
Com Petőfi em Debrecen

Ady Endre

tumba em Kerepesi, Budapeste

uma fachada da Rua Jószef Attila, Budapest
Essa tendência down é tão arraigada que recentemente uma entrevista com o jovem poeta e escritor Dunajcsik Mátyás (aguardem um conto dele em breve aqui) na revista Kultusz chamava a atenção pelo título: Egy boldog magyar költő vagyok (Sou um poeta magiar feliz; lido palavra por palavra = um feliz magiar poeta sou).

a ira jovem de József Attila

Centro József Attila na Universidade de Szeged
Muito jovem já lia e traduzia versos franceses e alemães da época, e assim o surrealismo e expressionismo marcaram cedo sua poesia, combinados com as formas tradicionais da canção popular húngara. Toda sua obra foi afetada também fortemente pelo sofrimento da classe operária húngara, que ele sentiu na prórpria carne. Como outros poetas do seu tempo, só que com razões pessoais de sobra, abraçou o marxismo-leninismo irradiado a partir da União Soviética. Ironicamente, entretanto, foi expulso em 1933 do então ilegal Partido Comunista Húngaro, para o qual tinha entrado três anos antes, porque sua poesia foi julgada excessivamente preocupada com questões pessoais. Depois escreveu poemas abertamente críticos do totalitarismo.

um József mais sociável
Mas József Attila é sobretudo o poeta do “eu” moderno, complexo, reflexivo, marcado pela psicanálise freudiana, sobre a qual leu muito, e à qual recorreu em seguida a uma de suas crises depressivas. A experiência analítica lhe rendeu um diário e uma grande paixão tardia não correspondida pela psicóloga Kozmutza Flóra. Isso tudo não o impediu de matar-se jogando-se sob um trem aos 32 anos de idade.
Alguns títulos de seus livros de poesia falam por si: O Szépség koldusa (Esmoler da beleza) (1922); Nem én kiáltok (Não sou eu que grito) (1925); Nincsen apám, se anyám (Não tenho pai nem mãe) (1929); Döntsd a tökét, ne sírankozz (Derrube o capital, não choramingue) (1231); Nagyon fáj (Dói demais) (1936).
Arrisquei as duas traduções que se seguem de poemas mais curtos de József Attila . Se qualquer tradução já é receita certa para a frustração, a de poesia então, nem se fala. Sobretudo para quem, como eu, não é poeta praticante. E quando se trata de verter de uma língua sintética e diabolicamente engenhosa como o magiar para o português, que como língua latina tende mais ao encompridamento retórico, a coisa fica mais complicada ainda. Tentei uma solução bem perto do sentido literal, procurando apenas manter a conta silábica semelhante ao original. Mas certamente perdi todo os outros recursos líricos fluentes usados pelo autor. Pra sentirem do que falo, coloco abaixo os originais também, inclusive declamações que achei no youtube, para quem quiser curtir a sonoridade magiar dos versek (verchek, versos)
DESESPERANÇADAMENTE (1933)
O homem afinal alcança
Triste, plana, úmida areia,
Olha em torno pensativo e,
Prudente, só assente, nada espera.
Eu também tento olhar em torno
Assim, levemente, sem enganos.
Prateado sussurro de foice
Brinca entre as folhas dos álamos.
No galho do nada pousa meu coração,
Pequeno corpo mudo treme,
Cercando-lhe estrelas se chegam
E assistem, assistem mansamente.
REMÉNYTELENÜL
Az ember végül homokos
Szomorú, vizes síkra ér,
Szétnéz merengve és okos
Fejével biccent, nem remél.
Én is így probálok csalás
Nékul szétnézni könnyedén.
Ezüstös fejszesuhanás
Játzik a nyárfa levelén.
A semmi ágán ül szivem,
Kis teste hangtalan vacog,
Köréje gyűlnek szeliden
S nézik, nézik a csillagok.
TALVEZ EU SUMA DE REPENTE
Talvez eu suma de repente,
feito rastro de bicho na floresta.
Dilapidei completamente
tudo de que devia prestar conta.
Já o meu corpo-menino em botão
vi murchar num fumo que cegava.
Aflição estilhaça-me a razão
quando reparo a que hei chegado.
Cedo cravou em mim seu dente
o desejo, profundos enganos.
Hoje tremo de arrependimento:
quisera ter esperado mais dez anos.
De teima sempre recusei
sentido à palavra materna.
Depois órfão e enteado passei
à galhofa das coisas de escola.
Minha juventude, viço verde
pensei ser eterna liberdade,
e hoje só escuto entre lágrimas
o estalar de galhos secos.
TALÁN ELTŰNÖK HIRTELEN
Talán eltűnök hirtelen,
akár az erdőben a vadnyom.
Elpazaroltam mindenem,
amiről számot kéne adnom.
Már bimbós gyermek-testemet
szem-maró füstön szarítottam.
Bánat szedi szét eszemet,
ha megtudom, mire jutottam.
Korán vájta belém fogát
a vágy, mely idegenbe tévedt.
Most rezge megbánás fog át:
várhattam volna még tiz évet.
Dacból se fogtam föl soha
értelmét az anyai szónak.
Majd árva lettem, mostoha
s kiröhögtem az oktatómat.
Ifjúságom, e zöld vadont
szabadnak hittem és öröknek
és most könnyezve hallgatom,
a száraz ágak hogy zörögnek.
desde aquele dia na casa de Gustavo e Vanja fiquei mais curioso em conhecer a literatura hungara contemporânea…as traduções que vc nos ofertou são bem bonitas… achei vc através do blog da Tania… abraço
Sim, a tradução do DESESPERANÇADAMENTE atingiu um outro patamar desde a primeira que eu li há algum tempo. Você se queixa, se queixa, mas sempre atinge bons resultados.
Abraços.
E sim, tenho novidades, contar-lhe-ei por email em breve.
Chico.
Suas aulas sobre a cultura Magiar me fazem gostar cada vez mais de viver em Budapeste.
Köszönöm szépem!
Caro Chico,
Lindo, lindo mesmo. Obrigado pela pesquisa e por me proporcionar um novo encontro com o Kodaly.
Adoro ele, assim como sou apixonado pelo Bela Bartok. Comecei a gostar da cultura hungara lendo o grende Paulo Ronai. Depois colecionado os selos magyares.
Fiz um curso em Natal com um Hungaro nsobre o método de educação musical implantado por Kodaly. Sei como esse país adora a musica.
E que maravilha voce nos proporcionar um pouco dessa rica cultura, taõ pouco divulgada entre nós
Abração meu amigo
Pingback: Költészet napja: hoje é dia da poesia na Hungria « HungriaMania
Oi Chico
Faz uns dias traduzi um poema do Attila do inglês para o português, O sétimo. Será que você pode comentar possíveis erros?
Abraços, Felipe
PS1: Também sou da UFRJ mas sou físico.
PS2: Uma amiga colocou a tradução no blog dela:
http://suallinda.multiply.com/journal/item/1193
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O sétimo
Se você apareceu neste mundo,
melhor nascer sete vezes.
Uma vez, numa casa em chamas,
Uma vez, numa inundação congelante,
Uma vez, num hospício caótico,
Uma vez, num campo de trigo maduro,
Uma vez, num mosteiro vazio,
e uma vez entre porcos num chiqueiro.
Seis bebês chorando, não é bastante:
você, você mesmo, precisa ser o sétimo.
Quando tiver que lutar para sobreviver,
deixe seu inimigo ver sete.
Um, longe do trabalho no domingo,
um, começando seu trabalho na segunda,
um, que ensina sem pagamento,
um, que aprendeu a nadar se afogando,
um, que é a semente da floresta,
e um, a quem padrinhos selvagens protegem,
mas todos os seus truques não são suficientes:
você, você mesmo, precisa ser o sétimo.
Se você quiser encontrar uma mulher,
deixe sete homens ir para ela.
Um, que se preocupa pelas palavras,
um, que se preocupa consigo mesmo,
um, que diz ser um sonhador,
um, que através de sua saia consegue sentí-la,
um, que conhece os ganchos e os gatilhos,
um, que pisa em sua echarpe:
deixe-os zumbir como moscas em torno dela.
Você, você mesmo, precisa ser o sétimo.
Se você escreve e pode fazer isso,
deixe sete homens escrever seu poema.
Um, que constrói um lugarejo de mármore,
um, que nasceu enquanto dormia,
um, que mapeia o céu e o conhece,
um, a quem palavras chamam por seu nome,
um, que aperfeiçoou sua alma,
um, que disseca ratos vivos.
Dois são bravos e quatro são sábios;
você, você mesmo, precisa ser o sétimo.
E se tudo ocorreu como estava escrito,
você morrerá por sete homens.
Um, que é embalado e amamentado,
um, que agarra um seio jovem e duro,
um, que joga fora pratos vazios,
um, que ajuda os pobres a ganharem;
um, que trabalhou até se despedaçar,
um, que apenas fita a lua.
O mundo será a sua lápide:
você, você mesmo, precisa ser o sétimo.