Caros amigos,
Este blog não nasceu para nem pretendia se tornar uma arena de discussão sobre a política na Hungria. Mas em vista das notícias nada alentadoras sobre o que vem acontecendo desde a eleição geral de 2010 – e que foi tema da entrevista de Nádas Péter, no último post – eu não tenho escolha a não ser abrir espaço para essas questões.
O que se segue é o link para um texto de Gilles Lapouge, correspondente em Paris d’O Estado de São Paulo, publicado hoje:
A Hungria e o Fascismo
“Como se não bastassem os muitos problemas enfrentados por causa do desastre da zona do euro, eis que a União Europeia agora está com uma nova batata quente nas mãos. E grande. Um país inteiro. Trata-se da Hungria, que faz parte do bloco europeu e cujo primeiro-ministro, Viktor Orban, tem constantemente provocado Bruxelas.
Primeiro em seus discursos e, há alguns dias, por meio de novas leis, o governo de Orban, que representa a direita dura e autoritária da Hungria, vem manifestando um prazer doentio em violar espetacularmente todos os princípios da União Europeia, os quais todo o país que adere ao bloco deveria respeitar.”
Leia o artigo completo no site do Estadão
Chico, estou estarrecida, quando estive na Hungria em set/out este ano, já deu sentir o descontentamento do povo com a politica do governo, e como hoje uma amiga mina informou, já teve reunião de
uma multidão , por enquanto so Cemmil pessoas protestando contra, mas provavelmente terá mais e mais, o povo está amedrontado, ainda lembram o jugo komunista e sabem que significa uma ditadura, e parece que o
Orbán está querendo fazer.
Nos aqui no Brasil estivemos assistindo o começo de uma ditadura da PT, que graças a Deus não deu certo, o povo brasileiro e muito pacato, mas os hungaros são mais violentos qdo. estão protegendo o que acham certo, e tenho certeza que terá violência. Deus ajude eles que possam resolver sem
derramamento de sangue. Abraço Elisabeth
Olá Chico, tudo bem?
Me deparei com seu blog enquanto procurava o artigo do Lapouge, porque vou (com sorte) escrever para o portal Opera Mundi quando estiver na Hungria, a partir de fevereiro. Passo três meses em Köszeg, cidadezinha perto da Áustria, fazendo um curso de RI, mas, como sou estudante de jornalismo aqui em São Paulo, pretendo escrever matérias. Você me manda um email no anacgmarques@xxxxx para a gente conversar? Abraço,
Ana Marques
Caro Chico,
Excelente a iniciativa do post! Não dá para entender a cultura, a sociedade e a literatura húngaras (como a de qualquer outro lugar) sem refletir também sobre a sua situação política.
O artigo é interessante por levar adiante a discussão sobre a preocupante situação política atual da Hungria, mas acho que ele peca um pouco pela sua superficialidade. Afirmar que o governo húngaro “vem manifestando um prazer doentio em violar espetacularmente todos os princípios da União Europeia” talvez seja um exagero da retórica jornalística, assim como a afirmação de que a nova constituição “acaba com a independência do Judiciário, da Suprema Corte e do Banco Central”. Encontrei críticas mais sóbrias e bem fundamentadas na “The Economist” (http://www.economist.com/node/21542422) e em um relatório da Comissão de Veneza sobre a nova constituição húngara (http://www.venice.coe.int/docs/2011/CDL-AD(2011)016-E.pdf).
Além disso, a explicação do autor para a “tolerância da sociedade húngara” com as atuais políticas “fascistas e antieuropéias” é muito simplista e não analisa a fundo o problema. Viktor Orban foi um político importante durante a queda do comunismo, mas acho que está longe de ser considerado um “herói nacional”. Com a recente morte do político e dramaturgo tcheco Vaclas Havel e a comoção da sociedade tcheca durante o seu enterro, tivemos um verdadeiro exemplo do que é um “herói nacional”, do significado simbólico que um único indivíduo pode ter para a histórico de todo um país.
Me incomoda especificamente a afirmação de que a Hungria “jamais demonstrou uma grande paixão pela democracia”, já que, por exemplo, conforme citado pelo autor, apoiou o regime nazista durante a segunda guerra mundial. Não gosto desse tipo de afirmação superficial que em poucas palavras faz o julgamento de toda a história de uma nação. Durante grande parte da sua história, as aspirações por autonomia e democracia do povo húngaro foram barbaramente sufocadas. As revoluções de 1848 e de 1956 demonstram bem isso: em ambos os casos, o povo húngaro buscou lutar bravamente por liberdade e autonomia, pela defesa de valores democráticos, e em ambos os casos foi duramente massacrado, seja pelo Império Austro-Húngaro, com o auxílio fundamental do exército russo, seja pelo regime soviético. A sua própria história ajuda a entender um pouco os elementos autoritários e fascistas ainda presentes na sociedade húngara, e não só lá, como em todo o mundo. Não devemos esquecer que o fascismos/nazismo é uma parte importante da história das principais nações ocidentais (Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, França). O que talvez falte à Hungria, como foi levantado pelo escritor Peter Nadas na excelente entrevista postada um tempo atrás, é uma reflexão e compreensão maior sobre o seu passado, reflexão necessária para que o país possa lidar com os elementos autoritários muito presentes ainda hoje na sua sociedade. Mas essa não é uma carência só húngara. Muitos países enfrentam dificuldades em como lidar com o seu passado autoritário. A nossa “terra brasilis” é um excelente exemplo disso.
Peço desculpas pela extensão do comentário, mas estive recentemente em Budapeste no final do ano (na verdade, voltei ontem para o Brasil) e esse post ficou martelando na minha cabeça durante um bom tempo. Conversei com pessoas que são críticas do regime, estava lá durante os recentes protestos populares, tive um pouco de contato com o sentimento que os próprios húngaros tem sobre a sua pátria. Curiosamente, duas pessoas, em situações diversas, literalmente choraram ao falar da situação atual. Uma deles um conhecido, já bastante “mamado”, que se lamentava do passado de opressão, das derrotas militares, do Tratado de Trianon (que decepou dois terços do território húngaro após a primeira guerra, deixando diversas minorias húngaras vivendo em praticamente todos os países fronteiriços). A outra um ciclista, também ele “mamado”, que conversava com outros ciclistas em um “Villámos” (Tram), comparando a situação dos ciclistas na Hungria em relação à Holanda. Esse último chegou a dizer que, aos húngaros, não resta nada além de chorar pelo passado, presente e futuro da pátria, e logo em seguida começou ele mesmo a chorar.
Enfim, a situação é preocupante sim, as críticas são extremamente necessárias, mas é preciso entendê-la a fundo, pois existem diversos elementos culturais, históricos e até mesmo psicológicos que se refletem continuamente no que é a nossa querida e admirada Hungria hoje.
Um abraço,
Guilherme
Correção: no quarto parágrafo, Império “Austríaco”, e não “Austro-Húngaro”.
Um abraço
Kedves Guilherme,
Muito obrigado pela sua cuidadosa reflexão, que enriquece bastante o blog.
Quero fazer alguns comentários sobre alguns do seus pontos, mas infelizmente não posso neste momento por falta de tempo.
Apenas não queria deixar de dizer o quanto me honra sua presença aqui. Quero também ler a matéria da The Economist.
Espero que vc possa ler também o post anterior, com a entrevista de Nádas Péter, que pode servir como contraponto mais bem-informado à matéria de G. Lapouge.
Abraço, Chico
Draga Chico,
A entrevista no Die Zeit e o perfil traçado pelo NYT são excelentes. Não conhecia o Nádas Péter e os links serviram como uma ótima introdução. Como disse antes, achei o artigo do G. Lapouge interessante na medida em que levanta e leva adiante um debate necessário. Mas acho que todos aqueles que tiveram a experiência de viver pessoalmente a rica cultura magiar ficam um pouco incomodados com algumas generalizações pouco cuidadosas do autor. Tomo como exemplo as críticas (auto-críticas) do Nádas sobre a sociedade húngara e os seus próprios posts aqui neste blog, sempre muito sinceros, sóbrios e profundos – como, por exemplo, aquele sobre a situação dos ciganos (“kurva jó”, como dizem os húngaros)…
))))
Um abraço,
Guilherme
Obrigado mais uma vez pelas palavras gentis, Guilherme.
Infelizmente ainda sem tempo para responder mais no momento.
Abraço,
Chico
Oi Chico,
mora no Rj? Vamos tomar uma palinka?
Também moro no RJ!
Me envie uma mensagem e te passo meu tel.
(morei 5anos em Budapest e gosto muito do seu blog)
Szia Robson!
Puxa que convite tentador. Moro em Natal (morei no Rio 11 anos, amo essa cidade), mas estou no Maine, nordeste dos EUA até fim de fevereiro e passo pelo Rio na volta. Tomarei szívesen egy kis palinkát veled. Te mando já-já um email. Abraços