Kedves barátaim / caros amigos (meus), desculpem a demora em atualizar o blog. Uma mistura de outras atividades pedindo atenção e urgência mais uma sequia temporário de imaginação e idéias me mantiveram longe daqui este último mês de pouco. Mas aqui estamos outra vez.
Descobri esses dias no hírlevél/híír-levêêl/ (informativo, literalmente carta, levél, (de) notícia, hír) da Comunidade Húngara de São Paulo que de 28 de outubro a 1 de novembro agora rolou em Budapeste a mostra A Brazil Film Útjai (rumos do cinema brasileiro).
Além de curioso pelo evento, fiquei com saudades porque o filmes passaram no Művész Mozi, meu cinema favorito na cidade, um dos três da cadeia Art Mozi, onde só costuma passar filme de boa qualidade, inclusive os ditos “de arte”, que os cinemas convencionais (hoje quase tudo nos shoppings, como aqui) refugam porque dão pouco público. O site da mostra está aqui, pra quem quiser conferir.
Művész Mozi, uma das portas da frente
Sobre o nome do cinema: Művész quer dizer ‘artista’, vem de mű, obra, composição, artefato, coisa feita pelo homem, uma raíz que aparece num grande número de palavras, inclusive de significados aparentemente díspares, como műanyag (plástico), műbarát (apreciador de arte), műasztalos (marceneiro), műbíraló (crítico de arte), műbolygó (satélite artificial), műépitész (arquiteto), műfog (dente postiço), műhely (oficina), műkedvelés (amadorismo), műsor (programação), e működés (funcionamento) só pra dar alguns exemplos. O que todas elas têm em comum é a conexão com algo feito pela mão do homem, não encontrado na natureza.
Mozi /môzi/, por sua vez, é cinema mesmo, lugar onde passam filmes, o movie theatre dos americanos, ou cinema dos ingleses e nosso. Daí, convidando alguém pra ir ao cinema dizemos: menjük a moziba, onde o -ba final equivale a ‘para dentro de’, já que, como vimos antes, o magiar é língua aglutinativa, ajunta ao final das palavras partículas que nas línguas indo-européias geralmente são palavras separadas, como preposições, conjunções e pronomes possessivos, pra quem ainda sabe o que é isso, risos.
A pergunta ‘o que está passando no cinema?’, por exemplo, já vai implicar noutro sufixo pra mozi, fica: Mit játszanak a moziban? já que agora não se trata de ‘para dentro de’ e sim de ‘no/na/dentro de’, e aí o sufixo é -ban, sacou? A pergunta diz literalmente: ‘O que tocam/brincam/executam o cinema-no?’, porque o verbo játszani pode ter esses vários significados e ser usado pra brincadeira de criança,pra música e, como vimos, pro cinema também.
Curiosamente, embora játék /jáátêêk/ signifique jogo, bincadeira, execução, interpretação, játékfilm quer dizer filme de longa-metragem. Dessas surpresas que toda língua tem. Por exemplo, ouvi hoje na TV uma garota contando uma história e dizendo “àquela altura”, referindo-se, obviamente a um determinado tempo. E pensei: puxa, nós usamos “altura” pra nos referir a tempo… como será que um estrangeiro aprendendo o português vê isso…
Finalmente, quem conferir o site do Brazil Film Útjai e parar com o mause sobre a foto de cada um deles, vai ver surgir uma tela meio transparente com os créditos dos filmes. Aí provavelmente perceberão que: rendező é diretor, forgatókönyv é roteiro, operatör é o diretor de fotografia, vagó é editor, zene é música, e szereplők são os atores. Depois vem uma seção chamada leirás, descrição, e, em alguns casos, díjak, prêmios.
Relendo ontem à noite um conto de Ficsku Pál, que deve constar da antologia de jovens autores húngaros que vamos lançar depois do carnaval de 2010, me deparei com a estranha expressão “goikómitics”, escrita assim mesmo, entre aspas. Estranha, pra mim, é claro.
Ficsku Pál
No conto, o narrador tem um flashback da sua infância na Hungria socialista e volta-lhe como um filme, entre outras coisas, a lembrança dos caminhoneiros iugoslavos “com placas alemãs” que passavam regularmente pela sua cidade e traziam, sob encomenda, muambagens variadas da Europa capitalista. E, num dado momento, diz que eles eram “como “gojkómitics”, os moicanos caminhoneiros da nossa infância”.
(Ulzana - Destino e Esperança)
Intrigado, fui garimpar o negócio e descobri um rico filão. Nos anos do comunismo, a meninada húngara assistia a filmes de faroeste feitos nos estúdios GDR DEFA, da Alemanha Oriental. O curioso (e, claro, ideologicamente significativo) é que, ao contrário do que ocorria nos filmes americanos, os heróis desses “Red Westerns” eram sempre os peles-vermelhas, e não os cowboys.
Pois bem, um bonitão chamado Gojko Mitić (Гojкo Митић, em cirílico sérvio), nascido na Sérvia em 1940 era a grande estrela de maior parte desses filmes. Goikómitics era, portanto, a forma magiarizada do nome do ator a partir do seu som, /goykô mítich/.
Descobri também que em 2001 um alemão chamado Ramon Kramer rodou o documentário Der Berufsindianer – Gojko Mitic in der Prärie (O índio profissional – Gojko Mitic na pradaria), para o qual levou o ex-indio de cinema ao Meio-Oeste americano para conhecer lugares importantes na história dos guerreiros norteamericanos que ele protagonizou na ficção. Aqui o site do filme.
Gojko Mitić na Reserva Sioux Pine Ridge em Wounded Knee
Catando o youtube encontrei estas adoráveis pérolas históricas com o galã pele-vermelha cujos filmes ali pelos anos 60 e 70 certamente devem ter aguçado tanto a fantasia da meninada da antiga “cortina de ferro” como os faroestes que os natalenses da minha geração assistiam nas vesperais do REX, de doce memória, aonde, aliás, a gente ia também só pra trocar gibis na calçada. Good ol’days!
Atenção para a coreografia dos navajos leste-europeus em “A grande cobra”, e depois o par romântico pele-vermelha (tudo depois dos longos créditos):
ou vibrem com o bravo guerreiro-domador de cavalos do faroeste ‘alpino’ “O rastro do falcão”:
Nota: Este texto foi escrito e postado aqui em março passado. Resolvi trazê-lo de volta agora (com uns poucos retoques) porque gosto dele e queria que as pessoas que apareceram por aqui mais recentemente também pudessem ler, sem precisar sair catando o blog inteiro.
A puszta no parque nacional de Hortobágy, perto de Debrecen
Até morar na Hungria eu tinha agonia da planura. Nascido e crescido entre as curvas suaves das dunas potiguares, menino da Cirolândia que brincava nas saias do Morro de Mãe Luiza, a primeira vez que vivi a planície absoluta, viajando de carro pela beirada sul do Lago Ontario em direção à fronteira em Niagara Falls, já tinha meus dezesseis anos. Lembro claramente que aquela ausência de variedade orográfica até aonde a vista dava me deixou fisicamente mal, enjoado. Fiquei constituído dum desafeto de planície, e nunca pensei que isso um dia podia mudar.
Budavár, de um ângulo diferente do tradicional nos postais
Mas a Terra rodopiou muitas vezes em redor do sol, e, como já contei antes, em julho de 1998 eu fui parar na Hungria. Manter a leitura →
Dando uma olhada indagora no terasz.hu, editado por Balogh Robert, que é autor de um conto publicado aqui, me dei conta de que hoje, segundo domingo de setembro, estão comemorando na Hungria o magyar dal napja.
Traduzindo na ordem original temos: “magiar canção dia-da”; dal = canção, /dól/, e nap = dia (mas também significa sol, o que pra mim faz muito sentido). O a final em napja, com a ajuda fonética de um j, pra soar /nópyó/, é a marca do possessivo, que como já se comentou antes, recai sempre na “coisa possuída” (embora muitas vezes também no “possuidor”, o que não é o caso aqui).
Mas enfim, a festança já começou desde a meia-noite do sábado com apresentação de DJs, e este ano rolam eventos em 22 locais diferentes, nove dos quais em cidades do interior. E em todos eles serão feitas homenagens a Cseh Tamás, que morreu recentemente.
Do dia da canção do ano passado peguei esse roquinho básico dos Pál Utcai fiúk (Meninos da Rua Paulo), que aliás eu nem conhecia : A bál = a festa / o baile. Quem não gostar da música pode até curtir o clima do concertão ao ar livre.
E pra gente não esquecer que os magiares originais vieram de algum lugar bem looonge, a linda voz da linda Herczku Ágnes numa toada de sabor asiático: Ha te tudnad, Se tu soubesses.
Os leitores mais antigos do blog já conhecem essa voz daqui.
A queda do Muro de Berlin começou na Hungria em agosto de 1989.
Fronteira Hungria-Austria, 1989
E a CNN lança este mês uma série de reportagens chamada “Hungary: Autumn of Change” dedicada aos eventos na Hungria em 1989 que marcaram o primeiro rompimento das cercas de arame farpado e dos muros com que os satélites socialistas da antiga União Soviética mantiveram seus cidadãos separados do resto da Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.
O programa que foi ao ar hoje (10/9) lembrou a data histórica de 19 de agosto de 89, quando centenas de cidadãos alemães da DDR (Deustche Demokratische Republik, como se auto-denominava o estado socialista alemão oriental) que haviam se juntado num piquenique perto da cidade de Sopron, (pron: /shópronn/), na divisa com a Austria, forçaram a abertura das cercas e entraram na Austria dizendo tchau pro “paraíso” socialista tão decantado pelo poder emanado de Moscou.
A estratégia de fuga deu certo para as primeiras centenas de alemães que conseguiram atingir Sopron e a fronteira, pois os guardas húngaros foram pegos de surpresa e não se dispuseram a reprimir os que sonhavam com as liberdades individuais do mundo capitalista. Mas em seguida chegaram reforços militares húngaros e a passagem foi outra vez vedada.
Só que, como sabemos, demorou muito pouco até que as estruturas repressivas dos estados do leste entrassem em colapso, impotentes diante da força da maioria da população, sobretudo dos jovens sedentos de mudança e de arejamento dos ares mofados e cinzentos do “socialismo científico”.
Quem entende inglês deve ficar de olho nos outros episódios da série da CNN que irão ao ar durante este mês de setembro.
Escrevendo o post anterior sobre crimes contra os ciganos na Hungria, me referi à capacidade da Arte de digerir e dar saídas criativas pros inevitáveis conflitos humanos, aí esbarrei numa jóia de Bartók Béla (1881-1945), os “Contrastes para violino, clarinete e piano, sz.111”, que pra mim são um emblema primoroso desse poder acolhedor das diferenças na Grande Música.
Bartók Béla
Como muitos sabem, Bartók saiu a campo junto com seu amigo e compatriota magiar Kodály Zoltán no começo do século passado pra pesquisar e registrar as ricas tradições musicais da Bacia Carpática e dos Bálcãs, ajudando a fundar o que passou a ser conhecido como etnomusicologia.
A propósito, a pronúncia do prenome do mestre é /bêêla/, e não /béla/, como se ouve muito por aí. O sobrenome se diz /bórtôôk/.
Seguem-se os três movimentos dos “Contrastes”, com o grande Yehudi Menuhin, Jeremy Menuhin (piano), e Thea King (clarinete), num registro de 1972, em Paris.
Arte Cigana, fonte: Centro Nacional de Arte Cigana (ocmk.blogspot.com)
Muita gente deve ter ouvido falar da grande vaia que Madonna levou recentemente em Bucareste, capital da Romênia, durante um show, ao condenar o preconceito contra os ciganos e homossexuais.
É impossível saber qual das duas minorias citadas teria detonado a parte maior da vaia. Mas é da questão dos cigányok (“tsigáánhok”, plural de cigány) que me interessa tratar aqui; ou do povo roma, pra usar o termo politicamente correto (romani, em português, nome também da língua falada por eles, na verdade uma imensa gama de dialetos em torno de uma origem comum na Índia).
A Hungria, que é vizinha oestana da Romênia, tem sido abalada nos últimos meses por uma série de crimes contra ciganos. No começo de agosto, uma mulher chamada Balogh Mária foi a sétima vítima fatal em um ano. Sua filha Katrin, de 13 anos, recebeu vários tiros também, mas sobreviveu.
Arte de Balogh Balázs András (ocmk.blogspot.com)
Outros ataques violentos, embora sem morte, vêm acontecendo com frequência, geralmente em pequenas cidades do interior (a imprensa fala em cerca de cinquenta nos últimos doze meses). A reação são mobilizações e protestos públicos dos ciganos e das pessoas em geral que lutam contra o ódio inter-étnico , além das declarações formais de praxe de políticos e autoridades policiais.
A Europa central como um todo, e a bacia dos Cárpatos em particular, onde a Hungria se encontra aninhada, é um caldeirão onde etnias diferentes convivem e/ou se atritam, cooperam e/ou se odeiam há séculos. Os magiares estão envolvidos nessa arenga há mais de mil anos, desde que chegaram ali vindos do leste (escapando de outras brigas por lá) na segunda metade do século 9.
Balázs János, Carnaval (ocmk.blogspot.com)
Eslovacos, romenos, sérvios, croatas, austríacos, bósnios, checos, além dos magiares, claro, são algumas dessas “torcidas organizadas” nacionais que ao longo da história de vez em quando têm partido pra a ignorância umas contra as outras no gigantesco Maracanã que são os cárpatos. E povos “supranacionais”, como os judeus e os ciganos têm sofrido muitas vezes no meio do fogo cruzado, ou sido usados como bodes expiatórios em momentos de grande insatisfação popular, geralmente ligada ao bolso, à falta de pénz (=dinheiro, pron. “pêênz”).
A crise financeira internacional recente deixou Magyarország (a Hungria) na “beira do precipício”, como me disse uma jovem escritora e jornalista num email de três ou quatro meses atrás. As taxas de crescimento lá já vinham medíocres há mais de uma década, mas a crise fez a coisa entrar em parafuso de vez, deixando muita gente em situação de desespero. Ela também dizia que o clima ruim entre magiares e ciganos estava chegando a um ponto insuportável.
Nesse caldo de cultura de frustração, não é de surpreender que exploda a tensão latente que há entre o magyar que se vê como “branco” e os ciganos, povo de pele morena. Tensão latente porque embora boa parte dos cidadãos de origem cigana esteja bem integrada à vida econômica, acadêmica, cultural e artística da Hungria, uma grande massa deles ainda patina na pobreza, e tem dificuldade de sair dela por vários motivos históricos e culturais, que provavelmente incluem falta de oportunidades de educação, baixa auto-estima, ética e valores culturais arraigados herdados que não encorajam a superação social, além do forte preconceito de grande parte dos que vivem em torno, que é causa, mas também consequência dessa complicada realidade.
Kupcsik Adrián, autorretrato
O fato é que há proporcionalmente bem mais desempregados, alcoólatras, e foras-da-lei em geral (e, consequentemente, mais gente em cana) entre os roma do que entre os outros húngaros.
Além disso, eles fazem mais zoada, são mais coloridos e extravagantes do que o magiar médio, que costuma ser muito discreto em público. Os ciganos adoram festa e música alta, muitos são músicos talentosíssimos − boa parte das estrelas da música pop húngara é de origem romani −, e sempre produziram grandes violonistas e violinistas.
Aliás, um termo popular meio “codificado” pra se referir a um cigano em magiar é hegedűs (= violinista, pron. “héguedüüsh”, com biquinho, de hegedű = violino). Brahms, Liszt, Bartók e outros sabiam muito bem que a música erudita centro-européia deve muito à contribuição original e vibrante dos ciganos.
A grande poesia e literatura magiares também trataram dos ciganos, reconhecendo que, embora diferentes, eles são uma parte integral e secular da vida dos Cárpatos e da própria tradição cultural magiar no seu sentido mais amplo e rico.
Cartaz do "Budapeste Multicor - Festival das Etnias", 2009
Mas seja como for, a verdade é que os cigányok são facilmente identificáveis como o “outro”, o diferente, e, nas horas de crise, como um “inimigo interno”, uma “mancha” a ser lavada para o bem da nacionalidade. Isso se complica ainda mais sabendo-se do peso político que o nazifascismo teve na história da Hungria no século 20. Certamente ficaram marcas. Há um forte movimento subterrâneo (e às vezes nem tanto) de skinheads e outros adeptos da “supremacia racial” branca em atividade na Hungria − como na Europa em geral, aliás. É do meio desses que saem, é de se suspeitar, os autores dos crimes recentes contra os ciganos. Vale relembrar que os ciganos também entraram na equação macabra da “solução final” hitlerista na Segunda Guerra Mundial.
Infelizmente esses agentes truculentos terminam contando também com o silêncio e até o apoio moral de parte da população magiar, possivelmente mais pobremente escolarizada e mais oprimida economicamente, que tende a simplificar a realidade e se deixar seduzir pelos arautos da limpeza étnica como solução para os problemas do magyar.
Pra terminar, melhor nos voltarmos pra a Arte e suas estratégias pra digerir conflitos. Ano passado em Budapeste vi um filme de animação muito bem feito e divertido chamado Nyólcker (“nhôôltsker”), cujo universo são as tensões e arranca-rabos entre duas patotas, uma de “brancos”, outra de ciganos, do submundo do Nyolcadik Kerület (Oitavo Distrito, daí a abreviação Nyólc+ker, nyolc = oito) de Budapeste, mas já entram também na roda outros elementos da confusão urbana atual, como os chineses (donos de bufês de comida rápida na cidade) e os árabes.
A trama mistura muita briga, vagabundos e vagabundas de ambos os lados, policiais corruptos, amor “romeu-e-julieta” do garoto rapper-cigano-herói pela filha do cafetão branco, descoberta de petróleo no subsolo de Budapeste, riqueza que faz todos se aproximarem, complô da CIA pra acabar com a festa, que está prejudicando as grandes petroleiras americanas, até uma ordem de Bush pra detonar Budapeste com uma bomba atômica, que termina sendo jogada em Bucareste, Romênia, por engano, confirmando um erro-clichê dos estrangeiros sobre a região.
Nyólcker ganhou merecidamente uma porção de prêmios importantes de animação pelo mundo afora. Quem quiser pode conferir a página do filme, que tem uma versão mais breve em inglês, aqui. Como dá pra perceber, a técnica de animação partiu de pessoas reais, cujos rostos foram foram fotografados em vários ângulos e depois trabalhadas na animação com corpos e movimentos inventados.
Seguem alguns trailers e clips do filme: jó szorakozást!! (divirtam-se)
1. Párbaj = o duelo
2. Csajok = as gatas
3. Julika az erkélyen = Julinha na varanda (cena do balcão!)
Convido os leitores do blog que sejam também leitores de húngaro a visitar o belo site Terasz.hu e ler outro artigo sobre essa brazil-magyar irodalmi kapcsolat. O link direto à matéria é este.
Pros brasileiros que estranharem o “brazil” com b minúsculo, explico que esse é o adjetivo “brasileiro(a)” em magiar. O nome do nosso país pra eles é Brazília, pronunciado “Bróziilió”. A frase acima, quer dizer, na ordem magiar: brasileira-magiar literária conexão.
Escrevo na madrugada de 15 de agosto de 2009.* Hoje faz 100 anos que Euclides da Cunha morreu. Para homenagear o grande gênio, fundador da prosa moderna brasileira, o HungriaMania apresenta um texto de João da Mata Costa, professor de Física na UFRN, homem de vastíssima leitura, alma apaixonada pela boa literatura, além de amigo, que, embora recente, eu prezo muitíssimo.
O texto apareceu há poucos dias no Substantivo Plural, de Tácito Costa, um dos dois únicos sites que eu posso dizer que visito “religiosamente” todo dia (o outro é o Papo furado, de Jairo Lima), e com os quais contribuo aqui e acolá.
Trata o texto de João, como verão, de uma fascinante “ramificação” d’Os Sertões na literatura magiar, na forma do romance Itélet Canudosban (Veredicto em Canudos), de Márai Sándor. Ao final acrescento umas notas minhas, também publicadas no Substantivo Plural, principalmente para agradecer a gentil dedicatória de João e pedir permissão pra publicar seu texto aqui.
“Euclydes 100 + Veredicto em Canudos
Por Jota Eme
Para Chico Guedes
Márai Sándor
O Livro “Veredicto em Canudos” escrito pelo húngaro Sándor Márai é um daqueles livros que não desejamos acabar de ler de tão belo. Sándor leu três vezes “Os Sertões” de Euclydes da Cunha para escrever um livro de uma Canudos que não acabou com a morte do Conselheiro, mas que se perpetuou nas lutas dos estudantes de 68 em Paris, Estados Unidos, Itália e outros lugares eternamente.
Em pleno regime comunista o escritor deixa o seu país em 1948 para se exilar mesmo com medo da liberdade. Sempre escreveu na “solidão do Idioma”. Leu Os Sertões na famosa tradução inglesa de Samuel Putnam. O livro do Sándor foi traduzido para o português direto do húngaro por Paulo Schiller. “Soyez raisonable, demandez l´mpossible” era o lema dos estudantes como podia ser o do Conselheiro.
o original, nova edição
O original do livro em Húngaro é salpicado de palavras e frases curtas em português, diz o tradutor. Cabra, jagunço, caititu, caatinga, etc. Outras trazem a grafia errada: conseilheiro, facendeiro, sertaneio, etc Algumas outras não encontram equivalência em Húngaro, mas a tradução do Paulo é muito boa.
É com muita ironia que o autor Sándor escreve seu livro. O narrador é um ex-cabo do exército, bibliotecário que fala Inglês. Três prisioneiros são resgatados, entre eles uma mulher estrangeira cujo marido médico trabalhava em Canudos, deixando-a sozinha. Quando ele chega a Canudos o marido já é morto. A mulher pede para tomar um banho e se transforma numa interlocutora que deixa o Marechal Bittencourt desorientado ao saber que o Conselheiro pode está vivo. A cabeça degolada do conselheiro é mostrada para os prisioneiros.
Um longo diálogo se trava entre a mulher e o Marechal. De que lado está barbárie? O Conselheiro e seu séquito de homens barbudos eram loucos? Milhares de meninos e mulheres mortos. Os corpos são queimados aos montes. Homens famintos a seguir um líder que não tinha medo. Estatísticas são mostradas para a grande imprensa. Foi a luta da civilização contra a barbárie. Uma luta desigual de homens com mosquetões e facões enfrentando canhões e um forte exercito antes por três vezes derrotado. A cabeça do Conselheiro sorri. Seu fantasma ainda assusta. Em canudos não havia suicidas. Em canudos viviam pessoas que eram felizes numa comunidade com os preceitos da igualdade. Canudos é o Brasil.
Canudos, prisioneiras, 1897 foto Flávio de Barros
O major pede ao final que os três prisioneiros saiam e digam em voz alta: longa vida á liberdade. Todos mudos. E repete, digam: – longa vida á liberdade, igualdade e fraternidade!… Gritem, disse novamente pra o negro, o mestiço e a mulher.
O negro falou, mas antes olhou as trevas em que tinha se transformado Canudos: – “Cago montes para a República”. Nisso Sándor Márai encontrou uma bela analogia para o Arraial do Belo Monte. Um belo livro de um grande escritor. Recomendo a leitura.”
Euclydiana Magyar
Por Chico Moreira Guedes
Caro Jota Eme,
Muito obrigado pela dedicatória do seu belo texto. Eu vinha pensando em escrever sobre essa interessantíssima ramificação do inesgotável Os Sertões, mas não poderia ter feito melhor do que você fez.
capa da edição brasileira
A única coisa que poderia acrescentar a tudo que você disse tão bem, é que Márai Sándor (tenho por preceito, como já expliquei no meu blog num post chamado “nomes invertidos”, usar sempre os nomes húngaros à magiar, sobrenome antes) aproveitou o impacto profundo que lhe causou a leitura de Rebellion in the backlands, nome dado à tradução d’Os Sertões, pra falar também de um mal-estar civilizatório especificamente europeu de virada de século: o profundo esvaziamento espiritual da experiência burguesa, que iria culminar nos horrores das duas grandes guerras mundiais.
É isso o que leva um médico suíço bem estabelecido social e profissionalmente a abandonar a esposa e o conforto de sua vida européia sem deixar explicações e partir para a minúscula Canudos, do outro lado do mundo, sobre a qual ele apenas lera em jornais. Posteriormente, sua esposa parte-lhe no encalço, desejosa de entender a decisão do marido. Mas chega tarde demais, o esposo havia falecido enquanto trabalhava como médico no arraial do Vaza-Barris; ela, no entanto, se vê também envolvida e integrada à vida comunal e espiritualmente informada de Canudos.
E é a profundidade dessa questão filosófica e existencial que Márai aporta à história, no meu entender, com a sensibilidade de europeu e herdeiro intelectual da derrocada da ordem centenária do Império Austro-Húngaro, e que dá o tempero mais apurado à ficção euclydianamente inspirada de Veredicto em Canudos.
* quem leu o blog ontem e hoje notou que eu me enrolei com que dia era mesmo na madrugada em que escrevi; desculpem, me enrolei mesmo. a frase só fará sentido daqui a pouco. agora são 23:30 de sexta, 14 de agosto. )
Morreu quinta-feira, 6 de agosto, aos 67 anos o grande multiartista húngaro Cseh Tamás. Músico, cantor, compositor, ator, tradutor, homem de palco que ficou famoso desde o início dos anos 70 pelas belas canções que criava com letras inteligentes tratando de questões existenciais, dos nossos desejos e de situações do cotidiano, pela sua atuação em alguns filmes, e pelos muitos espetáculos teatrais solo que fez ao longo da vida, onde misturava música e texto interpretado, e que atraíam e estimulavam um público sempre fiel.
Sozinho ou com parceiros, o mais famoso deles o escritor e diretor de teatro e cinema Bereményi Géza, produziu mais de mil e duzentas canções, muitas das quais se tornaram parte importante da memória musical dos magiares nas últimas quatro décadas. Cseh Tamás perdeu a parada para complicações decorrentes de um cancer no pulmão que o afligia há pelo menos três anos.
Apesar de produzir grande parte de sua arte sob a repressão cultural e política do regime socialista (algumas canções suas só foram lançadas em disco depois da queda do ancien régime), Cseh Tamás foi um artista que manteve sua integridade e, segundo seu amigo Eperjes Károly, era um homem que “exalava impressionante liberdade”.
E, apesar da fama, Cseh Tamás foi sempre simples e accessível, sem estrelismo. Ademais por ser artista formado numa época ainda intocada pelos vícios do culto das celebridades. Bons tempos aqueles em que os artistas eram apenas seres humanos talentosos!
(fonte: http://www.hirado.hu )
Seguem-se três clips de dois momentos distintos da carreira de Cseh Tamás. No primeiro um jovem Tamás canta Tango, numa interpretação que tem um certo clima Kurt Weil. A segunda é uma bela performance teatro-musical a capela onde um homem se debate com a pergunta-cobrança “porque não tens ideal?” (mért nincs ideálod?), na “canção” Ideálom (Meu ideal), e no terceiro ele canta com Másik János a bonita balada Budapest: