Hungria: de eleições, rótulos, e outras provocações

Sziasztok!

Desde que foram divulgados os resultados das eleições parlamentares de domingo na Hungria tenho lido várias coisas que aparecem nos meus ‘radares’ nas redes sociais. Resolvi traduzir este artigo do jornalista, blogueiro e escritor britânico Neil Clark (mais informações sobre ele no final do artigo) porque para mim ele joga alguma luz nos motivos por que o Fidesz foi re-eleito com uma maioria tão significativa. Como verão, o artigo contém também outros elementos bastante provocadores, que refletem as convicções do autor. Eu pessoalmente gosto de uma provocação bem feita, que me faça pensar, questionar, duvidar, concordar – no todo ou em parte – ou discordar, refutar… coisas que provavelmente também fazem bem aos neurônios, risos. 

Segue-se o artigo, na íntegra:

Eleições na Hungria: Não se deixe enganar pelos rótulos, por Neil Clark*

De um lado temos um governo que fez re-nacionalizações, enfrentou as gananciosas companhias de energia controladas no estrangeiro, e produziu um aumento real dos salários e a queda no desemprego.

Esse governo impôs também uma tributação aos bancos e implementou outras medidas para ajudar as pessoas comuns – inclusive um decreto governamental baixando as contas de energia.

Do outro lado há uma aliança de oposição que é a favor de mais privatizações, pretende outras medidas para beneficiar os “investidores” globais, é abertamente pró-banqueiros e pró-globalização, e cujo principal membro aliado, quando esteve no poder, produziu cortes drásticos nas despesas públicas, destruiu companhias estatais, incluindo a companhia aérea Malév, e deixou milhões de de pessoas em situação pior do que antes.

Bem, você provavelmente pensaria que o governo em questão é “socialista” ou “esquerdista”, e a oposição, “conservadora”. Mas, na realidade, é o contrário. O governo húngaro, que acabou de ser re-eleito com cerca de 45% dos votos, sem dúvida tem feito mais pelas pessoas comuns do que a oposição “socialista” fez quando esteve no poder de 2002 a 2010 (e digo isso como socialista de toda vida, e não defensor do Fidesz).

A Hungria demonstra que temos que tomar cuidado com os “rótulos” quando se trata de eleições na era do neoliberalismo e da globalização. Pois algumas vezes são os partidos “conservadores” que podem – e conseguem – oferecer às pessoas comuns muito mais do que os “socialistas”, ou que se pretendem de “esquerda” ou “centro-esquerda”.

Falsa esquerda

Em anos recentes temos visto em toda a Europa partidos da dita “esquerda” ou “centro-esquerda” apoiar guerras ilegais da NATO, implementar privatizações, austeridade e outras “reformas” para beneficiar os 1%. Quando os franceses votaram nos socialistas em 2012 provavelmente não imaginavam que estavam elegendo um presidente que era ainda mais belicista que Nicolás Sarkozy, o bombardeador da Líbia, mas foi exatamente isso que aconteceu.

Nem os eleitores britânicos que votaram nos trabalhistas em 1997 podiam prever que Tony Blair levaria o país a uma sucessão de guerras ilegais de agressão, ou que sob o governo trabalhista a diferença entre pobres e ricos continuaria a crescer como tinha acontecido quando os conservadores estavam no poder.

Os alemães que votaram no Partido Social Democrata (SPD) em 1998 também não teriam acreditado que o partido introduziria reformas neoliberais que iriam mais longe do que qualquer coisa feita pela administração anterior, liderada pelos democratas cristãos.

A esquerda europeia definitivamente não é o que era 40 anos atrás, quando tínhamos partidos genuinamente socialistas liderados por socialistas genuínos. Quando votamos em eleições hoje em dia precisamos ter consciência clara da “falsa esquerda”, de como os partidos esquerdistas europeus em anos recentes têm sido dominados por forças pró-guerra, pró-globalização e pró-neoliberalismo, cuja missão é destruir os últimos vestígios do socialismo e da social-democracia – e amarrar firmemente a política externa dos seus países aos EUA, enquanto demonstram total obediência também à UE, bem como forte apoio a Israel.

Os rótulos

Para não sermos enganados, é importante não julgarmos os políticos ou seus partidos pelos nomes que ele se dão, mas pelo que fazem. Enquanto o Primeiro Ministro “direitista” da Hungria combatia as companhias de energia, o ex-Primeiro Ministro Gordon Bajnai, da oposição “esquerdista liberal” pedia o retorno de uma política econômica “racional”, isto é, amiga do capital internacional.

Precisamos fazer uma proposta aos investidores: cortes nos impostos em troca de investimento”, dizia Bajnal.

E enquanto o Ministro da Economia Mihály Varga advertiu que sanções contra a Russia não seriam do interesse nacional da Hungria, (elas claramente não o são) Bajnai e outros membros da Aliança da Unidade “progressista” e “esquerdista liberal” atacaram o governo por não defender a Ucrânia e condenar a Rússia. A agenda da oposição húngara está aí para quem quiser ver.

O povo húngaro, diga-se em seu crédito, não se deixou enganar pelos globalistas pró-grandes empresas mascarados de “progressistas” nesta eleição: o bloco de oposição obteve cerca de 25% dos votos.

A reação internacional aos resultados da eleição na Hungria também é reveladora. Temos visto muitos tweets e artigos de comentaristas do establishment ocidental expressando seu alarme em relação ao crescimento do Jobbik, um partido radical ultranacionalista que obteve em torno de 20% dos votos, 4% mais do que quatro anos atrás.

Curiosamente, no entanto, a mesma turma de comentaristas do establishment que nos nos adverte sobre os perigos do Jobbik na Hungria, poucas semanas atrás apoiava um golpe violento liderado por ultra-direitistas/neonazistas contra um governo democraticamente eleito na vizinha Ucrânia. Parece que não deveríamos considerar como um problema a chegada de racistas, anti-semitas e homofóbicos ao poder na Ucrânia. Mas espera-se que perdamos noites de sono por causa do apoio ao Jobbik na Hungria, embora esse partido não terá membros no novo governo, como os grupos de ultra-direita em Kiev têm atualmente.

Popular anti-popular

Por que os dois pesos e duas medidas? Bom, o Jobbik é anti-União Europeia mas não anti-Russia, diferentemente dos grupos ultranacionalistas da Ucrânia. Em outras palavras, as elites ocidentais baseiam sua visão sobre os partidos ultra-nacionalistas não numa avaliação objetiva desses grupos, mas considerando a posição deles em relação à Russia, e se eles podem ajudar a alcançar seus objetivos geoestratégicos. Devemos odiar o Jobbik com todas as nossas forças, mas não precisamos odiar os grupos mascarados de extrema-direita mais extremistas e mais violentos que, mascarados e atirando coquetéis Molotov, derrubam à força um governo democrático na Ucrânia. Na verdade não devemos nem prestar atenção a eles.

A cobertura negativa que o governo da Hungria recebe da mídia elitista ocidental tem a mesma causa. O governo da Hungria é tratado negativamente na imprensa porque vem se tornando cada vez mais eurocético, afastando-se do neoliberalismo, impôs tributos a multinacionais estrangeiras e – talvez seu maior “crime” – tem buscado laços financeiros mais próximos e maior cooperação com a Russia.

A política de Orbán é permanecer na União Europeia mas rejeitar as suas pressões, e levar a Hungria a fazer o que é melhor para a Hungria. Trata-se de uma posição que é claramente popular com os eleitores, mas não com Bruxelas. A elite ocidental odeia não só o socialismo – socialismo mesmo, não-diluído, do tipo venezuelano – mas qualquer governo que combine nacionalismo moderado com populismo econômico, como Orbán faz. As grandes empresas tiveram vida fácil na Hungria no período de 2002 a 2010, quando os “socialistas” estavam no poder, vendendo os ativos do país e fazendo um empréstimo ao FMI do qual o país não precisava; agora o capitalismo global não anda muito contente com a caminho mais independente adotado em Budapeste.

Ao invés de ficar acabrunhada com a volta de um governo “conservador” na Hungria, a esquerda genuína deveria se alegrar com o fato de a modalidade falsa ter levado outra surra, como ocorreu em 2010. Agora há uma oportunidade de uma oposição de esquerda genuinamente anti-imperialista, anti-globalista, anti-neoliberal e anti-elitista emergir e desafiar o governo e o Jobbik de uma perspectiva socialista na próxima eleição. De qualquer modo, considerando-se o ocorrido nos últimos 12 anos, há mais probabilidade de um governo do Fidesz beneficiar as pessoas comuns do que o governo neoliberal irredutível que a Hungria iria ter agora se a oposição tivesse ganhado as eleições.

Olhando para um quadro mais abrangente, a esperança é de que a derrota da esquerda ‘fake’ na Hungria possa levar à sua destruição também em outros países; com partidos falsamente socialistas/progressistas sendo substituídos por partidos genuínos, que ponham os interesses da maioria em primeiro lugar. Na Alemanha esse processo já começou, como o Die Linke (A Esquerda) desafiando fortemente o colaboracionista SPD.

Enquanto isso é de se esperar que os ataques ocidentais à Hungria continuem. Afinal é o tratamento dado a qualquer país onde uma eleição não sai do jeito que os 1% querem.

* Hungary’s elections: Don’t be fooled by the labels, de Neil Clark, publicado no site RT – Question More

 

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A Hungria 4 anos depois: volta o medo*

Com a ida dos húngaros às cabines de votação neste domingo (6 de abril), a imprensa internacional vem dirigindo a atenção para o governo do Fidesz, cuja re-eleição é previsível. Nos últimos quatro anos o governo Orbán tornou-se notório por revisões da história húngara, pressão sobre bancos e companhias de energia, tratamento sofrível das minorias, e limitações na liberdade de expressão.

Algo que tem faltado em boa parte da cobertura sobre a Hungria, no entanto, é o aumento do medo na sociedade húngara. Alguns poucos jornalistas húngaros tem tido a coragem de falar das suas experiências com a intimidação e a censura, especialmente na imprensa estatal, onde certos assuntos não podem ser tratados. Alguns ex-funcionários estatais, desde o ex-membro da administração do Fidesz na área da agricultura, Ángyan József, até burocratas do Banco Central têm denunciado corrupção e intolerância com opinião dissidente em todo o aparelho governamental. O Fidesz e a oligarquia de seus apoiadores controlam não só a burocracia estatal e a maior parte da mídia, mas também muitos negócios e contratos governamentais. Maridos, esposas e amigos de figuras da oposição, portanto, não conseguem empregos. O resultado é que alguns húngaros passaram a ter medo de expressar suas opiniões.

Esse medo se estende para além dos ministérios e órgãos de mídia. Existe em empresas privadas, nas escolas, e em lares por todo o país. Na sua raiz, o medo provém do declínio das instituições democráticas da Hungria e da falta de controles sociais sobre o poder do partido no poder. Nos últimos quatro anos o Fidesz vem usando sua maioria de dois terços no parlamento para assumir o controle de instituições nominalmente independentes. O Conselho de Mídia, que supervisiona ambos a imprensa oficial e a imprensa privada, é dominado por membros leais ao Fidesz. Juízes da mais alta corte foram obrigados a se afastar para dar lugar aos nomeados por Orbán, solapando-se assim o papel do judiciário de fiscalizador das ações do executivo. Não há, portanto, qualquer instituição para defender as pessoas despedidas por motivos políticos, ninguém disposto a iniciar uma investigação sobre a censura.

O medo não é, é claro, comparável ao medo que sentem chineses, uzbeques, ou iranianos, que vivem sob regimes muito mais fortes e autoritários. Mas a volta do medo à Hungria após uma ausência de duas décadas é um fato significativo. Ele tem um impacto no dia-a-dia de milhões de pessoas, e não tem lugar em uma sociedade democrática morderna. A existência desse tipo de medo dentro da União Europeia deveria disparar alarmes em todo o continente.

O Fidesz provavelmente ganhará as eleições, mas o medo não tem que continuar junto com o governo Orbán. Embora os tribunais não sejam mais independentes, os cidadãos podem buscar a União Europeia, que deve aliar ações concretas à sua retórica, inclusive suspendendo verbas da UE enquanto a Hungria continuar violando os direitos de seus próprios cidadãos. Funcionários públicos que se depararem com abusos de poder devem denunciar. Cidadãos comuns precisam se sentir no direito de debater os eventos atuais com seus amigos, vizinhos, e colegas de trabalho. Há membros do Fidesz que veem com reserva a direção do seu partido. Eles devem desafiar sua liderança. Como Vaclav Havel escreveu em O Poder dos Sem-poder, temos que viver dentro da verdade.

*tradução (minha) de “Hungary four years on: the return of fear“, artigo de @liliebayer para o site Vostok Cable, que me chegou hoje pelo twitter via @ZwKrakowie (Zoltán Aszod). 

 

 

PS:Para quem lê inglês, no Christian Science Monitor de hoje há um artigo de Valentina Jovanovski também sobre as eleições parlamentares na Hungria: Hungary heads to the polls. Is it a ‘free but unfair’ election?

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Poesia nas vidraças de Debrecen*

Nos últimos dias vêm aparecendo poemas e versos escritos nas vidraças de lojas, bancos, bares e instituições públicas de Debrecen, cidade do nordeste da Hungria onde morei no final dos anos 90, como alguns devem lembrar de outros posts.

Nas janelas da Escola Secundária de Música estudantes de Comunicação da Universidade de Debrecen escreveram o longo Bartók, poema de Illyés Gyula escrito em 1955 e dedicado ao célebre músico e compositor, também conhecido, sobretudo na Hungria, por sua extensa pesquisa da magyar népzene, a rica música de raiz popular magiar.

Surgiram também, por exemplo, versos de Petőfi Sándor na vitrine de uma loja de bolsas, e algumas linhas de Ady Endre decorando a vidraça de um banco. 

“Preparamos esta ação através de contatos pessoais diretos. Os proprietários de estabelecimentos comerciais receberam bem a ideia, assim como os dirigentes das instituições culturais”, afirma Vranyecz Tünde, responsável pela organização.

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O objetivo da iniciativa, inédita na Hungria, é aproximar, pelo impacto e surpresa, a poesia das pessoas em geral. E a poesia trazida para as ruas vem agradado os pedestres.

“Estamos chamando a atenção para o Festival de Poesia de Debrecen, que começa na próxima semana. Gostaríamos de vestir a cidade de poesia”, revela Kovács Béla Lóránt, diretor da Biblioteca Méliusz.

Até agora as citações poéticas já se espalharam por mais de cinquenta pontos da cidade, e deverão permanecer nas vitrines do centro de Debrecen até o final de abril.

*Adaptado do artigo “Líra az utcán: versek díszítik a debreceni kirakatokat” do site de notícias DEHIR: "http://www.dehir.hu/debrecen/lira-az-utcan-versek-diszitik-a-debreceni-kirakatokat/2014/04/02/

via twitter @molyhu

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Frida Kahlo: uma conexão húngara

Sziasztok!

Acabo de voltar de uma viagem de 15 dias ao México. Visitei a capital, Cidade do México, onde fiquei 12 dias, e de onde quase não conseguia sair, tantas eram as coisas que queria ver e fazer lá, e passei 3 dias em Puebla, o que valeu muito a pena também.

Mas o México não é assunto para o blog, quem tiver interesse ou curiosidade pode pesquisar essas duas cidades (ou o fascinante pais inteiro) na rede. O que me traz aqui foi a surpresa de descobrir uma conexão familiar de Frida Kahlo, por via paterna, com a Hungria, o que descobri visitando a Casa Azul, hoje museu dedicado a ela, onde Frida e Diego Rivera moraram de 1929 a 1954.

Para ganhar tempo (e obrigar todo mundo praticar um pouco a leitura em espanhol, risos), segue o trecho da biografia de Frida que fala sobre seu pai, Wilhelm/Guilherme Kahlo (visto aqui num retrato a óleo feito por Frida em 1951):

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“El padre de Frida, Guillermo Kahlo (1872-1941), también un fotógrafo y artista nació bajo el nombre de Wilhelm Kahlo en Baden-Baden, Alemania. Guillermo era hijo de Jakob Heinrich Kahlo, un joyero y platero y de Henriette Kauffman,
ambos judíos húngaros que emigraron a Alemania. Wilhelm Kahlo se trasladó a México en 1891, y a su llegada cambió su nombre alemán de Wilhelm al equivalente español, Guillermo. Después de llegar a México, pronto contrajo matrimonio con María Cárdena y tuvo tres hijas con ella, la segunda murió días después del parto y María falleció después del parto de su tercera hija, dejando a Guillermo solo con sus dos hijas. Las niñas fueron enviadas a vivir en un convento y Kahlo se caso con la madre de Frida, Matilde Calderón. Con Matilde, Guillermo Kahlo tuvo cuatro hijas: Matilde (1898-1951), Adriana (1902-1968), Frida (1907-1954) y Cristina (1908-1964).” in http://www.fridakahlofans.com

 

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Rónai Pál / Paulo Rónai e ‘Como Aprendi o Português’

Sziasztok!
Desde que a imprensa começou a comentar e comemorar a re-edição de Como Aprendi o Português, livro de Paulo Rónai que, numa edição de décadas atrás, foi meu primeiro contato com o ‘mistério’ da língua magiar (sobre isso escrevi aqui ainda nos primórdios do blog), tenho andado me coçando para escrever alguma coisa sobre o livro e, sobretudo, sobre Paulo Rónai, que é a figura humana mais próxima de um ‘ídolo’ para mim (quem não entender por quê, talvez descubra fazendo uma busca no nome dele na internet).
Paulo-Ronai
Mas os dias foram passando, mais coisas – muitas coisas – foram sendo publicadas sobre o evento e sobre o gigante Rónai, e e comecei a achar que corria sério risco de chover no molhado. Pensei em transcrever simplesmente um ou mais dos bons textos surgidos nos jornais, mas uma coisa e outra foram me fazendo adiar. Até que hoje de manhã meu amigo-irmão carioca Gustavo Barbosa me mandou o link para esta coluna Caetano Veloso n’O Globo deste domingo, 18 de agosto.

Para mim Caetano ‘juntou as pontas’ sobre Paulo Rónai, o livro, nós, o Brasil, tudo; e a emoção que senti ao ler dissipou minhas dúvidas. Segue a coluna de CV:

RÓNAI

Quais as nossas possibilidades de não decepcionar o amor de alguém como Rónai pelo nosso país?
Ganhei de Hélio Eichbauer, como presente de aniversário, um livrinho precioso (entre outros cheios de interesse, ofertados por outros amigos, a que talvez venha a me referir aqui um dia): “Como aprendi o português e outras aventuras”, de Paulo Rónai. Conhecia Rónai de fama e principalmente pelas traduções de Balzac, por ele coordenadas, comentadas e introduzidas, que são um capítulo à parte em minha formação pessoal. Mas o pequeno livro que começa contando como ele, já adulto e professor na Hungria, aprendeu, sozinho, a nossa língua — a língua de um país onde ele então nem sonhava que iria parar — é um encantamento de leveza e profundidade. Rónai não contava com a possibilidade de que o crescimento do nazismo e do fascismo, com a guerra que produziu, o empurrasse para este país maluco, que ele tratou com tanta sobriedade, e no qual se entranhou de modo tão natural.
No livro, além da breve narrativa de como ele entrou em contato com a língua de Camões (que, aprendida em livros, não pôde ser reconhecida nos sons lusitanos, quando ele passou por Lisboa a caminho do Novo Mundo, mas foi reencontrada nos primeiros brasileiros que ele encontrou ao aqui aportar, trabalhadores que lhe portavam a bagagem e funcionários da alfândega), há compartilhamento de segredos da língua magiar (desde a informação — que eu já encontrara no “Budapeste” de Chico Buarque — de que todas as palavras húngaras têm acentuação tônica na primeira sílaba, fato que me parece enigmático e que tenho dificuldade de tentar reproduzir na cabeça, até a onipresença do cachorro nos provérbios e ditos húngaros), um artigo sobre a presença mundial de Camões e “Os lusíadas”, e sugestões para o aprimoramento do ensino em nossas escolas. Fagulhas de diálogos com Guimarães Rosa e entusiasmada reiteração da amizade e admiração por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira se distribuem pelas páginas do livro.
Bate em mim de modo forte a informação de que esse livro de Paulo Rónai foi publicado em 1956. Foi o ano que passei no Rio. Foi o ano em que Vinicius e Tom Jobim compuseram e lançaram o “Orfeu da Conceição” (e que me levou a contar, de volta a Santo Amaro um ano depois, por causa de uma entrevista de Haroldo Costa sobre a peça, que entrevi na TV de um amigo dos meus primos em cuja casa eu morei naquele ano, que o então já famoso letrista Vinicius de Moraes, de quem meus colegas falavam no ginásio Theodoro Sampaio, era preto — o que o próprio Vinicius, sem saber, ecoou, anos depois, na afirmação, incluída no “Samba da bênção”, de que ele era “o branco mais preto do Brasil”). Fico imaginando o quanto eu ansiava, em Guadalupe, por algo como o livrinho de Rónai, sem imaginar que isso estivesse ao alcance de minha mão. E, agora, leio as palavras dele sobre nossa língua, nossa cultura e nossa vida estudantil à luz de tudo o que aconteceu nesses anos que nos separam daquele. À luz do que os brasileiros pedem hoje de seu sistema educacional.
Neste exato momento, estou me preparando para entrar no palco e fazer o show “Abraçaço” para que seja gravado em DVD. E tenho na cabeça o livro simples e rico de Paulo Rónai. Quais as nossas possibilidades de não decepcionar o amor de alguém como Rónai pelo nosso país? Como devemos medir nossas responsabilidades? Leio que o ministro Joaquim Barbosa tratou o colega Lewandowski de modo no mínimo inapropriado. E que o dólar subiu mais do que em 2009. Uma manifestação é tida como desproporcional por, contando com 200 participantes, ter parado o trânsito da cidade por mais de sete horas. O Capilé, o Fora do Eixo e mesmo a Mídia Ninja, me contam, vêm sendo linchados nas redes sociais. Quantos esforços temos que fazer para dar conta do que nos é apresentado pela realidade! Precisamos de calma e firmeza, destreza e maleabilidade, tudo num ritmo adequado à capacidade de superação de crises. A leitura surpreendente desse livro pequeno e despretensioso me deu uma lição inesperada de senso de medida, de elegância eficaz, de amor respeitoso e ponderado. Paulo Rónai não saberia o quão grato um semidesorientado menino de 14 anos de Guadalupe se sente, aos 71, à sua inteligência, sua serenidade e sua confiança. Sim, a confiança natural que emana das páginas de seu livro, confiança em nós, é o que mais me marcou nessa leitura. Rónai exala uma confiança instintiva no Brasil. Tentemos viver à altura.”

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‘Geração Praça Moscou’ – cinema húngaro no CCBB

Sziasztok!

quem está em ou perto de Brasília, Rio ou São Paulo este mês tem uma ótima oportunidade de conferir uma amostra do cinema feito na Hungria hoje. O Ministério da Cultura e o Centro Cultural Banco do Brasil apresentam uma seleção de filmes da “Geração Praça Moscou”, “termo utilizado pela crítica para designar o conjunto de jovens cineastas que estiveram presentes no Festival de Cannes de 2010, onde se observou uma forte representatividade do cinema húngaro”, segundo reza o release que encontramos no site do CCBB.

Aqui o link para a página do evento no facebook.

E uma vinheta preparada também pelo CCBB:

Quem sabe nos encontramos no Rio? Por coincidência eu estou de viagem pra lá dia 13, a tempo de pegar algumas sessões ;)

PS: Aproveitando o embalo, coloquei aí em cima um detalhe de uma foto da Moskva Tér (Praça Moscou) que encontrei na web, de um certo Ridi Graz. (Tenho duas minhas, mas ficaram um tanto escuras quando recortadas para se adaptar ao formato do cabeçalho).

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Rontott nyelv: a língua danificada, por Ottilie Mulzet*

Para o amigo Oswaldo Ribeiro, que sempre compartilha ótimas coisas que encontra por aí, e é quem me mandou o link para o texto que aqui vai traduzido. (ver + abaixo)

O conceito de “língua danificada (deteriorada, em ruínas)” (rontott nyelv) talvez seja específico à tradição hermenêutica literária húngara. Sua etimologia se baseia no morfema RO-, que gerou um grupo de de palavras em húngaro cujos significados remetem a noções de dano, decomposição, estrago, corrupção, destruição e apodrecimento, gerados espontaneamente ou infligidos. A frase posta no passado pareceria indicar que a ruína ou o dano já teria ocorrido, que é tarde demais para qualquer intervenção.

Mais especificamente, o termo rontott nyelv surgiu nos anos 1960 e 1970 para descrever ocorrências na literatura húngara contemporânea, referindo-se a poetas e escritores como Petri György, Sijj Ferenc, e Party-Nagy Lájos**. Aparece sobretudo na obra de críticos como Kulcsár-Szabó Zoltán. Em um dos sentidos, ‘língua danificada’ se referia a uma rebelião contra normas lingüísticas. É claro que, no contexto de uma nação centro-européia relativamente pequena, com suas Academias, Institutos e Comitês de Língua, a necessidade presumida de tais normas é completamente diferente da de uma vasta língua global, tal como o inglês. O legado de ‘língua danificada‘ permanece, no entanto. Um exemplo marcante é a obra de Borbély Szilárd, como na seqüência de sonetos Ámor és Psyché, nos quais a forma do soneto em si começa a se romper sob o peso filosófico da própria linguagem.

Uma olhada rápida no dicionário proporciona alguns insights intrigantes: o verbo ront pode ser usado para designar um objeto físico que não tem mais condições de uso. Em usagem mais antiga, popular, está associado à idéia de mau olhado. É a tangibilidade em si do termo língua em ruínas ou danificada que me fascina, no entanto. Essa habilidade que a língua tem de abarcar o processo de deterioração; mais especificamente, a habilidade da língua húngara de abarcar a ruína: uma formulação que de certa maneira evoca a língua como um espaço físico, um pano de fundo para um drama, a língua como, talvez, a mais monumental ruína de todas, bem como a língua como o teatro ideal para o espetáculo infeliz do estrago humano.

E há, certamente, as ocasiões quando a própria palavra, como entidade física concreta existente no espaço, começa literalmente a apodrecer. Um caso desses se encontra na poesia do tempo da guerra de Radnóti Miklós (1909-1944). Ainda durante o regime do Almirante Horthy — que Kertész Imre descreveria mais tarde como tentativa de prepará-lo para aceitar os eventos criminosos da Segunda Guerra Mundial como normais — o pressentimento de acontecimentos ainda mais sinistros que viriam é palpável na sua obra. Radnóti se converteu ao catolicismo em 1943 (em grande parte, ao que parece, por razões teológicas: sua relação com o judaísmo era complexa). Em 1940 ele foi convocado para o que era eufemisticamente denominado ‘serviço de trabalho’, mas era, na realidade, trabalho forçado; em pouco tempo o enviaram para campos de trabalho forçado na Transilvânia e, em seguida, na Sérvia. As condições eram profundamente, criminosamente brutais. Radnóti foi morto a tiros durante uma marcha forçada no outono de 1944; seu corpo foi exumado de uma cova coletiva 18 meses mais tarde. Miraculosamente, um diário de bolso do ano de 1944 sobreviveu; ainda mais miraculosamente, como escreve seu biógrafo Győző Ferenc, cinco dos dez poemas contidos nesse caderno podiam ser lidos claramente. As duas primeiras páginas trazem a anotação, escrita em cinco línguas — húngaro, sérvio, alemão, francês e inglês — de que o caderno ‘contém poemas do poeta húngaro Radnóti Miklós’ , e o pedido, expresso muito polidamente, de que ele fosse devolvido ao professor Ortutay Miklós, em Budapeste.
RM
Quando se observam as páginas do caderno (na edição em preto-e-branco reimpressa pela Magyar Helikon, 1971), pode-se notar onde as palavras cuidadosamente escritas no outro lado da página começaram, como presenças fantasmagóricas, a atravessar o papel, que era, sem dúvida, fino e de qualidade ‘tempos-de-guerra’. Às vezes se consegue quase discernir uma palavra ou uma letra; mais freqüentemente essas presenças indecifráveis pairam no fundo como nuvens contra um céu de inverno. Vemos as palavras começando a se desintegrar diante dos olhos, a língua escrita retornando aos seus elementos constitutivos básicos de líquido e fibra, às suas origens pré-verbais. Às vezes uma frase parece emergir do véu de fumaça; às vezes desaparece nele. Győző Ferenc escreve que os dois últimos poemas estão permeados de fluidos corporais: saliva, urina, e sangue. O corpo do poeta continuou a escrever depois de ele ter sido morto.

O nome de Radnóti não é normalmente associado às pronunciadas tendências literárias (chamá-las de movimento, apesar de sua profunda significância para a literatura contemporânea húngara, seria ir longe demais) de 40 ou 50 anos após a sua morte nas mãos dos fascistas. Ambas foram, no entanto, um tipo de poesia de testemunho. Radnóti deu testemunho poético de sua época assassina; os poetas do final do século XX, com o seu uso da língua profundamente experimental e rebelde, das ‘desintegrações’ do final da era Kádár. No entanto, esses últimos poemas de Radnóti, corporificações da ruína física, arrebatados das presas da ruína, e sua decomposição literal no bolso do casaco do poeta na cova coletiva em Abda parecem prefigurar a crise e a desintegração da língua com a qual seus sucessores iriam se confrontar mais tarde — e com a qual todos nós , em alguma medida, nos confrontamos hoje.

Ottilie Mulzet traduz do magiar e do mongol. Atualmente completa um PhD sobre charadas e provérbios mongóis. Seu trabalho artístico, prosa, e fotografia têm aparecido no jornal Revolver, baseado em Praga, desde 2000.

* Tradução do inglês feita por mim de Ruined Language, Damaged Tongues, como está publicado e pode ser lido no original no site The Missing Slate.

** Aos eventuais novatos, informo que no HungriaMania costumo usar a ordem dos nomes de pessoa à maneira magiar: sobrenome antecedendo o prenome; que, aliás, parece ser comum às línguas asiáticas em geral. Quem conferir o original do artigo, em inglês, verá que ali os nomes estão todos ‘invertidos’ para se adequarem à maneira ‘ocidental'; vai encontrar, por exemplo, György Petri, ao invés de Petri György, que apareceria em texto em magiar, e é a maneira como o próprio Petri úr (Senhor Petri) se apresentaria num contexto de cultura húngara. Como eu, se fosse húngaro, ao me apresentar a outro húngaro, diria: Guedes Francisco vagyok = Sou Francisco Guedes.

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