Viszontlátásra. /Até outra vista.

Queridos amigos,

A partir de hoje este blog entra em recesso por tempo indefinido.

Neste momento da história não me sinto inclinado a escrever nada sobre a Hungria.

Por outro lado vou continuar lendo e amando as obras de autores de origem húngara, que produziram e ainda produzem uma das literaturas mais importantes da Europa, e vou continuar amando a estranha língua em que eles escreveram; às vezes, como no caso de Márai Sándor, muitos livros escritos no exílio, durante a vida do autor como refugiado em um país estrangeiro, destino de tantos e tantos milhares de outros filhos da Hungria, que formam a grande diáspora de língua magiar mundo afora; mas também – caso imensamente mais triste – livros escritos por grandes autores que foram aniquilados pela intolerância e o racismo de parte de seus próprios compatriotas em aliança com o pior que a Europa conheceu no século XX, como no caso de Szerb Antal, e Radnóti Miklós, para ficar apenas em dois dos meus mais conhecidos e favoritos, por que a lista dos intelectuais e artistas vítimas do nazi-facismo na Hungria é extensa demais pra caber num post de despedida.

Agradeço de coração a todos os amigos e amigas que durante estes anos  têm me honrado e alegrado com sua leitura, com seus comentários gentis, generosos e encorajadores, e com sua amizade.

Quem sabe voltemos a nos ver aqui mesmo em outro momento.

Não estou ‘matando’ o blog, o que já partilhamos aqui vai continuar disponível neste endereço, e eu continuarei atento a quem me procurar por aqui com alguma pergunta ou dúvida que esteja ao meu alcance esclarecer.

Um abraço fraterno,

Chico

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crédito de nova foto

Não resisti e copiei a bela foto ‘cartão postal’ de Budapeste acima que encontrei no site Let’s learn Hungarian

Para quem nunca foi lá, a foto deve ter sido tirada da Margít híd, a Ponte Margarida, e tem o prédio neo-gótico do Parlamento do lado direito, em Pest, a Lánc híd, a Ponte das Correntes sobre o Duna/Danúbio, e o Budai Vár, o Castelo de Buda, na direita.

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Crédito de imagem

A nova imagem de cabeçalho, de um exemplar antigo de bordado húngaro, foi obtida no site do Núcleo de Memória do Mosteiro  São Geraldo de São Paulo.

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Sobre Fachadas ‘Subversivas’ na Era Kádár

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Em seguida à Segunda Guerra Mundial, um tipo especial de habitação popular se proliferou na Hungria comunista: o cubo. Na reconstrução do país no pós-guerra o Cubo Húngaro, (Magyar Kocka*, em húngaro) tornou-se uma forma onipresente de arquitetura residencial padronizada. Uma das poucas maneiras que as pessoas tinham de personalizar essas casas como que cortadas com uma forma de fazer biscoitos era decorar suas fachadas.

No seu livro Hungarian Cubes: Subversive Ornaments in Socialism,  a artista germano-húngara Katharina Roters documenta o individualismo encontrado na ornamentação dessas casas, às vezes chamadas Kádár Kocka, ou Cubo Kádár, em referência ao líder comunista [pós-1956] Kádár János. A série de imagens começou em 2003 quando Roters mudou-se da Alemanha para uma pequena aldeia húngara. Ela começou fotografando as fachadas das casas locais, expandindo depois o projeto para aldeias em todo o país.

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Suas fotos se concentram nos designs abstratos coloridos das fachadas dessas casas-caixotes. Roters apagou digitalmente fios de eletricidade, galhos de árvores e outros obstáculos visuais, permitindo que as formas geométricas apareçam na sua integridade arquitetônica. Vistas uma atrás da outra, as diferenças marcantes de cores e desenho surgem contra o pano de fundo da estrutura uniforme das casas. “Essa prática é uma subversão inconsciente que vai na contramão do conformismo visual coletivo doutrinado”, diz a artista ao site DEZEEN.

*Kocka se pronuncia /kótska/, já que a letra c tem som de ts, em magiar. Daí que Ferenc (Francisco) se diz /Férents/, e não /Ferenk/, como se ouve às vezes por aí ;)

O post acima é uma tradução feita por mim do artigo The Magnificent Facades of Hungarian Cube Houses, encontrado no site FAST COMPANY. Várias outras fotos ilustram artigo original, vale a pena conferir.

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2 videos legais sobre os magyarok e Magyarország*

*[Os húngaros e a Hungria, em língua magiar]

Visitando o site do Departamento de Letras Orientais da USP sobre o Curso de Difusão Cultural de Língua e Cultura Húngara [ver AQUI], para o qual Tereza Zabo me chamou a atenção, encontrei dois videos interessantes, que compartilho abaixo.

O primeiro é uma reportagem longa, bem abrangente, sobre a imigração e a comunidade de origem húngara no Brasil, centrado sobretudo em São Paulo, porque – claro – foi lá que se estabeleceu a maior parte dos magiares da diáspora no país. Como é uma produção húngara, há muito pouca coisa em português, mas mesmo para quem não conhece a língua, as imagens contam uma história bastante rica.

O segundo é uma campanha de atração de turistas do Ministério do Exterior da Hungria que – além de muito bonita – me parece muito inteligente, porque ressalta o gênio criativo e inventivo dos húngaros sobretudo dos últimos 100 anos. Acho que muitos – como aconteceu comigo – vão se surpreender com o número de invenções importantes do mundo moderno que se devem a húngaros.

Vamos aos videos…

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Uma feliz surpresa numa festa de casamento na Hungria rural de 1942

Sziasztók!

Outro dia, na introdução à primeira parte da entrevista de Krasznahorkai László, escrevi que estava preparando um texto baseado nas memórias de uma amiga, lembram?

Pois bem, com algum atraso por motivos alheios a minha vontade finalmente trago aqui uma primeira amostra das memórias de Elisabeth Móricz Varga, amiga húngaro-baiana muito querida que ganhei através do blog, e que certamente alguns de vocês que frequentam o HungriaMania também conhecem.

Meses atrás recebi pelo Sedex um volume informalmente impresso intitulado Do amanhecer ao entardecer da vida com uma dedicatória muito gentil e afetuosa, que me deixou muito alegre e curioso. Descobri depois que era um de apenas cinco exemplares que Elisabeth tinha mandado imprimir e fiquei também honrado e comovido.

Ainda assim, não imaginei o impacto que a leitura me causaria. Resumindo ao máximo, para que possam ir logo ao que interessa, as memórias de Elisabeth são a própria história turbulenta da Hungria a partir do final do anos 30, contada com muita verve e bom humor e com um talento narrativo que honra a memória de Móricz Zsigmond, seu tio paterno mais velho, provavelmente o maior escritor do Realismo húngaro.

Escolhi para começar um trecho leve e divertido, mas muito evocativo e com um fecho que acho bem interessante; também porque me fez lembrar imediatamente um delicioso conto de Jókai Mór chamado Divertimento forçado, que abre a nunca suficientemente elogiável Antologia do Conto Húngaro, selecionada e traduzida por Paulo Rónai no final dos anos 50.

Com vocês uma descoberta de uma mocinha da Capital no mundo rural da Hungria dos anos 40.

“Ágnes, minha irmã mais velha, casou-se com um rapaz chamado Lőrinc(1) no dia 25 de dezembro de 1942.  

Primeiro houve o cerimônia civil em Budapeste, mas o casamento religioso foi celebrado na casa dos pais do noivo perto de Debrecen, no Leste da Hungria, onde o pai de  Lőrinc era administrador da propriedade rural de um barão que não se ocupava das coisas da fazenda mas mantinha lá uma residência, onde aparecia vez por outra. Nessa ocasião ele cedeu seu kastély(2) – como o povo chamava os palacetes da Aristocracia na Hungria – para a família da noiva.

Lőrinc, que servia o exército como tenente, e ficava muito garboso no seu uniforme, conseguiu alguns dias de licença para o casamento. Bálint, meu irmão mais velho, também cumpria serviço militar, como aspirante a tenente. Ele era muito bonito e, uniformizado, ficava ainda mais aos meus olhos de menina-moça.

Nessa época – em plena Segunda Guerra Mundial – não era possível aos civis viajarem de trem, que eram usados para o transporte das tropas, mas de alguma forma conseguimos uma cabine de seis lugares e junto com o jovem casal de noivos seguimos mamãe, Bálint e eu para as terras do barão. Papai não pode viajar e Bandi não recebeu licença para se afastar de Budapeste, porque precisava comparecer às aulas da preparação da juventude. Judite, minha irmã mais nova, ainda era muito menina para viajar.

Quando chegamos à propriedade, distante uns vinte e cinco quilômetros de Debrecen, a cinco quilômetros da estação de Ohat, encontramos uma movimentação enorme com os preparativos para a festa, que ia durar três dias. 

A casa da família de Lőrinc, que já era bem grande, mais o Kastély emprestado pelo Barão acolheram parentes vindos de todas as partes da Hungria, até da Romênia chegaram convidados. Entre eles havia muitos jovens, assim não faltava parceiro para dançar.

Ainda cansadas da viagem, mamãe e eu ficamos exaustas  ao final desse primeiro dia de preparativos e fomos dormir. Mas no dia seguinte à tarde, quando a festa começou para valer, nos reunimos aos outros convidados. 

Depois da cerimônia de casamento os noivos viajaram logo, mas nós e os muitos outros convidados ficamos e nos divertimos muito durante três dias sem parar.

Tudo aquilo era novo e impressionante para mim. As animadas comemorações eram um turbilhão de cores, sons sabores e emoções para os meus olhos de adolescente. E  uma grande surpresa ainda me aguardava! 

Além de receber com muita fartura tantos parentes e convidados, o sogro da minha irmã, que também se chamava Lőrinc, proporcionou uma festa de arromba para os camponeses que trabalhavam da fazenda, fornecendo uma barrica de vinho e farta alimentação: mataram boi e porco, e as carnes eram assadas em enormes espetos de madeira que giravam sobre o fogo. Só observar o alegria espontânea do povo para nós já era uma atração especial. 

A festa dos camponeses foi realizada no celeiro dos carneiros, um grande prédio fechado que havia na fazenda para proteger os animais durante o rigoroso inverno da Grande Planície Húngara. O galpão tinha dezenas de metros de comprimento e largura, pois precisava abrigar centenas de animais.

Para o povo poder dançar espalharam palha de feno pelo chão, e armaram um palco para uma banda de ciganos que tocou a noite toda. Todos davam muitas risadas sonoras.

Estávamos nos divertíamos no nosso baile de casamento, mas ouvíamos de longe aquela música animada e as risadas de alegria; então em um belo momento um dos primos de Lőrinc – por sinal um rapaz muito bonito, chamado Szilágyi József, por quem imediatamente caí de amores, e ele por mim, me convidou: “Erzsébet!(3) Vamos lá, vamos ver como o povo se diverte, você não quer vir?” Eu fiquei interessadíssima, acho que iria a qualquer lugar só para ficar perto dele. Então nós e outros jovens convidados da família resolvemos dar uma espiada no baile dos peões. Claro que antes fui pedir licença à minha mãe – eu ainda era muito boa menina. 

Quando nos aproximamos fomos contagiados pela alegria dos camponeses e logo entramos no meio para dançar. E posso garantir: essa parte da festa era muito mais animada do que a nossa.

A música tocada pela orquestra de ciganos era a csárdás(4), uma dança tipicamente húngara, muito empolgante, cheia movimentos rápidos, muito giros e batidas de pés. Eu nunca antes havia estado antes numa festa tipicamente húngara e popular, e amei cada minuto que ficamos lá. 

Eu já sabia dançar a csárdás, todos os húngaros sabem dançá-la, mas descobri naquele dia a diferença enorme entre a csárdás do povo e a csárdás dos bailes de gala.”

(1) pronuncia-se /Löörints/

(2) pronuncia-se /cóshtêêi/

(3) pronuncia-se /Érjêêbet/, equivalente magiar de Elisabeth.

(4) pronuncia-se /tcháarrrdaash/

Veja aqui amostras da vivacidade contagiante de csárdás dançada por casais participantes de um Concurso Nacional de Danças, em Eger, que encontrei agora:

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Não preciso de nada daqui, por Krasznahorkai László

Eu deixaria tudo aqui: os vales, as colinas, os caminhos, e os gaios dos jardins, deixaria aqui as válvulas e os padres, céu e terra, primavera e outono, deixaria aqui as rotas de escape, os anoiteceres na cozinha, o último olhar amoroso, e todas as direções para a cidade que fazem estremecer, eu deixaria aqui o anoitecer espesso caindo sobre a terra, a gravidade, a esperança, o encantamento, e a tranquilidade, deixaria aqui os que amo e que me são próximos, tudo que me tocou, tudo que me chocou, fascinou e elevou, deixaria aqui o nobre, o benevolente, o prazeroso, e o demoniacamente belo, eu deixaria aqui o broto que se abre, todo nascimento e existência, deixaria aqui o encantamento, o enigma, as distâncias, a inexaustibilidade, e a intoxicação da eternidade; pois aqui eu deixaria essa terra e as estrelas, porque não levaria nada daqui comigo, porque andei vendo o que vem aí, e não preciso de nada daqui.

PS: traduzi este texto da versão em inglês [não encontrei o original magiar] feita por Ottilie Mulzet e publicada no ASYMPTOTE, um jornal virtual dedicado à tradução literária.

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