Para o amigo Oswaldo Ribeiro, que sempre compartilha ótimas coisas que encontra por aí, e é quem me mandou o link para o texto que aqui vai traduzido. (ver + abaixo)
O conceito de “língua danificada (deteriorada, em ruínas)” (rontott nyelv) talvez seja específico à tradição hermenêutica literária húngara. Sua etimologia se baseia no morfema RO-, que gerou um grupo de de palavras em húngaro cujos significados remetem a noções de dano, decomposição, estrago, corrupção, destruição e apodrecimento, gerados espontaneamente ou infligidos. A frase posta no passado pareceria indicar que a ruína ou o dano já teria ocorrido, que é tarde demais para qualquer intervenção.
Mais especificamente, o termo rontott nyelv surgiu nos anos 1960 e 1970 para descrever ocorrências na literatura húngara contemporânea, referindo-se a poetas e escritores como Petri György, Sijj Ferenc, e Party-Nagy Lájos**. Aparece sobretudo na obra de críticos como Kulcsár-Szabó Zoltán. Em um dos sentidos, ‘língua danificada’ se referia a uma rebelião contra normas lingüísticas. É claro que, no contexto de uma nação centro-européia relativamente pequena, com suas Academias, Institutos e Comitês de Língua, a necessidade presumida de tais normas é completamente diferente da de uma vasta língua global, tal como o inglês. O legado de ‘língua danificada‘ permanece, no entanto. Um exemplo marcante é a obra de Borbély Szilárd, como na seqüência de sonetos Ámor és Psyché, nos quais a forma do soneto em si começa a se romper sob o peso filosófico da própria linguagem.
Uma olhada rápida no dicionário proporciona alguns insights intrigantes: o verbo ront pode ser usado para designar um objeto físico que não tem mais condições de uso. Em usagem mais antiga, popular, está associado à idéia de mau olhado. É a tangibilidade em si do termo língua em ruínas ou danificada que me fascina, no entanto. Essa habilidade que a língua tem de abarcar o processo de deterioração; mais especificamente, a habilidade da língua húngara de abarcar a ruína: uma formulação que de certa maneira evoca a língua como um espaço físico, um pano de fundo para um drama, a língua como, talvez, a mais monumental ruína de todas, bem como a língua como o teatro ideal para o espetáculo infeliz do estrago humano.
E há, certamente, as ocasiões quando a própria palavra, como entidade física concreta existente no espaço, começa literalmente a apodrecer. Um caso desses se encontra na poesia do tempo da guerra de Radnóti Miklós (1909-1944). Ainda durante o regime do Almirante Horthy — que Kertész Imre descreveria mais tarde como tentativa de prepará-lo para aceitar os eventos criminosos da Segunda Guerra Mundial como normais — o pressentimento de acontecimentos ainda mais sinistros que viriam é palpável na sua obra. Radnóti se converteu ao catolicismo em 1943 (em grande parte, ao que parece, por razões teológicas: sua relação com o judaísmo era complexa). Em 1940 ele foi convocado para o que era eufemisticamente denominado ‘serviço de trabalho’, mas era, na realidade, trabalho forçado; em pouco tempo o enviaram para campos de trabalho forçado na Transilvânia e, em seguida, na Sérvia. As condições eram profundamente, criminosamente brutais. Radnóti foi morto a tiros durante uma marcha forçada no outono de 1944; seu corpo foi exumado de uma cova coletiva 18 meses mais tarde. Miraculosamente, um diário de bolso do ano de 1944 sobreviveu; ainda mais miraculosamente, como escreve seu biógrafo Győző Ferenc, cinco dos dez poemas contidos nesse caderno podiam ser lidos claramente. As duas primeiras páginas trazem a anotação, escrita em cinco línguas — húngaro, sérvio, alemão, francês e inglês — de que o caderno ‘contém poemas do poeta húngaro Radnóti Miklós’ , e o pedido, expresso muito polidamente, de que ele fosse devolvido ao professor Ortutay Miklós, em Budapeste.

Quando se observam as páginas do caderno (na edição em preto-e-branco reimpressa pela Magyar Helikon, 1971), pode-se notar onde as palavras cuidadosamente escritas no outro lado da página começaram, como presenças fantasmagóricas, a atravessar o papel, que era, sem dúvida, fino e de qualidade ‘tempos-de-guerra’. Às vezes se consegue quase discernir uma palavra ou uma letra; mais freqüentemente essas presenças indecifráveis pairam no fundo como nuvens contra um céu de inverno. Vemos as palavras começando a se desintegrar diante dos olhos, a língua escrita retornando aos seus elementos constitutivos básicos de líquido e fibra, às suas origens pré-verbais. Às vezes uma frase parece emergir do véu de fumaça; às vezes desaparece nele. Győző Ferenc escreve que os dois últimos poemas estão permeados de fluidos corporais: saliva, urina, e sangue. O corpo do poeta continuou a escrever depois de ele ter sido morto.
O nome de Radnóti não é normalmente associado às pronunciadas tendências literárias (chamá-las de movimento, apesar de sua profunda significância para a literatura contemporânea húngara, seria ir longe demais) de 40 ou 50 anos após a sua morte nas mãos dos fascistas. Ambas foram, no entanto, um tipo de poesia de testemunho. Radnóti deu testemunho poético de sua época assassina; os poetas do final do século XX, com o seu uso da língua profundamente experimental e rebelde, das ‘desintegrações’ do final da era Kádár. No entanto, esses últimos poemas de Radnóti, corporificações da ruína física, arrebatados das presas da ruína, e sua decomposição literal no bolso do casaco do poeta na cova coletiva em Abda parecem prefigurar a crise e a desintegração da língua com a qual seus sucessores iriam se confrontar mais tarde — e com a qual todos nós , em alguma medida, nos confrontamos hoje.
Ottilie Mulzet traduz do magiar e do mongol. Atualmente completa um PhD sobre charadas e provérbios mongóis. Seu trabalho artístico, prosa, e fotografia têm aparecido no jornal Revolver, baseado em Praga, desde 2000.
* Tradução do inglês feita por mim de Ruined Language, Damaged Tongues, como está publicado e pode ser lido no original no site The Missing Slate.
** Aos eventuais novatos, informo que no HungriaMania costumo usar a ordem dos nomes de pessoa à maneira magiar: sobrenome antecedendo o prenome; que, aliás, parece ser comum às línguas asiáticas em geral. Quem conferir o original do artigo, em inglês, verá que ali os nomes estão todos ‘invertidos’ para se adequarem à maneira ‘ocidental’; vai encontrar, por exemplo, György Petri, ao invés de Petri György, que apareceria em texto em magiar, e é a maneira como o próprio Petri úr (Senhor Petri) se apresentaria num contexto de cultura húngara. Como eu, se fosse húngaro, ao me apresentar a outro húngaro, diria: Guedes Francisco vagyok = Sou Francisco Guedes.