Não preciso de nada daqui, por Krasznahorkai László

Eu deixaria tudo aqui: os vales, as colinas, os caminhos, e os gaios dos jardins, deixaria aqui as válvulas e os padres, céu e terra, primavera e outono, deixaria aqui as rotas de escape, os anoiteceres na cozinha, o último olhar amoroso, e todas as direções para a cidade que fazem estremecer, eu deixaria aqui o anoitecer espesso caindo sobre a terra, a gravidade, a esperança, o encantamento, e a tranquilidade, deixaria aqui os que amo e que me são próximos, tudo que me tocou, tudo que me chocou, fascinou e elevou, deixaria aqui o nobre, o benevolente, o prazeroso, e o demoniacamente belo, eu deixaria aqui o broto que se abre, todo nascimento e existência, deixaria aqui o encantamento, o enigma, as distâncias, a inexaustibilidade, e a intoxicação da eternidade; pois aqui eu deixaria essa terra e as estrelas, porque não levaria nada daqui comigo, porque andei vendo o que vem aí, e não preciso de nada daqui.

PS: traduzi este texto da versão em inglês [não encontrei o original magiar] feita por Ottilie Mulzet e publicada no ASYMPTOTE, um jornal virtual dedicado à tradução literária.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Fala Krasznahorkai László [final]

Conforme prometido, eis a segunda (e última) parte da entrevista de Krasznahorkai László, concedida à jornalista Dömötör Ági, do site origo.hu em 2011. Agora ele fala de seus leitores jovens, da relação com outros escritores, da sua visão sobre o futuro da literatura, das perspectivas para a própria humanidade, e mais.

Bom proveito! És jó hétvégét! [E bom fim de semana!]

20110415krasznaho3

Krasznahorkai László, foto de Mudra Lászlo para origo.hu

DA: O Senhor costuma dar uma olhada na internet no que os leitores dizem das suas obras? Há grupos de leitores que batem papo sobre seus livros, outros que comentam suas entrevistas.

KL: Conheço muito poucos, se está se referindo aos húngaros. Recentemente num desses um blogueiro sugeriu que eu devia ser enforcado. Vesti meu escafandro, liguei a ignição e dei uma esticada até a lua.

DA: Bem, esse eu não encontrei, mas fiquei surpresa com quanta gente se entusiasma nos comentários sobre seus livros. E vi que não são estudantes  ligados nas letras os apaixonados pelo senhor, mas jovens bem dentro da média.

KL: Isso é tranquilizador, mas na verdade não surpreende tanto. Talvez seja por eles estarem menos suscetíveis às influências, talvez porque gostem de ser vistos como livres, ou, ainda mais do que isso, de verem alguém enfrentar quem ou o que quer que seja quando se trata de algo que lhes diz respeito, porque no caso deles nada está resolvido ainda.

DA: Que relação o senhor tem com seus colegas de literatura magiar? Costumam se mandar emails? O senhor escreve, digamos, pra Spiró György dizendo gostei do seu último livro, Gyuri [Jorginho]? Pergunto porque a partir de uma entrevista pareceu que se sentia alheio à vida literária.

KL: Não é que me sinta assim apenas, eu sou assim. Isso não significa que eu não me alegre quando me encontro com algum colega digno de admiração aos meus olhos, afinal somos companheiros de sina. Essa coisa com que eles se ocupam – a saber, a literatura -, por hora ainda dá para ir enchendo prateleiras, mas cada vez com mais dificuldade. Essa espécie de articulação chegou realmente ao fim. Isso é um processo bastante evidente, ele apenas transcorre com velocidade diferente em cada ponto diferente do mundo. Essa forma de literatura, sinto dizer, não é sustentável.

DA: O senhor quer dizer que não apenas o prestígio da literatura acabou, mas o gênero literário inteiro?

KL: Vai desaparecer o livro da chamada alta literatura. Eu não confio em esperanças parciais de que haverá ilhas em que a literatura continuará importante, e que ela sobreviverá para sempre. Gostaria muito de dizer essas coisas cheias de pathos, só que não acredito que sejam verdade.

DA: E o que farão os que hoje leem?

KL: Provavelmente não irão ler. Poderá a humanidade voltar a pensar por si própria? Entendo por pensamento o que alguém pensa originalmente, sem ser pautado. Quando eu leio obras de pessoas pensantes isso me inspira a pensar, mas ao mesmo tempo cria categorias para mim, não me deixa em liberdade. Entre o riacho murmurante de Heráclito e a pessoa agora há um livro. Talvez chegue o tempo em que entre ela e o riacho murmurante já não haja nada. E ela poderá se molhar à vontade.*

DA: O senhor acha que vamos perder o hábito de ler porque estamos nos tornando preguiçosos. Mas o pensamento exige um esforço maior do que a leitura.

KL: A senhora não está considerando que ocorrem catástrofes na história humana, e as catástrofes compelem a humanidade a pensar. Mas ainda tenho outra proposição: voltará uma pós-pós-pós-moderna sacralidade. Voltará a força sagrada da palavra falada, e a palavra escrita servirá para anotá-la. Não estou pensando em algum mundo arcaico, onde vagaremos em torno de alguma Stonehenge, senão que em bases completamente transformadas, tenhamos naturalmente uma visão de mundo completamente transformada. Consigo imaginar muitas alternativas, menos esta: de irmos adiante da maneira que vamos hoje.

DA: Sebald e Susan Sontag elogiaram suas obras, Allen Ginsberg foi seu amigo. Que reconhecimento foi o mais importante na sua vida até agora?

KL: Os da adolescência. Essa é a idade em que a pessoa está mais rendida à opinião dos outros. Um dos reconhecimentos que recebi foi de meu professor do ginásio Banner József, que me apoiou continuamente com encorajamento e reconhecimento. Ele sempre me expunha na aula de [língua] magiar como modelo de como se devia fazer. Eu ficava terrivelmente orgulhoso, porque tínhamos o maior respeito por ele, e o reconhecimento de uma pessoa assim significou mais do que eu poderia expressar. Da mesma forma, quando meu primeiro escrito foi publicado passei a ter relações literárias que até então eu não conhecia. Para mim a literatura significava Weöres Sándor, Pilinsky, Hajnóczy, e eu não conseguia imaginar que eu viria a fazer parte disso de alguma maneira, especialmente não no mesmo patamar, aliás eu ainda não acredito nisso. Quando fui apresentado pela primeira vez a Mészöly Miklós, e Mészöly Miklós me disse que uma novela minha havia tido uma influência gigante para ele, a senhora não pode imaginar a enormidade que isso significou para mim. Se isso não acontece, é possível que minha vida tivesse tomado outro rumo.

DA: Se alguém, digamos, nunca leu nada do senhor, mas agora lê esta entrevista e pensa: que cara interessante, vou dar uma olhada no que ele escreve, que livro o senhor sugeriria a essa pessoa? Qual pode ser a porta de entrada para sua obra?

KL: O Velho Testamento. O Livro das Revelações. Que escolham aleatoriamente entre os meus livros.

DA: No seu último livro, Állatvanbent**, imagens acompanham os textos. Como nasceu esse livro?

KL: Uma imagem foi o ponto de partida, a primeira que aparece no livro. Em 2004 Max Neumann veio à minha casa jantar e trouxe uma imagem pintada por ele. Essa imagem me assustou muito, não consegui dizer nada, e depois disso também não falamos mais sobre ela. Aí algum tempo depois ele me ligou e foi direto ao assunto: László, se você não gosta da imagem, jogue fora. Eu disse a ele não se trata de não gostar da imagem, o caso é que eu olho para ela e não consigo me livrar dela, por que tenho medo dela. Tem um monstro preso nesse campo geométrico deteriorado, estranho, puritano. Foi assim que começou.

imagem de Max Neumann do livro Állatvanbent

imagem de Max Neumann, do livro Állatvanbent / Animalinside

Mais tarde me procuraram para eu escrever sobre tradução literária. Mas que diabo saberia eu escrever sobre isso? Mas tanto insistiram, que me ocorreu: que tal se eu traduzisse uma imagem para uma outra linguagem. Eles disseram, excelente. Então me sentei, saltou um texto, que agora está aí, no início do livro. Aí mostrei a Max, e perguntei que tal seria se a partir daquele texto ele pintasse uma nova versão, sobre a qual eu escreveria um novo texto, e assim por diante. Mais tarde nos ocorreu que não íamos publicar o que havíamos experimentado, na medida em que isso afligiu a mim e a Max. A essência do texto é a velha natureza do pecado: ele retrata o mal a partir de dentro. Nós sentimos que ambos conseguimos apresentar alguma coisa desse mal.

DA: Quando riu e quando chorou a última vez?

KL: Descontando o fato de que tenho uma filha que praticamente desde os cinco anos eu não posso ver, e por causa disso choro lá dentro, o tempo todo – chorar, mesmo, a última vez, chorei quando rodávamos o Sátántangó, com Tarr Béla, na cena do bar. Um dos personagens, completamente bêbado, cantava uma  canção acompanhado de um acordeão. A canção e a maneira que ele cantava eram tão comoventes que, ali sentado, de repente senti as lágrimas correrem. Mas estranhamente também senti que enquanto me corriam as lágrimas minha perna direita estava totalmente dormente. Aí terminou, voltei a mim, e me vi sentado ao lado de Béla, e olhávamos o monitor. E me dei conta de que Tarr, cuja vista ficara igualmente anuviada, ainda me apertava com uma força tremenda a perna direita, apertou até o final da cena. Para que a gente pudesse fixar aquele momento maravilhoso. Para que nada pudesse interrompê-lo. Para que tudo saísse bem. E saiu. Essa foi a última vez que chorei. Quando foi a última vez que ri? Quando a vi, de alegria. Pelas suas perguntas. Pelo seu interesse. Porque tenho outra vez com quem falar. A quem contar essas coisas.

* A frase final do parágrafo não se encontra na versão original, em húngaro, do origo.hu, usada para esta tradução; mas está na versão mais curta, em inglês, que apareceu no Hungarian Quarterly/Winter 2011 e que, suponho, deve ter sido acrescentada em comum acordo com KL. Como me parece concluir melhor o parágrafo, resolvi colocá-la.

** [Temanimaldentro, ou Contémanimal (literalmente: Állat+van+bent = Animal+tem+dentro), traduzido para o inglês como Animalinside, por Ottilie Mulzet e publicado em 2010 pela New Directions, NY]

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Fala Krasznahorkai László, ganhador do Prêmio Man Booker International 2015

Sziasztók!

Eu vinha trabalhando num post baseado nas memórias escritas por uma querida amiga húngaro-brasileira para voltar ao blog depois desta longa ausência. Mas o anúncio sensacional 10 dias atrás de que Krasznahorkai László tinha ganhado o Man Booker International Prize 2015 me obrigou a mudar de planos.

Amigos ficaram curiosos pelo escritor de nome estranho [pronuncia-se Króssnó-horkó-í], que talvez alguns poucos – como é o meu caso – conheçam apenas das parcerias com o mestre cineasta Tarr Béla [Tórrr Bêêló], que transformou Sátántangó [sháátáán-tongóó] (Tango de Satán), primeiro romance publicado por Krasznahorkai (1985), em um filme de 7 horas de duração. Outras obras adaptadas e/ou scripts de KL dirigidos por Tarr incluem Kárhozat (Danação), de 1988, Utolsó hajó (Último Barco), de 1989, Werckmeister harmóniák, de 2000, A londoni férfi (O homem de Londres), de 2007, e mais recentemente, em 2011, A torinói ló (O cavalo de Turim), nomeado para 14 e ganhador de 7 prêmios internacionais, incluindo o Urso de Prata em Berlim.

Infelizmente nada do que Krasznahorkai escreveu foi publicado até agora no Brasil. Há poucas traduções mesmo em Inglês, mas duas delas, Satantango, por George Szirtes, publicada pela Tuskar Rock Book em 2012, e Seiobo There Below, de Ottilie Mulzet, publicada pela New Directions em 2013, receberam prêmios de tradução importantes, o que sem dúvida aumentou a visibilidade deste especialíssimo autor e pensador magiar fora da Hungria, e resultou agora nesse prêmio internacional para autores de língua estrangeira publicados em língua inglesa.

Sem mais delongas, deixo-os com a 1ª parte da entrevista de Krasznahorkai concedida em 2011 a Dömötör Ági, editora cultural do portal de notícias húngaro origo.hu. KL fala de literatura e de outros assuntos, e, talvez concordem comigo, tem coisas bem interessantes a dizer…

KRASZNAHORKAI LÁSZLÓ: “O MARKETING DA BÍBLIA TAMBÉM É RUIM” *

20110425krasznaho1

Krasznahorkai László, foto de Mudra László, origo.hu

Dömötör Ági: Muita gente tem a impressão de que seus livros são difíceis de ler e de entender, embora isso seja antes um mito. Mas o senhor não acha que seu marketing é ruim?

Krasznahorkai László: Sabe, o problema é que o marketing é ruim para todo mundo que seja um pouquinho sério. O marketing de Kafka também é ruim, o marketing do Velho Testamento também é ruim. O leitor que acha meu texto difícil vai ter dificuldades idênticas com o Velho Testamento. Temos uma cultura de consumo cujo objetivo é produzir a perda de consciência, sem que a nossa consciência se dê conta disso. A manutenção dessa manipulação sem precedentes custa muito dinheiro, e para isso desenvolveu-se um ensandecedor mecanismo global. Esse estado de perda de consciência implica na mentira de estabilidade em mundo vibrátil, o que alimenta uma ideia de segurança em circunstâncias que são no mínimo provisórias. Vejo de forma ligeiramente diferente o papel da imprensa sensacionalista. Não a tomaria como simples vulgaridade, mandando-a ao inferno. A imprensa sensacionalista tem um sentido grave, e esse sentido é ao mesmo tempo trágico e delicado.

DA: As revistas sensacionalistas também saciam nossa sede de histórias e de fofocas, como antigamente faziam as velhas tias das pequenas aldeias nos bancos de praça.

KL: A tia velha da aldeia era bisbilhoteira em um nível bem alto, do qual a moderna imprensa industrial da bisbilhotice está abaixo em muitos degraus. Uma tia velha se encontra no campo visível da pessoa cujo lixo ela remexe. Com dez milhões de pessoas a coisa é diferente. A imprensa sensacionalista não parte da premissa de que as pessoas não entendem ou exigem algo diferente. É muito complexa a estrutura da vulgaridade. Se eu não fosse artista, se fosse cientista social, seguramente sugeriria a mim mesmo que me dedicasse a esse assunto.

DA: A cultura pop lhe chega de alguma forma?

KL: Posso apostar que lhe digo dez bandas de rock de 2011 tão novas que a senhora nunca ouviu nem o nome!

DA: Quer dizer que o senhor frequenta lojas de discos, concertos?

KL: Em Nova York, o apartamento de Allen Ginsberg, onde fiquei, era muito perto do estúdio de gravação de David Byrne, que foi líder dos Talking Heads, e Byrne era frequentava muito a casa de Allen. Costumávamos tocar juntos na cozinha, e assim eu acabei fazendo parte da geometria de muitos ângulos Byrne-Philip Glass-Patti Smith-Ginsberg, onde os artistas davam CDs uns aos outros. Continua assim até hoje. Em Vic Chestnutt, por exemplo, eu nunca tinha ouvido falar antes da morte dele, e no entanto para mim ele é um dos melhores de toda a cultura do rock – um amigo de lá me enviou sua obra completa. Mas a concertos eu vou cada vez menos. Recentemente vi um programa genial em Berlim, chamavam a apresentação de Joan As Police Woman. Foi completamente insano, só que uma das minhas pernas é doente e eu não consigo ficar quatro horas em pé em concertos.

DA: E a televisão ou o cinema lhe interessam?

KL: Filmes eu não aguento ver, mas tenho uma TV, que ligo pra ver principalmente  programas de entrevistas. Televisão húngara vejo pouco, prefiro programas ingleses, americanos, alemães, franceses e espanhóis.

DA: Atualmente como você divide sua vida entre Nova York, Berlim e Pilisszentlászló? /pílish-sent-láásslôô/

KL: Em 2012 estarei em Nova York outra vez. Moro em Berlim, mas hoje em dia estou muito em Pilisszentlászló, e cada vez mais gostaria de ficar por lá. Gosto muito desse lugar.

DA: Muitas obras suas falam alegoricamente da destruição do mundo ou da civilização. Na sua opinião em que outra época as pessoas podem ter se sentido como hoje que ‘acabou, passo, não tem mais jeito’ em relação ao destino de uma civilização?

KL: Houve muita idades parecidas com a nossa, quando as pessoas acharam  que não apenas a civilização, mas o próprio mundo tinha chegado ao fim. Ainda sabemos pouco sobre o fim das primeiras grandes civilizações, sobre os incas, os egípcios, os minóicos, a Dinastia Zhou, na China. Sobre o final da civilização romana sabemos bem mais, porque a partida final durou séculos, e foi bem documentada. Evidente que para o cidadão romano da época, quando Roma finalmente caiu, não foi apenas seu mundo, mas “o” mundo que desabou. Tudo que até então era esfera, a própria inteireza, inesperadamente tomou a forma de um triângulo. Para os cristãos, ao contrário, esse tornou-se o ponto de partida. Para que depois a era cristã, ela própria e seus ideais, enfrentassem seus próprios impasses e crises. Toda história europeia e não-europeia é feita de derrotas e crises. Ou seja, crise é a condição natural da história.

DA: Pelo que diz não vê como especialmente apocalíptica a nossa era. Então por que escreve tanto sobre a destruição nos seus livros?

KL: O apocalipse me toca pessoalmente, porque minha vida vai terminar exatamente da mesma maneira como a de todo mundo. Interessante como a relação com a morte muda ao longo da vida. Na juventude é que a pessoa mais se ocupa com a questão da morte, porque nessa fase pode fazer isso com mais coragem do que depois, quando já começa a se aproximar da sua própria morte e já não lhe sobra tanta. O medo toma o seu lugar. Quando era jovem eu não percebia a santidade do nascimento. Minha inclinação era considerar o nascimento o ponto de partida para a queda, e assim matutava tristemente dias a fio à luz cinzenta da janela sobre o que me fora dado. Tudo que despertava compaixão me marcava muito. Na realidade e na arte eu era sensível em primeiro lugar às obras que tratavam da tristeza, do insuportável, do trágico. E também não sabia o que fazer com tudo que era positivo, que tinha ligação com o prazer. A alegria me incomodava muito.

DA: E quando isso mudou?

KL: Não se pode precisar esses momentos, não porque eles não existam, mas porque nunca sabemos o instante em que alguma coisa dá a volta.

DA: A partir da sua primeira obra a marca mais conspícua é a frase longa. Me parece no entanto que essas frases longas combinam melhor com seus livros mais recentes, de temas orientais, porque esse compasso lento irradia a experiência do tempo das culturas do Leste. Sem-pressa, como os monges que desenham uma mandala. Essa experiência diversa do tempo nas culturas orientais realmente o influenciou?

À concepção de tempo deles não conviria nem a frase longa nem a frase curta, mas sim o silêncio. A estrutura frasal que eu uso é antes resultado de um processo interno. Não escrevo meus textos nem no laptop nem à máquina, e sim na cabeça, em grande unidades, e quando uma dessas unidade está completamente pronta, aí escrevo. Por isso há uma conexão profunda das minhas frases com o discurso vivo, não com o Oriente. Em geral passo meus dias sozinho, assim falo com pouca frequência, mas quando falo é horrivelmente muito e continuamente, nunca coloco ponto, assim como muita gente por aí. Pode prestar atenção que a maioria das pessoas fala do jeito que eu escrevo. O discurso vivo não aprecia frases curtas, o truncamento. Aos meus ouvidos a frase curta é afetada, artificiosa, para mim a frase longa é o único modo natural de retratar o discurso vivo e sobretudo o pensamento.

DA: Na época da mudança de regime o senhor foi à China pela primeira vez, e sob o efeito disso nasceu O prisioneiro de Urga. Muitos críticos consideram esse momento uma virada na sua obra. Além da renovação artística, até onde foi  determinante do ponto de vista humano essa influência? Por exemplo, o senhor tornou-se budista?

KL: Não me tornei. Mas me apaixonei, porque é possível se apaixonar pelo Budismo. É uma visão de mundo escandalosamente sensata, louca e nobre. Fiquei apaixonado, mas por alguma razão insondável, ele não me transformou. Tomemos o Japão. Encontrei um número bastante grande de europeus e americanos que haviam chegado ao Japão com o santo objetivo de mudarem suas vidas. Quando ainda estavam no expresso Narita vindo do aeroporto, ou seja, mal haviam desembarcado e pegado o trem a caminho de Tóquio, seus olhares enlevados denunciavam que acreditavam já estar começando a se transformar em um novo eu. E não era, é triste, mas não era verdade, não estavam chegando a lugar nenhum, a pessoa não pode se libertar do que é. Não assim.

DA:  Eu pensei que tivesse sido uma mudança bem maior na sua vida, já que o Oriente determinou, por exemplo, uma direção inteiramente nova nos seus temas.

KL: O prisioneiro de Urga se passa no Oriente, mas o protagonista é um garoto do Alföld [planície carpática húngara. NT]. E o de Rombolás és bánat,** por sua vez, é um escritor magiar que ama a cultura clássica chinesa. E no romance Északról hegy, Délről tó*** os protagonistas são um jardim japonês e um fantasma que procura esse jardim – um fantasma da cultura da época imperial na Kioto moderna. Foi com muita paixão que eu me voltei para as culturas do Oriente, me dediquei muito, o máximo possível, li muito nas línguas das quais pude me aproximar ou em traduções, vivi lá, fiquei bem familiarizado com essas culturas, mas permaneci aqui. É em vão que uma pessoa daqui tenta transferir-se culturalmente para lá.

DA: Sua esposa é sinóloga, não é?

KL: É sim, e ela me ajuda a compreender e aceitar isso.

DA: Em outra entrevista o senhor contou que quando esteve na China pela primeira vez lhe aturdiu o fato de o país continuar igual ao império dos tempos antigos. Poucos anos depois, em seguida a uma nova visita, indicou que já não tinha a mesma impressão. Fico curiosa, segundo o senhor o que mudou na China em dois ou três anos que não havia mudado em milênios?

KL: Mudou o meu ponto de vista, gradualmente sofri erosão nos dez anos corridos entre as duas imagens da China. Quando estive lá a primeira vez fiquei atordoado de ser possível estar, em 1990, num país que tinha muitos milhares de anos ininterruptos de passado. Isso para um europeu é uma experiência espantosa, para mim sobretudo, que venho da Europa Central, onde compreendemos história apenas como rupturas. Ao passo que lá eu me encontro um dado ano de um fluxo histórico ininterrupto, e não venham dizer que Mao Tse-Tung encerrou e recomeçou a história da China. A china já teve muitos Mao Tse-Tungs.  Naturalmente já houve muitas mudanças dentro da China. Neste momento ocorre uma reviravolta histórica muito importante. O regime político, ao seu modo sempre instável, continua firme, mas em termos econômicos começou um desenvolvimento inaudito nesse império inerentemente terrivelmente pobre. Volta o espírito prático que sempre caracterizou a China, onde a propriedade, a riqueza e o dinheiro desempenham um papel especial. Os chineses se alegram em possuir. Os centros comerciais húngaros têm um ambiente desanimado se comparado com o atmosfera refrescante de um centro comercial chinês, o excesso de brilho é o mesmo, a diferença é que os chineses muito fazem compras com muita alegria. É inacreditável. Parecem crianças quando ganham um bolo de dinheiro.

DA: Estranho paradoxo, que a China comunista seja o império econômico número um, até a América deve a eles. Por outro lado, no entanto, a China é que foi incorporada pelo capitalismo. A segunda metade do século 20 foi de luta entre essas duas ideologias. Na sua opinião, qual delas ganhou?

KL: A ideologia comunista perdurou – chamemo-la, antes, de corporações estado-socialistas – porque o mecanismo que a garante atualmente é legitimado precisamente pela liberdade que ela tornou possível quando se deu conta de que era sua única maneira de sobreviver. E ninguém venceu. Ainda não. A luta ainda nem se agudizou. Vem pela frente.

[Fim da 1ª parte; a parte final virá assim que eu conseguir dar conta da tradução]

*Meu primeiro contato com essa entrevista foi numa versão editada, mais curta, na edição Inverno 2011 da revista (em papel) Hungarian Quarterly, e através das referência contida lá cheguei à versão integral em magiar no origo.hu, base para a tradução acima, de minha (ir)responsabilidade ;)

** título completo: Rombolás és bánat az ég alatt (Destruição e pesar sob o céu), de 2004, que está sendo traduzido para o inglês como Destruction and sorrow beneath the heavens por Ottilie Mulzet.

*** título completo: Északról hegy, Délről tó, Nyugatról utak, Keletről folyó (Vindo do Norte montanha, do Sul lago, do Oeste estradas, do Leste rio), de 2003, atualmente em tradução para o inglês como From the North by Hill, From the South by Lake, From the West by Roads, From the East by River por George Szirtes.

6 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Hungria: de eleições, rótulos, e outras provocações

Sziasztok!

Desde que foram divulgados os resultados das eleições parlamentares de domingo na Hungria tenho lido várias coisas que aparecem nos meus ‘radares’ nas redes sociais. Resolvi traduzir este artigo do jornalista, blogueiro e escritor britânico Neil Clark (mais informações sobre ele no final do artigo) porque para mim ele joga alguma luz nos motivos por que o Fidesz foi re-eleito com uma maioria tão significativa. Como verão, o artigo contém também outros elementos bastante provocadores, que refletem as convicções do autor. Eu pessoalmente gosto de uma provocação bem feita, que me faça pensar, questionar, duvidar, concordar – no todo ou em parte – ou discordar, refutar… coisas que provavelmente também fazem bem aos neurônios, risos. 

Segue-se o artigo, na íntegra:

Eleições na Hungria: Não se deixe enganar pelos rótulos, por Neil Clark*

De um lado temos um governo que fez re-nacionalizações, enfrentou as gananciosas companhias de energia controladas no estrangeiro, e produziu um aumento real dos salários e a queda no desemprego.

Esse governo impôs também uma tributação aos bancos e implementou outras medidas para ajudar as pessoas comuns – inclusive um decreto governamental baixando as contas de energia.

Do outro lado há uma aliança de oposição que é a favor de mais privatizações, pretende outras medidas para beneficiar os “investidores” globais, é abertamente pró-banqueiros e pró-globalização, e cujo principal membro aliado, quando esteve no poder, produziu cortes drásticos nas despesas públicas, destruiu companhias estatais, incluindo a companhia aérea Malév, e deixou milhões de de pessoas em situação pior do que antes.

Bem, você provavelmente pensaria que o governo em questão é “socialista” ou “esquerdista”, e a oposição, “conservadora”. Mas, na realidade, é o contrário. O governo húngaro, que acabou de ser re-eleito com cerca de 45% dos votos, sem dúvida tem feito mais pelas pessoas comuns do que a oposição “socialista” fez quando esteve no poder de 2002 a 2010 (e digo isso como socialista de toda vida, e não defensor do Fidesz).

A Hungria demonstra que temos que tomar cuidado com os “rótulos” quando se trata de eleições na era do neoliberalismo e da globalização. Pois algumas vezes são os partidos “conservadores” que podem – e conseguem – oferecer às pessoas comuns muito mais do que os “socialistas”, ou que se pretendem de “esquerda” ou “centro-esquerda”.

Falsa esquerda

Em anos recentes temos visto em toda a Europa partidos da dita “esquerda” ou “centro-esquerda” apoiar guerras ilegais da NATO, implementar privatizações, austeridade e outras “reformas” para beneficiar os 1%. Quando os franceses votaram nos socialistas em 2012 provavelmente não imaginavam que estavam elegendo um presidente que era ainda mais belicista que Nicolás Sarkozy, o bombardeador da Líbia, mas foi exatamente isso que aconteceu.

Nem os eleitores britânicos que votaram nos trabalhistas em 1997 podiam prever que Tony Blair levaria o país a uma sucessão de guerras ilegais de agressão, ou que sob o governo trabalhista a diferença entre pobres e ricos continuaria a crescer como tinha acontecido quando os conservadores estavam no poder.

Os alemães que votaram no Partido Social Democrata (SPD) em 1998 também não teriam acreditado que o partido introduziria reformas neoliberais que iriam mais longe do que qualquer coisa feita pela administração anterior, liderada pelos democratas cristãos.

A esquerda europeia definitivamente não é o que era 40 anos atrás, quando tínhamos partidos genuinamente socialistas liderados por socialistas genuínos. Quando votamos em eleições hoje em dia precisamos ter consciência clara da “falsa esquerda”, de como os partidos esquerdistas europeus em anos recentes têm sido dominados por forças pró-guerra, pró-globalização e pró-neoliberalismo, cuja missão é destruir os últimos vestígios do socialismo e da social-democracia – e amarrar firmemente a política externa dos seus países aos EUA, enquanto demonstram total obediência também à UE, bem como forte apoio a Israel.

Os rótulos

Para não sermos enganados, é importante não julgarmos os políticos ou seus partidos pelos nomes que ele se dão, mas pelo que fazem. Enquanto o Primeiro Ministro “direitista” da Hungria combatia as companhias de energia, o ex-Primeiro Ministro Gordon Bajnai, da oposição “esquerdista liberal” pedia o retorno de uma política econômica “racional”, isto é, amiga do capital internacional.

Precisamos fazer uma proposta aos investidores: cortes nos impostos em troca de investimento”, dizia Bajnal.

E enquanto o Ministro da Economia Mihály Varga advertiu que sanções contra a Russia não seriam do interesse nacional da Hungria, (elas claramente não o são) Bajnai e outros membros da Aliança da Unidade “progressista” e “esquerdista liberal” atacaram o governo por não defender a Ucrânia e condenar a Rússia. A agenda da oposição húngara está aí para quem quiser ver.

O povo húngaro, diga-se em seu crédito, não se deixou enganar pelos globalistas pró-grandes empresas mascarados de “progressistas” nesta eleição: o bloco de oposição obteve cerca de 25% dos votos.

A reação internacional aos resultados da eleição na Hungria também é reveladora. Temos visto muitos tweets e artigos de comentaristas do establishment ocidental expressando seu alarme em relação ao crescimento do Jobbik, um partido radical ultranacionalista que obteve em torno de 20% dos votos, 4% mais do que quatro anos atrás.

Curiosamente, no entanto, a mesma turma de comentaristas do establishment que nos nos adverte sobre os perigos do Jobbik na Hungria, poucas semanas atrás apoiava um golpe violento liderado por ultra-direitistas/neonazistas contra um governo democraticamente eleito na vizinha Ucrânia. Parece que não deveríamos considerar como um problema a chegada de racistas, anti-semitas e homofóbicos ao poder na Ucrânia. Mas espera-se que perdamos noites de sono por causa do apoio ao Jobbik na Hungria, embora esse partido não terá membros no novo governo, como os grupos de ultra-direita em Kiev têm atualmente.

Popular anti-popular

Por que os dois pesos e duas medidas? Bom, o Jobbik é anti-União Europeia mas não anti-Russia, diferentemente dos grupos ultranacionalistas da Ucrânia. Em outras palavras, as elites ocidentais baseiam sua visão sobre os partidos ultra-nacionalistas não numa avaliação objetiva desses grupos, mas considerando a posição deles em relação à Russia, e se eles podem ajudar a alcançar seus objetivos geoestratégicos. Devemos odiar o Jobbik com todas as nossas forças, mas não precisamos odiar os grupos mascarados de extrema-direita mais extremistas e mais violentos que, mascarados e atirando coquetéis Molotov, derrubam à força um governo democrático na Ucrânia. Na verdade não devemos nem prestar atenção a eles.

A cobertura negativa que o governo da Hungria recebe da mídia elitista ocidental tem a mesma causa. O governo da Hungria é tratado negativamente na imprensa porque vem se tornando cada vez mais eurocético, afastando-se do neoliberalismo, impôs tributos a multinacionais estrangeiras e – talvez seu maior “crime” – tem buscado laços financeiros mais próximos e maior cooperação com a Russia.

A política de Orbán é permanecer na União Europeia mas rejeitar as suas pressões, e levar a Hungria a fazer o que é melhor para a Hungria. Trata-se de uma posição que é claramente popular com os eleitores, mas não com Bruxelas. A elite ocidental odeia não só o socialismo – socialismo mesmo, não-diluído, do tipo venezuelano – mas qualquer governo que combine nacionalismo moderado com populismo econômico, como Orbán faz. As grandes empresas tiveram vida fácil na Hungria no período de 2002 a 2010, quando os “socialistas” estavam no poder, vendendo os ativos do país e fazendo um empréstimo ao FMI do qual o país não precisava; agora o capitalismo global não anda muito contente com a caminho mais independente adotado em Budapeste.

Ao invés de ficar acabrunhada com a volta de um governo “conservador” na Hungria, a esquerda genuína deveria se alegrar com o fato de a modalidade falsa ter levado outra surra, como ocorreu em 2010. Agora há uma oportunidade de uma oposição de esquerda genuinamente anti-imperialista, anti-globalista, anti-neoliberal e anti-elitista emergir e desafiar o governo e o Jobbik de uma perspectiva socialista na próxima eleição. De qualquer modo, considerando-se o ocorrido nos últimos 12 anos, há mais probabilidade de um governo do Fidesz beneficiar as pessoas comuns do que o governo neoliberal irredutível que a Hungria iria ter agora se a oposição tivesse ganhado as eleições.

Olhando para um quadro mais abrangente, a esperança é de que a derrota da esquerda ‘fake’ na Hungria possa levar à sua destruição também em outros países; com partidos falsamente socialistas/progressistas sendo substituídos por partidos genuínos, que ponham os interesses da maioria em primeiro lugar. Na Alemanha esse processo já começou, como o Die Linke (A Esquerda) desafiando fortemente o colaboracionista SPD.

Enquanto isso é de se esperar que os ataques ocidentais à Hungria continuem. Afinal é o tratamento dado a qualquer país onde uma eleição não sai do jeito que os 1% querem.

* Hungary’s elections: Don’t be fooled by the labels, de Neil Clark, publicado no site RT – Question More

 

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

A Hungria 4 anos depois: volta o medo*

Com a ida dos húngaros às cabines de votação neste domingo (6 de abril), a imprensa internacional vem dirigindo a atenção para o governo do Fidesz, cuja re-eleição é previsível. Nos últimos quatro anos o governo Orbán tornou-se notório por revisões da história húngara, pressão sobre bancos e companhias de energia, tratamento sofrível das minorias, e limitações na liberdade de expressão.

Algo que tem faltado em boa parte da cobertura sobre a Hungria, no entanto, é o aumento do medo na sociedade húngara. Alguns poucos jornalistas húngaros tem tido a coragem de falar das suas experiências com a intimidação e a censura, especialmente na imprensa estatal, onde certos assuntos não podem ser tratados. Alguns ex-funcionários estatais, desde o ex-membro da administração do Fidesz na área da agricultura, Ángyan József, até burocratas do Banco Central têm denunciado corrupção e intolerância com opinião dissidente em todo o aparelho governamental. O Fidesz e a oligarquia de seus apoiadores controlam não só a burocracia estatal e a maior parte da mídia, mas também muitos negócios e contratos governamentais. Maridos, esposas e amigos de figuras da oposição, portanto, não conseguem empregos. O resultado é que alguns húngaros passaram a ter medo de expressar suas opiniões.

Esse medo se estende para além dos ministérios e órgãos de mídia. Existe em empresas privadas, nas escolas, e em lares por todo o país. Na sua raiz, o medo provém do declínio das instituições democráticas da Hungria e da falta de controles sociais sobre o poder do partido no poder. Nos últimos quatro anos o Fidesz vem usando sua maioria de dois terços no parlamento para assumir o controle de instituições nominalmente independentes. O Conselho de Mídia, que supervisiona ambos a imprensa oficial e a imprensa privada, é dominado por membros leais ao Fidesz. Juízes da mais alta corte foram obrigados a se afastar para dar lugar aos nomeados por Orbán, solapando-se assim o papel do judiciário de fiscalizador das ações do executivo. Não há, portanto, qualquer instituição para defender as pessoas despedidas por motivos políticos, ninguém disposto a iniciar uma investigação sobre a censura.

O medo não é, é claro, comparável ao medo que sentem chineses, uzbeques, ou iranianos, que vivem sob regimes muito mais fortes e autoritários. Mas a volta do medo à Hungria após uma ausência de duas décadas é um fato significativo. Ele tem um impacto no dia-a-dia de milhões de pessoas, e não tem lugar em uma sociedade democrática morderna. A existência desse tipo de medo dentro da União Europeia deveria disparar alarmes em todo o continente.

O Fidesz provavelmente ganhará as eleições, mas o medo não tem que continuar junto com o governo Orbán. Embora os tribunais não sejam mais independentes, os cidadãos podem buscar a União Europeia, que deve aliar ações concretas à sua retórica, inclusive suspendendo verbas da UE enquanto a Hungria continuar violando os direitos de seus próprios cidadãos. Funcionários públicos que se depararem com abusos de poder devem denunciar. Cidadãos comuns precisam se sentir no direito de debater os eventos atuais com seus amigos, vizinhos, e colegas de trabalho. Há membros do Fidesz que veem com reserva a direção do seu partido. Eles devem desafiar sua liderança. Como Vaclav Havel escreveu em O Poder dos Sem-poder, temos que viver dentro da verdade.

*tradução (minha) de “Hungary four years on: the return of fear“, artigo de @liliebayer para o site Vostok Cable, que me chegou hoje pelo twitter via @ZwKrakowie (Zoltán Aszod). 

 

 

PS:Para quem lê inglês, no Christian Science Monitor de hoje há um artigo de Valentina Jovanovski também sobre as eleições parlamentares na Hungria: Hungary heads to the polls. Is it a ‘free but unfair’ election?

8 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Poesia nas vidraças de Debrecen*

Nos últimos dias vêm aparecendo poemas e versos escritos nas vidraças de lojas, bancos, bares e instituições públicas de Debrecen, cidade do nordeste da Hungria onde morei no final dos anos 90, como alguns devem lembrar de outros posts.

Nas janelas da Escola Secundária de Música estudantes de Comunicação da Universidade de Debrecen escreveram o longo Bartók, poema de Illyés Gyula escrito em 1955 e dedicado ao célebre músico e compositor, também conhecido, sobretudo na Hungria, por sua extensa pesquisa da magyar népzene, a rica música de raiz popular magiar.

Surgiram também, por exemplo, versos de Petőfi Sándor na vitrine de uma loja de bolsas, e algumas linhas de Ady Endre decorando a vidraça de um banco. 

“Preparamos esta ação através de contatos pessoais diretos. Os proprietários de estabelecimentos comerciais receberam bem a ideia, assim como os dirigentes das instituições culturais”, afirma Vranyecz Tünde, responsável pela organização.

Imagem

 

O objetivo da iniciativa, inédita na Hungria, é aproximar, pelo impacto e surpresa, a poesia das pessoas em geral. E a poesia trazida para as ruas vem agradado os pedestres.

“Estamos chamando a atenção para o Festival de Poesia de Debrecen, que começa na próxima semana. Gostaríamos de vestir a cidade de poesia”, revela Kovács Béla Lóránt, diretor da Biblioteca Méliusz.

Até agora as citações poéticas já se espalharam por mais de cinquenta pontos da cidade, e deverão permanecer nas vitrines do centro de Debrecen até o final de abril.

*Adaptado do artigo “Líra az utcán: versek díszítik a debreceni kirakatokat” do site de notícias DEHIR: "http://www.dehir.hu/debrecen/lira-az-utcan-versek-diszitik-a-debreceni-kirakatokat/2014/04/02/

via twitter @molyhu

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Frida Kahlo: uma conexão húngara

Sziasztok!

Acabo de voltar de uma viagem de 15 dias ao México. Visitei a capital, Cidade do México, onde fiquei 12 dias, e de onde quase não conseguia sair, tantas eram as coisas que queria ver e fazer lá, e passei 3 dias em Puebla, o que valeu muito a pena também.

Mas o México não é assunto para o blog, quem tiver interesse ou curiosidade pode pesquisar essas duas cidades (ou o fascinante pais inteiro) na rede. O que me traz aqui foi a surpresa de descobrir uma conexão familiar de Frida Kahlo, por via paterna, com a Hungria, o que descobri visitando a Casa Azul, hoje museu dedicado a ela, onde Frida e Diego Rivera moraram de 1929 a 1954.

Para ganhar tempo (e obrigar todo mundo praticar um pouco a leitura em espanhol, risos), segue o trecho da biografia de Frida que fala sobre seu pai, Wilhelm/Guilherme Kahlo (visto aqui num retrato a óleo feito por Frida em 1951):

Imagem

“El padre de Frida, Guillermo Kahlo (1872-1941), también un fotógrafo y artista nació bajo el nombre de Wilhelm Kahlo en Baden-Baden, Alemania. Guillermo era hijo de Jakob Heinrich Kahlo, un joyero y platero y de Henriette Kauffman,
ambos judíos húngaros que emigraron a Alemania. Wilhelm Kahlo se trasladó a México en 1891, y a su llegada cambió su nombre alemán de Wilhelm al equivalente español, Guillermo. Después de llegar a México, pronto contrajo matrimonio con María Cárdena y tuvo tres hijas con ella, la segunda murió días después del parto y María falleció después del parto de su tercera hija, dejando a Guillermo solo con sus dos hijas. Las niñas fueron enviadas a vivir en un convento y Kahlo se caso con la madre de Frida, Matilde Calderón. Con Matilde, Guillermo Kahlo tuvo cuatro hijas: Matilde (1898-1951), Adriana (1902-1968), Frida (1907-1954) y Cristina (1908-1964).” in http://www.fridakahlofans.com

 

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized