dos nomes. Não é o meu caso. Aliás, estou explicando isso logo porque pretendo, aqui no blog, deixar sempre os nomes como eles são em húngaro.Vão se acostumando.

Meu amigo Orobej Norbert, deBudapeste, me disse uma vez que a inversão que os não-húngaros fazem dos nomes húngaros o incomoda, sente-se estranho chamado de Norbert Orobej. Foi um mais um alerta pra mim.

Por outro lado, certamente há correspondência entre muito nomes húngaros e nomes ocidentais comuns, inclusive os portugueses. Claro que Szilvia é Silvia mesmo, inclusive pronunciado quase exatamente igual. A diferença é que, como em magiar se pronuncia todas as letras igualmente, fica “Silvi-a”, bem explicadinho, e o l é l mesmo, como o dos gaúchos da fronteira, portanto nada de “Siuvia” como nós dizemos na maior parte do Brasil.

Ágnes corresponde ao nosso Inês, mas o nome húngaro se pronuncia “Ágnésh”, com o a bem aberto. E Ági é a forma carinhosa, o “diminutivo” de Ágnes, tipo “Inesinha”.

Os sobrenomes em húngaro, como os nossos, muitas vezes derivam de nomes de profissões. Bognár, da Bognár Szilvia, por exemplo, significa fabriante de coches, carruagens, carroças. Szabó, outro sobrenome muito comum, significa alfaiate, o “Taylor”, dos anglossaxões (será que acertei com a nova ortografia?).

Outra fonte muito comum dos sobrenomes é o lugar ou região de procedência de algum velho antepassado. Esses sobrenomes são normalmente terminados em -i, que é um sufixo adjetivador, como os nossos -ense, -ano. Natalense em magiar é Natali, portanto.

Por hoje é isso.

Curtam aí um clipe dum gordinho cheio de suíngue, Molnár Ferenc, vulgo Caramel, que foi vencedor dum “Fama” húngaro chamado “Megasztar”, em 2005, acho. A música é Mennem kell, “Tenho que ir embora”, que o que tenho que fazer agora…rsrs

abraços,

Chico

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zsönglőrködés… malabarismos da escrita magyar (1)

Teréz Körút 27

Teréz Körút 27

Vamos e convenhamos, a sopa de letrinhas e acentos da escrita húngara costuma causar indigestão a muita gente que se aproxima do idioma dos magiares pela primeira vez. Mas garanto, a azia passa logo, basta ir aos pouquinhos se acostumando com os ingredientes da receita. Ao final vão ver que, uma vez aprendidos, as letras e acentos do húngaro formam uma ortografia perfeitamente regular foneticamente, coisa que a nossa querida língua portuguesa está bem longe de proporcionar. Em húngaro todas as letras são pronunciadas, e sempre da mesma forma.

Em vez de fazer uma longa lista de letras e sinais, vamos tratar o negócio aqui homeopaticamente.

Pra começar, muito do que pra gente parece uma combinação de duas letras funciona no húngaro como uma letra só, com entrada diferenciada no dicionário e tudo mais.

É o caso do ZS, que começa a palavrinha comprida do título acima. O ZS é a última letra do alfabeto húngaro, que tem, não se assustem, 44 letras, e tem sempre o som de g em gelo, ou j em jeito.

Por exemplo, Zsír, que significa banha, sebo, mas hoje virou gíria de adolescente significando mais ou menos “sinistro”, ou “demais”, se pronuncia simplesmente “giir“, sendo que o erre final é como o dos paulistas, enrolado.

Perceberam que eu coloquei dois ii na pronúncia? Pois é, o í, acentuado, que tem em zsír também é uma letra à parte, é um i longo, e deve durar o tempo de dois i na hora da pronúcia, daí o… “giir

Porque vogal curta e longa em húngaro é negócio importante, esquecer isso pode dar confusão de entendimento.

Por exemplo, no citado “palavrão” do título zsönglőrködés, que significa mesmo malabarismo (e vem obviamente do francês “jongleur”, malabarista), aparecem ö e ő. Pros húngaros elas são duas letras diferentes, embora tenham o mesmo som, têm durações diferentes, ö é curto, e ő é longo. O som delas é uma espécie de  “êô” dito fazendo leve bico com os lábios, como o “eu” de “feu”, fogo em francês, só que um curto e um longo.

O n é sem mistério, o g tem toda vida, sempre, som de g em galo, e gol, o l é também como o nosso, o k é sempre o som de k mesmo, ou c em casa, o d é igualzinho ao nosso.

Fica faltando o é, que também é letra à parte, e representa o som de ê, nosso, sendo longo, como em êêpa, que é isso! E o s, que em húngaro representa sempre o som de ch em chave, ou chuva, ou de x em xadrês.

O famoso Puskás, ídolo da gloriosa seleção húngara dos anos 50, para os húngaros é “Pushkásh”

Então o dragão virou quase uma lagartixa… zsönglőrködés se pronuncia marromeno como… jêôn-glêêôr-kêô-dêêsh, só que fazendo biquinho francês para as três primeiras sílabas.

Fora esses sons feitos com biquinho, não há nenhuma pronúncia complicada em húngaro pra quem fala português.

Depois veremos mais sopa de letras à Budapeste. Aliás, sopa em húngaro é leves (lévesh), fácil e geralmente deliciosa. A minha favorita sempre foi gombaleves, sopa de cogumelos… ah, saudade!

Abraços,

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Sziasztok!

Bem vindos!

Inauguro agora essa válvula de escape virtual pra minha mania de coisas magiares. Aqui pretendo partilhar com quem se interessar minhas incursões pela literatura, poesia e outras coisas culturais húngaras que me dão prazer fuçar, ler, traduzir, ouvir. E que me fazem bem ao espírito também, seja lá o que isso signifique.

Pros mais linguisticamente afoitos, pretendo dar também uns toques sobre a língua magiar, “a magyar nyelv”, como eles dizem. E, aos poucos, vou explicando como a língua e cultura magiares entraram na minha vida até virar esta mania de estimação.

Por enquanto tou me adaptando a essa história de blog, arrumando o visual, treinando as ferramentas. Mas não demora e já estarei postando o miolo do negócio.

Enquanto isso, sugiro darem uma conferida nestas três gatas magiares, Herczku Ágnes, Bognár Szilvia e Szalóki Ági cantando uma toada hipnótica da tradição popular húngara.

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