06/01/2010

Turmix* cultural da Hungria de hoje

Quando as tensões raciais e étnicas se acirram na Europa em geral e na Hungria em particular, com a animosidade entre magiares “brancos” e ciganos explodindo em violência, como vimos aqui, é muito bom ver um programa de TV tratar da riqueza cultural que compõe a Hungria de hoje.

O programa Kanapé /kónópêê/ (canapê, sofá), do canal estatal Duna Televizió (TV Danúbio), começa com um grupo contemporâneo fazendo música da tradição cigana, cantada em língua roma. Depois o apresentador entrevista Balogh Robert (que teve um conto postado aqui) sobre a trilogia de livros que ele escreveu tratando da etnia germânica schváb (suábia) que vive na Hungria.

Em seguida quatro atores da companhia HOOPart apresentam um trecho de uma peça também de Balogh Robi. Ouvimos depois mais música cigana tradicional, seguida de uma entrevista com dois membros da banda, inclusive a cantora. Aí vem a entrevista com um cantor africano-magiar, que também apresenta um belo canto negro tradicional em inglês. Finalmente um músico amênio-magiar é entrevistado e o programa termina com ele tocando seu acordeon.

Tirando o “spiritual” cantado em inglês, o que é mais fascinante é confirmar a orientalidade que marca a música tradicional feita na Hungria, que evoca as orígens asiáticas desse povo tornado centro-europeu há apenas mil e cem anos.

Quem entende o magiar, vai, obviamente, poder curtir o programa todo. Espero que os outros curtam os números musicais, além da bela e estranha sonoridade da fala magyarul.

Confira o programa aqui

* Turmix em húngao é vitamina de frutas feita no liquidificador. Durante a entrevista Balogh Robi a usa “turmix centro-europeu” pra se referir à sua própria mistura étnico-cultural.

abraços
Natal, dia de Reis de 2010

01/01/2010

Boldog új évet! (feliz ano novo!)

é tempo das gostosuras de marcipán

Sziasztok!
Elnézést (desculpas), leitores que porventura apareçam com mais frequência, pelo longo tempo sem atualização do blog. Andei enrolado com outras coisas que me afastaram daqui. Mas estou com saudades, e espero não desaparecer assim tão prolongadamente outra vez.

Aproveito a deixa dos votos de bom ano novo pra falar de boldog, palavrinha que nos soa estranha e meio engraçada. Pois bem, isso (que lembra o cachorro pequeno e troncudo que os ingleses adoram) em magyar quer dizer feliz, contente, alegre, ditoso (alguém ainda se lembra dessa palavra?).

Num sentido religioso boldog também significa beato, bem-venturado. Daí provém um dos nomes que os católicos usam para a Virgem Maria: Boldogasszony, literalmente “senhora bem-aventurada”, já que asszony /óss’sonhi/ = senhora.

Numa derivação normal para formação de substantivos no magyar, temos boldogság /bôldogsháág/ = felicidade; e forma-se também o verbo boldogít /bôldoguíít/ = fazer feliz, beatificar.

Mas há outras expressões curiosas que vêm de boldog. Uma delas é o verbo boldogul, que é comumente usado no sentido de “arranjar-se com alguma coisa, ter sucesso, dar-se bem”.

Outro dia, caminhando e escutando minhas lições gravadas de magyar, num diálogo entre um candidato a emprego e o seu entrevistador este pergunta àquele se ele sabe inglês, porque, segundo ele, sem inglês, na tal empresa ele “nehezen boldogul”= dificilmente terá sucesso.

Quando alguém lhe oferece ajuda em alguma coisa você pode agradecer e dizer: magam is boldogulok = eu me viro sozinho (magam = eu mesmo). Fora isso, boldogul significa medrar, prosperar.

Outra derivação curiosa: boldogult, forma do passado de boldogul, terceira pessoa, vira “falecido, finado, defunto”, o chamado “de boa memória”. Considerando como a vida muitas vezes é dura e sofrida, não é de se admirar que o magyar use uma palavra derivada de feliz para indicar quem partiu desta “pra uma melhor”, com nós também dizemos.

Para finalizar, duas outras derivações: boldogtalan = infeliz, desaventurado (donde boldogtalanság = infelicidade, desventura); e, com um sentido mais de acordo com a data de hoje, boldogulás /bôldoguláásh/ = prosperidade, bom sucesso.

Neste 2010 que começa hoje, sok boldogulást kívánok mindenkinek! = desejo (kívánok) muita (sok /shôôk/) prosperidade a todos (mindenkinek). A lém de saúde, paz, amor, stb, stb… (stb = etc)

Ah, ia esquecendo, em “Boldgog új évet!”, új /úúi/ = novo(a), e év /êêv/ = ano. Em “évet” o “t” final (com a vogal de ligação “e”) indica o acusativo, a forma dos objetos diretos, que é marcado em magiar, assim como em outras línguas declinadas. Isso porque a frase subentende “desejo-lhe” (kívánok) um feliz ano novo, o que torna “feliz ano novo” objeto direto de “desejo-lhe”. Daí também o “t” de boldogulást, acima. Coisas pra quem gosta da fascinante mecânica interna das línguas…

grande abraço,
chico
Natal, 2010.01.01 (à maneira magyar)

06/11/2009

A brazil film útjai… passou

stencil moziKedves barátaim / caros amigos (meus), desculpem a demora em atualizar o blog. Uma mistura de outras atividades pedindo atenção e urgência mais uma sequia temporário de imaginação e idéias me mantiveram longe daqui este último mês de pouco. Mas aqui estamos outra vez.

Descobri esses dias no hírlevél/híír-levêêl/ (informativo, literalmente carta, levél, (de) notícia, hír) da Comunidade Húngara de São Paulo que de 28 de outubro a 1 de novembro agora rolou em Budapeste a mostra A Brazil Film Útjai (rumos do cinema brasileiro).

Além de curioso pelo evento, fiquei com saudades porque o filmes passaram no Művész Mozi, meu cinema favorito na cidade, um dos três da cadeia Art Mozi, onde só costuma passar filme de boa qualidade, inclusive os ditos “de arte”, que os cinemas convencionais (hoje quase tudo nos shoppings, como aqui) refugam porque dão pouco público. O site da mostra está aqui, pra quem quiser conferir.

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Művész Mozi, uma das portas da frente

Sobre o nome do cinema: Művész quer dizer ‘artista’, vem de , obra, composição, artefato, coisa feita pelo homem, uma raíz que aparece num grande número de palavras, inclusive de significados aparentemente díspares, como műanyag (plástico), műbarát (apreciador de arte), műasztalos (marceneiro), műbíraló (crítico de arte), műbolygó (satélite artificial), műépitész (arquiteto), műfog (dente postiço), műhely (oficina), műkedvelés (amadorismo), műsor (programação), e működés (funcionamento) só pra dar alguns exemplos. O que todas elas têm em comum é a conexão com algo feito pela mão do homem, não encontrado na natureza.

Mozi /môzi/, por sua vez, é cinema mesmo, lugar onde passam filmes, o movie theatre dos americanos, ou cinema dos ingleses e nosso. Daí, convidando alguém pra ir ao cinema dizemos: menjük a moziba, onde o -ba final equivale a ‘para dentro de’, já que, como vimos antes, o magiar é língua aglutinativa, ajunta ao final das palavras partículas que nas línguas indo-européias geralmente são palavras separadas, como preposições, conjunções e pronomes possessivos, pra quem ainda sabe o que é isso, risos.

misetics10A pergunta ‘o que está passando no cinema?’, por exemplo, já vai implicar noutro sufixo pra mozi, fica: Mit játszanak a moziban? já que agora não se trata de ‘para dentro de’ e sim de ‘no/na/dentro de’, e aí o sufixo é -ban, sacou? A pergunta diz literalmente: ‘O que tocam/brincam/executam o cinema-no?’, porque o verbo játszani pode ter esses vários significados e ser usado pra brincadeira de criança,pra música e, como vimos, pro cinema também.

Curiosamente, embora játék /jáátêêk/ signifique jogo, bincadeira, execução, interpretação, játékfilm quer dizer filme de longa-metragem. Dessas surpresas que toda língua tem. Por exemplo, ouvi hoje na TV uma garota contando uma história e dizendo “àquela altura”, referindo-se, obviamente a um determinado tempo. E pensei: puxa, nós usamos “altura” pra nos referir a tempo… como será que um estrangeiro aprendendo o português vê isso…

Finalmente, quem conferir o site do Brazil Film Útjai e parar com o mause sobre a foto de cada um deles, vai ver surgir uma tela meio transparente com os créditos dos filmes. Aí provavelmente perceberão que: rendező é diretor, forgatókönyv é roteiro, operatör é o diretor de fotografia, vagó é editor, zene é música, e szereplők são os atores. Depois vem uma seção chamada leirás, descrição, e, em alguns casos, díjak, prêmios.

abraços.
2009 november 1.

21/09/2009

‘Goijkómitics’ : herói pele-vermelha dos tempos do comunismo

Mim grande guerreiro jugoslavo Gojko Mitić

Mim grande guerreiro jugoslavo Gojko Mitić

Relendo ontem à noite um conto de Ficsku Pál, que deve constar da antologia de jovens autores húngaros que vamos lançar depois do carnaval de 2010, me deparei com a estranha expressão “goikómitics”, escrita assim mesmo, entre aspas. Estranha, pra mim, é claro.

Ficsku Pál

Ficsku Pál

No conto, o narrador tem um flashback da sua infância na Hungria socialista e volta-lhe como um filme, entre outras coisas, a lembrança dos caminhoneiros iugoslavos “com placas alemãs” que passavam regularmente pela sua cidade e traziam, sob encomenda, muambagens variadas da Europa capitalista. E, num dado momento, diz que eles eram “como “gojkómitics”, os moicanos caminhoneiros da nossa infância”.

(Ulzana - Destino e Esperança)

(Ulzana - Destino e Esperança)

Intrigado, fui garimpar o negócio e descobri um rico filão. Nos anos do comunismo, a meninada húngara assistia a filmes de faroeste feitos nos estúdios GDR DEFA, da Alemanha Oriental. O curioso (e, claro, ideologicamente significativo) é que, ao contrário do que ocorria nos filmes americanos, os heróis desses “Red Westerns” eram sempre os peles-vermelhas, e não os cowboys.

Pois bem, um bonitão chamado Gojko Mitić (Гojкo Митић, em cirílico sérvio), nascido na Sérvia em 1940 era a grande estrela de maior parte desses filmes. Goikómitics era, portanto, a forma magiarizada do nome do ator a partir do seu som, /goykô mítich/.

Descobri também que em 2001 um alemão chamado Ramon Kramer rodou o documentário Der Berufsindianer – Gojko Mitic in der Prärie (O índio profissional – Gojko Mitic na pradaria), para o qual levou o ex-indio de cinema ao Meio-Oeste americano para conhecer lugares importantes na história dos guerreiros norteamericanos que ele protagonizou na ficção. Aqui o site do filme.

Gojko Mitić na Reserva Sioux Pine Ridge em Wounded Knee

Gojko Mitić na Reserva Sioux Pine Ridge em Wounded Knee

Catando o youtube encontrei estas adoráveis pérolas históricas com o galã pele-vermelha cujos filmes ali pelos anos 60 e 70 certamente devem ter aguçado tanto a fantasia da meninada da antiga “cortina de ferro” como os faroestes que os natalenses da minha geração assistiam nas vesperais do REX, de doce memória, aonde, aliás, a gente ia também só pra trocar gibis na calçada. Good ol’days!

Atenção para a coreografia dos navajos leste-europeus em “A grande cobra”, e depois o par romântico pele-vermelha (tudo depois dos longos créditos):

ou vibrem com o bravo guerreiro-domador de cavalos do faroeste ‘alpino’ “O rastro do falcão”:

Natal, 22/9/2009

18/09/2009

Amor à planície… meu encontro com a Nagy Alföld

Nota: Este texto foi escrito e postado aqui em março passado. Resolvi trazê-lo de volta agora (com uns poucos retoques) porque gosto dele e queria que as pessoas que apareceram por aqui mais recentemente também pudessem ler, sem precisar sair catando o blog inteiro.

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen

Até morar na Hungria eu tinha agonia da planura. Nascido e crescido entre as curvas suaves das dunas potiguares, menino da Cirolândia que brincava nas saias do Morro de Mãe Luiza, a primeira vez que vivi a planície absoluta, viajando de carro pela beirada sul do Lago Ontario em direção à fronteira em Niagara Falls, já tinha meus dezesseis anos. Lembro claramente que aquela ausência de variedade orográfica até aonde a vista dava me deixou fisicamente mal, enjoado. Fiquei constituído dum desafeto de planície, e nunca pensei que isso um dia podia mudar.

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais

Mas a Terra rodopiou muitas vezes em redor do sol, e, como já contei antes, em julho de 1998 eu fui parar na Hungria.
Manter a leitura →

13/09/2009

13/9 : dia da canção magiar

magyar dal napja poszter
Dando uma olhada indagora no terasz.hu, editado por Balogh Robert, que é autor de um conto publicado aqui, me dei conta de que hoje, segundo domingo de setembro, estão comemorando na Hungria o magyar dal napja.

Traduzindo na ordem original temos: “magiar canção dia-da”; dal = canção, /dól/, e nap = dia (mas também significa sol, o que pra mim faz muito sentido). O a final em napja, com a ajuda fonética de um j, pra soar /nópyó/, é a marca do possessivo, que como já se comentou antes, recai sempre na “coisa possuída” (embora muitas vezes também no “possuidor”, o que não é o caso aqui).

Mas enfim, a festança já começou desde a meia-noite do sábado com apresentação de DJs, e este ano rolam eventos em 22 locais diferentes, nove dos quais em cidades do interior. E em todos eles serão feitas homenagens a Cseh Tamás, que morreu recentemente.

Do dia da canção do ano passado peguei esse roquinho básico dos Pál Utcai fiúk (Meninos da Rua Paulo), que aliás eu nem conhecia : A bál = a festa / o baile. Quem não gostar da música pode até curtir o clima do concertão ao ar livre.

E pra gente não esquecer que os magiares originais vieram de algum lugar bem looonge, a linda voz da linda Herczku Ágnes numa toada de sabor asiático: Ha te tudnad, Se tu soubesses.
Os leitores mais antigos do blog já conhecem essa voz daqui.

10/09/2009

Piknik em Sopron, 20 anos atrás

A queda do Muro de Berlin começou na Hungria em agosto de 1989.

Fronteira Hungria-Austria, 1989

Fronteira Hungria-Austria, 1989

E a CNN lança este mês uma série de reportagens chamada “Hungary: Autumn of Change” dedicada aos eventos na Hungria em 1989 que marcaram o primeiro rompimento das cercas de arame farpado e dos muros com que os satélites socialistas da antiga União Soviética mantiveram seus cidadãos separados do resto da Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.

O programa que foi ao ar hoje (10/9) lembrou a data histórica de 19 de agosto de 89, quando centenas de cidadãos alemães da DDR (Deustche Demokratische Republik, como se auto-denominava o estado socialista alemão oriental) que haviam se juntado num piquenique perto da cidade de Sopron, (pron: /shópronn/), na divisa com a Austria, forçaram a abertura das cercas e entraram na Austria dizendo tchau pro “paraíso” socialista tão decantado pelo poder emanado de Moscou.

A estratégia de fuga deu certo para as primeiras centenas de alemães que conseguiram atingir Sopron e a fronteira, pois os guardas húngaros foram pegos de surpresa e não se dispuseram a reprimir os que sonhavam com as liberdades individuais do mundo capitalista. Mas em seguida chegaram reforços militares húngaros e a passagem foi outra vez vedada.

gyor-moson-sopronSó que, como sabemos, demorou muito pouco até que as estruturas repressivas dos estados do leste entrassem em colapso, impotentes diante da força da maioria da população, sobretudo dos jovens sedentos de mudança e de arejamento dos ares mofados e cinzentos do “socialismo científico”.

Quem entende inglês deve ficar de olho nos outros episódios da série da CNN que irão ao ar durante este mês de setembro.

Sopron, Hungria

Sopron, Hungria

01/09/2009

Bartók: acolher diferenças com Música

Escrevendo o post anterior sobre crimes contra os ciganos na Hungria, me referi à capacidade da Arte de digerir e dar saídas criativas pros inevitáveis conflitos humanos, aí esbarrei numa jóia de Bartók Béla (1881-1945), os “Contrastes para violino, clarinete e piano, sz.111”, que pra mim são um emblema primoroso desse poder acolhedor das diferenças na Grande Música.

Bartók Béla

Bartók Béla

Como muitos sabem, Bartók saiu a campo junto com seu amigo e compatriota magiar Kodály Zoltán no começo do século passado pra pesquisar e registrar as ricas tradições musicais da Bacia Carpática e dos Bálcãs, ajudando a fundar o que passou a ser conhecido como etnomusicologia.

A propósito, a pronúncia do prenome do mestre é /bêêla/, e não /béla/, como se ouve muito por aí. O sobrenome se diz /bórtôôk/.

Seguem-se os três movimentos dos “Contrastes”, com o grande Yehudi Menuhin, Jeremy Menuhin (piano), e Thea King (clarinete), num registro de 1972, em Paris.

Mov. I e II

Mov. III

29/08/2009

de ciganos, violência e… animação

arte cigana, fonte ocmk.blogspot.com

Arte Cigana, fonte: Centro Nacional de Arte Cigana (ocmk.blogspot.com)

Muita gente deve ter ouvido falar da grande vaia que Madonna levou recentemente em Bucareste, capital da Romênia, durante um show, ao condenar o preconceito contra os ciganos e homossexuais.

É impossível saber qual das duas minorias citadas teria detonado a parte maior da vaia. Mas é da questão dos cigányok (“tsigáánhok”, plural de cigány) que me interessa tratar aqui; ou do povo roma, pra usar o termo politicamente correto (romani, em português, nome também da língua falada por eles, na verdade uma imensa gama de dialetos em torno de uma origem comum na Índia).

A Hungria, que é vizinha oestana da Romênia, tem sido abalada nos últimos meses por uma série de crimes contra ciganos. No começo de agosto, uma mulher chamada Balogh Mária foi a sétima vítima fatal em um ano. Sua filha Katrin, de 13 anos, recebeu vários tiros também, mas sobreviveu.

arte de Balogh Balázs András

Arte de Balogh Balázs András (ocmk.blogspot.com)

Outros ataques violentos, embora sem morte, vêm acontecendo com frequência, geralmente em pequenas cidades do interior (a imprensa fala em cerca de cinquenta nos últimos doze meses). A reação são mobilizações e protestos públicos dos ciganos e das pessoas em geral que lutam contra o ódio inter-étnico , além das declarações formais de praxe de políticos e autoridades policiais.

A Europa central como um todo, e a bacia dos Cárpatos em particular, onde a Hungria se encontra aninhada, é um caldeirão onde etnias diferentes convivem e/ou se atritam, cooperam e/ou se odeiam há séculos. Os magiares estão envolvidos nessa arenga há mais de mil anos, desde que chegaram ali vindos do leste (escapando de outras brigas por lá) na segunda metade do século 9.

Carnaval, Balázs János

Balázs János, Carnaval (ocmk.blogspot.com)

Eslovacos, romenos, sérvios, croatas, austríacos, bósnios, checos, além dos magiares, claro, são algumas dessas “torcidas organizadas” nacionais que ao longo da história de vez em quando têm partido pra a ignorância umas contra as outras no gigantesco Maracanã que são os cárpatos. E povos “supranacionais”, como os judeus e os ciganos têm sofrido muitas vezes no meio do fogo cruzado, ou sido usados como bodes expiatórios em momentos de grande insatisfação popular, geralmente ligada ao bolso, à falta de pénz (=dinheiro, pron. “pêênz”).

A crise financeira internacional recente deixou Magyarország (a Hungria) na “beira do precipício”, como me disse uma jovem escritora e jornalista num email de três ou quatro meses atrás. As taxas de crescimento lá já vinham medíocres há mais de uma década, mas a crise fez a coisa entrar em parafuso de vez, deixando muita gente em situação de desespero. Ela também dizia que o clima ruim entre magiares e ciganos estava chegando a um ponto insuportável.

Nesse caldo de cultura de frustração, não é de surpreender que exploda a tensão latente que há entre o magyar que se vê como “branco” e os ciganos, povo de pele morena. Tensão latente porque embora boa parte dos cidadãos de origem cigana esteja bem integrada à vida econômica, acadêmica, cultural e artística da Hungria, uma grande massa deles ainda patina na pobreza, e tem dificuldade de sair dela por vários motivos históricos e culturais, que provavelmente incluem falta de oportunidades de educação, baixa auto-estima, ética e valores culturais arraigados herdados que não encorajam a superação social, além do forte preconceito de grande parte dos que vivem em torno, que é causa, mas também consequência dessa complicada realidade.

Kupcsik Adrián, autorretrato

Kupcsik Adrián, autorretrato

O fato é que há proporcionalmente bem mais desempregados, alcoólatras, e foras-da-lei em geral (e, consequentemente, mais gente em cana) entre os roma do que entre os outros húngaros.

Além disso, eles fazem mais zoada, são mais coloridos e extravagantes do que o magiar médio, que costuma ser muito discreto em público. Os ciganos adoram festa e música alta, muitos são músicos talentosíssimos − boa parte das estrelas da música pop húngara é de origem romani −, e sempre produziram grandes violonistas e violinistas.
Aliás, um termo popular meio “codificado” pra se referir a um cigano em magiar é hegedűs (= violinista, pron. “héguedüüsh”, com biquinho, de hegedű = violino). Brahms, Liszt, Bartók e outros sabiam muito bem que a música erudita centro-européia deve muito à contribuição original e vibrante dos ciganos.

A grande poesia e literatura magiares também trataram dos ciganos, reconhecendo que, embora diferentes, eles são uma parte integral e secular da vida dos Cárpatos e da própria tradição cultural magiar no seu sentido mais amplo e rico.

Budapeste Multicor, Festival das Etnias

Cartaz do "Budapeste Multicor - Festival das Etnias", 2009

Mas seja como for, a verdade é que os cigányok são facilmente identificáveis como o “outro”, o diferente, e, nas horas de crise, como um “inimigo interno”, uma “mancha” a ser lavada para o bem da nacionalidade. Isso se complica ainda mais sabendo-se do peso político que o nazifascismo teve na história da Hungria no século 20. Certamente ficaram marcas. Há um forte movimento subterrâneo (e às vezes nem tanto) de skinheads e outros adeptos da “supremacia racial” branca em atividade na Hungria − como na Europa em geral, aliás. É do meio desses que saem, é de se suspeitar, os autores dos crimes recentes contra os ciganos. Vale relembrar que os ciganos também entraram na equação macabra da “solução final” hitlerista na Segunda Guerra Mundial.

cigány kép balzslajoskosrfonInfelizmente esses agentes truculentos terminam contando também com o silêncio e até o apoio moral de parte da população magiar, possivelmente mais pobremente escolarizada e mais oprimida economicamente, que tende a simplificar a realidade e se deixar seduzir pelos arautos da limpeza étnica como solução para os problemas do magyar.

Pra terminar, melhor nos voltarmos pra a Arte e suas estratégias pra digerir conflitos. Ano passado em Budapeste vi um filme de animação muito bem feito e divertido chamado Nyólcker (“nhôôltsker”), cujo universo são as tensões e arranca-rabos entre duas patotas, uma de “brancos”, outra de ciganos, do submundo do Nyolcadik Kerület (Oitavo Distrito, daí a abreviação Nyólc+ker, nyolc = oito) de Budapeste, mas já entram também na roda outros elementos da confusão urbana atual, como os chineses (donos de bufês de comida rápida na cidade) e os árabes.

Nyólcker cdBoritóA trama mistura muita briga, vagabundos e vagabundas de ambos os lados, policiais corruptos, amor “romeu-e-julieta” do garoto rapper-cigano-herói pela filha do cafetão branco, descoberta de petróleo no subsolo de Budapeste, riqueza que faz todos se aproximarem, complô da CIA pra acabar com a festa, que está prejudicando as grandes petroleiras americanas, até uma ordem de Bush pra detonar Budapeste com uma bomba atômica, que termina sendo jogada em Bucareste, Romênia, por engano, confirmando um erro-clichê dos estrangeiros sobre a região.

Nyólcker ganhou merecidamente uma porção de prêmios importantes de animação pelo mundo afora. Quem quiser pode conferir a página do filme, que tem uma versão mais breve em inglês, aqui. Como dá pra perceber, a técnica de animação partiu de pessoas reais, cujos rostos foram foram fotografados em vários ângulos e depois trabalhadas na animação com corpos e movimentos inventados.

Seguem alguns trailers e clips do filme: jó szorakozást!! (divirtam-se)

1. Párbaj = o duelo

2. Csajok = as gatas

3. Julika az erkélyen = Julinha na varanda (cena do balcão!)

14/08/2009

mais Euclydes e Márai…

Convido os leitores do blog que sejam também leitores de húngaro a visitar o belo site Terasz.hu e ler outro artigo sobre essa brazil-magyar irodalmi kapcsolat. O link direto à matéria é este.

Pros brasileiros que estranharem o “brazil” com b minúsculo, explico que esse é o adjetivo “brasileiro(a)” em magiar. O nome do nosso país pra eles é Brazília, pronunciado “Bróziilió”. A frase acima, quer dizer, na ordem magiar: brasileira-magiar literária conexão.