Crédito de imagem

A nova imagem de cabeçalho, de um exemplar antigo de bordado húngaro, foi obtida no site do Núcleo de Memória do Mosteiro  São Geraldo de São Paulo.

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Sobre Fachadas ‘Subversivas’ na Era Kádár

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Em seguida à Segunda Guerra Mundial, um tipo especial de habitação popular se proliferou na Hungria comunista: o cubo. Na reconstrução do país no pós-guerra o Cubo Húngaro, (Magyar Kocka*, em húngaro) tornou-se uma forma onipresente de arquitetura residencial padronizada. Uma das poucas maneiras que as pessoas tinham de personalizar essas casas como que cortadas com uma forma de fazer biscoitos era decorar suas fachadas.

No seu livro Hungarian Cubes: Subversive Ornaments in Socialism,  a artista germano-húngara Katharina Roters documenta o individualismo encontrado na ornamentação dessas casas, às vezes chamadas Kádár Kocka, ou Cubo Kádár, em referência ao líder comunista [pós-1956] Kádár János. A série de imagens começou em 2003 quando Roters mudou-se da Alemanha para uma pequena aldeia húngara. Ela começou fotografando as fachadas das casas locais, expandindo depois o projeto para aldeias em todo o país.

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Suas fotos se concentram nos designs abstratos coloridos das fachadas dessas casas-caixotes. Roters apagou digitalmente fios de eletricidade, galhos de árvores e outros obstáculos visuais, permitindo que as formas geométricas apareçam na sua integridade arquitetônica. Vistas uma atrás da outra, as diferenças marcantes de cores e desenho surgem contra o pano de fundo da estrutura uniforme das casas. “Essa prática é uma subversão inconsciente que vai na contramão do conformismo visual coletivo doutrinado”, diz a artista ao site DEZEEN.

*Kocka se pronuncia /kótska/, já que a letra c tem som de ts, em magiar. Daí que Ferenc (Francisco) se diz /Férents/, e não /Ferenk/, como se ouve às vezes por aí ;)

O post acima é uma tradução feita por mim do artigo The Magnificent Facades of Hungarian Cube Houses, encontrado no site FAST COMPANY. Várias outras fotos ilustram artigo original, vale a pena conferir.

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2 videos legais sobre os magyarok e Magyarország*

*[Os húngaros e a Hungria, em língua magiar]

Visitando o site do Departamento de Letras Orientais da USP sobre o Curso de Difusão Cultural de Língua e Cultura Húngara [ver AQUI], para o qual Tereza Zabo me chamou a atenção, encontrei dois videos interessantes, que compartilho abaixo.

O primeiro é uma reportagem longa, bem abrangente, sobre a imigração e a comunidade de origem húngara no Brasil, centrado sobretudo em São Paulo, porque – claro – foi lá que se estabeleceu a maior parte dos magiares da diáspora no país. Como é uma produção húngara, há muito pouca coisa em português, mas mesmo para quem não conhece a língua, as imagens contam uma história bastante rica.

O segundo é uma campanha de atração de turistas do Ministério do Exterior da Hungria que – além de muito bonita – me parece muito inteligente, porque ressalta o gênio criativo e inventivo dos húngaros sobretudo dos últimos 100 anos. Acho que muitos – como aconteceu comigo – vão se surpreender com o número de invenções importantes do mundo moderno que se devem a húngaros.

Vamos aos videos…

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Uma feliz surpresa numa festa de casamento na Hungria rural de 1942

Sziasztók!

Outro dia, na introdução à primeira parte da entrevista de Krasznahorkai László, escrevi que estava preparando um texto baseado nas memórias de uma amiga, lembram?

Pois bem, com algum atraso por motivos alheios a minha vontade finalmente trago aqui uma primeira amostra das memórias de Elisabeth Móricz Varga, amiga húngaro-baiana muito querida que ganhei através do blog, e que certamente alguns de vocês que frequentam o HungriaMania também conhecem.

Meses atrás recebi pelo Sedex um volume informalmente impresso intitulado Do amanhecer ao entardecer da vida com uma dedicatória muito gentil e afetuosa, que me deixou muito alegre e curioso. Descobri depois que era um de apenas cinco exemplares que Elisabeth tinha mandado imprimir e fiquei também honrado e comovido.

Ainda assim, não imaginei o impacto que a leitura me causaria. Resumindo ao máximo, para que possam ir logo ao que interessa, as memórias de Elisabeth são a própria história turbulenta da Hungria a partir do final do anos 30, contada com muita verve e bom humor e com um talento narrativo que honra a memória de Móricz Zsigmond, seu tio paterno mais velho, provavelmente o maior escritor do Realismo húngaro.

Escolhi para começar um trecho leve e divertido, mas muito evocativo e com um fecho que acho bem interessante; também porque me fez lembrar imediatamente um delicioso conto de Jókai Mór chamado Divertimento forçado, que abre a nunca suficientemente elogiável Antologia do Conto Húngaro, selecionada e traduzida por Paulo Rónai no final dos anos 50.

Com vocês uma descoberta de uma mocinha da Capital no mundo rural da Hungria dos anos 40.

“Ágnes, minha irmã mais velha, casou-se com um rapaz chamado Lőrinc(1) no dia 25 de dezembro de 1942.  

Primeiro houve o cerimônia civil em Budapeste, mas o casamento religioso foi celebrado na casa dos pais do noivo perto de Debrecen, no Leste da Hungria, onde o pai de  Lőrinc era administrador da propriedade rural de um barão que não se ocupava das coisas da fazenda mas mantinha lá uma residência, onde aparecia vez por outra. Nessa ocasião ele cedeu seu kastély(2) – como o povo chamava os palacetes da Aristocracia na Hungria – para a família da noiva.

Lőrinc, que servia o exército como tenente, e ficava muito garboso no seu uniforme, conseguiu alguns dias de licença para o casamento. Bálint, meu irmão mais velho, também cumpria serviço militar, como aspirante a tenente. Ele era muito bonito e, uniformizado, ficava ainda mais aos meus olhos de menina-moça.

Nessa época – em plena Segunda Guerra Mundial – não era possível aos civis viajarem de trem, que eram usados para o transporte das tropas, mas de alguma forma conseguimos uma cabine de seis lugares e junto com o jovem casal de noivos seguimos mamãe, Bálint e eu para as terras do barão. Papai não pode viajar e Bandi não recebeu licença para se afastar de Budapeste, porque precisava comparecer às aulas da preparação da juventude. Judite, minha irmã mais nova, ainda era muito menina para viajar.

Quando chegamos à propriedade, distante uns vinte e cinco quilômetros de Debrecen, a cinco quilômetros da estação de Ohat, encontramos uma movimentação enorme com os preparativos para a festa, que ia durar três dias. 

A casa da família de Lőrinc, que já era bem grande, mais o Kastély emprestado pelo Barão acolheram parentes vindos de todas as partes da Hungria, até da Romênia chegaram convidados. Entre eles havia muitos jovens, assim não faltava parceiro para dançar.

Ainda cansadas da viagem, mamãe e eu ficamos exaustas  ao final desse primeiro dia de preparativos e fomos dormir. Mas no dia seguinte à tarde, quando a festa começou para valer, nos reunimos aos outros convidados. 

Depois da cerimônia de casamento os noivos viajaram logo, mas nós e os muitos outros convidados ficamos e nos divertimos muito durante três dias sem parar.

Tudo aquilo era novo e impressionante para mim. As animadas comemorações eram um turbilhão de cores, sons sabores e emoções para os meus olhos de adolescente. E  uma grande surpresa ainda me aguardava! 

Além de receber com muita fartura tantos parentes e convidados, o sogro da minha irmã, que também se chamava Lőrinc, proporcionou uma festa de arromba para os camponeses que trabalhavam da fazenda, fornecendo uma barrica de vinho e farta alimentação: mataram boi e porco, e as carnes eram assadas em enormes espetos de madeira que giravam sobre o fogo. Só observar o alegria espontânea do povo para nós já era uma atração especial. 

A festa dos camponeses foi realizada no celeiro dos carneiros, um grande prédio fechado que havia na fazenda para proteger os animais durante o rigoroso inverno da Grande Planície Húngara. O galpão tinha dezenas de metros de comprimento e largura, pois precisava abrigar centenas de animais.

Para o povo poder dançar espalharam palha de feno pelo chão, e armaram um palco para uma banda de ciganos que tocou a noite toda. Todos davam muitas risadas sonoras.

Estávamos nos divertíamos no nosso baile de casamento, mas ouvíamos de longe aquela música animada e as risadas de alegria; então em um belo momento um dos primos de Lőrinc – por sinal um rapaz muito bonito, chamado Szilágyi József, por quem imediatamente caí de amores, e ele por mim, me convidou: “Erzsébet!(3) Vamos lá, vamos ver como o povo se diverte, você não quer vir?” Eu fiquei interessadíssima, acho que iria a qualquer lugar só para ficar perto dele. Então nós e outros jovens convidados da família resolvemos dar uma espiada no baile dos peões. Claro que antes fui pedir licença à minha mãe – eu ainda era muito boa menina. 

Quando nos aproximamos fomos contagiados pela alegria dos camponeses e logo entramos no meio para dançar. E posso garantir: essa parte da festa era muito mais animada do que a nossa.

A música tocada pela orquestra de ciganos era a csárdás(4), uma dança tipicamente húngara, muito empolgante, cheia movimentos rápidos, muito giros e batidas de pés. Eu nunca antes havia estado antes numa festa tipicamente húngara e popular, e amei cada minuto que ficamos lá. 

Eu já sabia dançar a csárdás, todos os húngaros sabem dançá-la, mas descobri naquele dia a diferença enorme entre a csárdás do povo e a csárdás dos bailes de gala.”

(1) pronuncia-se /Löörints/

(2) pronuncia-se /cóshtêêi/

(3) pronuncia-se /Érjêêbet/, equivalente magiar de Elisabeth.

(4) pronuncia-se /tcháarrrdaash/

Veja aqui amostras da vivacidade contagiante de csárdás dançada por casais participantes de um Concurso Nacional de Danças, em Eger, que encontrei agora:

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Não preciso de nada daqui, por Krasznahorkai László

Eu deixaria tudo aqui: os vales, as colinas, os caminhos, e os gaios dos jardins, deixaria aqui as válvulas e os padres, céu e terra, primavera e outono, deixaria aqui as rotas de escape, os anoiteceres na cozinha, o último olhar amoroso, e todas as direções para a cidade que fazem estremecer, eu deixaria aqui o anoitecer espesso caindo sobre a terra, a gravidade, a esperança, o encantamento, e a tranquilidade, deixaria aqui os que amo e que me são próximos, tudo que me tocou, tudo que me chocou, fascinou e elevou, deixaria aqui o nobre, o benevolente, o prazeroso, e o demoniacamente belo, eu deixaria aqui o broto que se abre, todo nascimento e existência, deixaria aqui o encantamento, o enigma, as distâncias, a inexaustibilidade, e a intoxicação da eternidade; pois aqui eu deixaria essa terra e as estrelas, porque não levaria nada daqui comigo, porque andei vendo o que vem aí, e não preciso de nada daqui.

PS: traduzi este texto da versão em inglês [não encontrei o original magiar] feita por Ottilie Mulzet e publicada no ASYMPTOTE, um jornal virtual dedicado à tradução literária.

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Fala Krasznahorkai László [final]

Conforme prometido, eis a segunda (e última) parte da entrevista de Krasznahorkai László, concedida à jornalista Dömötör Ági, do site origo.hu em 2011. Agora ele fala de seus leitores jovens, da relação com outros escritores, da sua visão sobre o futuro da literatura, das perspectivas para a própria humanidade, e mais.

Bom proveito! És jó hétvégét! [E bom fim de semana!]

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Krasznahorkai László, foto de Mudra Lászlo para origo.hu

DA: O Senhor costuma dar uma olhada na internet no que os leitores dizem das suas obras? Há grupos de leitores que batem papo sobre seus livros, outros que comentam suas entrevistas.

KL: Conheço muito poucos, se está se referindo aos húngaros. Recentemente num desses um blogueiro sugeriu que eu devia ser enforcado. Vesti meu escafandro, liguei a ignição e dei uma esticada até a lua.

DA: Bem, esse eu não encontrei, mas fiquei surpresa com quanta gente se entusiasma nos comentários sobre seus livros. E vi que não são estudantes  ligados nas letras os apaixonados pelo senhor, mas jovens bem dentro da média.

KL: Isso é tranquilizador, mas na verdade não surpreende tanto. Talvez seja por eles estarem menos suscetíveis às influências, talvez porque gostem de ser vistos como livres, ou, ainda mais do que isso, de verem alguém enfrentar quem ou o que quer que seja quando se trata de algo que lhes diz respeito, porque no caso deles nada está resolvido ainda.

DA: Que relação o senhor tem com seus colegas de literatura magiar? Costumam se mandar emails? O senhor escreve, digamos, pra Spiró György dizendo gostei do seu último livro, Gyuri [Jorginho]? Pergunto porque a partir de uma entrevista pareceu que se sentia alheio à vida literária.

KL: Não é que me sinta assim apenas, eu sou assim. Isso não significa que eu não me alegre quando me encontro com algum colega digno de admiração aos meus olhos, afinal somos companheiros de sina. Essa coisa com que eles se ocupam – a saber, a literatura -, por hora ainda dá para ir enchendo prateleiras, mas cada vez com mais dificuldade. Essa espécie de articulação chegou realmente ao fim. Isso é um processo bastante evidente, ele apenas transcorre com velocidade diferente em cada ponto diferente do mundo. Essa forma de literatura, sinto dizer, não é sustentável.

DA: O senhor quer dizer que não apenas o prestígio da literatura acabou, mas o gênero literário inteiro?

KL: Vai desaparecer o livro da chamada alta literatura. Eu não confio em esperanças parciais de que haverá ilhas em que a literatura continuará importante, e que ela sobreviverá para sempre. Gostaria muito de dizer essas coisas cheias de pathos, só que não acredito que sejam verdade.

DA: E o que farão os que hoje leem?

KL: Provavelmente não irão ler. Poderá a humanidade voltar a pensar por si própria? Entendo por pensamento o que alguém pensa originalmente, sem ser pautado. Quando eu leio obras de pessoas pensantes isso me inspira a pensar, mas ao mesmo tempo cria categorias para mim, não me deixa em liberdade. Entre o riacho murmurante de Heráclito e a pessoa agora há um livro. Talvez chegue o tempo em que entre ela e o riacho murmurante já não haja nada. E ela poderá se molhar à vontade.*

DA: O senhor acha que vamos perder o hábito de ler porque estamos nos tornando preguiçosos. Mas o pensamento exige um esforço maior do que a leitura.

KL: A senhora não está considerando que ocorrem catástrofes na história humana, e as catástrofes compelem a humanidade a pensar. Mas ainda tenho outra proposição: voltará uma pós-pós-pós-moderna sacralidade. Voltará a força sagrada da palavra falada, e a palavra escrita servirá para anotá-la. Não estou pensando em algum mundo arcaico, onde vagaremos em torno de alguma Stonehenge, senão que em bases completamente transformadas, tenhamos naturalmente uma visão de mundo completamente transformada. Consigo imaginar muitas alternativas, menos esta: de irmos adiante da maneira que vamos hoje.

DA: Sebald e Susan Sontag elogiaram suas obras, Allen Ginsberg foi seu amigo. Que reconhecimento foi o mais importante na sua vida até agora?

KL: Os da adolescência. Essa é a idade em que a pessoa está mais rendida à opinião dos outros. Um dos reconhecimentos que recebi foi de meu professor do ginásio Banner József, que me apoiou continuamente com encorajamento e reconhecimento. Ele sempre me expunha na aula de [língua] magiar como modelo de como se devia fazer. Eu ficava terrivelmente orgulhoso, porque tínhamos o maior respeito por ele, e o reconhecimento de uma pessoa assim significou mais do que eu poderia expressar. Da mesma forma, quando meu primeiro escrito foi publicado passei a ter relações literárias que até então eu não conhecia. Para mim a literatura significava Weöres Sándor, Pilinsky, Hajnóczy, e eu não conseguia imaginar que eu viria a fazer parte disso de alguma maneira, especialmente não no mesmo patamar, aliás eu ainda não acredito nisso. Quando fui apresentado pela primeira vez a Mészöly Miklós, e Mészöly Miklós me disse que uma novela minha havia tido uma influência gigante para ele, a senhora não pode imaginar a enormidade que isso significou para mim. Se isso não acontece, é possível que minha vida tivesse tomado outro rumo.

DA: Se alguém, digamos, nunca leu nada do senhor, mas agora lê esta entrevista e pensa: que cara interessante, vou dar uma olhada no que ele escreve, que livro o senhor sugeriria a essa pessoa? Qual pode ser a porta de entrada para sua obra?

KL: O Velho Testamento. O Livro das Revelações. Que escolham aleatoriamente entre os meus livros.

DA: No seu último livro, Állatvanbent**, imagens acompanham os textos. Como nasceu esse livro?

KL: Uma imagem foi o ponto de partida, a primeira que aparece no livro. Em 2004 Max Neumann veio à minha casa jantar e trouxe uma imagem pintada por ele. Essa imagem me assustou muito, não consegui dizer nada, e depois disso também não falamos mais sobre ela. Aí algum tempo depois ele me ligou e foi direto ao assunto: László, se você não gosta da imagem, jogue fora. Eu disse a ele não se trata de não gostar da imagem, o caso é que eu olho para ela e não consigo me livrar dela, por que tenho medo dela. Tem um monstro preso nesse campo geométrico deteriorado, estranho, puritano. Foi assim que começou.

imagem de Max Neumann do livro Állatvanbent

imagem de Max Neumann, do livro Állatvanbent / Animalinside

Mais tarde me procuraram para eu escrever sobre tradução literária. Mas que diabo saberia eu escrever sobre isso? Mas tanto insistiram, que me ocorreu: que tal se eu traduzisse uma imagem para uma outra linguagem. Eles disseram, excelente. Então me sentei, saltou um texto, que agora está aí, no início do livro. Aí mostrei a Max, e perguntei que tal seria se a partir daquele texto ele pintasse uma nova versão, sobre a qual eu escreveria um novo texto, e assim por diante. Mais tarde nos ocorreu que não íamos publicar o que havíamos experimentado, na medida em que isso afligiu a mim e a Max. A essência do texto é a velha natureza do pecado: ele retrata o mal a partir de dentro. Nós sentimos que ambos conseguimos apresentar alguma coisa desse mal.

DA: Quando riu e quando chorou a última vez?

KL: Descontando o fato de que tenho uma filha que praticamente desde os cinco anos eu não posso ver, e por causa disso choro lá dentro, o tempo todo – chorar, mesmo, a última vez, chorei quando rodávamos o Sátántangó, com Tarr Béla, na cena do bar. Um dos personagens, completamente bêbado, cantava uma  canção acompanhado de um acordeão. A canção e a maneira que ele cantava eram tão comoventes que, ali sentado, de repente senti as lágrimas correrem. Mas estranhamente também senti que enquanto me corriam as lágrimas minha perna direita estava totalmente dormente. Aí terminou, voltei a mim, e me vi sentado ao lado de Béla, e olhávamos o monitor. E me dei conta de que Tarr, cuja vista ficara igualmente anuviada, ainda me apertava com uma força tremenda a perna direita, apertou até o final da cena. Para que a gente pudesse fixar aquele momento maravilhoso. Para que nada pudesse interrompê-lo. Para que tudo saísse bem. E saiu. Essa foi a última vez que chorei. Quando foi a última vez que ri? Quando a vi, de alegria. Pelas suas perguntas. Pelo seu interesse. Porque tenho outra vez com quem falar. A quem contar essas coisas.

* A frase final do parágrafo não se encontra na versão original, em húngaro, do origo.hu, usada para esta tradução; mas está na versão mais curta, em inglês, que apareceu no Hungarian Quarterly/Winter 2011 e que, suponho, deve ter sido acrescentada em comum acordo com KL. Como me parece concluir melhor o parágrafo, resolvi colocá-la.

** [Temanimaldentro, ou Contémanimal (literalmente: Állat+van+bent = Animal+tem+dentro), traduzido para o inglês como Animalinside, por Ottilie Mulzet e publicado em 2010 pela New Directions, NY]

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Fala Krasznahorkai László, ganhador do Prêmio Man Booker International 2015

Sziasztók!

Eu vinha trabalhando num post baseado nas memórias escritas por uma querida amiga húngaro-brasileira para voltar ao blog depois desta longa ausência. Mas o anúncio sensacional 10 dias atrás de que Krasznahorkai László tinha ganhado o Man Booker International Prize 2015 me obrigou a mudar de planos.

Amigos ficaram curiosos pelo escritor de nome estranho [pronuncia-se Króssnó-horkó-í], que talvez alguns poucos – como é o meu caso – conheçam apenas das parcerias com o mestre cineasta Tarr Béla [Tórrr Bêêló], que transformou Sátántangó [sháátáán-tongóó] (Tango de Satán), primeiro romance publicado por Krasznahorkai (1985), em um filme de 7 horas de duração. Outras obras adaptadas e/ou scripts de KL dirigidos por Tarr incluem Kárhozat (Danação), de 1988, Utolsó hajó (Último Barco), de 1989, Werckmeister harmóniák, de 2000, A londoni férfi (O homem de Londres), de 2007, e mais recentemente, em 2011, A torinói ló (O cavalo de Turim), nomeado para 14 e ganhador de 7 prêmios internacionais, incluindo o Urso de Prata em Berlim.

Infelizmente nada do que Krasznahorkai escreveu foi publicado até agora no Brasil. Há poucas traduções mesmo em Inglês, mas duas delas, Satantango, por George Szirtes, publicada pela Tuskar Rock Book em 2012, e Seiobo There Below, de Ottilie Mulzet, publicada pela New Directions em 2013, receberam prêmios de tradução importantes, o que sem dúvida aumentou a visibilidade deste especialíssimo autor e pensador magiar fora da Hungria, e resultou agora nesse prêmio internacional para autores de língua estrangeira publicados em língua inglesa.

Sem mais delongas, deixo-os com a 1ª parte da entrevista de Krasznahorkai concedida em 2011 a Dömötör Ági, editora cultural do portal de notícias húngaro origo.hu. KL fala de literatura e de outros assuntos, e, talvez concordem comigo, tem coisas bem interessantes a dizer…

KRASZNAHORKAI LÁSZLÓ: “O MARKETING DA BÍBLIA TAMBÉM É RUIM” *

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Krasznahorkai László, foto de Mudra László, origo.hu

Dömötör Ági: Muita gente tem a impressão de que seus livros são difíceis de ler e de entender, embora isso seja antes um mito. Mas o senhor não acha que seu marketing é ruim?

Krasznahorkai László: Sabe, o problema é que o marketing é ruim para todo mundo que seja um pouquinho sério. O marketing de Kafka também é ruim, o marketing do Velho Testamento também é ruim. O leitor que acha meu texto difícil vai ter dificuldades idênticas com o Velho Testamento. Temos uma cultura de consumo cujo objetivo é produzir a perda de consciência, sem que a nossa consciência se dê conta disso. A manutenção dessa manipulação sem precedentes custa muito dinheiro, e para isso desenvolveu-se um ensandecedor mecanismo global. Esse estado de perda de consciência implica na mentira de estabilidade em mundo vibrátil, o que alimenta uma ideia de segurança em circunstâncias que são no mínimo provisórias. Vejo de forma ligeiramente diferente o papel da imprensa sensacionalista. Não a tomaria como simples vulgaridade, mandando-a ao inferno. A imprensa sensacionalista tem um sentido grave, e esse sentido é ao mesmo tempo trágico e delicado.

DA: As revistas sensacionalistas também saciam nossa sede de histórias e de fofocas, como antigamente faziam as velhas tias das pequenas aldeias nos bancos de praça.

KL: A tia velha da aldeia era bisbilhoteira em um nível bem alto, do qual a moderna imprensa industrial da bisbilhotice está abaixo em muitos degraus. Uma tia velha se encontra no campo visível da pessoa cujo lixo ela remexe. Com dez milhões de pessoas a coisa é diferente. A imprensa sensacionalista não parte da premissa de que as pessoas não entendem ou exigem algo diferente. É muito complexa a estrutura da vulgaridade. Se eu não fosse artista, se fosse cientista social, seguramente sugeriria a mim mesmo que me dedicasse a esse assunto.

DA: A cultura pop lhe chega de alguma forma?

KL: Posso apostar que lhe digo dez bandas de rock de 2011 tão novas que a senhora nunca ouviu nem o nome!

DA: Quer dizer que o senhor frequenta lojas de discos, concertos?

KL: Em Nova York, o apartamento de Allen Ginsberg, onde fiquei, era muito perto do estúdio de gravação de David Byrne, que foi líder dos Talking Heads, e Byrne era frequentava muito a casa de Allen. Costumávamos tocar juntos na cozinha, e assim eu acabei fazendo parte da geometria de muitos ângulos Byrne-Philip Glass-Patti Smith-Ginsberg, onde os artistas davam CDs uns aos outros. Continua assim até hoje. Em Vic Chestnutt, por exemplo, eu nunca tinha ouvido falar antes da morte dele, e no entanto para mim ele é um dos melhores de toda a cultura do rock – um amigo de lá me enviou sua obra completa. Mas a concertos eu vou cada vez menos. Recentemente vi um programa genial em Berlim, chamavam a apresentação de Joan As Police Woman. Foi completamente insano, só que uma das minhas pernas é doente e eu não consigo ficar quatro horas em pé em concertos.

DA: E a televisão ou o cinema lhe interessam?

KL: Filmes eu não aguento ver, mas tenho uma TV, que ligo pra ver principalmente  programas de entrevistas. Televisão húngara vejo pouco, prefiro programas ingleses, americanos, alemães, franceses e espanhóis.

DA: Atualmente como você divide sua vida entre Nova York, Berlim e Pilisszentlászló? /pílish-sent-láásslôô/

KL: Em 2012 estarei em Nova York outra vez. Moro em Berlim, mas hoje em dia estou muito em Pilisszentlászló, e cada vez mais gostaria de ficar por lá. Gosto muito desse lugar.

DA: Muitas obras suas falam alegoricamente da destruição do mundo ou da civilização. Na sua opinião em que outra época as pessoas podem ter se sentido como hoje que ‘acabou, passo, não tem mais jeito’ em relação ao destino de uma civilização?

KL: Houve muita idades parecidas com a nossa, quando as pessoas acharam  que não apenas a civilização, mas o próprio mundo tinha chegado ao fim. Ainda sabemos pouco sobre o fim das primeiras grandes civilizações, sobre os incas, os egípcios, os minóicos, a Dinastia Zhou, na China. Sobre o final da civilização romana sabemos bem mais, porque a partida final durou séculos, e foi bem documentada. Evidente que para o cidadão romano da época, quando Roma finalmente caiu, não foi apenas seu mundo, mas “o” mundo que desabou. Tudo que até então era esfera, a própria inteireza, inesperadamente tomou a forma de um triângulo. Para os cristãos, ao contrário, esse tornou-se o ponto de partida. Para que depois a era cristã, ela própria e seus ideais, enfrentassem seus próprios impasses e crises. Toda história europeia e não-europeia é feita de derrotas e crises. Ou seja, crise é a condição natural da história.

DA: Pelo que diz não vê como especialmente apocalíptica a nossa era. Então por que escreve tanto sobre a destruição nos seus livros?

KL: O apocalipse me toca pessoalmente, porque minha vida vai terminar exatamente da mesma maneira como a de todo mundo. Interessante como a relação com a morte muda ao longo da vida. Na juventude é que a pessoa mais se ocupa com a questão da morte, porque nessa fase pode fazer isso com mais coragem do que depois, quando já começa a se aproximar da sua própria morte e já não lhe sobra tanta. O medo toma o seu lugar. Quando era jovem eu não percebia a santidade do nascimento. Minha inclinação era considerar o nascimento o ponto de partida para a queda, e assim matutava tristemente dias a fio à luz cinzenta da janela sobre o que me fora dado. Tudo que despertava compaixão me marcava muito. Na realidade e na arte eu era sensível em primeiro lugar às obras que tratavam da tristeza, do insuportável, do trágico. E também não sabia o que fazer com tudo que era positivo, que tinha ligação com o prazer. A alegria me incomodava muito.

DA: E quando isso mudou?

KL: Não se pode precisar esses momentos, não porque eles não existam, mas porque nunca sabemos o instante em que alguma coisa dá a volta.

DA: A partir da sua primeira obra a marca mais conspícua é a frase longa. Me parece no entanto que essas frases longas combinam melhor com seus livros mais recentes, de temas orientais, porque esse compasso lento irradia a experiência do tempo das culturas do Leste. Sem-pressa, como os monges que desenham uma mandala. Essa experiência diversa do tempo nas culturas orientais realmente o influenciou?

À concepção de tempo deles não conviria nem a frase longa nem a frase curta, mas sim o silêncio. A estrutura frasal que eu uso é antes resultado de um processo interno. Não escrevo meus textos nem no laptop nem à máquina, e sim na cabeça, em grande unidades, e quando uma dessas unidade está completamente pronta, aí escrevo. Por isso há uma conexão profunda das minhas frases com o discurso vivo, não com o Oriente. Em geral passo meus dias sozinho, assim falo com pouca frequência, mas quando falo é horrivelmente muito e continuamente, nunca coloco ponto, assim como muita gente por aí. Pode prestar atenção que a maioria das pessoas fala do jeito que eu escrevo. O discurso vivo não aprecia frases curtas, o truncamento. Aos meus ouvidos a frase curta é afetada, artificiosa, para mim a frase longa é o único modo natural de retratar o discurso vivo e sobretudo o pensamento.

DA: Na época da mudança de regime o senhor foi à China pela primeira vez, e sob o efeito disso nasceu O prisioneiro de Urga. Muitos críticos consideram esse momento uma virada na sua obra. Além da renovação artística, até onde foi  determinante do ponto de vista humano essa influência? Por exemplo, o senhor tornou-se budista?

KL: Não me tornei. Mas me apaixonei, porque é possível se apaixonar pelo Budismo. É uma visão de mundo escandalosamente sensata, louca e nobre. Fiquei apaixonado, mas por alguma razão insondável, ele não me transformou. Tomemos o Japão. Encontrei um número bastante grande de europeus e americanos que haviam chegado ao Japão com o santo objetivo de mudarem suas vidas. Quando ainda estavam no expresso Narita vindo do aeroporto, ou seja, mal haviam desembarcado e pegado o trem a caminho de Tóquio, seus olhares enlevados denunciavam que acreditavam já estar começando a se transformar em um novo eu. E não era, é triste, mas não era verdade, não estavam chegando a lugar nenhum, a pessoa não pode se libertar do que é. Não assim.

DA:  Eu pensei que tivesse sido uma mudança bem maior na sua vida, já que o Oriente determinou, por exemplo, uma direção inteiramente nova nos seus temas.

KL: O prisioneiro de Urga se passa no Oriente, mas o protagonista é um garoto do Alföld [planície carpática húngara. NT]. E o de Rombolás és bánat,** por sua vez, é um escritor magiar que ama a cultura clássica chinesa. E no romance Északról hegy, Délről tó*** os protagonistas são um jardim japonês e um fantasma que procura esse jardim – um fantasma da cultura da época imperial na Kioto moderna. Foi com muita paixão que eu me voltei para as culturas do Oriente, me dediquei muito, o máximo possível, li muito nas línguas das quais pude me aproximar ou em traduções, vivi lá, fiquei bem familiarizado com essas culturas, mas permaneci aqui. É em vão que uma pessoa daqui tenta transferir-se culturalmente para lá.

DA: Sua esposa é sinóloga, não é?

KL: É sim, e ela me ajuda a compreender e aceitar isso.

DA: Em outra entrevista o senhor contou que quando esteve na China pela primeira vez lhe aturdiu o fato de o país continuar igual ao império dos tempos antigos. Poucos anos depois, em seguida a uma nova visita, indicou que já não tinha a mesma impressão. Fico curiosa, segundo o senhor o que mudou na China em dois ou três anos que não havia mudado em milênios?

KL: Mudou o meu ponto de vista, gradualmente sofri erosão nos dez anos corridos entre as duas imagens da China. Quando estive lá a primeira vez fiquei atordoado de ser possível estar, em 1990, num país que tinha muitos milhares de anos ininterruptos de passado. Isso para um europeu é uma experiência espantosa, para mim sobretudo, que venho da Europa Central, onde compreendemos história apenas como rupturas. Ao passo que lá eu me encontro um dado ano de um fluxo histórico ininterrupto, e não venham dizer que Mao Tse-Tung encerrou e recomeçou a história da China. A china já teve muitos Mao Tse-Tungs.  Naturalmente já houve muitas mudanças dentro da China. Neste momento ocorre uma reviravolta histórica muito importante. O regime político, ao seu modo sempre instável, continua firme, mas em termos econômicos começou um desenvolvimento inaudito nesse império inerentemente terrivelmente pobre. Volta o espírito prático que sempre caracterizou a China, onde a propriedade, a riqueza e o dinheiro desempenham um papel especial. Os chineses se alegram em possuir. Os centros comerciais húngaros têm um ambiente desanimado se comparado com o atmosfera refrescante de um centro comercial chinês, o excesso de brilho é o mesmo, a diferença é que os chineses muito fazem compras com muita alegria. É inacreditável. Parecem crianças quando ganham um bolo de dinheiro.

DA: Estranho paradoxo, que a China comunista seja o império econômico número um, até a América deve a eles. Por outro lado, no entanto, a China é que foi incorporada pelo capitalismo. A segunda metade do século 20 foi de luta entre essas duas ideologias. Na sua opinião, qual delas ganhou?

KL: A ideologia comunista perdurou – chamemo-la, antes, de corporações estado-socialistas – porque o mecanismo que a garante atualmente é legitimado precisamente pela liberdade que ela tornou possível quando se deu conta de que era sua única maneira de sobreviver. E ninguém venceu. Ainda não. A luta ainda nem se agudizou. Vem pela frente.

[Fim da 1ª parte; a parte final virá assim que eu conseguir dar conta da tradução]

*Meu primeiro contato com essa entrevista foi numa versão editada, mais curta, na edição Inverno 2011 da revista (em papel) Hungarian Quarterly, e através das referência contida lá cheguei à versão integral em magiar no origo.hu, base para a tradução acima, de minha (ir)responsabilidade ;)

** título completo: Rombolás és bánat az ég alatt (Destruição e pesar sob o céu), de 2004, que está sendo traduzido para o inglês como Destruction and sorrow beneath the heavens por Ottilie Mulzet.

*** título completo: Északról hegy, Délről tó, Nyugatról utak, Keletről folyó (Vindo do Norte montanha, do Sul lago, do Oeste estradas, do Leste rio), de 2003, atualmente em tradução para o inglês como From the North by Hill, From the South by Lake, From the West by Roads, From the East by River por George Szirtes.

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