
Kopogtatás Nékül (sem bater à porta), obra de Janet Brooks Gerloff inspirada em poema de József Atila. Szépművészeti Muzeum, Budapeste.
Muitos eventos acontecem pelo país afora em teatros e praças. E pessoas comuns amantes da poesia depositam flores nos monumentos a József Attila que há em toda cidade húngara. Estava em Budapeste no ano passado e me emocionei vendo, surpreso, essa manifestação espontânea de amor ao seu magyar költő (bardo, poeta), o gênio poético de origem proletária.
Recebi de Balogh Robert, jovem escritor e agitador cultural em Pécs (pron, Pêêtch), cidade importante do sul da Hungria, sede de uma grande universidade, este cartaz do Festival Pré-Dia da Poesia, que ele organizou e que rolou ontem, como podem ver. Robert é também editor do bom site de cultura e literatura terasz.hu.

A princípio não tinha me tocado do que significa o número 0410 no cartaz, mas como bem lembrou Napsugár (=Raio de sol) no comentário, trata-se da data de ontem na ordem que os húngaros usam, április 10.
Para marcar o dia deixo aqui uma tradução que arrisquei um mês e pouco atrás de um poema de Kosztolányi Dezső (1885 – 1936), poeta e contista exepcional, romancista, tradutor, crítico literário, editor da célebre revista literária Nyugat (Ocidente), enfim, um intelectual de enorme importância na vida cultural magiar da primeira metade do século passado. Não se enganem com seu jeito de dândi na foto, havia muito estofo por trás da cara marota.

Kosztolányi Dezső
FELIZ, TRISTE CANÇÃO
Kosztolányi Dezső
Tenho meu pão, vinho também tenho,
tenho meu filho e minha mulher.
Por que então afligir meu coração?
Sempre sobra dos meus mantimentos.
Tenho jardim, e as árvores inclinadas
do jardim sussurram quando passo,
e lá dentro a despensa geme
sob a carga de tantas amêndoas.
Lençóis decentes tenho também,
meu telefone, mala de viagem;
sincera benevolência me oferecem
sem que eu precise suplicar favores.
Não há mais a imagem-névoa de outrora,
embriaguês de névoa e de lágrimas,
às vezes quando vou saudar alguém,
já adiantam-se e me saúdam antes.
Tenho luz elétrica, luzes brilhantes,
minha cigarreira é prata de lei,
caneta e lápis me correm leves,
em minha boca fumeia velha pipa.
Há banho para refrescar meu corpo,
chá morno pros meus nervos lassos,
se ando de ônibus em Budapeste,
não me tomam de todo por estranho.
O que canto, esse desconsolo,
não banha em lágrimas um rosto apenas,
e como jovem filho cantor seu
a velha Hungria já me consagrou.
Mas às vezes paro no meio da noite,
atormentado, afundando em morte,
cavando fundo procuro o tesouro,
o tesouro, o antigo, o ocultado,
como alguém despertado em febre,
tartamudeio desnorteado,
e minha mão tateando busca
o que, ai de mim, eu quis um dia.
Mas já não há o tesouro que busquei,
tesouro por que ardi até as cinzas.
Pois se cá neste mundo estou em casa,
no céu já me tornei estranho.
[1917]
0410 acho que significa 10 de abril, já que o hungaro usa primeiro o ano depois o mes e depois o dia.
04 é o mês de abril e 10 é o dia do acontecomento.
Em hungaro primeiro se diz o ano depois o mês e depois o dia.
Claro, Napsugár! Que burrice a minha.
Obrigado e bem-vindo ao HungriaMania.